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Exposição e Poses de Conflito
O sol da tarde filtrava-se pelas janelas altas do ateliê de História da Arte, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Para Eduarda, aquele ambiente costumava ser um santuário de paz. O cheiro de terebentina, óleo de linhaça e papel envelhecido era o único que conseguia competir, em seu coração, com o cheiro de tinta de tatuagem que emanava de Emanuel. No entanto, naquele dia, a paz parecia um conceito distante.
Ela estava sentada em um banco alto, os dedos manchados de carvão, encarando a tela em branco. O professor de Desenho de Observação IV havia sido claro: a disciplina exigia que os alunos compreendessem a anatomia humana não apenas como observadores, mas como o próprio objeto de estudo. O rodízio de modelos vivos entre os próprios estudantes era uma tradição do curso, uma forma de quebrar barreiras de timidez e entender a vulnerabilidade do corpo.
Na semana anterior, Eduarda passara três horas desenhando um colega. Agora, na próxima aula, seria a sua vez.
O pensamento de ficar nua em um pedestal, sob o olhar analítico de trinta colegas, fazia seu estômago dar voltas. Eduarda era a personificação da timidez; ela era a menina que se escondia atrás das pernas de Emanuel quando estranhos falavam com ela. Mas havia algo em sua alma sensível que a impedia de desistir. Ela amava a arte. E, no fundo, havia uma pequena parte dela que queria provar — talvez para si mesma, talvez para Emanuel — que ela não era mais apenas a "pequena Duda".
— Você está muito pálida, Eduarda — comentou uma colega ao lado, limpando os pincéis. — É por causa da aula de quarta? Se estiver com medo, pode pedir dispensa médica, mas o professor é rigoroso com a nota.
— Não... eu vou fazer — sussurrou Eduarda, a voz suave, mas carregada de uma determinação trêmula. — É só uma aula. É arte.
Mas, enquanto guardava seus materiais, uma sombra de dúvida a obscureceu. Ela não tinha contado a Emanuel. Sabia exatamente como ele reagiria. Emanuel era um homem que vivia de marcar peles, de expor a arte nos corpos dos outros, mas, quando se tratava de Eduarda, ele era um colecionador possessivo que preferia manter sua obra-prima trancada em uma galeria particular.
***
Mais tarde, no estúdio central de Emanuel, o clima era de eficiência frenética. Sara estava ao telefone, discutindo em inglês com um fornecedor de agulhas de Berlim, enquanto caminhava de um lado para o outro com seus saltos agulha. Emanuel, por outro lado, estava concentrado. Ele estava tatuando o antebraço de um cliente regular, o som da máquina — um zumbido constante e elétrico — preenchendo o espaço.
Eduarda entrou silenciosamente, como sempre fazia. Ela se sentou no sofá de couro preto da recepção, abrindo um livro de teoria das cores para tentar disfarçar seu nervosismo.
Sara desligou o telefone com um estalo e olhou para ela. A loira usava um vestido de seda verde que realçava suas curvas e o brilho do silicone, a imagem perfeita da mulher de negócios poderosa e provocante.
— Você está com aquela cara, Duda — disse Sara, cruzando os braços e apoiando-se no balcão de vidro.
— Que cara? — Eduarda perguntou, sem levantar os olhos do livro.
— A cara de quem quebrou um vaso caro e está esperando o dono da casa chegar para levar uma bronca — Sara deu um sorriso sarcástico, mas não cruel. — O que foi? Notas baixas? Problemas com as "amiguinhas" da faculdade?
— Nada disso, Sara. Só estou cansada.
— Sei. Emanuel está terminando. Ele está de um humor cão hoje porque um dos artistas de Madri pediu demissão. Se eu fosse você, fazia aquela sua carinha de cachorrinho caído para ele se acalmar.
Eduarda forçou um sorriso. Ela e Sara raramente conversavam sobre sentimentos, mas Sara tinha um radar infalível para tensões. A convivência das duas era baseada nesse equilíbrio bizarro: Sara dominava o mundo exterior e os negócios, enquanto Eduarda era o refúgio emocional de Emanuel. Nenhuma das duas tentava roubar o papel da outra, porque sabiam que Emanuel precisava de ambas para não desmoronar.
Pouito depois, o cliente saiu, e Emanuel apareceu na área comum, retirando as luvas de látex. Ele parecia exausto. Ao ver Eduarda, sua expressão suavizou-se por um breve segundo, antes de a rigidez do estresse voltar.
— Oi, pequena — ele disse, aproximando-se e dando-lhe um beijo casto na testa. — Vamos? Preciso sair daqui antes que eu quebre esse computador. Sara, termine os relatórios de Londres.
