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O Labirinto da Fertilidade
A luz da manhã entrava pelas janelas da suíte principal, iluminando a cena que Emanuel considerava o ápice de sua existência, mas também a fonte de sua ansiedade mais profunda. Eduarda estava sentada na poltrona de amamentação, com os cabelos castanhos caindo sobre os ombros de forma desalinhada, um seio exposto enquanto Maya mamava com uma tranquilidade angelical. No berço acoplado ao lado, Arthur já terminara sua parte e dormia com um braço jogado para cima, a pequena cicatriz na sobrancelha — lembrança do susto de meses atrás — quase invisível agora.
Emanuel observava da porta, encostado no batente, com uma caneca de café esquecida na mão. Ver Eduarda amamentar os gêmeos era, para ele, um espetáculo de fragilidade e força. Ela parecia tão pequena sob o peso das duas crianças, tão pálida e doce, que o instinto de proteção dele rugia em seu peito como um animal constante.
— Você vai se atrasar para o estúdio — murmurou Eduarda, sem desviar os olhos de Maya. Ela sentia o olhar dele, pesado e vigilante, como uma segunda pele.
— Sara já foi na frente. Ela disse que consegue lidar com os fornecedores de pigmentos hoje — Emanuel respondeu, aproximando-se e agachando-se ao lado da poltrona. Ele estendeu a mão e acariciou a bochecha de Eduarda, descendo os dedos pelo pescoço dela. — Como você está se sentindo? Teve tonturas hoje?
Eduarda sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Não era o calafrio do desejo, mas o do segredo que queimava em seu ventre.
— Estou bem, Manu. Só o cansaço normal de cuidar de dois bebês que não param — ela mentiu, forçando um sorriso que não chegou aos olhos.
Na verdade, Eduarda sentia-se estranha. O cheiro do café na mão de Emanuel a enjoava, e uma sensibilidade nova em seus seios tornava a amamentação de Maya quase dolorosa. Ela sabia. Conhecia seu corpo. Estava grávida de novo, apenas um mês, um segredo guardado a sete chaves sob as rendas de sua camisola. Ela planejava contar, mas o medo da reação dele a paralisava. Emanuel não era um homem que aceitava surpresas que fugissem ao seu controle, especialmente quando se tratava da saúde dela.
— Você está pálida de novo — Emanuel estreitou os olhos, a voz assumindo aquele tom de comando que ela tanto conhecia. — Vou ligar para o médico. Quero novos exames de sangue. Aquela anemia não pode voltar.
— Não precisa, eu juro! É só o sono — ela disse, um pouco rápido demais.
Nesse momento, Sara entrou no quarto. Ela estava radiante, usando um vestido de seda justo que já começava a marcar sutilmente o ventre de quatro meses. Diferente de Eduarda, Sara exibia sua gravidez como um troféu de guerra. Ela esperava uma menina, a segunda filha com Emanuel, e parecia mais poderosa do que nunca.
— Emanuel, pare de torturar a menina — Sara disse, caminhando até o espelho e ajeitando os brincos de ouro. — Eduarda está ótima. O que ela precisa é de um pouco de silêncio, não de agulhas e médicos.
Emanuel levantou-se, olhando de uma para a outra. Ele era o centro daquele sistema solar complexo, o sol ao redor do qual as duas mulheres e os bebês orbitavam.
— Você está falando isso porque sua gravidez está sendo fácil, Sara — Emanuel retrucou, cruzando os braços. — Você é feita de ferro. A Duda... ela quase se quebrou da última vez.
Sara revirou os olhos, mas lançou um olhar cúmplice para Eduarda pelo reflexo do espelho. Sara sabia. Ela tinha o faro apurado para mudanças hormonais e já havia notado o jeito que Eduarda evitava certos alimentos na mesa. Mas Sara, por diversão ou por uma lealdade distorcida entre mulheres, mantinha o silêncio.
— Vou para o estúdio — Emanuel anunciou, inclinando-se para beijar a testa de Eduarda. — Se você sentir qualquer coisa, qualquer coisa, me ligue. Eu volto em dez minutos se for preciso.
Quando a porta se fechou e os passos dele ecoaram pelo corredor, o silêncio no quarto tornou-se pesado. Sara virou-se para Eduarda, com um sorriso de canto.
— Quanto tempo você acha que consegue esconder isso dele, bonequinha? — perguntou Sara, caminhando até o berço de Arthur e observando o menino.
Eduarda suspirou, colocando Maya, que acabara de dormir, no ombro para arrotar.
