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D

O Peso do Sangue e o Calor do Leite

A cobertura de Emanuel, que outrora fora um santuário de minimalismo e silêncio, agora parecia um campo de batalha decorado por brinquedos caros e o cheiro persistente de talco e leite materno. O relógio na parede marcava duas da manhã, e o silêncio era uma ilusão frágil, prestes a ser quebrada pelo menor movimento.

Emanuel estava parado no corredor, a camisa social aberta até o meio do peito, as mangas dobradas e o rosto marcado por uma exaustão que nem o café mais forte conseguia dissipar. Ele era um homem de posses, um tatuador cujo nome era reverenciado em convenções de luxo, mas ali, entre as paredes de sua própria casa, ele se sentia um leão enjaulado, cujos instintos básicos estavam sendo testados ao limite.

Do quarto à esquerda, vinha o som rítmico da respiração de Sara e Ágata. Aos dois anos, Ágata já demonstrava ser a cópia fiel da mãe: decidida, um pouco altiva e com um senso de propriedade que beirava o esnobismo infantil. Ela dormia em seu próprio quarto, mas Sara, prática e eficiente, mantinha uma rotina rigorosa que permitia que sua vida sexual e profissional com Emanuel não fosse totalmente obliterada pela maternidade. Sara era a estrutura, o ferro que mantinha o império de pé.

Mas o problema de Emanuel — ou melhor, sua necessidade latente — morava no quarto à direita.

Ele abriu a porta sem fazer barulho. A luz suave de um abajur de sal projetava sombras longas no ambiente. Eduarda estava sentada na poltrona de amamentação, o corpo miúdo quase sumindo entre as almofadas. Ela parecia uma madona renascentista, com os cabelos castanhos caindo em desalinho sobre os ombros e a expressão de uma doçura exausta.

Em seu colo, o caos e a paz coexistiam. Arthur, um furacão de cabelos escuros e pernas gordinhas que passava o dia derrubando vasos e desafiando a gravidade, só encontrava seu centro ali, grudado ao peito da mãe. Do outro lado, Maya, a pequena criatura sensível e manhosa que parecia ter herdado toda a fragilidade emocional de Eduarda, segurava a gola da camisola da mãe com sua mãozinha pequena, os olhos fechados em um sono leve.

Emanuel sentiu um aperto no peito que misturava adoração e uma frustração carnal sufocante. Fazia um mês. Trinta dias desde que ele sentira o calor da pele de Eduarda sem que houvesse um bebê entre eles, sem que o choro de um dos gêmeos interrompesse o toque, sem que o cansaço dela a fizesse desmaiar de sono assim que a cabeça tocava o travesseiro.

Ele se aproximou e pousou a mão no ombro de Eduarda. Ela deu um leve sobressalto e olhou para cima, seus olhos castanhos brilhando com uma umidade sensível.

— Eles não soltam, Manu — ela sussurrou, a voz manhosa e carregada de uma culpa que ele odiava ver. — O Arthur teve um pesadelo e a Maya não dorme se não sentir meu cheiro.

— Eles têm dois anos, Duda — Emanuel disse, a voz rouca, tentando manter o tom baixo, embora a irritação vibrasse em suas cordas vocais. — Eles já deveriam estar comendo sólidos e dormindo a noite toda. Você está se desgastando. Está amarela de novo.

— Eu sei... — ela murmurou, encostando a cabeça no peito dele por um segundo. — Mas eu não consigo dizer não. Eles precisam de mim.

— Eu também preciso de você — ele rebateu, a mão descendo pela curva do pescoço dela, os dedos calejados contrastando com a pele macia. — Eu sinto falta da minha mulher.

Eduarda fechou os olhos, sentindo o arrepio que o toque dele causava. Ela queria. Deus, como ela queria. Sentia falta de ser apenas Eduarda, e não a fonte inesgotável de alimento e conforto de Arthur e Maya. Mas o vínculo era uma corda de aço. Se ela se afastasse, sentia que os bebês murchariam.

— Espera mais um pouco... — ela pediu, a frase que Emanuel mais detestava ouvir. — Só até eles entrarem em sono profundo.

Emanuel soltou um suspiro pesado e saiu do quarto antes que sua frustração explodisse e acordasse as crianças. Ele foi para a cozinha, onde encontrou Sara de pé, bebendo uma taça de vinho tinto, vestindo um robe de seda transparente que deixava pouco para a imaginação.

— O muro das lamentações continua erguido? — Sara perguntou, a voz tingida de um sarcasmo inteligente. Ela se aproximou dele, o perfume caro mascarando o cheiro de casa. — Você está tenso, Emanuel. Seus ombros parecem feitos de granito.

— A Eduarda não consegue soltar os gêmeos, Sara. É um ciclo vicioso.

— Ela é uma mãe bicho, Emanuel. Você sabia disso quando se apaixonou por aquela carinha de anjo — Sara passou os dedos pelas costas dele, um convite silencioso. — Eu estou aqui. Ágata está dormindo, a administração do estúdio de Tóquio está em ordem e eu não tenho bebês pendurados no meu pescoço.