— Sim, senhor, capitão — Sara ironizou, piscando para Eduarda. — Divirtam-se. E Duda, coma algo substancial. Você parece que vai desmaiar.
***
O jantar no apartamento de Emanuel foi silencioso. Ele morava em uma cobertura minimalista, com vista para as luzes da cidade. Era um lugar que transpirava sucesso e controle, exatamente como ele.
Eduarda remexia a comida no prato, a mente voltada para o pedestal do ateliê.
— O que está acontecendo, Eduarda? — a voz de Emanuel cortou o silêncio. Era uma voz profunda, acostumada a dar ordens, mas que agora carregava uma nota de preocupação.
— Nada, Manu. Por que?
— Você não deu uma garfada na massa. E está evitando me olhar desde que saímos do estúdio. — Ele largou os talheres e cruzou os braços sobre a mesa, os ombros largos preenchendo o espaço. — É sobre a mudança? Eu já disse que não vou te pressionar esta semana.
— Não é a mudança — ela suspirou, fechando os olhos. Ela odiava mentir para ele. Emanuel era seu protetor desde os cinco anos. Ele a conhecia melhor do que ela mesma. — É uma matéria da faculdade.
Emanuel arqueou uma sobrancelha.
— História da Arte? O que tem de tão terrível em olhar para quadros velhos?
— É uma aula prática, Manu. Desenho de observação. — Ela hesitou, o coração disparando. — Nós estamos estudando a forma humana. Anatomia.
Emanuel relaxou levemente, voltando a pegar sua taça de vinho.
— E qual o problema? Você desenha bem.
— O problema é que... os modelos são os alunos. — A frase saiu em um sussurro, mas no silêncio do apartamento, soou como um tiro de canhão.
Emanuel parou a taça no meio do caminho. Seus olhos, antes cansados, tornaram-se afiados como lâminas.
— Como é que é?
— É um rodízio — ela explicou rapidamente, as palavras atropelando-se na tentativa de suavizar o impacto. — Cada semana um aluno posa para os outros. É profissional, Manu. É acadêmico. Ninguém olha de um jeito ruim, todos são artistas...
— Você está me dizendo — Emanuel começou, a voz baixando para um tom perigosamente calmo — que você vai ficar nua na frente de uma sala cheia de estranhos?
— Eles não são estranhos, são meus colegas de classe! E eu já fiz uma aula, eu desenhei o felipe na semana passada e...
Emanuel levantou-se da cadeira de forma brusca, o som do metal arrastando no chão ecoando pelas paredes. Ele começou a andar de um lado para o outro, a mão passando pelo cabelo curto, a irritação emanando dele em ondas tangíveis.
— Não. Absolutamente não.
— Manu, é obrigatório! Faz parte da grade curricular. Se eu não fizer, eu reprovo na matéria e perco o semestre.
Ele parou na frente dela, as mãos apoiadas na mesa, inclinando-se para o seu espaço pessoal. Emanuel era um homem grande, e sua presença física podia ser esmagadora quando ele queria.
— Eu não dou a mínima para o semestre, Eduarda! — ele explodiu, a voz ecoando. — Você tem noção do que está pedindo? Você é tímida, você se esconde debaixo das cobertas se eu acendo a luz forte demais quando estamos sozinhos! E agora você quer se exibir para trinta idiotas com cadernos de desenho?
— Eu não vou me "exibir"! — Eduarda levantou-se também, as lágrimas de frustração começando a arder em seus olhos. — É arte, Emanuel! Você vive disso! Você passa o dia tocando na pele de estranhos, desenhando em corpos de mulheres que você nem conhece! Qual a diferença?
— A diferença é que você é MINHA! — ele rugiu, o instinto possessivo falando mais alto que qualquer lógica. — Eu passei a vida inteira protegendo você. Eu tirei você de brigas, eu limpei seus joelhos, eu... eu fui o primeiro homem a te tocar dessa forma. E você acha que eu vou aceitar que um bando de moleques fique analisando cada curva do seu corpo sob uma luz de estúdio?
— Você não é meu dono! — ela gritou de volta, uma rara demonstração de rebeldia que o pegou de surpresa. — Você me protege, Manu, mas às vezes você me sufoca! Eu quero ser uma artista. Eu quero entender o que é a vulnerabilidade da arte. Por que você não consegue me apoiar nisso?
Emanuel sentiu uma pontada de culpa ao ver o rosto dela banhado em lágrimas, mas a fúria e o ciúme eram mais fortes. Ele não era um homem racional quando se tratava de Eduarda. Para ele, ela ainda era a flor delicada que precisava de uma estufa; a ideia de expô-la ao mundo, de forma tão crua, era como ver alguém vandalizando um santuário.
