D
Névoa sobre o Passado
A mansão da família de Emanuel, incrustada no ponto mais alto da serra, parecia emergir da terra como um monumento de pedra e melancolia. O clima nublado daquela manhã havia evoluído para uma neblina densa, uma massa cinzenta e tátil que engolia os pinheiros centenários e silenciava os sons da floresta ao redor. Para Eduarda, a construção de estilo gótico, com suas gárgulas discretas e janelas em arco ogival, parecia o cenário de um romance trágico que ela estudaria em suas aulas de História da Arte.
Emanuel estacionou o utilitário de luxo em frente à escadaria de granito. Ele estava em silêncio durante a subida da serra, as mãos firmes no volante, o cenho franzido em uma concentração que ia além da estrada. Estar naquela casa, sob o olhar de sua mãe, Dona Irene, sempre extraía dele uma rigidez maior.
— É lindo, Manu... mas dá um pouco de medo — sussurrou Eduarda do banco de trás, enquanto apertava Maya contra o peito. A bebê, sentindo a umidade do ar, escondia o rosto no pescoço da morena, buscando o calor familiar.
— Medo de quê, garota? É só uma casa velha com excesso de herança — disparou Sara, que já abria a porta do passageiro. Ela saltou do carro usando botas de salto agulha que estalaram contra o chão úmido, um casaco de pele sintética branca que contrastava violentamente com o cinza do dia, e óculos escuros, apesar da ausência de sol. — Emanuel, por favor, tire as malas logo. Ágata já está entediada e eu preciso de um drink para suportar sua parentela.
Ágata, no bebê conforto ao lado de Eduarda, soltou um grito agudo, como se concordasse com a mãe. A pequena loira já manifestava a impaciência de Sara, batendo os pezinhos calçados em sapatinhos de verniz.
Emanuel desceu do carro e respirou o ar gelado. Ele caminhou até a porta traseira, abrindo-a para Eduarda. Sua mão envolveu o ombro dela com uma possessividade protetora, sentindo-a tremer levemente sob o vestido de lã fina.
— Você está segura aqui, Duda. Eu estou aqui — disse ele, a voz grave vibrando com uma autoridade que não admitia réplicas. — E Sara, controle o tom. Minha mãe não tolera escândalos, e você sabe disso.
— Sua mãe me adora, Emanuel. Eu sou a única que fala a língua dela: a do dinheiro e da estética — Sara rebateu com um sorriso irônico, pegando Ágata no colo e desfilando em direção à entrada monumental.
Lá dentro, o clima não era menos denso. O hall de entrada era decorado com tapeçarias escuras e móveis de madeira maciça que pareciam observar os recém-chegados. Dona Irene, uma mulher de elegância gélida e cabelos perfeitamente alinhados, aguardava-os perto da lareira colossal.
— Emanuel — disse ela, oferecendo o rosto para um beijo formal. Seus olhos rapidamente escanearam as duas mulheres por trás de seu filho. — Vejo que trouxe seu... arranjo peculiar.
— Mamãe — Emanuel cumprimentou, ignorando a alfinetada. — Estas são as meninas.
Eduarda deu um passo à frente, quase se escondendo atrás de Emanuel, sustentando Maya com os braços que começavam a cansar. A bebê morena olhou para a avó com olhos grandes e tímidos, antes de se enterrar novamente no colo de Eduarda.
— Esta é a Eduarda — apresentou Emanuel, o tom de voz suavizando de uma forma que raramente usava com outros. — E esta é a Maya.
Dona Irene arqueou uma sobrancelha, observando a fragilidade de Eduarda.
— Ela parece uma pintura pré-rafaelita. Bonita, mas... vulnerável demais para o nome da nossa família, não acha?
— Ela é perfeita, mamãe — cortou Emanuel, a mandíbula travada.
— E eu sou a Sara, caso tenha esquecido — interrompeu a loira, aproximando-se com Ágata, que tentava agarrar o colar de pérolas de Irene. — E esta mini diva aqui é a Ágata. Ela tem o seu temperamento, Irene. Já sabe mandar em todo mundo com oito meses.
Pela primeira vez, um lampejo de sorriso surgiu nos lábios da matriarca.
— Pelo menos uma delas parece ter sangue nas veias, e não água de rosas.
O almoço foi servido em uma mesa longa, onde o som dos talheres de prata batendo na porcelana parecia amplificado pelo silêncio da neblina que pressionava as janelas. O restante da família — tios e primos de Emanuel — observava a dinâmica com uma curiosidade mal disfarçada. Emanuel sentava-se à cabeceira, agindo como o pilar central. À sua direita, Sara, exuberante, falando sobre sua loja e o faturamento dos novos estúdios de tatuagem de Emanuel, como se fosse a sócia majoritária da vida dele. À sua esquerda, Eduarda, que mal tocava na comida, ocupada demais em tentar acalmar Maya, que estava inquieta com o ambiente estranho.
