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O Sal da Pele e a Doçura do Silêncio
O sol de Ilhabela estava no seu ápice, refletindo-se nas águas azul-turquesa que banhavam a faixa de areia privativa da mansão de Emanuel. O som das ondas quebrando suavemente era o único ruído que competia com o riso ocasional de duas crianças. Dois anos haviam se passado desde aquele encontro tenso no hospital, e o que antes parecia um caos impossível de gerir, agora se transformara em uma coreografia complexa, mas funcional.
Emanuel estava sentado sob o guarda-sol de linho branco, observando o horizonte com um copo de uísque e gelo na mão. Aos vinte e sete anos, ele parecia ainda mais imponente; a maturidade trouxera uma calma autoritária que mantinha seu império e sua casa em ordem. Ele conseguira o que queria: Eduarda finalmente morava com ele, embora ocupasse uma ala mais reservada da casa, e Sara continuava sendo sua força administrativa e a presença vibrante que ocupava os espaços comuns.
A harmonia entre as duas era silenciosa e armada. Elas não eram amigas, nunca seriam, mas haviam assinado um tratado invisível de não agressão. Eduarda, com sua timidez intrínseca, aprendera a ignorar as provocações ácidas de Sara. Sara, por sua vez, entendera que Emanuel não abriria mão da doçura de Eduarda por nada no mundo, e que Maya, a menina que Eduarda resgatara, agora era oficialmente uma de suas filhas.
— Ágata, saia da água agora! O protetor solar precisa ser reaplicado, você vai ficar com a pele vermelha e vai ficar horrível nas fotos de amanhã — a voz de Sara cortou o ar, autoritária e vibrante.
Sara estava deslumbrante em um biquíni de grife minúsculo, sua pele bronzeada reluzindo com óleo de coco. Ela era a imagem da perfeição estética, mesmo na praia. Ágata, agora com quase três anos, era sua cópia fiel. A menina loira saiu da água batendo os pés, com um biquinho de indignação que era a marca registrada da mãe.
— Eu não quero, mamãe! Eu sou uma sereia! — gritou a pequena Ágata, jogando os cabelos loiros para trás com um drama que fez Emanuel soltar um riso abafado.
— Você é uma sereia que obedece à rainha, agora vem aqui — Sara retrucou, pegando a filha no colo e começando a besuntá-la com cremes caros.
A poucos metros de distância, na sombra de uma palmeira, Eduarda estava sentada em uma canga de algodão, ajudando Maya a construir um castelo de areia. Eduarda usava um vestido de renda branca por cima do biquíni, os cabelos castanhos presos em uma trança frouxa. Ela parecia uma ninfa, delicada e etérea, em total contraste com a presença solar e vulgar de Sara.
Maya, com seus cabelos castanhos curtos e olhos grandes e expressivos, era a calmaria em pessoa. Ela segurava uma pazinha de plástico com cuidado, concentrada em cada grão de areia. Diferente de Ágata, que exigia atenção constante, Maya era manhosa e silenciosa, buscando apenas o toque ocasional da mão de Eduarda para se sentir segura.
— Olha, mamãe... a torre — sussurrou Maya, apontando para o monte de areia.
— Está linda, meu amor — Eduarda respondeu, limpando o rostinho da filha com o polegar. — Você quer que a mamãe ajude a fazer a ponte?
Maya assentiu e se inclinou para o colo de Eduarda, buscando aquele ninho de proteção que era sua marca registrada desde o hospital.
Emanuel se levantou e caminhou até elas. Ele parou primeiro perto de Sara e Ágata.
— Ela está agitada hoje — comentou ele, tocando o ombro de Sara.
— Ela é como eu, Emanuel. Tem energia, tem brilho. Não nasceu para ficar sentada na sombra catando areia — Sara disse, lançando um olhar de soslaio para onde Eduarda estava. — Mas estamos bem. Fizemos as pazes com o sol.
Emanuel deu um beijo rápido no topo da cabeça de Ágata, que tentou morder seu dedo de brincadeira, e depois seguiu para onde o silêncio reinava. Ele se agachou ao lado de Eduarda, sentindo o cheiro de lavanda e mar que emanava dela.
— Você está muito quieta, Duda — disse ele, a voz grave suavizando-se.
— Estou apenas aproveitando, Emanuel — ela respondeu, olhando para ele com aqueles olhos que sempre pareciam pedir proteção. — É tão bom ver elas crescendo assim, em paz.
— Eu disse que daria um jeito — ele afirmou, com a arrogância de quem domina o próprio destino. — Eu tenho tudo o que preciso aqui.
