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Sementes de Silêncio e Ventres de Sangue

O sol da manhã entrava pelas frestas das cortinas de linho claro no quarto de Eduarda, mas a luz parecia agressiva demais para seus olhos. Ela se sentou na beira da cama, sentindo o mundo girar em um carrossel de náuseas e calafrios. A mão, pálida e fina, instintivamente pousou sobre o ventre ainda liso. Fazia três semanas desde aquela tarde no celeiro, três semanas desde que Emanuel a tinha tomado com uma brutalidade que a mudou para sempre, e agora, o corpo de bailarina, antes tão disciplinado e previsível, começava a traí-la.

Ela sabia. Não precisava de testes de farmácia, embora tivesse dois escondidos no fundo da gaveta de sapatilhas, ambos exibindo o sinal positivo com uma clareza aterrorizante. Ela estava carregando um filho do primo. Um filho do homem que já esperava uma menina com Sara.

Eduarda levantou-se devagar, sentindo o gosto amargo da bile na garganta. Ela precisava dar aula de ballet à tarde, precisava terminar o ensaio sobre a Renascença para a faculdade, mas tudo parecia insignificante diante da vida que crescia dentro dela.

— Calma, Duda... respira — sussurrou para si mesma, olhando-se no espelho.

Ela parecia a mesma. A mesma expressão doce, os mesmos cabelos castanhos caindo pelos ombros. Mas, por dentro, ela sentia que estava se despedaçando e se reconstruindo em algo novo. Ela queria contar para Emanuel. Queria sentir os braços tatuados dele a envolvendo, queria ouvir a voz rouca dele dizendo que cuidaria de tudo. Mas o medo era maior. Medo de como ele reagiria, medo da intensidade possessiva dele e, acima de tudo, medo de como isso afetaria o equilíbrio bizarro que eles haviam estabelecido com Sara.

Sara, com seu silicone, sua vulgaridade ostensiva e seu amor incondicional por Emanuel, já era a mãe da Valentina. Eduarda sentia-se uma intrusa, uma sombra que agora ganhava peso.

Enquanto isso, na sala de estar da fazenda, o clima era outro. Sara estava jogada no sofá de couro, as pernas inchadas descansando sobre o colo de Emanuel. Ela usava um microvestido de animal print que deixava pouco para a imaginação, e a barriga de seis meses agora era um globo firme e imponente.

— Manu, essa menina não para de chutar, porra! — exclamou Sara, dando uma risada alta e rouca enquanto levava um bombom à boca. — Acho que a Valentina vai ser lutadora de MMA, não bailarina igual à sua priminha santa.

Emanuel sorriu de canto, massageando os pés da mulher com uma pressão firme. A mente dele, porém, estava longe. Estava no andar de cima, no quarto de Eduarda.

— A Duda está quieta demais hoje — comentou Emanuel, a voz carregada daquela preocupação protetora que Sara conhecia tão bem.

— Ela é assim, Manu. Manhosa. Deve estar cansada da faculdade — Sara deu de ombros, sem um pingo de ciúme. — Mas você devia ir lá ver. Ela anda com uma cara de quem viu um fantasma. E olha que eu entendo de cara de mulher, meu amor. Eu vendo roupa pra vadia e pra santa, eu conheço os olhares.

Emanuel franziu o cenho. Ele se levantou, deixando Sara confortável entre as almofadas.

— Vou ver se ela quer descer para o almoço.

Ele subiu as escadas de madeira com passos pesados e decididos. Emanuel não era um homem de meias palavras ou de sutilezas. Ele era o controle, a força, a autoridade. Quando chegou à porta do quarto de Eduarda, nem bateu. Apenas girou a maçaneta e entrou.

Eduarda estava sentada na escrivaninha, com a cabeça apoiada nos braços. Ao ouvir a porta, ela deu um pulo, tentando esconder um papel sob os livros de história.

— Manu! Que susto... — disse ela, a voz falhando.

Emanuel parou no meio do quarto, os olhos escuros percorrendo cada detalhe da prima. Ele notou a palidez excessiva, o tremor nas mãos e o jeito como ela tentava evitar seu olhar.

— Você está mal, Duda. O que está acontecendo? — perguntou ele, aproximando-se como um predador que fareja o medo.

— Nada, é só... pressão baixa. O calor da fazenda, eu acho.

Emanuel não se convenceu. Ele deu mais um passo, invadindo o espaço dela, o cheiro de perfume caro e tabaco que emanava dele preenchendo os pulmões de Eduarda.

— Não mente para mim. Você sabe que eu odeio mentira. A Sara nunca mente para mim. A gente não tem segredos, lembra?

— Eu sei, Manu... eu só...

Antes que ela pudesse terminar, a mão grande de Emanuel, decorada com tatuagens de caveiras e rosas nos nós dos dedos, avançou sobre a mesa e puxou o papel que ela tentava esconder. Era o resultado do exame laboratorial que ela havia buscado na cidade vizinha no dia anterior.

