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D

O Labirinto de Possessividade

O silêncio na suíte principal da mansão era cortado apenas pelo som rítmico dos dedos de Emanuel batendo contra a superfície de madeira da escrivaninha. Ele encarava a tela do celular, onde uma foto de Eduarda, postada por um perfil de uma galeria de arte renomada, brilhava sob a luz baixa do quarto. Ela estava linda, vestindo um vestido de seda azul-bebê, com o cabelo castanho caindo em ondas suaves pelos ombros, enquanto conversava com um homem mais velho, elegante, que segurava uma taça de vinho e sorria para ela com uma proximidade que Emanuel considerava ofensiva.

— "Reunião produtiva com a nossa curadora favorita" — Emanuel leu a legenda em voz alta, sua voz saindo como um rosnado baixo.

A porta do quarto se abriu e Eduarda entrou, parecendo exausta, mas com um brilho nos olhos que Emanuel não via há algum tempo. Ela deixou a bolsa sobre a poltrona e suspirou, soltando os sapatos.

— Oi, meu amor... — ela murmurou, caminhando até ele para um beijo de boas-vindas. — O dia foi longo. O senhor Veríssimo é muito exigente com a iluminação das telas.

Emanuel não se moveu para beijá-la. Ele apenas girou a cadeira, mantendo o celular visível.

— Veríssimo, é? Ele parece bem à vontade com você nessa foto, Duda. Quantas reuniões vocês tiveram esta semana? Quatro? Cinco?

Eduarda parou, sentindo a tensão no ar. Ela conhecia aquele tom. Era o Emanuel controlador, o homem que não suportava sentir que algo — ou alguém — estava fora do seu campo de visão.

— Foram três reuniões, Emanuel. É o meu trabalho. Eu estou me formando em História da Arte, lembra? Essa oportunidade na galeria é incrível para o meu currículo.

— Pois eu não gosto — ele sentenciou, levantando-se e caminhando até ela, usando sua altura para cercá-la sutilmente. — Não gosto do jeito que ele olha para você. Não gosto de você passando horas trancada em escritórios com "especialistas" de meia-idade.

— Você está sendo injusto — Eduarda sussurrou, os olhos começando a marejar. Ela era sensível demais para confrontos diretos e a rigidez de Emanuel a intimidava. — Eu só estou tentando ter algo meu.

— Você já tem algo seu. Você tem a mim, tem o Arthur, tem a Maya — ele segurou o rosto dela com as mãos grandes, os polegares acariciando as bochechas pálidas, mas o olhar era puro fogo. — A partir de amanhã, você não pisa mais naquela galeria. Eu vou contratar você.

Eduarda piscou, confusa.

— Me contratar? Para quê?

— Curadoria de arte dos meus estúdios. Quero que você reformule a estética de todas as unidades, de Londres a Tóquio. Quero que cada parede respire o que você sabe.

— Emanuel, eu não tenho experiência com design de interiores ou curadoria corporativa de grande porte... — ela tentou argumentar, sentindo-se pequena sob a pressão dele.

— Não me importa. Você é inteligente, é talentosa e, acima de tudo, é minha. Prefiro pagar o triplo do que aquela galeria te paga para ter você sob o meu teto, trabalhando nos meus negócios, onde eu possa te ver sempre que quiser.

Eduarda baixou a cabeça, o coração batendo forte. Ela sabia que, no fundo, aquilo era o ciúme dele se disfarçando de oportunidade profissional. Ela amava o cuidado dele, mas a possessividade às vezes a sufocava.

— Tudo bem... — ela cedeu, a voz manhosa. — Se você quer tanto assim...

— Eu quero. E o que eu quero, eu consigo — ele a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto no pescoço dela, sentindo o perfume doce que o acalmava.

A porta foi subitamente aberta por um estrondo. Arthur, o pequeno furacão de quatro anos, entrou correndo, vestindo apenas uma cueca e uma capa de super-herói improvisada com uma toalha.

— Papai! Olha! — ele gritou, mostrando o braço rabiscado de canetinha preta, tentando imitar as tatuagens complexas de Emanuel. — Fiz um dragão! Igual o seu!

Emanuel soltou Eduarda e um sorriso genuíno iluminou seu rosto. Ele se agachou, pegando o filho no colo e o jogando para o alto, ouvindo a gargalhada estridente do menino.

