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O Mistério do Abacaxi e a Doçura do Caos
A rotina na mansão de Emanuel seguia um fluxo que muitos considerariam impossível, mas que para eles era a única forma de existência. Entre a administração férrea de Sara e a presença etérea e manhosa de Eduarda, Emanuel equilibrava-se como o pilar central de um templo erguido sobre desejos e responsabilidades. No entanto, nas últimas semanas, um detalhe peculiar começara a se infiltrar em sua vida doméstica, algo que nem mesmo sua mente lógica e treinada para observar detalhes conseguia decifrar.
Tudo começara com uma mudança sutil na fruteira da cozinha e, consequentemente, em seu cardápio diário.
— Emanuel, querido, abra a boca. Só mais um pedacinho — pediu Eduarda, aproximando-se dele enquanto ele revisava alguns esboços de tatuagens minimalistas em seu tablet, sentado na poltrona do escritório.
Emanuel levantou os olhos, encontrando a expressão doce e os lábios levemente entreabertos de Eduarda. Ela segurava um garfo com um cubo de abacaxi perfeitamente cortado, suculento e dourado.
— Duda, eu já comi quase metade da fruta no café da manhã — comentou ele, embora já estivesse abrindo a boca por puro reflexo de proteção e carinho. — Por que essa obsessão súbita por abacaxi?
— É bom para a saúde, você sabe — ela respondeu com uma voz manhosa, deslizando a fruta para a boca dele e sorrindo ao vê-lo mastigar. — Tem vitaminas, ajuda na digestão... e eu quero que você fique sempre muito, muito saudável para nós.
Emanuel engoliu, sentindo a acidez doce da fruta. Ele não reclamava da atenção; na verdade, gostava de como Eduarda buscava esses pequenos momentos de cuidado físico. Mas o padrão estava se tornando repetitivo. Era abacaxi gelado pela manhã, suco de abacaxi no almoço e pedaços da fruta como sobremesa antes de dormirem.
— Se eu começar a brilhar em amarelo, a culpa é sua — brincou ele, puxando-a para sentar em seu colo.
Eduarda riu, escondendo o rosto no pescoço dele. Ela não disse o verdadeiro motivo. Como poderia? A ideia surgira após uma conversa aleatória em um fórum de curiosidades que ela encontrara enquanto pesquisava sobre arte barroca. "O consumo excessivo de abacaxi altera o sabor dos fluidos corporais, tornando-os mais doces", dizia o post. Desde então, a curiosidade de Eduarda, movida por sua natureza intuitiva e às vezes infantilmente experimental, não a deixara em paz. Ela queria testar. Queria saber se o seu Emanuel, o homem que cheirava a tinta e couro, poderia se tornar "doce" de uma maneira literal.
— Você está me escondendo alguma coisa, não está? — Emanuel perguntou, estreitando os olhos de forma observadora, percebendo o brilho travesso no olhar dela.
— Eu? Imagina, Manu... só quero cuidar de você — ela mentiu, dando-lhe um beijo casto e saindo do colo dele saltitante. — Não esqueça o suco que deixei na mesa!
Emanuel suspirou e voltou ao trabalho. Horas depois, ele se encontrou na cozinha, onde Sara estava debruçada sobre o balcão, analisando planilhas de custos do novo estúdio em Tóquio enquanto bebia uma taça de vinho branco.
— O que é isso no seu hálito? — perguntou Sara, sem tirar os olhos do iPad, mas franzindo o nariz levemente. — Cheiro de... fruta cítrica?
— Abacaxi — Emanuel respondeu, servindo-se de um copo de água. — Eduarda está me entupindo disso há dez dias.
Sara finalmente levantou o olhar, uma sobrancelha loira perfeitamente desenhada subindo em sinal de interrogação. Ela olhou para a fruteira, que continha três abacaxis inteiros esperando para serem descascados.
— Abacaxi? Todo dia? — Sara soltou uma risada curta e irônica. — Aquela menina é estranha, Emanuel. Mas ela é esperta. Talvez ela tenha lido alguma dieta detox ou algo do tipo.
— Ela diz que é pela minha saúde. Mas o jeito que ela me olha quando eu como... parece que está esperando um experimento científico dar certo — comentou ele, encostando-se no balcão.
— Bom, contanto que ela não tente te transformar em um vegano radical, eu não ligo — Sara deu de ombros, voltando às planilhas. — Mas confesso que o estoque de abacaxi desta casa está começando a afetar o orçamento do hortifrúti.
À noite, o ambiente na suíte principal era de uma calma enganosa. Arthur e Ágata já dormiam, e a pequena Maya estava no berço ao lado da cama de Eduarda. Emanuel entrou no quarto e encontrou Eduarda sentada na cama, usando uma camisola de seda leve, com uma pequena tigela de... abacaxi.
— De novo, Duda? — Emanuel perguntou, soltando um riso incrédulo enquanto desabotoava a camisa.
