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O Asfalto e a Tensão
O sol da manhã refletia no metal polido do ônibus de luxo estacionado em frente à mansão de Emanuel. Não era um veículo comum; era um motorhome personalizado, com acabamento em couro, suítes privativas e um sistema de som que poderia rivalizar com qualquer estúdio de tatuagem de renome. A ideia da viagem partira dos amigos de Emanuel, uma tentativa de aliviar o estresse crônico que o empresário carregava, mas o clima dentro do veículo, antes mesmo de darem a partida, já estava saturado.
Emanuel terminava de carregar as malas, o rosto fechado em uma máscara de cansaço. Ele usava uma regata preta que deixava à mostra as tatuagens intrincadas que subiam pelo seu pescoço, o suor brilhando levemente em seus ombros largos.
— Eu juro, Emanuel, se essa criança não parar de gritar nos próximos cinco minutos, eu vou pedir para o motorista nos deixar no primeiro acostamento e voltamos de helicóptero — disparou Sara, surgindo na porta do ônibus com Valentina no colo.
Sara estava impecável, como sempre. Usava um conjunto de linho branco que realçava seu bronzeado e seus cabelos loiros platinados, mas a expressão era de puro ódio. Valentina, com apenas nove meses, parecia estar em um de seus piores dias. A bebê não chorava de dor ou fome; era um choro autoritário, um protesto estridente contra o fato de estar sendo contida.
— Ela está sentindo o calor, Sara. Tenha paciência — respondeu Emanuel, pegando a bolsa de fraldas de grife das mãos da namorada.
— Paciência? Eu estou sem dormir desde as quatro da manhã porque a "sua majestade" decidiu que não queria o berço — Sara retrucou, entregando a bebê para Emanuel com um suspiro de alívio. — Ela está um porre, Emanuel. Um porre esnobe que não aceita nada que eu ofereço. Parece que puxou a você no quesito teimosia.
Emanuel suspirou, sentindo o peso da pequena Valentina em seus braços. A bebê imediatamente parou de gritar ao sentir o contato com o pai, mas manteve um biquinho de desprezo, os olhos claros fixos no movimento ao redor.
Nesse momento, um carro pequeno e discreto estacionou logo atrás do ônibus. Eduarda desceu, parecendo uma visão de suavidade em meio ao caos. Ela usava um vestido de malha leve, cor de pêssego, e trazia uma mochila pequena nas costas. Ao ver Emanuel, um brilho de timidez e carinho iluminou seu rosto, mas a visão de Sara logo atrás dele fez seus ombros encolherem levemente.
— Oi... — sussurrou Eduarda, aproximando-se com passos curtos.
Emanuel sentiu uma onda instantânea de alívio. A presença de Eduarda era como um bálsamo para seus nervos. Ele caminhou até ela, ignorando o olhar irônico de Sara, e depositou um beijo demorado na testa da namorada mais jovem.
— Achei que você fosse desistir — disse ele, a voz baixando para um tom mais suave, quase protetor.
— Eu prometi que vinha — ela respondeu, fazendo um carinho distraído no pé de Valentina. — Oi, bebê. Você está brava hoje?
Valentina apenas desviou o olhar, agarrando a camiseta de Emanuel com uma possessividade infantil que fez Sara soltar uma risada curta.
— Viu só, Duda? Nem ela está com paciência para gentilezas hoje — comentou Sara, encostando-se no batente da porta do ônibus, cruzando as pernas e exibindo o corpo curvilíneo. — Entre logo. O ar-condicionado está no máximo e eu preciso de um drink antes que a gente saia desse asfalto.
A viagem começou com o motor ronronando baixo. O grupo de amigos de Emanuel ocupava a parte traseira do ônibus, rindo e abrindo cervejas, mas na área VIP da frente, o silêncio era tenso. Sara estava sentada em uma das poltronas giratórias, revisando planilhas no iPad, enquanto Valentina se recusava a ficar no cercadinho acolchoado, preferindo se arrastar pelo tapete caro, derrubando tudo o que encontrava pelo caminho.
Eduarda, sentada no sofá lateral, observava a cena com o coração apertado. Ela se sentia deslocada. Emanuel tentava se dividir entre as duas, mas o estresse da administração dos estúdios, que Sara fazia questão de discutir em voz alta, o mantinha preso em conversas sobre lucros e expansões em Londres.