Emanuel a puxou pela cintura, beijando-a com uma intensidade que era metade desejo e metade transferência de estresse. Com Sara, era fácil. Era uma transação de prazer e poder, direta, sem as nuances emocionais que o prendiam a Eduarda. Eles foram para o quarto dela, e por uma hora, Emanuel tentou afogar sua irritação no corpo escultural da loira.

Mas, quando terminou, o vazio ainda estava lá.

Ele saiu do quarto de Sara após ela adormecer e voltou para o corredor. O instinto de proteção e posse sobre Eduarda era diferente. Era visceral. Ele precisava daquela conexão emocional, da entrega mansa que só ela proporcionava.

Desta vez, o quarto dos gêmeos estava silencioso. Arthur e Maya estavam em seus berços, finalmente rendidos ao sono. Eduarda estava deitada na cama de solteiro que ficava no quarto deles, encolhida, parecendo pequena demais para o tamanho das responsabilidades que carregava.

Emanuel entrou e trancou a porta. O som do trinco pareceu um tiro no silêncio.

— Manu? — ela acordou em um susto, sentando-se na cama.

— Eles estão dormindo, Duda. Chega.

Ele se aproximou e a puxou para cima, forçando-a a ficar de pé. Eduarda estava trêmula, o coração batendo forte contra as costelas.

— Eu estava vindo te procurar... eu juro — ela disse, os olhos buscando os dele na penumbra. — Eu só fechei os olhos por um minuto.

— Um mês, Eduarda. Eu sou um homem paciente, mas eu tenho limites. Eu sustento esta casa, eu protejo vocês, eu mato e morro por esses bebês, mas eu não vou ser o último na sua lista de prioridades para sempre.

— Você nunca é o último — ela choramingou, abraçando-o pela cintura, escondendo o rosto em seu peito. — É que eles são tão pequenos... a Maya é tão sensível, ela sente quando eu estou longe.

— A Maya vai sobreviver dez metros de distância de você — ele a pegou no colo, ignorando o protesto baixinho dela, e a levou para o banheiro da suíte, ligando o chuveiro.

Ele a despiu com movimentos rápidos, mas carregados de um cuidado possessivo. Sob a luz fria do banheiro, ele viu as marcas da maternidade nela: os seios mais cheios, as marcas leves nos quadris, a palidez de quem não dormia uma noite inteira há dois anos. Ela era linda. Para ele, ela era a perfeição em forma de fragilidade.

— Manu, o Arthur pode acordar... — ela tentou dizer, mas ele calou sua boca com um beijo que exigia tudo o que ela vinha guardando.

Era um beijo de posse, de fome acumulada. Eduarda gemeu contra os lábios dele, suas mãos agarrando os ombros largos de Emanuel. O calor da água batendo neles parecia derreter a barreira de exaustão que a cercava. Por um momento, o mundo lá fora, com fraldas, choros e mamadeiras, deixou de existir.

— Você é minha — ele rosnou contra o ouvido dela, as mãos grandes apertando sua cintura. — Minha primeira, minha última. Não me peça para esperar mais.

— Eu não quero esperar — ela admitiu, a voz sumindo enquanto ele a pressionava contra os azulejos úmidos. — Eu só fico com tanto medo de não dar conta de tudo... de ser uma mãe ruim se eu me perder em você.

— Você é a melhor mãe que esses furacões poderiam ter. Mas agora, você vai ser só minha Eduarda.

O encontro foi urgente, desesperado. Emanuel agia com a intensidade de um homem que estava recuperando um território perdido. Eduarda entregava-se com uma manha que o enlouquecia, seus dedos cravando-se nas tatuagens dos braços dele, buscando âncora. Naquele momento, não havia Sara, não havia estúdios de tatuagem, não havia o estresse de ser um magnata. Havia apenas o peso do corpo dele sobre o dela e o som da respiração acelerada que abafava o ruído do mundo.

No entanto, como se o destino testasse a sanidade de Emanuel, um choro agudo e manhoso começou a ecoar pelo monitor de bebê que Eduarda deixara sobre a pia.

Era Maya.

Eduarda congelou instantaneamente. Seus olhos se arregalaram e ela tentou se desvencilhar dos braços dele.

— Ela acordou, Manu... ela está chorando.

— Deixa ela chorar, Eduarda. Ela está segura. Ela está no berço.

— Não, ela está sofrendo! Ela tem o sono leve, você sabe... — Eduarda já estava tentando alcançar a toalha, o modo "mãe" reativado com uma força que Emanuel não conseguia combater.

— Eduarda, se você sair por aquela porta agora... — Emanuel parou, a voz vibrando de uma raiva fria.

Ela parou, olhando para ele com uma expressão dilacerada. De um lado, o homem que ela amava e que a desejava com uma intensidade que a fazia se sentir viva; do outro, a cria que precisava de seu consolo para voltar a dormir.

