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D

O Preço da Proteção

A noite em um dos bairros mais arborizados e tranquilos da cidade foi estilhaçada pelo som seco e metálico de disparos de arma de fogo. Para os pais de Eduarda, jovens, modernos e acostumados com a segurança de uma rua de classe média alta, o evento foi um choque. Para o homem que foi morto na calçada a poucos metros do portão deles, foi o fim. Mas para Emanuel, quando recebeu a notícia através de um de seus contatos na segurança privada, foi o pretexto final que ele precisava.

No apartamento luxuoso de Emanuel, o clima era de guerra iminente. Ele não estava mais doente; a febre da gripe fora substituída por uma febre de possessividade e fúria protetora. Ele andava de um lado para o outro na sala, o celular colado ao ouvido, enquanto Sara o observava do sofá, bebendo uma taça de vinho tinto e lixando as unhas com uma indiferença calculada.

— Eu não quero saber se a perícia ainda está lá, Marcos! — Emanuel rugiu no telefone. — Eu quero um carro na porta da casa dela agora. Se os pais dela reclamarem, diga que é por ordem minha. Eu estou saindo daqui em cinco minutos.

Ele desligou o aparelho e o jogou sobre a mesa de centro, fazendo um barulho surdo que assustou Maya, que brincava no tapete. A bebê, ao ver a expressão sombria do pai, começou a chorar, um som manhoso que imediatamente atraiu a atenção de Sara.

— Emanuel, pelo amor de Deus, abaixe o tom — Sara disse, sem tirar os olhos da unha. — Você está assustando a sua miniatura de estimação. E, francamente, para que esse escândalo todo? Foi um assassinato na rua, não uma invasão domiciliar. Essas coisas acontecem, querido. O mundo é um lugar vulgar, você deveria saber disso melhor do que ninguém.

Emanuel parou e olhou para Sara com os olhos faiscando.

— Um homem foi executado na frente da casa dela, Sara! Na frente! — Ele gesticulou violentamente. — A Eduarda é lenta, é distraída, ela poderia estar chegando da faculdade e ser pega no fogo cruzado. Eu avisei. Eu disse que aquela rua era um alvo fácil.

— Aquela rua é um bunker comparada a metade dos lugares onde você tem estúdios — Sara retrucou, levantando-se com elegância. O robe de seda deslizava por suas curvas, e ela exalava uma confiança que contrastava com o caos emocional de Emanuel. — Mas eu sei o que você está fazendo. Você está usando esse pobre coitado que morreu para forçar a mão dela, não é? Oportunista como sempre.

— Eu estou protegendo o que é meu — ele sentenciou, pegando as chaves do carro. — Ela vem morar aqui hoje. Nem que eu tenha que carregá-la no ombro enquanto ela chora.

— Boa sorte com isso — Sara riu, um som seco e irônico. — Se ela vier, espero que traga menos livros e mais disposição, porque eu não vou aguentar duas "Mayas" choramingando pelos cantos porque o mundo é cruel. Ágata! — chamou ela, e a outra gêmea, que estava sentada quietinha em seu cercadinho observando tudo com um olhar de tédio profundo, esticou os bracinhos. — Viu? Essa aqui tem nervos de aço. Aprenda com ela, Emanuel.

Emanuel não respondeu. Ele saiu batendo a porta, o som ecoando pelo corredor do prédio.

A viagem até a casa dos pais de Eduarda foi feita em tempo recorde. Quando ele dobrou a esquina, as luzes azuis e vermelhas das viaturas de polícia ainda refletiam nas janelas das casas. Havia uma fita isolante amarela atravessando a rua. Emanuel parou o carro de qualquer jeito, saltou e caminhou em direção ao cordão policial com uma autoridade que fez os oficiais hesitarem antes de pará-lo.

— Eu sou o proprietário daquela casa — ele mentiu com convicção, apontando para a residência dos pais de Eduarda. — Minha família está lá dentro. Saiam da frente.

Ele passou pela barreira e entrou no jardim. A porta da frente se abriu antes que ele pudesse bater. O pai de Eduarda, um homem que parecia mais um irmão mais velho do que um sogro, estava com uma expressão preocupada.

— Emanuel? O que você está fazendo aqui? Está tudo bem, a polícia já disse que foi um acerto de contas, nada com a gente...

— Cadê ela? — Emanuel perguntou, ignorando as explicações.

— No quarto, com a mãe. Ela ficou muito abalada com os gritos, você sabe como ela é sensível...