— Emanuel, olhe para este relatório — Sara dizia, apontando para a tela. — O estúdio de Camden está com uma quebra de estoque de tintas. Eu avisei que aquele gerente era um incompetente, mas você insiste em manter pessoas por "lealdade". Lealdade não paga as contas da Valentina.
— Eu resolvo isso quando chegarmos ao hotel, Sara. Agora não — Emanuel respondeu, massageando as têmporas.
Eduarda, percebendo a tensão dele, levantou-se silenciosamente e sentou-se ao lado dele, encostando a cabeça em seu ombro. Ela era manhosa por natureza, e sabia que Emanuel respondia bem ao seu afeto silencioso.
— Você quer que eu faça uma massagem? — ela perguntou, a voz doce e baixa, quase um sussurro contra o pescoço dele.
Emanuel fechou os olhos por um segundo, sentindo o cheiro de baunilha que emanava da pele de Eduarda.
— Seria ótimo, pequena.
— Ah, que fofo — interrompeu Sara, sem tirar os olhos do iPad. — Enquanto a "princesinha" faz massagem, quem é que vai segurar a Valentina? Porque eu já fiz minha cota de babá por hoje e tenho uma empresa para gerir.
Emanuel abriu os olhos, a irritação voltando com força total.
— A Valentina é sua filha, Sara. E você não está gerindo a empresa agora, você está em uma viagem de férias.
— Férias para quem não tem responsabilidade, querido — Sara retrucou, levantando o olhar, as íris azuis faiscando. — Alguém tem que garantir que o império continue de pé enquanto você se perde nesses olhinhos de jabuticaba da Eduarda.
— Eu posso cuidar dela — disse Eduarda, sentindo a insegurança crescer, mas querendo ser útil. — Eu fico com a Valentina no sofá.
— Você? — Sara riu, uma risada irônica que não chegava aos olhos. — Duda, querida, você não consegue nem decidir se quer morar com o próprio namorado, como vai dar conta de uma bebê que tem mais personalidade que você? A Valentina vai te engolir viva.
Eduarda baixou o rosto, os cabelos castanhos escondendo sua expressão de mágoa. Emanuel sentiu a proteção vibrar em seu peito. Ele odiava quando Sara usava sua inteligência verbal para diminuir Eduarda.
— Chega, Sara — ele ordenou, a voz num tom baixo que indicava perigo. — Eduarda, venha aqui.
Ele a puxou para o seu colo, ignorando o fato de que estavam em um ônibus em movimento. Eduarda se encolheu contra ele, buscando abrigo em seus braços fortes. Emanuel a apertou, sentindo a fragilidade dela, aquele corpo esguio que parecia feito de porcelana.
— Não dê ouvidos a ela — ele sussurrou no ouvido de Eduarda. — Você é perfeita do seu jeito.
— Eu só queria ajudar... — ela murmurou, a voz embargada.
Enquanto isso, Valentina, percebendo que não era mais o centro das atenções, soltou um grito agudo e começou a puxar a barra do vestido de Sara.
— Viu só? — Sara exclamou, irritada. — Agora ela quer colo. Emanuel, pegue sua filha. Eu vou para o quarto lá atrás tentar ter cinco minutos de paz.
Sara entregou a bebê para Emanuel de qualquer jeito e saiu pisando duro, seus saltos batendo contra o piso do ônibus. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do motor e pelos resmungos de Valentina.
Emanuel suspirou, agora com Eduarda em um braço e Valentina no outro. Era a imagem perfeita do seu conflito central: a doçura que ele queria proteger e a responsabilidade que ele não podia abandonar.
— Ela me odeia, não é? — perguntou Eduarda, olhando para a porta por onde Sara passara.
— Ela não te odeia, Duda. Sara só não sabe lidar com nada que ela não possa controlar. E ela não controla você. Nem a mim — Emanuel explicou, ajeitando Valentina, que agora olhava para Eduarda com uma curiosidade esnobe, como se avaliasse a namorada do pai.
— Eu me sinto tão pequena perto de vocês dois — confessou Eduarda, fazendo um biquinho manhoso. — Vocês têm essa vida agitada, a empresa, a bebê... e eu sou só a estudante de história que tem medo de mudar de casa.
Emanuel segurou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele.
— Você é o meu equilíbrio, Eduarda. Se eu vivesse apenas no mundo da Sara, eu já teria enlouquecido. Eu preciso da sua paz. Mas eu preciso que você esteja comigo. De verdade.
— Você vai começar de novo com o assunto da mudança? — ela perguntou, tentando se esquivar.