— Esse é o meu garoto! Ficou perfeito, Arthur. Mas a sua mãe vai me matar se a gente não conseguir tirar isso com álcool depois.

Eduarda sorriu, observando os dois. Arthur era o xodó absoluto de Emanuel. O menino tinha a mesma determinação feroz do pai, a mesma energia incontrolável. Era o "menininho da mamãe", sempre correndo para os braços de Eduarda quando caía, mas era a sombra de Emanuel em tudo o que envolvia o mundo das tatuagens e dos negócios.

Nesse momento, Sara apareceu à porta, impecável em um conjunto de seda preta que realçava seu busto siliconado e suas pernas longas. Ela segurava Ágata pela mão, que parecia uma mini diva com um laço exagerado no cabelo e uma expressão de tédio.

— Que barulheira é essa? — Sara perguntou, cruzando os braços. — Ágata está tentando assistir ao desfile de moda infantil e o Arthur parece que está liderando uma invasão bárbara.

— Ele está sendo uma criança, Sara — disse Eduarda, aproximando-se do filho e limpando uma gota de suor da testa dele.

— Ele está sendo um selvagem, como sempre — retrucou Sara, revirando os olhos. Ela olhou para Emanuel e notou os papéis sobre a mesa e o clima pesado que ainda pairava. — O que houve? Decidiram o jantar ou estavam discutindo o futuro da nação?

Emanuel colocou Arthur no chão e se levantou, recuperando a postura de autoridade.

— Estávamos falando sobre os negócios. Decidi que Eduarda vai assumir a curadoria artística de todos os estúdios. E já que estamos todos aqui, quero deixar algo bem claro.

Sara arqueou uma sobrancelha, o instinto de administradora entrando em alerta.

— Curadoria? Eduarda? Emanuel, ela mal terminou a faculdade. Eu tenho uma equipe de marketing e design que cuida disso.

— Agora a Eduarda cuida — ele disse, com uma frieza que não admitia réplicas. — E tem mais. Estive revisando meus testamentos e os contratos de sucessão das holdings.

O ambiente esfriou instantaneamente. Sara descuidou a postura, aproximando-se mais.

— E?

— Meus três filhos são meus herdeiros legítimos. Maya, Ágata e Arthur terão suas vidas garantidas — Emanuel fez uma pausa, olhando fixamente para Sara. — Mas quem vai assumir o comando de tudo, quem vai sentar na minha cadeira e gerir o império, será o Arthur.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Sara sentiu o sangue ferver. Ela dedicava horas à administração, ela conhecia cada número, cada fornecedor, cada centavo que entrava e saía.

— Você só pode estar brincando — Sara disparou, a voz subindo de tom. — O Arthur? Ele tem quatro anos e mal sabe limpar o próprio nariz sem a ajuda da Eduarda! Ágata é muito mais centrada, ela tem o meu faro para os negócios. E eu? Eu estou aqui carregando esse piano administrativo enquanto você faz arte, Emanuel!

— Você é competente, Sara, ninguém nega isso — Emanuel deu um passo à frente, a expressão endurecida. — Mas o Arthur tem o sangue. Ele tem a visão. Eu vejo como ele olha para os estúdios. Ele é o meu sucessor. Está decidido.

— Isso é machismo puro! — Sara exclamou, gesticulando com as mãos bem feitas. — Você está deixando a administração de um império bilionário nas mãos de uma criança só porque ele é homem e gosta de rabiscar o braço?

— Não é apenas por isso. É a minha vontade. E nesta família, a minha palavra é a última — ele se aproximou dela, a voz baixa e perigosa. — Se você está incomodada com a minha decisão, Sara, a porta está aberta. Você pode sair agora, levar sua parte e tentar a sorte sozinha. Ou pode aprender a lidar com isso e continuar fazendo o seu trabalho, que eu pago muito bem por sinal.

Sara recuou um passo, atingida pela frieza dele. Ela amava Emanuel, mas aquele lado dele a assustava e a enfurecia ao mesmo tempo. Ela olhou para Eduarda, que estava encolhida perto de Arthur, parecendo querer desaparecer.