— Não sei. Eu queria esperar passar o primeiro trimestre. Você sabe como ele fica, Sara. Ele vai me trancar neste quarto. Vai me proibir de amamentar os gêmeos. Ele vai surtar.
— Ele não vai apenas surtar — Sara disse, pegando um dos cubos de brinquedo de Arthur. — Ele vai incendiar o mundo. Emanuel se convenceu de que você é feita de vidro. E agora, com a minha menina a caminho e você carregando... o quê? O terceiro dele em menos de dois anos? Ele vai perder a razão.
— Eu não planejei, Sara. Aconteceu.
— Com o Emanuel, nada apenas "acontece" — Sara riu, uma risada seca. — Mas eu te entendo. Você quer a sua paz. Mas olhe para você, Eduarda. Você mal consegue ficar de pé sem se apoiar. Se você desmaiar, ele descobre na hora.
— Eu vou ser cuidadosa — prometeu Eduarda, embora soubesse que a biologia era uma traidora silenciosa.
As semanas seguintes foram um jogo de gato e rato. Eduarda evitava as refeições em família, alegando que os gêmeos estavam dando trabalho. Ela usava roupas cada vez mais largas, escondendo a pequena saliência que começava a surgir. Emanuel, mergulhado em uma expansão de seus estúdios para a Europa, estava mais estressado do que o normal, o que o tornava ainda mais observador.
A queda do véu aconteceu em uma tarde de terça-feira.
Emanuel chegara mais cedo. Ele estava exausto, com o cheiro de tinta de tatuagem impregnado na pele, querendo apenas o refúgio que o corpo de Eduarda lhe proporcionava. Ele entrou no quarto e a encontrou no banheiro. Ela estava curvada sobre a pia, o rosto pálido e suado, lutando contra uma onda de náusea que não passava.
Ao lado dela, sobre a bancada de mármore, estava um teste de farmácia. Dois riscos vermelhos, implacáveis.
Emanuel sentiu o ar sair de seus pulmões. Não era alegria. Não era a satisfação de um pai que recebe a notícia de um novo herdeiro. Era um pavor primitivo, uma fúria fria que subiu por sua espinha como veneno.
— O que é isso? — A voz dele saiu como um trovão baixo, fazendo Eduarda pular e se virar, escondendo o rosto com as mãos.
— Manu... eu... eu ia te contar — ela começou a soluçar, o corpo tremendo.
Emanuel ignorou o choro dela. Ele pegou o teste, segurando-o como se fosse uma arma carregada. Ele olhou para o objeto e depois para o ventre dela, ainda escondido sob o robe de seda.
— Você está grávida? — Ele perguntou, cada palavra saindo pausada, perigosa. — De novo? Depois de tudo o que o médico disse? Depois de quase morrer na porra daquela fazenda?
— Foi um acidente, Emanuel! Eu não queria que fosse assim, eu tive medo de te contar!
— Medo? — Emanuel deu um passo à frente, a presença dele preenchendo o banheiro, tornando o espaço minúsculo. — Você deveria ter medo da sua própria imprudência! Você ainda está amamentando dois bebês! Seu corpo nem se recuperou da hemorragia e você coloca outra vida aí dentro? Você quer morrer, Eduarda? É isso que você quer? Me deixar sozinho com três crianças?
— Não fale assim! É o nosso filho! — Ela gritou, tentando enfrentar a fúria dele, mas as pernas fraquejaram.
Emanuel a segurou pelos braços, não com delicadeza, mas com uma firmeza desesperada. Ele a sentou no vaso sanitário fechado e ajoelhou-se à frente dela, o rosto transtornado.
— Você não entende — ele disse, a voz agora quebrada, os olhos brilhando com uma intensidade maníaca. — Eu não posso passar por aquilo de novo. Eu não vou ver você sumindo em uma cama de hospital. Eu não vou permitir!
— Você não pode impedir, Emanuel! Já está aqui! — Ela tocou o próprio ventre, protegendo o segredo que agora era público.
Emanuel levantou-se bruscamente, chutando o cesto de roupas de vime, que se estilhaçou contra a parede. O barulho ecoou pela casa, atraindo a atenção de Sara, que apareceu na porta do quarto com Ágata no colo.
— Emanuel! Pare com isso! — Sara gritou, vendo o estado de choque de Eduarda.
— Você sabia? — Emanuel virou-se para Sara, os olhos faiscando. — Você sabia disso e não me contou? Você deixou ela colocar a vida em risco por um capricho?