O silêncio que se seguiu foi denso, quase sólido. Emanuel leu o documento. "Beta HCG: Positivo".

Os olhos dele se voltaram para ela, não com a doçura que ele costumava ter, mas com uma faísca de fúria controlada que fez Eduarda encolher-se na cadeira.

— Há quanto tempo você sabe disso? — rosnou ele, a voz baixa e perigosa.

— Faz... faz alguns dias, Manu. Eu ia contar, eu juro! Eu só queria esperar o momento certo, queria processar...

— O momento certo? — Ele jogou o papel sobre a mesa com violência. — Você está carregando um filho meu, porra! Um Albuquerque! E você achou que podia esconder isso de mim? Que podia decidir sozinha quando eu teria o direito de saber sobre o meu próprio sangue?

— Eu estava com medo! — gritou ela, as lágrimas finalmente transbordando. — Você já tem a Sara, já tem a Valentina... eu não sabia se você ia querer mais uma responsabilidade, se...

Emanuel agarrou-a pelos ombros, levantando-a da cadeira com uma facilidade assustadora. Ele a prensou contra a parede, a mesma intensidade que demonstrara no celeiro agora voltada para uma bronca possessiva.

— Escuta aqui, Eduarda. Eu mando nesta porra toda. Eu decido o que é responsabilidade e o que não é. Você é minha. O que está aí dentro — ele apontou para o ventre dela — é meu. A Sara sabe de tudo o que eu faço porque ela é mulher o suficiente para aguentar a verdade. E você? Vai agir como uma criança escondendo nota baixa na escola?

— Desculpa, Manu... por favor... — ela soluçava, o corpo esguio tremendo contra o dele.

— Eu não quero desculpas. Eu quero lealdade absoluta. Se você quer ser minha segunda mulher, se quer que eu cuide de você como cuido da Sara, você nunca mais esconde nada de mim. Entendeu?

Eduarda assentiu freneticamente, escondendo o rosto no pescoço dele. Emanuel suspirou, a raiva começando a ser substituída por aquele instinto de proteção distorcido. Ele a abraçou apertado, as mãos descendo para a bunda dela, apertando a carne macia por cima do vestido leve.

— Porra, Duda... mais um filho. Você vai ficar enorme e gostosa igual à Sara — sussurrou ele, agora com um tom de luxúria vulgar. — Imagina só, as duas grávidas de mim ao mesmo tempo. Que caralho de sorte a minha.

Nesse momento, a porta se abriu novamente. Sara estava encostada no batente, observando a cena com um sorriso enviesado, uma mão na cintura e a outra segurando um copo de suco.

— Eu sabia! — exclamou ela, entrando no quarto com seu andar rebolado, apesar da barriga. — Eu disse que essa carinha de anjo estava escondendo alguma coisa. Parabéns, Dudinha! A bucetinha é apertada, mas o útero é fértil, hein?

Eduarda olhou para Sara, envergonhada, mas a loira apenas se aproximou e deu um tapa estalado na bunda da bailarina.

— Deixa de ser sonsa, menina. O Manu ficou puto porque você escondeu, não porque você engravidou. A gente quer essa família grande. Imagina o movimento naquela loja com dois bebês correndo!

Sara olhou para Emanuel, que ainda mantinha Eduarda possessivamente sob seu braço.

— E você, garanhão, trate de acalmar os nervos. A menina é sensível. Mas que foi uma puta falta de consideração não me contar primeiro pra gente fazer um chá de revelação duplo, ah, isso foi.

Emanuel soltou um riso curto, a tensão finalmente se dissipando.

— Ela aprende, Sara. Vou ensinar pra ela o que é ser uma mulher de verdade, sem segredinhos de colégio freira.

Ele virou Eduarda de frente para ele, segurando o rosto dela com as duas mãos.

— Agora, a gente vai descer. Meus pais e os seus estão lá embaixo. Vamos contar para todo mundo. Os "jovens e modernos" vão ter que lidar com dois netos de uma vez.

— Agora? — Eduarda arregalou os olhos. — Mas e a faculdade? E as aulas de ballet?

— Você continua com tudo até onde der — disse Emanuel, categórico — mas agora sob o meu controle. Eu vou contratar motorista, vou mudar sua dieta e você não vai dar um passo sem que eu saiba. Entendido?

— Sim, Manu — sussurrou ela, voltando à sua postura de submissão carinhosa.

Sara se aproximou por trás de Emanuel, abraçando-o e roçando o silicone das mamas nas costas dele, enquanto olhava para Eduarda com uma cumplicidade quase predatória.

— Isso mesmo. E não se preocupa, Duda. Se o Manu ficar muito estressado com as duas grávidas, eu ajudo ele a relaxar... e você também. Afinal, agora somos um time, não é?