Emanuel não esperou o resto da frase. Ele subiu as escadas de dois em em dois degraus. O quarto de Eduarda era um santuário de tons pastéis, livros de história da arte e o cheiro doce de baunilha. Ela estava sentada na cama, abraçada às pernas, com os olhos castanhos vermelhos de tanto chorar.

— Manu? — ela soltou um soluço ao vê-lo. — Foi horrível... o barulho...

Emanuel atravessou o quarto e a envolveu em um abraço tão apertado que ela perdeu o fôlego. Mas não era apenas um abraço de conforto; era um abraço de posse.

— Acabou, Eduarda — ele disse, com a voz vibrando contra o topo da cabeça dela. — Você não passa mais nem uma hora nesta casa.

— O quê? Manu, eu não posso simplesmente...

— Você pode e você vai — ele a afastou um pouco para olhar nos olhos dela. A rigidez no rosto dele era assustadora. — Eu te pedi com educação. Eu esperei. Eu tentei entender o seu tempo. Mas o seu "tempo" quase te colocou no meio de um necrotério hoje. Eu não vou negociar a sua vida.

— Meus pais estão aqui, eu estou segura dentro de casa — ela tentou argumentar, a voz trêmula.

— Segurança é uma ilusão que você não pode mais pagar — Emanuel declarou. Ele se virou para o closet dela e pegou uma mala grande que estava no maleiro. — Começa a colocar o essencial. O resto eu mando uma equipe buscar amanhã.

— Emanuel, você está me assustando — Eduarda murmurou, levantando-se devagar.

— Ótimo. Talvez o medo te faça ter juízo — ele disse, começando a jogar roupas dentro da mala sem critério nenhum. — A Maya está lá em casa chorando por você. A Sara está perdendo a paciência. E eu estou prestes a ter um colapso porque não consigo dormir sabendo que você está a quilômetros de distância de mim em uma rua onde as pessoas são executadas na calçada. Você vem comigo agora, Eduarda. Por bem... ou por mal.

Eduarda olhou para a mãe, que apareceu na porta do quarto com uma expressão dividida. Os pais dela, modernos e liberais, sempre acharam a relação de Eduarda com Emanuel e Sara um tanto "exótica", mas respeitavam o amor que viam ali. No entanto, a intensidade de Emanuel naquele momento era inegável.

— Talvez seja melhor, querida — a mãe dela sussurrou. — Pelo menos por uns tempos, até as coisas se acalmarem por aqui.

Eduarda sentiu o peso da derrota, mas, no fundo, uma parte de sua alma manhosa e necessitada de proteção sentiu um alívio imenso. Ela gostava de ser cuidada, gostava da sensação de que Emanuel moveria o mundo para mantê-la a salvo.

— Tudo bem — ela cedeu, limpando as lágrimas. — Eu vou.

A viagem de volta foi silenciosa. Eduarda olhava pela janela, vendo a vida que conhecia ficar para trás, enquanto a mão de Emanuel apertava a sua coxa com uma firmeza possessiva. Ele não soltou ela nem por um segundo.

Quando chegaram ao apartamento, a porta se abriu para o cenário habitual de luxo e leve caos. Sara estava na cozinha, tomando o que parecia ser um martini, enquanto a babá colocava as gêmeas no cercadinho da sala.

— Olha só quem a fera trouxe na coleira — Sara comentou, encostando-se no balcão de mármore. Ela usava um conjunto de lingerie preta sob um robe transparente, o silicone bem marcado e a expressão de quem estava pronta para a batalha. — Bem-vinda à sua nova prisão, Duda. Espero que tenha trazido tampões de ouvido, porque a Ágata decidiu que quer ser uma soprano às três da manhã.

Eduarda não respondeu. Ela estava exausta. Mas assim que Maya a viu, a reação foi instantânea. A bebê, que estava choramingando baixinho, deu um grito de alegria pura e começou a balançar as grades do cercadinho.

— Dada! Dada! — a pequena gritou, esticando os braços.

Eduarda correu até ela, pegando o seu "grudinho" no colo. O contato com a pele da bebê e o cheiro de talco pareceram ancorá-la. Maya enterrou o rosto no pescoço de Eduarda, soltando suspiros de satisfação.

— Viu? — Emanuel disse, aproximando-se das duas e envolvendo-as em seus braços largos. — É aqui que você deve estar. Comigo. Com elas.

Sara revirou os olhos, mas caminhou até o grupo, parando ao lado de Emanuel. Ela estendeu a mão e acariciou o cabelo de Ágata, que estava no colo da babá, observando a cena com seu habitual desdém infantil.