— Eu volto, Manu. Eu prometo. Eu só vou acalmá-la e volto.

Ela saiu correndo, enrolada na toalha, deixando Emanuel sozinho sob a água quente. Ele socou a parede do box, a dor no punho sendo um alívio pequeno perto da frustração que queimava em seu peito. Ele saiu do banho, vestiu apenas uma calça de moletom e foi até a porta do quarto dos gêmeos.

Eduarda já estava com Maya no colo, balançando-a de um lado para o outro. Arthur, acordado pelo barulho, já estava de pé no berço, esticando os braços e gritando por sua parte da atenção.

— Mama! Mama! — Arthur berrava, sua voz de "furacão" dominando o ambiente.

Emanuel encostou-se no batente da porta, observando a cena. Eduarda estava sentada novamente na poltrona, com Maya em um braço e tentando acalmar Arthur com a outra mão. Ela olhou para Emanuel, um pedido mudo de desculpas em seus olhos, mas ele não retribuiu o olhar.

Ele caminhou até o berço de Arthur, pegou o menino no colo com uma firmeza que fez o pequeno parar de gritar por um segundo, surpreso com a presença do pai.

— Você vai dormir, Arthur. Agora — Emanuel disse, a voz de comando que usava com seus funcionários, mas com uma camada de ternura bruta.

— Peito! — Arthur exigiu, apontando para Eduarda.

— Não. Agora é o meu tempo com a sua mãe. Você vai deitar e vai dormir.

Emanuel colocou o filho de volta no berço e ficou ali, parado, uma presença imponente e inabalável. Arthur tentou protestar, mas o olhar de Emanuel era um muro de ferro. O menino, reconhecendo a autoridade do "macho alpha" da casa, deitou-se, resmungando, mas vencido.

Maya, nos braços de Eduarda, também se acalmou, sentindo a mudança de energia no quarto. Emanuel aproximou-se de Eduarda, pegou a bebê dos braços dela e a colocou delicadamente no berço de volta.

— Manu, ela vai chorar de novo... — Eduarda sussurrou.

— Se ela chorar, eu fico aqui. Mas você vai para o nosso quarto. Agora.

— Mas...

— Eduarda — ele a interrompeu, a voz baixa e perigosa. — Eu não estou pedindo.

Ela se levantou, a toalha ainda úmida ao redor do corpo, e saiu do quarto como uma sombra. Emanuel ficou ali, no escuro, ouvindo a respiração dos filhos. Ele os amava mais do que a própria vida, mas sabia que, se não marcasse seu território, acabaria perdendo a si mesmo e ao relacionamento que mantinha aquela família unida.

Dez minutos depois, ele entrou em seu quarto principal. Eduarda estava deitada na cama imensa, coberta apenas por um lençol de seda, esperando por ele. O medo de ser uma "mãe ruim" ainda estava lá, mas o desejo de pertencer a Emanuel falava mais alto naquele momento.

— Eles dormiram? — ela perguntou quando ele se deitou ao lado dela.

— Dormiram. E vão continuar dormindo.

Ele a puxou para perto, sentindo o cheiro de lavanda e leite que emanava dela, misturado ao cheiro da água do banho. Ele a beijou com uma calma possessiva, reivindicando cada centímetro de sua pele.

— Eu te amo, Duda. Mas eu não vou ser um fantasma nesta casa.

— Eu te amo, Manu... me desculpa por ser tão manhosa. É que eu sinto que eles são tão parte de mim que dói quando eles choram.

— Eu sei. Mas você também é parte de mim. E dói quando você se afasta.

Naquela noite, Emanuel conseguiu o que queria. Não foi apenas o sexo, mas a reafirmação de que, apesar do caos dos três bebês e da presença dominante de Sara, Eduarda ainda era seu porto seguro, a doçura que equilibrava sua vida de ferro e tinta.

Pela manhã, o ciclo recomeçaria. Ágata acordaria exigindo atenção com seu jeito esnobe, Arthur derrubaria algo na cozinha, Maya choraria por um abraço e Sara estaria ditando ordens ao telefone enquanto tomava café. Emanuel estaria estressado, com olheiras e mil problemas para resolver.

Mas, enquanto observava Eduarda dormir profundamente ao seu lado, com a luz do sol começando a tocar o rosto dela, Emanuel soube que valia a pena. Ele era o centro daquelas vidas complexas, o homem que mantinha dois mundos opostos em órbita. E, por mais que o estresse o consumisse, ele não saberia viver de outra forma. O império de Emanuel não era feito apenas de estúdios e dinheiro; era feito de carne, sangue, leite e do amor feroz que ele sentia por suas duas mulheres e seus três pequenos herdeiros.

Ele se levantou, deu um beijo leve no ombro de Eduarda e preparou-se para enfrentar o furacão do dia. Afinal, um rei nunca descansa, especialmente quando seu reino é governado pelo coração.