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Entre a Agulha e a Sapatilha
O estúdio de tatuagem de Emanuel, localizado no coração luxuoso da cidade, era um santuário de minimalismo e sofisticação. O cheiro de tinta, álcool e couro caro permeava o ar. Aos 25 anos, Emanuel já era um nome lendário no mercado, um império construído com mãos firmes e uma visão artística implacável. Mas, naquela tarde, sua mente não estava focada no traçado complexo que desenhava na pele de um cliente. Seus olhos escuros e cansados voltavam-se repetidamente para o celular sobre a bancada de metal.
Ele era um homem de silêncios, de controle. Mas manter o equilíbrio entre as duas mulheres que amava exigia mais do que apenas habilidade técnica; exigia uma inteligência emocional que, às vezes, sentia que estava se esgotando.
— Terminamos por hoje — disse Emanuel, limpando o excesso de tinta da tatuagem finalizada. Sua voz era profunda, transmitindo aquela estabilidade que todos ao seu redor buscavam.
Assim que o cliente saiu, a porta da sala privativa se abriu e uma explosão de perfume importado e confiança entrou. Sara, com seus cinco meses de gestação, parecia uma rainha que não pedia permissão para ocupar seu trono. O vestido justo e curto de seda destacava a barriga redonda, mas não diminuía em nada sua aura provocante. As unhas impecáveis, o cabelo loiro platinado perfeitamente modelado e o brilho nos olhos mostravam que, mesmo grávida, ela não perderia sua essência.
— Você está com aquela cara de quem está tentando resolver um problema de física quântica, Manu — Sara disse, aproximando-se e sentando-se no colo dele, sem se importar com o avental manchado. — É a Duda, não é?
Emanuel suspirou, as mãos grandes encontrando automaticamente a cintura de Sara, o toque possessivo e protetor.
— Ela está sendo teimosa — ele murmurou, encostando a testa no ombro dela. — O médico foi claro, Sara. Você precisa de repouso absoluto por causa dessa pressão. A casa de campo é o único lugar onde vou ter paz sabendo que você está segura com a enfermeira. E eu não vou ficar um mês longe da Eduarda.
Sara riu, um som anasalado e irônico, mas não desprovido de carinho. Ela não via Eduarda como uma rival. Para ela, a menina de vinte anos era como uma joia delicada que Emanuel precisava para não quebrar sob o peso da própria responsabilidade. Sara amava Emanuel o suficiente para saber que ele era um homem de dois corações, e ela tinha espaço de sobra no dela para aceitar a "pequena bailarina".
— Ela é tímida, meu amor. Tem medo de atrapalhar, de ser um fardo. E, claro, tem aquela obsessão fofa com o ballet e a faculdade — Sara deu de ombros, brincando com o colar de ouro no pescoço dele. — Mas nós dois sabemos quem manda aqui. Se você quer ela lá, ela vai estar lá. Eu mesma falo com ela se precisar.
— Não — Emanuel cortou, o tom de voz ficando mais rígido, o lado controlador vindo à tona. — Eu resolvo com ela. Vou buscá-la na academia agora.
***
O conservatório de dança era o oposto do mundo de Emanuel. Era feito de luz, música clássica suave e o som rítmico de sapatilhas batendo no chão de madeira. Eduarda estava terminando de dar aula para uma turma de crianças. Ela parecia uma visão etérea: o coque levemente desfeito, o corpo esguio envolto em um collant rosa pálido e uma saia de tule transparente. Sua pele era clara, seus traços finos e sua expressão carregava aquela doçura melancólica que sempre desarmava Emanuel.
Quando ela o viu encostado no batente da porta, um sorriso tímido iluminou seu rosto, mas logo foi substituído por uma sombra de preocupação. Ela sabia por que ele estava ali.
— Emanuel... — ela murmurou, aproximando-se dele após dispensar as alunas. Ela se aninhou no peito dele, buscando o calor e a segurança que só ele provia. — Eu já disse que não posso.