— Se for por dinheiro, eu pago o semestre de novo. Eu compro a faculdade se for preciso — ele disse, a voz ríspida, voltando ao seu modo controlador. — Mas você não vai pôr os pés naquela sala na quarta-feira.
— Eu vou — ela disse, limpando o rosto com as costas da mão, a voz agora fria e decidida. — Meus pais me apoiam. Eles acham que é um passo importante para eu perder a timidez.
— Seus pais são modernos demais para o próprio bem — Emanuel sibilou. — Eles não entendem o que homens pensam quando veem uma mulher como você sem roupa. Mas eu entendo.
Eduarda não respondeu. Ela pegou sua bolsa, as mãos tremendo, e caminhou em direção à porta.
— Onde você vai? — ele perguntou, a voz carregada de autoridade.
— Vou para casa dos meus pais. Eu não quero ficar aqui com você me tratando como se eu fosse um objeto que você guarda no cofre.
— Eduarda, volta aqui! — ele ordenou, mas ela já havia saído, o som da porta batendo cortando o ar como um chicote.
Emanuel ficou sozinho na sala vasta, o silêncio pesando sobre seus ombros. Ele chutou a cadeira, sentindo uma necessidade violenta de socar algo. Ele a amava tanto que chegava a doer, mas aquele amor era uma faca de dois gumes; era o que a mantinha segura, mas era também o que a impedia de voar.
***
Na manhã seguinte, o estúdio estava tenso. Emanuel não tinha dormido. Suas olheiras eram profundas e ele mal falava com os funcionários. Sara, percebendo o clima, entrou em sua sala sem bater, jogando uma pasta sobre a mesa dele.
— Ela me ligou chorando ontem à noite — disse Sara, sem rodeios.
Emanuel nem levantou os olhos do desenho que estava tentando terminar.
— Não começa, Sara.
— "Não começa" o caralho, Emanuel. Você agiu como um troglodita. — Sara sentou-se na beirada da mesa, cruzando as pernas e deixando o vestido subir perigosamente, mas ele nem notou. — É uma aula de faculdade. Não é um ensaio para a Playboy.
— Para mim é a mesma coisa — ele murmurou, a voz rouca. — Ela é pura demais para aquilo.
Sara soltou uma risada seca, carregada de ironia.
— Pura? Emanuel, ela tem vinte anos. Ela faz sexo com você. Ela estuda História da Arte. O mundo não é um jardim de infância e ela não é mais a menininha de cinco anos que você segurava pela mão.
— Eu sei disso! — ele gritou, batendo com a mão na mesa. — Mas eu não consigo, Sara. Eu fecho os olhos e vejo aqueles caras olhando para ela, desenhando os seios dela, as pernas... isso me consome por dentro.
Sara suspirou, sua expressão suavizando-se por um breve momento. Ela conhecia Emanuel há tanto tempo quanto Eduarda. Sabia que o controle dele era uma forma de lidar com o medo de perder o que amava.
— Escuta — ela disse, a voz mais baixa. — Eu não sou a maior fã da Duda, você sabe disso. Às vezes aquela vozinha manhosa dela me dá nos nervos. Mas ela tem uma força que você se recusa a ver. Se você tentar impedi-la, você só vai empurrá-la para longe. E sabe quem vai estar lá para segurar a mão dela quando você não estiver? Um desses "moleques" da faculdade que você tanto odeia.
Emanuel ficou em silêncio. As palavras de Sara atingiram o alvo.
— O que você sugere que eu faça? — ele perguntou, a derrota transparecendo em sua voz.
— Sugiro que você pare de agir como o pai dela e comece a agir como o homem dela. Vá até lá, peça desculpas e diga que, embora você odeie a ideia, você respeita a escolha dela.
Emanuel olhou para o nada por um longo tempo.
— Eu não vou conseguir ficar em casa sabendo que ela está lá — ele admitiu.
— Então vá até a faculdade — Sara deu de ombros. — Não entre na sala, claro, a menos que queira ser preso por agressão. Mas esteja lá quando ela sair. Ela vai estar vulnerável, assustada e provavelmente se sentindo exposta. Ela vai precisar do protetor dela.
Emanuel levantou-se, pegando as chaves do carro.
— Você é uma manipuladora, Sara.
— Eu sou uma administradora, Emanuel — ela sorriu, triunfante. — Eu administro os estúdios e, aparentemente, a sua vida amorosa desastrosa. Agora vá. E tente não quebrar o nariz de ninguém no estacionamento da universidade.
***
A quarta-feira chegou com um céu cinzento e opressor. Eduarda estava no vestiário do ateliê, o roupão de seda branca apertado contra o corpo. Seu coração batia tão rápido que ela sentia tontura. Ela queria desistir. Queria ligar para Emanuel e dizer que ele tinha razão, que ela era pequena demais para aquilo.
