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Laços de Cetim e Espinhos de Aço

O som do motor do Porsche de Emanuel era um ronco abafado que contrastava com o silêncio tenso dentro do veículo. Ao seu lado, Sara retocava o batom carmim pela décima vez, usando o espelho do quebra-sol com uma agressividade contida. No banco de trás, Ágata, a pequena "mini diva" loira, dormitava em sua cadeirinha de grife, alheia ao turbilhão de emoções que consumia o pai.

Emanuel não havia dormido. A imagem de Eduarda desaparecendo pelos corredores do hospital com aquela bebê desconhecida nos braços havia queimado em sua mente como uma tatuagem mal cicatrizada. Ele não aceitava o "não". Ele não aceitava a distância. E, acima de tudo, ele não aceitava que Eduarda encontrasse conforto em algo que não fosse a proteção dele.

— Você vai mesmo fazer isso, Emanuel? — Sara perguntou, fechando o estojo de maquiagem com um estalo seco. — Vai buscar a "santinha" e o troféu de caridade dela? A gente mal tem paz com a Ágata e você quer transformar a cobertura em um orfanato?

— A Eduarda é minha, Sara. E se para ter ela eu preciso daquela criança, então eu vou ter as duas — Emanuel respondeu, a voz gélida, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante. — Já acionei meu departamento jurídico. A papelada da guarda provisória da tal Maya está sendo agilizada. Ninguém deixa um bebê em uma cesta e sai impune, e ninguém tira o que eu decidi que pertence à minha família.

Sara soltou uma risada anasalada, cruzando as pernas torneadas.

— Você é louco. Mas tudo bem, contanto que aquela coisinha sem sal não atrapalhe a rotina da minha filha. Ágata precisa de espaço, de atenção. E eu não vou dividir minha equipe de administração para cuidar de fraldas de uma bastarda.

Emanuel não respondeu. Ele estacionou o carro em frente à casa dos pais de Eduarda. Era uma residência charmosa, moderna, mas que para ele parecia uma prisão que mantinha sua mulher longe de seus domínios.

Ele desceu do carro com passos decididos. Sara o seguiu, equilibrando-se em saltos agulha, carregando Ágata no colo como se fosse um acessório de luxo. Quando a porta se abriu, Eduarda apareceu. Ela parecia exausta, mas seus olhos brilharam ao ver Emanuel — um brilho de amor misturado com um medo profundo de ser contrariada.

Nos braços dela, Maya estava enrolada em uma manta de tricô simples. A bebê de cabelos castanhos e olhos doces parecia fundida ao corpo de Eduarda.

— Emanuel... — Eduarda sussurrou, a voz manhosa, recuando um passo.

— Acabou a brincadeira, Duda — ele disse, entrando na casa sem pedir licença, sua presença preenchendo o ambiente. — Eu resolvi tudo. Os advogados já estão cuidando da adoção. A Maya é sua, legalmente, ou será em poucos dias. Mas você vem comigo. Agora.

Eduarda arregalou os olhos, a respiração ficando curta.

— Você... você fez isso por mim? — Ela se aproximou dele, buscando o calor do seu peito, mesmo com os bebês entre eles. — Você aceita ela?

Emanuel envolveu a cintura de Eduarda com um braço, trazendo-a para perto. O cheiro de Eduarda — algo entre baunilha e talco — sempre o acalmava, mesmo quando ele estava possesso de raiva.

— Eu aceito o que for preciso para você estar debaixo do meu teto — ele murmurou contra o cabelo dela. — Mas não quero mais desculpas. Você, a Maya e suas coisas. O caminhão de mudança chega em uma hora.

Sara, que observava a cena da porta, soltou um suspiro de tédio.

— Que lindo, um resgate épico. Agora, dá para a gente ir? O ar-condicionado aqui é péssimo e a Ágata está começando a suar.