— Você tem duas vidas inteiras nas mãos, Emanuel — Eduarda disse baixinho, enquanto Maya se aninhava entre as pernas dela. — Às vezes eu tenho medo de que você se canse de carregar tanto peso.
— Eu não me canso do que é meu, Eduarda.
A tarde prosseguiu com aquela paz armada. Sara decidiu que era hora de tomar espumante e chamou os funcionários para servirem aperitivos na beira da piscina, que ficava logo acima da areia. Ela caminhava com uma confiança que fazia os olhos dos seguranças desviarem, mas seu foco era sempre Emanuel. Ela sabia que sua posição como "a mulher dos negócios" e mãe da herdeira legítima era sólida, mas a presença constante de Eduarda era um espinho de seda em seu pé.
— Duda! — Sara gritou da borda da piscina, segurando uma taça de cristal. — Traga a pequena órfã para comer alguma coisa. O chef preparou lagosta, embora eu duvide que ela tenha paladar para isso ainda.
Eduarda suspirou, sentindo a pequena pontada de agressividade nas palavras de Sara. Maya, percebendo a tensão, apertou a mão de Eduarda.
— Está tudo bem, Maya — Eduarda sussurrou. — Vamos lá em cima com o papai.
As duas subiram os degraus de pedra. Emanuel já estava sentado à mesa, com Ágata no colo tentando roubar uma azeitona de seu prato. Quando Eduarda e Maya se aproximaram, o quadro familiar estava completo, mas estranhamente dividido. De um lado, o brilho, o ouro e a voz alta de Sara. Do outro, a suavidade, o silêncio e o olhar atento de Eduarda.
— Senta aqui, Duda — Emanuel ordenou, apontando para a cadeira ao seu lado, oposta à de Sara.
A refeição foi um exercício de diplomacia. Sara falava sobre a nova unidade do estúdio em Milão e como as ações de Emanuel estavam subindo. Ela era brilhante, rápida e necessária para o império dele. Eduarda ouvia tudo em silêncio, alimentando Maya com pequenos pedaços de fruta, ocasionalmente sorrindo para Ágata, que fazia caretas para a "irmã" do outro lado da mesa.
— Emanuel, eu estava pensando... — Sara começou, girando o líquido na taça — ...que a Ágata já precisa de uma tutora de francês. E talvez a Maya devesse participar. Sabe, para ela ter alguma base, já que o futuro dela é tão incerto.
Eduarda parou o garfo no ar. O "incerto" de Sara era uma alfinetada sobre a origem de Maya.
— O futuro da Maya é tão certo quanto o da Ágata, Sara — Emanuel cortou, o tom de voz baixando um oitava, o que sempre indicava perigo. — Eu já assinei os papéis do fundo de reserva dela. Elas terão as mesmas oportunidades.
— Claro, querido. Eu só estou sendo prática — Sara deu um sorriso felino, nada afetada pela bronca. — Só não quero que ela cresça sendo apenas... manhosa. O mundo come pessoas manhosas no café da manhã.
— O mundo não vai tocar nelas — Emanuel afirmou, olhando para as duas meninas. — Ninguém toca no que pertence a mim.
Eduarda sentiu um calafrio. O amor de Emanuel era uma fortaleza, mas também era uma cela. Ela olhou para Maya, que agora tentava alcançar um copo de suco, e depois para Ágata, que ria alto de algo que Sara dizia. Eram vidas tão diferentes, unidas por um homem que se recusava a escolher.
Depois do almoço, o calor ficou quase insuportável, e Emanuel sugeriu que todos entrassem na água da piscina. Sara saltou com um mergulho perfeito, emergindo como uma sereia moderna, enquanto Ágata pulava com suas boias de braço, gritando de alegria.
Eduarda hesitou na borda. Ela sempre fora insegura com seu corpo perto de Sara, mesmo que Emanuel passasse noites inteiras provando o quanto a desejava.
— Vem, Duda — Emanuel chamou, já dentro da água, estendendo os braços.
Ela entrou devagar, segurando Maya. A bebê castanha, ao sentir a água fresca, soltou uma risadinha gostosa, um som raro e precioso. Ela começou a bater as mãozinhas na superfície, molhando o rosto de Emanuel.
— Olha só, ela tem coragem — Emanuel riu, pegando Maya nos braços e levantando-a para o alto.
Nesse momento, Ágata nadou até eles, agarrando-se à perna do pai.
— Eu também, papai! Me joga também!