— É o último do dia, eu juro! — ela disse, fazendo um biquinho irresistível. — Come comigo? É o mais doce de todos.
Emanuel caminhou até ela, sentando-se na beira da cama. Ele aceitou o pedaço, sentindo o açúcar natural da fruta. Eduarda o observava com uma intensidade quase clínica, os olhos fixos em cada movimento de sua garganta.
— Satisfeita? — ele perguntou, limpando o canto da boca com o polegar.
— Muito — ela sussurrou, aproximando-se e abraçando-o por trás, sentindo os músculos das costas dele. — Agora podemos dormir... ou não.
No dia seguinte, a curiosidade de Emanuel atingiu o limite. Ele decidiu que precisava entender o que estava acontecendo, mas não perguntaria a Eduarda diretamente; ele conhecia a timidez dela e sabia que, se houvesse algo "embaraçoso" por trás, ela apenas ficaria vermelha e se calaria.
Ele aproveitou um momento em que Sara estava no jardim brincando com as crianças e Eduarda estava no banho para dar uma olhada rápida no histórico do tablet que ela usava para a faculdade. Ele sabia que era uma invasão de privacidade leve, mas sua natureza controladora e protetora não permitia que ele ficasse no escuro.
Não demorou muito para encontrar. Entre abas sobre "Michelangelo" e "Restauração de Afrescos", havia uma página aberta com o título: "Mitos e Verdades: A alimentação pode mudar o sabor do sêmen?".
Emanuel congelou por um segundo, os olhos percorrendo o texto. Ele sentiu uma mistura de choque, diversão e uma ternura avassaladora.
— Então é isso... — murmurou ele, fechando a aba e devolvendo o tablet ao lugar.
Ele sentou-se na poltrona e soltou uma gargalhada baixa, cobrindo o rosto com as mãos. Eduarda, sua doce e ingênua Eduarda, estava tentando "adoçá-lo" para o seu próprio prazer e curiosidade. Era tão típico dela — uma mistura de inocência e um desejo silencioso de explorar a intimidade deles de formas que ela não tinha coragem de verbalizar.
Naquela tarde, Sara entrou no escritório e encontrou Emanuel com um sorriso enigmático no rosto.
— O que foi? Recebeu o pagamento daquela celebridade de Nova York? — perguntou ela, jogando-se na cadeira à frente dele.
— Não. Eu descobri o mistério do abacaxi — ele respondeu, cruzando os braços sobre o peito tatuado.
— E então? Ela quer que você vire um modelo de anúncios de suco?
Emanuel balançou a cabeça, o sorriso aumentando.
— É melhor que isso, Sara. Mas é um segredo entre mim e a Duda. Digamos apenas que ela está muito interessada na química orgânica do meu corpo.
Sara estreitou os olhos, processando a frase, e então soltou uma gargalhada sonora, jogando a cabeça para trás.
— Não acredito! Aquela santinha? — Sara limpou uma lágrima de riso do canto do olho. — Emanuel, você realmente encontrou a combinação perfeita. Uma mulher que gerencia sua vida e outra que quer temperar suas... partes.
— Sara, por favor — ele pediu, embora estivesse rindo também.
— Ah, não venha com pudores agora! — ela provocou. — E então, o experimento está funcionando? Você está se sentindo mais "frutado"?
— Eu não vou responder a isso — Emanuel levantou-se, voltando sua atenção para os desenhos, mas o rubor leve em seu pescoço não passou despercebido por Sara.
À noite, o jantar foi tranquilo, mas Emanuel não conseguia parar de olhar para Eduarda. Ele a via sob uma nova luz — não apenas como a menina frágil que precisava de proteção, mas como uma mulher que, à sua maneira silenciosa e manhosa, estava tomando as rédeas de sua vida sexual e explorando seus desejos.
Depois que as crianças foram colocadas para dormir e Sara se retirou para seu próprio quarto para resolver algumas chamadas internacionais, Emanuel encontrou Eduarda na cozinha, cortando — para a surpresa de ninguém — mais um abacaxi.
Ele caminhou até ela por trás, envolvendo sua cintura com os braços e sentindo o calor do corpo dela. Eduarda relaxou contra ele, soltando um suspiro satisfeito.
— Sabe, Duda... — ele sussurrou em seu ouvido, fazendo-a estremecer. — Eu estive pensando sobre essa sua dieta de abacaxi.
— É? E o que você pensou? — ela perguntou, a voz ficando pequena e tímida.
— Pensei que talvez você devesse parar de fazer experimentos em segredo e apenas me dizer o que você quer testar — ele virou-a de frente para si, mantendo-a presa entre o balcão e seu corpo.
Eduarda arregalou os olhos, o rosto tornando-se instantaneamente carmesim.
— Você... você sabe? — ela gaguejou, tentando desviar o olhar.
— Eu vi o seu tablet — ele confessou, sem um pingo de arrependimento. — E embora eu aprecie o esforço pela minha saúde, eu acho que o teste final requer uma avaliação mais detalhada. Não acha?