Mas então ela se lembrou do olhar de descrença dele, da forma como ele a chamou de "criança" de forma implícita.
— Eduarda? Estamos prontos — disse o professor, batendo levemente na porta.
Ela inspirou profundamente, soltou o ar e caminhou para o centro da sala. O pedestal estava lá, cercado por cavaletes dispostos em semicírculo. Os alunos estavam em silêncio, preparando seus carvões e papéis. Não havia luxúria nos olhares; havia apenas a expectativa técnica.
Com as mãos trêmulas, Eduarda soltou o nó do roupão. Ela o deixou escorregar pelos ombros, revelando a pele clara, a curva delicada dos seios médios, a linha suave de seus quadris. Ela se sentou na posição combinada — de lado, com uma perna levemente encolhida, o rosto voltado para a janela.
O frio do ar tocou sua pele, mas foi o silêncio da sala que mais a atingiu. Então, o som do carvão riscando o papel começou.
Por um momento, ela se sentiu morrer de vergonha. Mas, conforme os minutos passavam, algo mudou. Ela começou a focar em sua própria respiração. Ela não era apenas Eduarda; ela era luz e sombra, era volume e linha. Ela era arte.
***
Do lado de fora do prédio de Artes, estacionado em local proibido, o SUV preto de Emanuel era uma mancha sombria no campus. Ele estava sentado ao volante, as mãos apertando o couro com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Ele olhava para o relógio a cada trinta segundos.
Sua mente era um campo de batalha. Ele imaginava Eduarda ali dentro, desprotegida. A fúria ainda estava lá, um fogo baixo que ameaçava explodir a qualquer momento, mas, misturado a ela, havia um novo sentimento: um respeito relutante.
Eduarda estava enfrentando seu maior medo. E ela estava fazendo isso sem ele.
Quando o fluxo de alunos começou a sair pelo portão principal, Emanuel saiu do carro. Ele ficou encostado na porta, a expressão fechada, os braços cruzados sobre o peito, as tatuagens visíveis sob as mangas curtas. Vários estudantes olhavam para ele com curiosidade e um pouco de receio; ele parecia um predador em um jardim de infância.
Finalmente, ela apareceu.
Eduarda caminhava devagar, a bolsa de lona pendurada no ombro, os cabelos castanhos caindo sobre o rosto. Ela parecia exausta, menor do que o normal.
Quando ela levantou os olhos e o viu, parou bruscamente.
Emanuel não disse nada. Ele apenas caminhou em sua direção. Eduarda esperava gritos, esperava uma cena, mas, quando ele chegou perto, viu que os olhos dele estavam úmidos de uma emoção que ele não conseguia rotular.
Sem uma palavra, Emanuel a puxou para um abraço. Ele a envolveu com seus braços fortes, escondendo-a do mundo contra seu peito largo. Eduarda desabou. Ela chorou silenciosamente contra a camiseta dele, soltando toda a tensão das últimas duas horas.
— Acabou? — ele perguntou, a voz rouca, os lábios encostados no topo da cabeça dela.
— Sim — ela soluçou. — Eu fiz, Manu. Eu consegui.
— Eu sei — ele murmurou, apertando-a ainda mais. — Eu ainda odeio isso. Eu ainda quero quebrar a cara de cada pessoa que entrou naquela sala. Mas... eu estou aqui.
Eduarda se afastou um pouco para olhar para ele.
— Você está bravo?
— Estou furioso — ele admitiu, e um pequeno sorriso de canto apareceu em seu rosto sério. — Mas estou mais furioso comigo mesmo por não ter entendido que você precisava disso.
Ele a guiou até o carro, abrindo a porta para ela com um zelo renovado. Antes de fechar a porta, ele se inclinou e sussurrou em seu ouvido:
— Mas não pense que isso muda minha opinião sobre você morar comigo. Se você vai ficar nua por aí, que seja apenas em um lugar onde eu possa fechar a porta e garantir que ninguém mais entre.
Eduarda sorriu, sentindo o calor familiar da proteção dele envolvê-la novamente. O conflito não estava resolvido; as arestas entre o desejo de liberdade dela e o instinto de posse dele ainda estavam lá, afiadas como sempre. Mas, naquele momento, entre o trauma da exposição e o conforto do abraço dele, ela soube que, não importava o quanto crescesse, Emanuel sempre seria seu norte.
E, no escritório do estúdio, Sara observava pelo GPS do celular que o carro de Emanuel finalmente se movia. Ela deu um gole em seu café, um sorriso de satisfação nos lábios perfeitamente pintados. O equilíbrio fora mantido. Por enquanto.