Eduarda olhou para Sara e depois para a pequena Ágata. Ela sentia um carinho imenso pela filha de Emanuel, mas a menina era um espelho da mãe. Sempre que Eduarda tentava se aproximar, Ágata chorava ou buscava o colo de Sara com uma exclusividade quase agressiva. Eduarda se sentia uma intrusa na maternidade de Sara, mas com Maya... com Maya era diferente.

— Vamos, meu amor — Emanuel ordenou, beijando a testa de Eduarda. — Eu cuido de tudo.

***

A cobertura de Emanuel nunca pareceu tão pequena quanto naquela noite. O apartamento era um monumento ao luxo moderno: concreto aparente, obras de arte caras e janelas do chão ao teto com vista para o skyline de São Paulo. Mas agora, havia um berço extra no quarto ao lado da suíte master e um silêncio tenso que pairava sobre a mesa de jantar.

Sara estava na ponta da mesa, examinando relatórios de faturamento dos estúdios de Londres no seu iPad, enquanto tomava uma taça de vinho caro. Ágata estava em seu cercadinho, cercada por brinquedos eletrônicos que brilhavam e faziam barulhos estridentes.

Eduarda estava no sofá, em um canto mais sombrio, balançando Maya. A bebê castanha era o oposto de Ágata; ela não queria brinquedos caros, ela só queria o contato da pele de Eduarda. Maya era quietinha, manhosa, e soltava pequenos suspiros satisfeitos sempre que Eduarda a aninhava.

— Ela é tão doce, não é, Emanuel? — Eduarda perguntou baixinho, quando ele se aproximou e sentou ao lado dela.

Emanuel observou a cena. Ele sentia uma satisfação possessiva ao ver as duas ali. Ele tinha o que queria: Sara administrando seu império com a competência de uma máquina, e Eduarda sendo o seu porto seguro, a doçura que ele consumia para não enlouquecer.

— Ela é silenciosa — Emanuel comentou, estendendo a mão para tocar o rosto de Maya. — Diferente da Ágata.

— É porque ela sabe que eu estou aqui — Eduarda disse, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — Ela tem medo de ser deixada de novo. Eu sinto isso.

— Ninguém vai deixar ninguém aqui, Duda — ele disse, a voz ficando mais rouca. — Mas você precisa começar a agir como a dona desta casa também, não apenas como uma hóspede que cuida de um bebê.

— Eu tento... mas a Sara... — Eduarda olhou para a loira na mesa. — Ela é tão decidida. Eu me sinto pequena perto dela.

Sara, sem tirar os olhos do iPad, interveio:

— Você é pequena, querida. Mas não se preocupe, eu gosto de coisas pequenas. Elas não fazem barulho e não atrapalham os negócios. Só não deixe essa menina chorar de madrugada. Ágata tem aula de musicalização precoce às oito da manhã e precisa descansar a beleza.

Eduarda se encolheu um pouco, apertando Maya contra o peito. Emanuel sentiu a tensão dela e sua irritação voltou a subir.

— Sara, chega — ele avisou.

— O quê? Só estou dando dicas de convivência — Sara disse, levantando-se e caminhando até eles com uma elegância predatória. Ela parou na frente de Eduarda e olhou para Maya com desdém. — Ela é bonitinha, eu admito. Meio comum, mas bonitinha. Emanuel, você já pensou que agora vai ter que pagar duas faculdades, dois casamentos e aguentar duas TPMs simultâneas no futuro?

— Eu tenho dinheiro para comprar este quarteirão inteiro, Sara. O custo não é o problema.

— O problema é o equilíbrio — Sara retrucou, tocando o ombro de Emanuel. — Eu sou o seu braço direito. Ela é o seu descanso. Só espero que o descanso não vire um peso morto.

Sara se inclinou e pegou Ágata do cercadinho. A bebê loira imediatamente agarrou o colar de ouro da mãe e deu um grito de alegria, uma mini diva reconhecendo sua rainha.