Emanuel envolveu-a em seus braços, sentindo a fragilidade dela contra sua estrutura sólida. Ele beijou o topo da cabeça dela, sentindo o cheiro de lavanda e suor leve.
— Duda, não foi um convite. As malas já estão sendo feitas.
Eduarda se afastou um pouco, os olhos grandes e castanhos brilhando com uma mistura de ansiedade e resistência.
— Eu tenho provas, Manu! E as aulas de ballet... eu não posso simplesmente sumir por um mês. O que meus pais vão pensar? O que a diretora da escola vai dizer?
— Seus pais já sabem e concordam que você precisa de um descanso — Emanuel disse com uma calma que não admitia réplicas. — Eu já conversei com eles. Eles são modernos, Duda. Sabem que você está segura comigo e com a Sara. Quanto à faculdade, você pode estudar da biblioteca da casa de campo. Eu já providenciei internet de alta velocidade e tudo o que você precisar.
— Você não pode simplesmente decidir a minha vida assim — ela disse, a voz subindo meio tom, o que para ela era o equivalente a um grito. — Eu não sou uma das suas empresas.
Emanuel deu um passo à frente, fechando o espaço entre eles. Sua presença era imponente, mas seus olhos mostravam o cansaço da preocupação.
— A Sara está grávida, Eduarda. Valentina precisa que a mãe dela esteja calma. E eu preciso que você esteja lá para que *eu* fique calmo. Você acha que eu vou conseguir trabalhar ou cuidar dela sabendo que você está aqui sozinha, se matando de ensaiar até tarde? — Ele segurou o rosto dela com as duas mãos. — Eu quero minhas duas mulheres sob o meu teto. Ponto final.
Eduarda mordeu o lábio inferior, a postura cedendo. Ela odiava conflitos, e a intensidade de Emanuel sempre a vencia. Além disso, a menção à Sara e ao bebê sempre amolecia seu coração. Ela gostava de Sara, apesar de se sentir intimidada pela exuberância e pela liberdade da loira.
— A Sara... ela realmente quer que eu vá? — perguntou em voz baixa, a insegurança transparecendo. — Eu não quero incomodar o descanso dela.
— Ela não para de perguntar quando você vai chegar para ajudá-la a escolher as roupas do enxoval que chegaram por entrega — Emanuel mentiu levemente, sabendo que Sara provavelmente queria era alguém para fofocar enquanto comia morangos com chantilly. — Ela precisa de você, Duda. E eu também.
***
A viagem para a casa de campo foi silenciosa, mas carregada de uma expectativa doméstica estranha e reconfortante. A propriedade era vasta, cercada por montanhas e um verde infinito. Quando o carro parou em frente à mansão de pedra e vidro, Sara já estava na varanda, usando um robe de seda vermelho que deixava pouco para a imaginação, segurando um copo de suco.
— Finalmente! — Sara exclamou, descendo os degraus com uma agilidade que desafiava seu estado. Ela foi direto até Eduarda, que acabava de sair do carro, e a envolveu em um abraço apertado. — Olhe só para você, está mais magra? Emanuel, você não está alimentando a menina direito?
— Sara, deixe ela respirar — Emanuel resmungou, embora um pequeno sorriso de satisfação surgisse no canto de sua boca ao ver a interação.
— Deixe de ser chato, Manu — Sara rebateu, piscando para Eduarda. — Venha, Duda. A enfermeira já preparou o seu quarto ao lado do nosso. Eu mandei colocarem aquelas flores brancas que você gosta.
Eduarda sorriu, sentindo a tensão deixar seus ombros. O jeito expansivo de Sara, embora às vezes vulgar aos olhos dos outros, para ela era um escudo. Sara falava o que Eduarda não tinha coragem de dizer.
— Obrigada, Sara. Como está a Valentina? — Eduarda perguntou, estendendo a mão timidamente para tocar a barriga da outra.