— Você deveria comer, Duda — murmurou Emanuel, inclinando-se em direção a ela. Ele pegou um pedaço de pão e ofereceu à boca dela, um gesto de cuidado íntimo que fez os primos trocarem olhares. — Você está pálida.
— Eu estou sem fome, Manu... o clima aqui é tão pesado — sussurrou ela, os olhos marejados. — Sinto que as paredes estão nos vigiando.
— É só a arquitetura, querida — Sara interveio, bebendo um gole generoso de vinho tinto. — E a cara de julgamento da sua sogra. Mas não se preocupe, eu distraio os leões enquanto você faz esse papel de virgem sofredora.
— Sara, chega — Emanuel ordenou, mas a loira apenas piscou para ele, seus lábios pintados de um vinho profundo combinando com a bebida.
Após o almoço, a neblina tornou-se tão espessa que era impossível ver um palmo além das sacadas de pedra. Emanuel se retirou para o escritório com alguns tios para discutir negócios, deixando as duas mulheres no salão de música. O ambiente era dominado por um piano de cauda preto e cortinas de veludo carmesim.
Maya começou a chorar, um choro manhoso e baixinho, típico de quando estava sobrecarregada. Eduarda começou a ninar a menina, caminhando de um lado para o outro, enquanto Sara tentava manter Ágata entretida com um tablet de última geração.
— Ela não para de chorar — reclamou Sara, jogando a cabeça para trás no sofá de couro. — Esse lugar é deprimente, Eduarda. Até eu estou ficando com vontade de chorar, e eu não tenho sentimentos, lembra?
— Ela está sentindo a energia da casa, Sara — Eduarda respondeu com doçura, apesar do cansaço. — Ela é sensível.
— Ela é um fardo, isso sim — Sara bufou, embora o brilho em seus olhos mostrasse que não era um comentário odioso, apenas sua forma bruta de lidar com a realidade. — Olhe para a Ágata. Está aqui, firme. Já a sua... parece que vai desmanchar se eu falar um pouco mais alto. Por que você não aceita logo o convite do Emanuel e vai morar com a gente? Assim eu posso contratar uma babá noturna só para as crises de choro da Maya e você pode pintar seus quadros em paz.
Eduarda parou de caminhar e olhou para Sara.
— Eu não estou pronta, Sara. Morar com o Emanuel significa morar com você também. E você é... muito.
— Eu sou o sol, querida. Eu brilho e queimo quem chega perto demais — Sara riu, levantando-se e caminhando até Eduarda. Ela tocou o rosto da morena com as unhas longas e impecáveis. — Mas você é a lua. Emanuel precisa de ambos para não ficar louco. Ele é um homem sombrio, Eduarda. Olhe para esta casa. Olhe para as tatuagens dele. Ele precisa da sua doçura para não se tornar um monstro como os antepassados dele.
Eduarda sentiu um calafrio.
— Você fala como se estivéssemos em um castelo amaldiçoado.
— E não estamos? — Sara deu de ombros, voltando para Ágata. — Mas é um castelo com Wi-Fi e lençóis de mil fios. Eu aguento a maldição pelo preço certo.
Mais tarde, Emanuel encontrou Eduarda em uma das varandas cobertas. Ela observava a neblina, que agora parecia fantasmas brancos dançando entre as gárgulas. Maya dormia em um carrinho luxuoso ao lado dela.
— Meus tios acham que eu sou louco — disse Emanuel, aproximando-se por trás e envolvendo a cintura de Eduarda. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, inspirando o perfume de baunilha e bebê. — Por manter essa configuração. Por amar vocês duas.
— E você se importa com o que eles acham? — Eduarda perguntou, inclinando a cabeça para trás, apoiando-se no peito sólido dele.
— Eu sou o dono do dinheiro, Duda. Ninguém ousa falar nada na minha frente. Mas aqui, nesta casa... eu sinto que preciso proteger você mais do que nunca. Minha mãe é uma mulher difícil.
— Ela não gosta de mim, Manu. Ela gosta da Sara.
— Ela respeita a Sara porque a Sara é uma guerreira, uma predadora como ela. Mas ela se sente ameaçada por você, porque você é a única pessoa que consegue me desarmar. Você é meu ponto fraco, Eduarda. E nesta família, pontos fracos são perigosos.
Ele a virou de frente para si, segurando seu rosto com as mãos grandes, cujos nós dos dedos estavam cobertos por tatuagens de runas antigas.
— Venha morar comigo. De uma vez por todas. Eu não aguento mais te deixar na casa dos seus pais e voltar para um quarto onde sinto que falta metade do meu coração.
Eduarda olhou nos olhos cinzentos de Emanuel. Eles estavam carregados de uma urgência quase violenta, uma necessidade de posse que a assustava e a seduzia ao mesmo tempo.
— Se eu for... o que acontece com a Sara?