— Vamos, Ágata. Vamos deixar o papai cuidar da "nova família" por um momento.

Quando Sara saiu da sala, o silêncio que ficou era pesado. Eduarda começou a chorar silenciosamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto delicado e caindo na manta de Maya.

— Ei... por que isso agora? — Emanuel perguntou, virando o rosto dela para ele.

— Eu não quero ser um peso, Emanuel — ela soluçou, sendo a personificação da manha que ele tanto amava e que tanto o irritava. — Eu te amo tanto. Eu só quero que a gente seja feliz. Eu quero criar a Maya, e eu quero ter os nossos próprios filhos um dia... mas eu sinto que nunca vou ser o suficiente como a Sara é.

Emanuel suspirou, sentindo o peso da responsabilidade. Ele a puxou para o seu colo, com bebê e tudo. Eduarda se acomodou ali, sentindo-se protegida pelo homem que, embora controlador e rígido, era o seu mundo.

— Você é o suficiente porque você é o que ela nunca vai ser, Eduarda. Você é a minha paz. A Sara é o meu exército, mas você é o meu lar. Entendeu?

Eduarda assentiu, limpando os olhos. Maya, sentindo a calmaria da mãe, fechou os olhos e adormeceu profundamente.

— Você promete que a Maya vai ser nossa para sempre? — ela perguntou, com a voz infantilizada pela emoção.

— Eu já disse. Eu comprei a briga dela. Ela é uma de nós agora.

Emanuel ficou ali, sentado no escuro da sala luxuosa, com a mulher manhosa e a bebê resgatada em seus braços. Ele podia ouvir o som da televisão no quarto de Sara, o barulho da vida agitada e vulgar que ela levava e que ele também apreciava.

Ele tinha as duas. O fogo e a água. O caos e a calma.

Mas, enquanto olhava para o rosto sereno de Eduarda, Emanuel sabia que a verdadeira batalha ainda estava por vir. Sara não aceitaria ser colocada em segundo plano por muito tempo, e a fragilidade de Eduarda era uma arma que ela usava sem nem perceber, prendendo-o de uma forma que nenhum contrato ou faturamento milionário jamais conseguiria.

— Emanuel? — Eduarda chamou baixinho, já quase dormindo em seu colo.

— Oi.

— Eu estou pronta agora.

Ele franziu o cenho.

— Pronta para quê?

— Para morar aqui. Para ser sua de verdade. Só não me deixa sozinha com a Sara por muito tempo... eu tenho medo dela me morder — ela brincou, com um sorriso tímido que fez o coração de Emanuel falhar uma batida.

Ele riu, um som raro e genuíno.

— Ela não vai te morder. Eu não deixaria.

Emanuel a carregou para o quarto, sentindo o peso leve de suas duas novas responsabilidades. Naquela noite, ele dormiu entre dois mundos. No quarto ao lado, a loira siliconada e sua mini diva planejavam o futuro do império. Em seus braços, a morena tímida e sua pequena órfã sonhavam com um amor que o dinheiro não podia comprar.

Ele era Emanuel, o homem que tinha tudo. Mas, naquela escuridão, ele percebeu que ter tudo significava ter que equilibrar dois corações que batiam em ritmos completamente diferentes, e que qualquer passo em falso poderia destruir o castelo de cartas que ele lutara tanto para construir.

A convivência civilizada era uma fachada fina. Por trás dela, os desejos de posse de Emanuel, a ambição de Sara e a carência de Eduarda estavam prestes a colidir. E no centro de tudo, duas bebês — uma loira e uma castanha — eram as peças finais de um jogo onde ninguém estava disposto a perder.

— Dorme, Duda — ele sussurrou, fechando os olhos. — Amanhã o mundo é nosso.

Mas no fundo, ele sabia que o amanhã traria novos choros, novos confrontos e a eterna disputa pelo seu tempo e pelo seu espaço. E, por incrível que pareça, ele não queria que fosse de outra forma.