Eduarda escondeu o rosto no peito dele, soltando um gemido de vergonha.
— Eu só... eu li que era verdade e fiquei curiosa. Você sempre faz tudo por mim, Manu. Eu queria fazer algo que... que fosse bom para você também. De um jeito diferente.
Emanuel levantou o queixo dela, forçando-a a olhá-lo. A doçura nos olhos de Eduarda era algo que ele nunca cansaria de contemplar.
— Tudo o que vem de você é bom para mim, pequena — ele disse, sua voz ficando mais grave e carregada de desejo. — Mas se você quer tanto saber o resultado desse seu experimento... eu acho que não deveríamos perder mais tempo com o lanche.
Ele a pegou no colo, e Eduarda soltou uma pequena exclamação de surpresa, passando os braços ao redor do pescoço dele. Enquanto subiam as escadas, passaram pela porta do quarto de Sara, que estava entreaberta.
— E então? — a voz de Sara ecoou lá de dentro, carregada de sarcasmo e diversão. — O laboratório está aberto para testes?
— Boa noite, Sara! — Emanuel respondeu sem parar de caminhar.
— Boa noite, Sara... — Eduarda murmurou, morrendo de vergonha, mas apertando-se mais contra Emanuel.
Dentro do quarto, o mundo exterior desapareceu. Emanuel a colocou sobre a cama com uma delicadeza que contrastava com a fúria de sua fome por ela. Ele a despiu lentamente, apreciando cada centímetro da pele macia que ele conhecia tão bem, mas que agora parecia carregar uma nova eletricidade.
— Você ainda quer saber? — ele perguntou, pairando sobre ela, seus olhos negros fixos nos dela.
— Sim — ela sussurrou, a timidez dando lugar a uma entrega absoluta. — Eu quero tudo de você.
O que se seguiu foi uma noite de descobertas e uma intimidade que parecia renovada. Emanuel se entregou ao jogo dela, permitindo que Eduarda explorasse, provasse e se deleitasse com o resultado de sua persistência frutada. Havia algo de profundamente lúdico e, ao mesmo tempo, intensamente erótico na forma como ela se dedicava a ele, buscando confirmar suas teorias com uma dedicação que só alguém tão apaixonada quanto ela poderia ter.
Horas depois, quando a respiração de ambos estava voltando ao normal e o suor esfriava em seus corpos, Eduarda estava aninhada no peito de Emanuel, traçando com o dedo as linhas de uma tatuagem em seu braço.
— E então, Dra. Eduarda? — ele brincou, beijando o topo da cabeça dela. — Qual o veredito da pesquisa?
Eduarda soltou uma risadinha baixa, sentindo-se vitoriosa e imensamente amada.
— É conclusivo — ela respondeu, subindo para beijar os lábios dele. — Definitivamente... muito doce.
Emanuel sorriu, puxando o edredom sobre eles.
— Fico feliz em ajudar na sua educação científica. Mas amanhã, podemos ter um pouco de morango? Só para variar o paladar?
— Vou pensar no seu caso — ela disse, fechando os olhos e caindo em um sono profundo e tranquilo.
Na manhã seguinte, a mansão acordou com o som habitual das crianças correndo. Emanuel desceu as escadas sentindo-se mais leve do que em meses. Quando chegou à cozinha, Sara já estava lá, servindo café para Arthur e Ágata. Ela olhou para Emanuel e depois para Eduarda, que vinha logo atrás com Maya no colo, radiante.
Sara apenas levantou sua xícara de café em um brinde silencioso, um sorriso cúmplice brincando em seus lábios. Ela não precisava perguntar nada; a satisfação no rosto de Emanuel e a nova confiança no andar de Eduarda diziam tudo.
— O abacaxi acabou — anunciou Sara, apontando para a fruteira vazia. — Vou pedir para o motorista buscar mais?
Emanuel olhou para Eduarda, que ficou levemente vermelha, mas sustentou o olhar.
— Não precisa, Sara — disse Emanuel, puxando uma cadeira para Eduarda e beijando sua bochecha. — Acho que já atingimos a cota de açúcar por um tempo. Vamos focar no café preto por hoje.
— Graças a Deus — resmungou Sara, rindo. — Eu já estava começando a me sentir em uma plantação tropical.
O café da manhã seguiu com a alegria de sempre. Emanuel observava suas duas mulheres e seus três filhos, sentindo que, apesar das estranhezas, das tensões e dos experimentos com frutas, aquela era a vida que ele escolheria mil vezes. Ele era o protetor de um reino onde a força de Sara e a doçura de Eduarda coexistiam em um equilíbrio perfeito. E se, de vez em quando, ele precisasse comer um quilo de abacaxi para ver o sorriso de satisfação no rosto de sua pequena Duda, ele o faria sem hesitar. Afinal, em seu mundo de tinta e sombras, a doçura era um luxo que ele agora sabia exatamente como cultivar.