Emanuel sentiu o pau pulsar na calça. A visão das duas mulheres — a loira vulgar e exuberante e a morena tímida e delicada — ambas carregando o fruto do seu prazer, era a realização final do seu império pessoal.

— Vamos — ordenou ele.

Eles desceram as escadas. Na sala, os pais de Eduarda, um casal de quarenta e poucos anos, vestidos com roupas de grife e aparência jovial, conversavam com os avós sobre a próxima exposição de arte em São Paulo.

Emanuel parou no centro da sala, atraindo todos os olhares. Ele tinha uma mão na cintura de Sara e a outra firmemente pousada no ombro de Eduarda.

— Tenho um anúncio — disse ele, a voz ecoando com autoridade. — A Valentina vai ter um irmão ou irmã. A Duda também está grávida de um filho meu.

O silêncio na sala durou apenas alguns segundos. Os pais de Eduarda se entreolharam. O pai, um arquiteto renomado, deu de ombros com um sorriso.

— Bom, a gente sempre soube que você e a Duda tinham essa ligação, Emanuel. Só não esperávamos que fosse tão rápido — disse ele, levantando a taça de vinho. — Se ela está feliz e você vai assumir tudo, quem somos nós para julgar? A vida é curta demais para tabus.

A mãe de Eduarda aproximou-se da filha, abraçando-a.

— Minha bailarina vai ser mamãe! — exclamou ela. — Só espero que não perca a linha do corpo, querida. Mas com a genética do Emanuel, vai ser uma criança linda.

Sara soltou uma gargalhada vulgar, chamando a atenção para si.

— Linda e bem cuidada, sogrinha! Porque se o Manu não der conta, eu dou. Agora, vamos comer, que tem duas fábricas de gente aqui precisando de sustância!

O jantar foi uma celebração surreal. Emanuel sentou-se na cabeceira, com Sara à sua direita e Eduarda à sua esquerda. Ele observava a interação das duas. Sara, sem qualquer filtro, descrevia para os pais de Eduarda como o sexo na gravidez era "uma delícia porque a buceta ficava mais inchada e sensível", fazendo a prima corar violentamente enquanto comia seu risoto em silêncio.

Emanuel sentia-se o dono do mundo. Ele olhou para baixo da mesa e viu que Sara havia tirado o sapato e acariciava a perna de Eduarda com o pé, enquanto a outra mão de Sara estava discretamente na braguilha de Emanuel.

— Você está muito quieta, Dudinha — provocou Sara, em voz alta o suficiente para a mesa ouvir. — Come logo, porque depois do jantar o Manu prometeu que ia fazer uma tatuagem nova em mim... e eu acho que você devia assistir. Quem sabe você não aprende a relaxar mais?

Eduarda olhou para Emanuel, buscando socorro, mas encontrou apenas o olhar faminto dele.

— Ela vai assistir, Sara — disse Emanuel, a voz rouca. — E depois, eu vou mostrar para ela o que acontece com quem tenta esconder as coisas de mim. Vou foder essa timidez dela até ela aprender a gritar meu nome para a fazenda inteira ouvir.

Os pais de Eduarda riram, achando a "modernidade" da situação fascinante, enquanto os avós apenas continuavam comendo, acostumados com a intensidade selvagem do neto predileto.

Eduarda sentiu um calafrio de excitação percorrer sua espinha. Ela sabia que sua vida de bailarina tímida havia acabado. Agora, ela era parte da engrenagem de Emanuel. Ela era a delicadeza que alimentava a fera, enquanto Sara era a força que o mantinha no chão.

Quando o jantar terminou, Emanuel levantou-se e puxou as duas.

— Celeiro. Agora — ordenou ele.

— Ih, adoro! — gritou Sara, ajeitando o vestido curto. — Vamos, Duda! Vamos ver o papai trabalhar.

Enquanto caminhavam sob o luar em direção ao celeiro, Eduarda sentiu a mão de Sara segurar a sua. Era uma mão quente, firme, adornada com anéis caros.

— Não tenha medo, pequena — sussurrou Sara no ouvido dela. — O Manu é bruto, mas ele ama a gente. E eu vou adorar ver você ficando com aquele barrigão. A gente vai ser as rainhas desta fazenda.

Eduarda sorriu, um sorriso que já não era mais tão puro. A semente de Emanuel não estava apenas em seu ventre, mas em sua alma. Ela olhou para as costas tatuadas do primo, o homem que a possuíra e a reivindicara, e sentiu que, pela primeira vez, não precisava mais se esconder atrás de livros de história. Ela estava vivendo a sua própria história, uma trama de carne, sangue e possessão.

As portas do celeiro se fecharam atrás deles, e o som dos gritos de prazer e dos comandos grosseiros de Emanuel logo abafou o som dos grilos na noite do campo. A fazenda Albuquerque tinha novos herdeiros, e o pacto entre o tatuador e suas duas mulheres estava selado no prazer e na vulgaridade que só o amor mais distorcido poderia criar.