— Chutando como uma jogadora de futebol — Sara riu, guiando-a para dentro. — Acho que ela sentiu falta da sua voz mansa. Essa casa é muito silenciosa só com o Emanuel e o mau humor dele.
Emanuel ficou para trás por um momento, observando as duas entrarem. Ele sentiu o peso do estresse diminuir. Ali, naquele refúgio, ele tinha o controle. Ele tinha a doçura de Eduarda para equilibrar sua rigidez e a força de Sara para desafiar sua lógica.
Mais tarde, após o jantar, o cenário era de uma paz quase irreal. Emanuel estava sentado no sofá de couro da sala de estar, com o notebook no colo, resolvendo pendências de seus estúdios na Europa. Sara estava deitada com a cabeça em seu colo, lendo uma revista de moda e comentando sobre como as tendências da estação eram "pobres". Eduarda, por sua vez, estava sentada no tapete felpudo aos pés deles, com seus livros de anatomia aplicada à dança espalhados, mas sua cabeça estava encostada no joelho de Emanuel.
— Eu ainda acho que vou me arrepender de ter faltado às aulas de amanhã — Eduarda murmurou, fechando os olhos enquanto sentia a mão de Emanuel acariciar seu cabelo de forma distraída.
— Você não vai — Emanuel disse, o tom de voz baixo e firme. — Amanhã de manhã, vou montar uma barra de ballet para você na varanda envidraçada. Você vai poder praticar olhando para o vale.
Eduarda olhou para cima, os olhos brilhando.
— Sério?
— Eu já mandei trazerem o equipamento — ele confirmou. — Se é para você ficar aqui, que seja com tudo o que você precisa.
Sara soltou uma risadinha, sem tirar os olhos da revista.
— Viu, Duda? Ele é um ogro, mas é um ogro providente. Agora, pare de se preocupar com o ballet e me ajude a decidir: esse berço de ouro é demais ou é apenas o básico para a minha filha?
Eduarda se inclinou para olhar a foto na revista, rindo suavemente da extravagância de Sara.
— Acho que a Valentina vai preferir algo mais... macio, Sara.
— Bobagem. Ela é filha de um magnata da tatuagem e de uma rainha do comércio. Ela vai querer brilho — Sara declarou, mas logo soltou um gemido baixo, levando a mão à base das costas.
Instantaneamente, o clima mudou. Emanuel fechou o notebook e Eduarda se ajoelhou ao lado de Sara.
— O que foi? — Emanuel perguntou, a rigidez voltando à sua postura. — A enfermeira...
— Calma, controlador — Sara disse, respirando fundo e sorrindo para acalmá-los. — Foi só um chute mais forte. Ela está agitada.
Eduarda colocou a mão pequena e fria sobre a barriga de Sara, e Emanuel cobriu a mão de Eduarda com a sua, sentindo o movimento da vida que crescia ali dentro. Naquele momento, as inseguranças de Eduarda, o estresse de Emanuel e a impulsividade de Sara pareciam fundir-se em algo sólido.
— Ela vai ser linda — Eduarda sussurrou, emocionada.
— Vai ser um problema — Emanuel corrigiu, embora seus olhos estivessem úmidos. — Três mulheres para eu cuidar. Vou acabar ficando grisalho antes dos trinta.
— Você adora isso — Sara provocou, puxando o rosto dele para um beijo rápido e cheio de batom. — Admita, Manu. Você não saberia o que fazer se não tivesse a gente para mandar em você.
Emanuel não respondeu. Ele apenas puxou Eduarda para cima, acomodando-a entre ele e Sara no sofá. O silêncio da noite na montanha era quebrado apenas pelo som da lareira e pela respiração coordenada dos três. Ali, entre a força e a delicadeza, Emanuel sabia que, apesar de todo o caos e das complicações de seu estilo de vida, ele tinha exatamente o que precisava. O mundo lá fora podia não entender, mas dentro daquelas paredes, a lógica era ditada pelo coração, e o dele estava finalmente em paz.