— Nada muda. Sara é o meu pilar de força, a mãe da Ágata, a mulher que entende o meu lado obscuro. Mas você... você é a minha paz. Eu preciso das duas para ser um homem completo. Por que você não entende que eu posso prover tudo para ambas?
Antes que ela pudesse responder, a porta da varanda se abriu com um estrondo. Sara apareceu, carregando Ágata no colo e uma garrafa de champanhe na outra mão.
— O jantar vai ser servido e a Irene está usando aquele colar de esmeraldas que parece que foi roubado de um cadáver — anunciou Sara, a voz cortando o clima íntimo. — Vamos, pombinhos. Se eu tiver que ouvir o tio Clóvis falar sobre gado por mais cinco minutos sem vocês lá, eu vou atirar este champanhe na lareira.
Emanuel soltou um suspiro de frustração, mas não soltou a mão de Eduarda.
— Vamos. Mas a conversa não terminou, Duda.
O jantar foi uma exibição de opulência e tensão. A neblina lá fora agora era acompanhada por uma chuva fina e persistente, que batia contra os vidros como dedos esqueléticos tentando entrar. Dona Irene presidia a mesa com uma autoridade absoluta, mas seus olhos não saíam de Maya, que agora estava acordada e sentada em um cadeirão alto ao lado de Eduarda.
Em um momento de silêncio, a bebê Maya esticou a mãozinha e pegou uma colher de prata, deixando-a cair no chão. O som metálico ecoou pelo salão.
— Tão desajeitada — comentou Dona Irene, com um tom de desdém. — Ágata já segura o próprio copo com firmeza.
Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela se inclinou para pegar a colher, mas a mão de Sara a impediu.
— Ela não é desajeitada, Irene — disse Sara, com uma voz perigosamente calma, enquanto servia-se de mais champanhe. — Ela é uma artista. Está testando a acústica da sua casa deprimente. E se ela quiser jogar toda a sua prataria no chão, o Emanuel compra um conjunto novo amanhã. Não é, querido?
Emanuel olhou de Sara para a mãe, e depois para a Eduarda, que estava com a cabeça baixa.
— É — disse ele, a voz como um trovão baixo. — Minhas filhas fazem o que quiserem nesta casa. E Eduarda não precisa ser criticada por nada.
Dona Irene estreitou os olhos, mas não disse mais nada. O poder de Emanuel era o único que superava o dela.
Ao final da noite, quando as luzes da mansão foram reduzidas a apenas alguns candelabros acesos, Emanuel levou as duas mulheres para a suíte principal, que havia sido dividida em dois quartos interligados por uma sala de estar privativa. Era uma solução arquitetônica que ele mesmo exigira para aquele fim de semana.
As bebês já dormiam em seus berços portáteis. Sara estava sentada na cama de dossel, retirando as joias com gestos bruscos, enquanto Eduarda estava parada junto à janela, observando o nada cinzento lá fora.
— Você nos defendeu — disse Eduarda, a voz frágil.
— Eu sempre vou defender vocês — Emanuel respondeu, retirando a camisa e revelando a vasta tapeçaria de tinta preta que cobria suas costas e peito. — Mas eu não posso fazer isso de longe, Duda. Eu preciso que você esteja sob minha asa, 24 horas por dia.
Ele caminhou até ela e a abraçou por trás, enquanto Sara observava os dois pelo reflexo do espelho da penteadeira.
— Aceita logo, Eduarda — disse Sara, soltando o cabelo loiro que caiu em cascata sobre os ombros. — Esta casa, esta família... eles são monstros. Mas o Emanuel é o maior de todos eles. E monstros cuidam do que é seu.
Eduarda fechou os olhos, sentindo o calor de Emanuel e a presença vibrante de Sara no mesmo ambiente. A neblina lá fora parecia menos assustadora agora que ela estava cercada por aquela proteção possessiva e complexa.
— Tudo bem — sussurrou Eduarda, finalmente cedendo. — Eu me mudo na segunda-feira.
Emanuel apertou o abraço, um sorriso raro e vitorioso surgindo em seu rosto. Ele olhou para o espelho, encontrando o olhar de Sara. Ela deu um brinde silencioso com sua taça vazia.
Naquela noite, sob o teto gótico da mansão, no coração de uma neblina que parecia eterna, o mundo de Emanuel estava finalmente completo. O provedor havia garantido sua colheita. A timidez e a vulgaridade, a lua e o sol, estavam agora trancados em seu castelo, e ele seria o único guarda daquelas vidas.
Lá fora, a neblina continuava a cair, escondendo os segredos da família, mas dentro daqueles quartos, o calor da posse de Emanuel era a única realidade que importava. Ele amava as duas, de formas diferentes, mas com a mesma intensidade avassaladora que não aceitava nada menos que a rendição total. E Eduarda, ao sentir o beijo de Emanuel em seu ombro, soube que, embora tivesse perdido sua liberdade na casa dos pais, havia encontrado um tipo de segurança que só um homem como ele — rico, poderoso e profundamente obcecado — poderia oferecer.