— Vou. Porque cada vez que vejo você indo embora para a casa dos seus pais, eu sinto que estou deixando uma parte de mim para trás. Este ônibus é grande o suficiente para todos nós. A minha casa é grande o suficiente. Por que você insiste em manter essa distância?
Eduarda brincou com o colar de Emanuel, evitando seus olhos.
— Eu tenho medo de que, se eu morar com vocês, eu deixe de ser a "Duda" e vire apenas mais uma peça do seu mundo. Eu não quero ser como a Sara, Emanuel. Eu não quero viver em função de planilhas e estresses de estúdio.
— Você nunca será como ela — ele afirmou com convicção. — Eu não quero duas Saras. Eu quero você.
Nesse momento, Valentina esticou a mãozinha e puxou uma mecha do cabelo de Eduarda. Não foi um puxão agressivo, mas foi firme. Eduarda soltou um ganido de surpresa, e a bebê deu um sorrisinho de lado, quase idêntico ao de Sara quando conseguia o que queria.
— Ai, Valentina! — Eduarda riu, apesar da dorzinha. — Você é mesmo uma figurinha.
A bebê soltou o cabelo e, para surpresa de Emanuel, inclinou o corpo para frente, apoiando a cabeça no peito de Eduarda. Foi um gesto raro de vulnerabilidade da pequena "esnobe".
— Acho que ela gosta de você — comentou Emanuel, surpreso. — Ela raramente faz isso com alguém que não seja eu ou a Sara.
Eduarda sentiu o coração derreter. O contato da bebê, tão pequena e quente contra ela, despertou um instinto que ela nem sabia que possuía. Ela começou a balançar Valentina suavemente, cantando uma melodia baixa que aprendera nas aulas de artes.
— Viu? — Emanuel sussurrou, observando as duas. — Você leva jeito.
A paz durou pouco. Cerca de vinte minutos depois, Sara voltou, já com um copo de espumante na mão e uma expressão renovada de deboche.
— Que cena bucólica — ela disse, sentando-se na poltrona à frente deles. — A Madona e a criança. Só falta o halo de luz.
— Ela dormiu, Sara — disse Eduarda, orgulhosa de si mesma.
Sara olhou para a filha, que realmente ressonava no colo de Eduarda. Uma pontada de algo que parecia ciúme, mas que ela jamais admitiria, passou por seus olhos.
— Ótimo. Aproveite o silêncio, porque quando ela acordar, vai querer comer, e duvido que você saiba preparar a fórmula exata que o pediatra exigiu.
— Eu posso aprender — retrucou Eduarda, sentindo-se mais corajosa.
— Claro que pode, querida. Assim como pode aprender a ser uma mulher de verdade e parar de se esconder atrás dos seus pais — Sara disparou, bebendo um gole generoso do espumante. — Emanuel, o pessoal lá atrás está perguntando quando vamos abrir a próxima garrafa. Eles querem comemorar o sucesso da convenção de tatuagem.
— Eu já vou lá — disse Emanuel, mas ele não se moveu. Ele continuou ali, com o braço ao redor de Eduarda, sentindo o peso das duas mulheres mais importantes de sua vida.
A viagem de ônibus continuava, cruzando as estradas sob o sol quente. Por fora, parecia um passeio de luxo entre amigos e família. Por dentro, era um laboratório de emoções humanas. Sara, com sua vulgaridade polida e sua competência agressiva, tentava manter seu território. Eduarda, com sua doçura manhosa e sua insegurança latente, tentava encontrar seu espaço sem ser esmagada.
E Emanuel, no centro de tudo, sentia que o controle que tanto prezava era apenas uma ilusão. Ele olhou para a estrada à frente, sabendo que, quando chegassem ao destino, as tensões apenas aumentariam. Ele queria as duas. Ele amava as duas de formas que elas jamais entenderiam. Mas a pergunta que não saía de sua mente era: por quanto tempo ele conseguiria manter esses dois mundos colidindo sem que tudo explodisse em mil pedaços?
Valentina soltou um suspiro pesado em seu sono, e Emanuel beijou o topo da cabeça da filha, e depois o ombro de Eduarda.
— Vai dar tudo certo — ele disse, mais para si mesmo do que para elas.
— Vai? — perguntou Eduarda, olhando para Sara, que já estava de volta ao iPad, ignorando a todos.
Emanuel não respondeu. Ele apenas apertou a mão de Eduarda com mais força, enquanto o ônibus seguia caminho, levando-os para um destino onde o luxo não seria capaz de esconder as rachaduras em seus corações.