— Ela é uma mulher, Emanuel, não uma posse sua! — Sara rebateu, embora estivesse visivelmente tensa com a reação dele. — Ela teve medo de você, e pelo visto, com razão. Olhe como você está agindo! Parece um louco!
— Eu sou o louco? — Emanuel riu, uma risada sem humor que arrepiou os pelos de Eduarda. — Eu sou o único aqui que se importa se ela vai estar viva daqui a nove meses!
Ele voltou-se para Eduarda, que chorava silenciosamente, encolhida.
— Acabou, Eduarda. A partir de hoje, você não sai desta casa. Você não carrega peso. Você vai parar de amamentar a Maya e o Arthur agora, hoje mesmo. Eles vão para a fórmula. Você vai comer o que eu mandar, dormir quando eu mandar e ver o médico todos os dias se for preciso.
— Você não pode fazer isso... — ela balbuciou.
— Eu posso e eu vou. — Emanuel pegou o celular e começou a discar. — Vou contratar enfermeiras particulares. Duas, para turnos de doze horas. Elas vão ficar na porta deste quarto. Se você quiser ir ao jardim, eu vou te carregar.
— Emanuel, você está perdendo o juízo — Sara tentou intervir, mas ele a cortou com um olhar gélido.
— Cuide da sua gravidez, Sara. Da Eduarda, cuido eu. Ela provou que não tem discernimento para cuidar da própria segurança.
Ele saiu do quarto como um vendaval, deixando para trás um rastro de destruição emocional. Eduarda desabou no chão do banheiro, sendo amparada por Sara.
— Ele vai me odiar, Sara... ele vai me odiar por causa desse bebê — Eduarda soluçava.
— Ele não te odeia, bonequinha — Sara disse, acariciando o cabelo dela enquanto olhava para a porta por onde Emanuel saíra. — Ele te ama de um jeito doente. Ele tem tanto medo de te perder que prefere te transformar em uma prisioneira do que em uma lembrança.
Lá embaixo, Emanuel estava no escritório, socando a parede até que seus nós dos dedos sangrassem. Ele olhava para as tatuagens em suas mãos, as marcas de uma vida que ele sempre tentara controlar. Mas a vida, através do ventre de Eduarda, estava rindo dele.
Ele sentia o peso do mundo em seus ombros. Duas mulheres grávidas. Três bebês. Um império para gerir. E o medo constante de que a calmaria de sua vida, representada por Eduarda, se esvaísse em sangue novamente.
— Eu vou te manter viva, Duda — ele sussurrou para o vazio, as mãos sangrando. — Nem que eu tenha que te quebrar para garantir que você não se destrua.
A mansão Albuquerque, que antes era um refúgio de luxo, transformara-se, naquele momento, em uma fortaleza de zelo extremo. Emanuel instalou as enfermeiras naquela mesma noite. O desmame forçado de Maya e Arthur começou sob os protestos chorosos das crianças e o coração partido de Eduarda.
Emanuel não dormiu na cama com ela. Ele ficou sentado na poltrona, observando-a dormir, como um sentinela em uma guerra que só ele estava lutando. Ele olhava para o ventre dela e sentia uma mistura de amor e fúria. Aquele novo ser era um intruso que ameaçava sua paz, mas era também o sangue de seu sangue.
Sara, observando tudo de seu próprio quarto, sentia a tensão vibrar pelas paredes. Ela sabia que Emanuel estava no limite. A gravidez dela era a força, a de Eduarda era a fraqueza que ele não podia admitir.
— O jogo mudou, Ágata — disse Sara para a filha pequena que dormia ao seu lado. — Seu pai finalmente encontrou algo que ele não pode tatuar ou apagar. Ele encontrou o próprio medo.
No quarto principal, Eduarda acordou no meio da noite e viu a silhueta de Emanuel na poltrona. Ele parecia uma estátua de dor e controle.
— Manu? — ela chamou baixinho.
Ele não respondeu com palavras. Apenas levantou-se, caminhou até a cama e segurou a mão dela com uma força que quase doía.
— Durma, Eduarda. Você precisa de forças. O resto... o resto eu resolvo.
E no silêncio da noite, o surto de Emanuel transformou-se em uma obsessão silenciosa. A casa estava cheia, o futuro estava garantido, mas a liberdade de Eduarda fora o preço pago pelo zelo de um homem que amava demais e confiava de menos no destino. A gestação tripla — a de Sara, a de Eduarda e a do próprio medo de Emanuel — estava apenas começando.