— Bom, já que a família está completa e o drama policial acabou, vamos estabelecer as regras — Sara disse, apontando o dedo para Eduarda. — Eu não divido closet. Eu não divido meu tempo de massagem. E se a Maya começar a chorar porque você saiu para ir à faculdade, o problema é seu. Eu não sou receptáculo de drama alheio.

— Eu sei, Sara — Eduarda respondeu baixinho, abraçando Maya com mais força. — Eu só quero um pouco de paz.

— Paz? — Sara soltou uma risada curta e sonora. — Querida, você veio morar com o Emanuel e comigo. A última coisa que você vai ter aqui é paz. Mas, pelo menos, ninguém vai te dar um tiro na calçada. O máximo que pode acontecer é eu te matar de inveja com os meus sapatos novos.

Emanuel sorriu, uma expressão de triunfo absoluto. Ele beijou a testa de Eduarda e depois a de Sara.

— Eu vou pedir algo para comemorar — ele anunciou. — Hoje é a primeira noite da nossa família sob o mesmo teto. Definitivamente.

— Comemore pedindo algo que venha com muito champanhe — Sara sugeriu, dando um tapa leve no ombro de Emanuel. — Porque eu vou precisar de álcool para aguentar essa atmosfera de "comercial de margarina" que vocês dois estão exalando.

A noite avançou. Eduarda acomodou suas coisas em um dos quartos de hóspedes que Emanuel já havia preparado há meses, embora ele tivesse deixado claro que ela dormiria no quarto principal com ele e Sara na maioria das vezes. O apartamento, que antes parecia grande demais, agora parecia pulsante.

Maya não desgrudava de Eduarda. A bebê parecia ter medo de que, se soltasse a "tia" Duda, ela desapareceria novamente para aquela casa longe dali. Ágata, por outro lado, estava perfeitamente feliz no colo de Sara, observando as luzes da cidade pela janela de vidro do chão ao teto, como uma pequena rainha observando seu reino.

Enquanto Emanuel terminava de organizar a mudança improvisada, ele parou na porta do quarto e observou as duas mulheres. Eduarda estava sentada na cama, lendo um livro de figuras para Maya, sua voz suave criando um contraste doce com o som da TV onde Sara assistia a um desfile de moda internacional.

Sara olhou para Emanuel e piscou. Ela não odiava Eduarda; na verdade, gostava da estabilidade emocional que a garota trazia para Emanuel. Mas ela jamais admitiria que a presença de Eduarda tornava a casa mais completa. Para Sara, a vida era uma performance, e ela era a estrela principal, mas toda estrela precisava de um elenco de apoio competente.

— Ela está apavorada, você sabe — Sara sussurrou quando Emanuel se aproximou dela na sala.

— Ela vai se acostumar — ele respondeu, observando Eduarda pelo reflexo do espelho. — Eu não vou deixar ela ir embora de novo.

— Você é um ditador, Emanuel — Sara sorriu, puxando-o pelo colarinho para um beijo que cheirava a martini e batom caro. — Mas é por isso que eu te amo. Só não espere que eu seja a "boa madrasta" o tempo todo. Se ela deixar os livros de história dela espalhados pela minha sala, eu vou usá-los como apoio para os meus sapatos de sola vermelha.

— Eu não esperaria nada diferente de você, Sara — ele riu.

Naquela noite, o sono de Eduarda foi profundo, embalado pelo som da respiração de Emanuel ao seu lado e pela presença constante de Maya no berço ao pé da cama. Pela primeira vez em muito tempo, a ansiedade de estar dividida entre dois mundos desapareceu. Ela fora levada quase à força, sim. Fora coagida pelo medo e pela vontade de ferro de um homem que não aceitava "não" como resposta. Mas, ao sentir o peso do braço de Emanuel sobre sua cintura e ouvir o som de Sara se mexendo no outro lado da imensa cama, Eduarda entendeu que, naquela configuração caótica e nada convencional, ela finalmente tinha encontrado seu lugar.

O crime na rua dos seus pais fora o gatilho, mas a pólvora já estava lá, esperando para explodir em uma nova vida. Uma vida onde ela não era apenas a namorada tímida que visitava aos finais de semana, mas parte integrante de um império construído sobre tinta, silicone, administração de ferro e um amor que, embora estranho para o mundo, era o único que fazia sentido para eles.

A convivência civilizada seria um desafio diário, as farpas de Sara continuariam a voar e a possessividade de Emanuel seria sua sombra. Mas, enquanto Maya batesse palmas ao vê-la e Ágata a olhasse com aquele ar de superioridade que tanto lembrava a mãe, Eduarda sabia que o preço da sua proteção era a sua liberdade — e, naquele momento, ela estava disposta a pagar.