Emanuel, em um momento de rara descontração, segurava uma menina em cada braço. A loira e a castanha. O fogo e a paz. Ele olhou para as duas mulheres que flutuavam ao seu redor. Sara, apoiada na borda com um olhar possessivo e orgulhoso, e Eduarda, com as mãos entrelaçadas sob a água, observando-o com uma adoração quase religiosa.
— Vocês são impossíveis — ele murmurou, mais para si mesmo do que para elas.
O dia começou a cair, e o céu se transformou em uma tela de tons alaranjados e roxos. As crianças, exaustas, foram levadas pelas babás para o banho e o jantar. Ficou apenas o silêncio entre os três adultos no terraço.
Sara quebrou o silêncio, acendendo um cigarro fino, algo que ela só fazia em momentos de extrema satisfação ou tédio.
— Sabe, Emanuel... às vezes eu olho para nós e acho que somos um experimento social que deu certo — ela disse, soltando a fumaça para o lado. — Quem diria que a "vulgar" e a "santinha" conseguiriam dividir o mesmo sol sem se matarem?
Eduarda olhou para o mar, os pés balançando na borda da espreguiçadeira.
— Não é sobre nós, Sara — disse Eduarda, com uma coragem mansa. — É sobre ele. E sobre as meninas. Eu não preciso gostar do seu jeito, e você não precisa entender o meu. Mas a Maya e a Ágata são irmãs de alma agora. Eu não vou tirar isso delas.
Sara arqueou uma sobrancelha, surpresa com a firmeza de Eduarda.
— Ora, a ratinha aprendeu a roer — Sara sorriu, mas desta vez não havia veneno total no olhar. — Tudo bem, Duda. Contanto que você continue sendo a calmaria que o Emanuel precisa para não explodir comigo no escritório, eu aceito a trégua.
Emanuel se levantou e caminhou até o parapeito, ficando entre as duas. Ele colocou uma mão no pescoço de Sara, puxando-a para um beijo possessivo que cheirava a espumante e batom caro. Depois, virou-se para Eduarda, puxando-a pela cintura para um beijo lento e profundo, que cheirava a mar e promessas silenciosas.
— Eu quero as duas na minha cama hoje — ele disse, a voz rouca e sem espaço para discussões.
Sara soltou uma risada provocante.
— Dominante como sempre, Emanuel.
Eduarda apenas corou, baixando o olhar, mas assentiu. Ela sabia que aquele era o preço e o prêmio de sua vida. Ela tinha a proteção, o amor e a filha que tanto desejava, mas tinha que compartilhar o oxigênio com a tempestade que era Sara.
Enquanto as estrelas começavam a surgir sobre Ilhabela, a mansão mergulhava em um luxo silencioso. No quarto das crianças, Ágata e Maya dormiam em camas próximas, a mãozinha de uma quase tocando a da outra no espaço entre os lençóis de seda. Elas não conheciam as complexidades dos adultos, não sabiam sobre contratos de administração ou inseguranças emocionais. Para elas, o mundo era apenas o cheiro de seus pais e a segurança daquela casa.
Emanuel observava as filhas pelo monitor eletrônico antes de se dirigir à sua suíte. Ele sabia que o equilíbrio era frágil. Sabia que Sara ainda tentaria dominar Eduarda e que Eduarda ainda teria crises de choro por se sentir insuficiente. Mas, por enquanto, o mar estava calmo.
Ele entrou no quarto, onde as duas mulheres já o esperavam. Sara, com uma lingerie preta provocante, servindo-se de mais um drink. Eduarda, sentada na beira da cama com uma camisola de seda clara, parecendo uma visão de inocência prestes a ser corrompida.
— Finalmente — disse Sara, jogando os cabelos para trás. — Achei que ia passar a noite contando as ondas.
— O mar não vai a lugar nenhum — Emanuel respondeu, fechando a porta e trancando o mundo lá fora. — E vocês também não.
Naquela noite, sob o teto de uma das casas mais caras do litoral paulista, o amor se manifestava de forma distorcida, mas absoluta. Não havia espaço para o convencional. Havia apenas a necessidade de Emanuel de possuir a força e a doçura, e a necessidade de Sara e Eduarda de pertencerem ao homem que as mantinha inteiras, cada uma à sua maneira.
O silêncio da praia era o testemunho de que, às vezes, a felicidade não precisa de lógica, apenas de aceitação. E enquanto as ondas continuassem batendo na areia, aquele império de três corações e duas crianças continuaria de pé, desafiando todas as regras que o mundo tentasse impor.