— É claro que você não diz nada, não é, Eduarda? — Sara sibilou. — Está adorando ver seu filhinho ser coroado rei enquanto as minhas filhas ficam com as sobras.

— Eu não... eu não pedi por isso, Sara — Eduarda disse, a voz trêmula. — Eu só quero que eles sejam felizes.

— Pois eu quero que eles sejam poderosos! — Sara rebateu.

Nesse momento, uma pequena figura apareceu atrás de Sara. Era Maya. A menina tinha os olhos vermelhos e segurava um ursinho de pelúcia encardido. Ela passou por Sara sem olhar para ela e correu direto para Eduarda, escondendo o rosto em sua saia.

— Mamãe... a Maya tá com medo dos gritos — sussurrou a menina, a voz embargada.

Eduarda imediatamente se ajoelhou, pegando Maya no colo com uma ternura que fez o coração de Emanuel amolecer, apesar da raiva.

— Está tudo bem, meu amor. Ninguém está brigando, só estamos conversando alto — Eduarda mentiu suavemente, acariciando os cabelos castanhos da menina.

Maya se aninhou no pescoço de Eduarda, buscando o porto seguro que Sara, com sua energia vibrante e agressiva, nunca conseguia proporcionar. Sara observou a cena com uma pontada de amargura no peito. Maya era sua filha biológica, mas era o retrato cuspido de Eduarda: doce, tímida, sensível até demais. Tudo o que Sara tentava não ser.

— Veja só — Sara disse, com um riso amargo. — Uma filha que me rejeita e um marido que me exclui do futuro da empresa. Que dia maravilhoso.

— Sara, pare de drama — Emanuel ordenou, embora tenha se aproximado e colocado a mão no ombro dela, um gesto de trégua. — Você é essencial hoje. Mas o amanhã pertence ao Arthur. Aceite isso e as coisas serão mais fáceis para todos.

Sara se soltou do toque dele, mas não saiu do quarto. Ela não era do tipo que desistia. Se Emanuel queria o Arthur como sucessor, ela se certificaria de que Ágata fosse tão indispensável que ele teria que mudar de ideia no futuro.

— Vamos, Ágata — disse Sara, pegando a mão da filha loira, que assistia a tudo com um olhar clínico, quase calculista. — Temos coisas mais importantes para fazer do que ouvir promessas de sucessão.

As duas saíram, os saltos de Sara batendo com força no chão, deixando o quarto em um silêncio tenso.

Emanuel suspirou, sentindo o peso da coroa que ele mesmo havia colocado na cabeça. Ele olhou para Eduarda, que ainda ninava Maya enquanto Arthur tentava "tatuar" o pé do pai com a canetinha.

— Você foi duro com ela — Eduarda disse baixinho, sem olhar para ele.

— Eu preciso ser, Duda. Se eu der um centímetro de espaço, a Sara toma o estúdio inteiro para ela. Ela é ambiciosa demais.

— E o Arthur? Ele é só um bebê, Emanuel.

— Ele é o meu legado — Emanuel pegou Arthur no colo, sentindo a energia vibrante do menino. — Ele vai ser maior do que eu. E você, minha doce Duda, vai me ajudar a garantir que a estética desse império seja tão impecável quanto você.

Eduarda encostou a cabeça no ombro dele, sentindo Maya relaxar em seu colo. Ela não queria o poder, não queria as brigas de Sara, nem o ciúme possessivo de Emanuel. Mas ali, entre o caos daquelas personalidades tão fortes, ela era o centro de gravidade que impedia tudo de desmoronar.

— Só prometa que não vai transformar nossa casa em um campo de batalha — ela pediu.

Emanuel beijou o topo da cabeça dela, enquanto Arthur gritava que era o "Rei das Tatuagens".

— Eu prometo tentar. Mas você sabe... na nossa família, nada é feito em tons de cinza. É tudo ou nada.

Lá fora, a noite caía sobre a cidade, mas dentro daquela mansão, as linhas do destino já estavam sendo traçadas, tão permanentes e profundas quanto a tinta que Emanuel inseria na pele de seus clientes. O futuro estava decidido, mas o caminho até ele seria pavimentado com o ciúme de um homem, a ambição de uma mulher e a doçura de outra que, mesmo sem querer, detinha o coração de todos.