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O Som do Silêncio e o Choro que Aproxima
A cobertura de Emanuel nunca pareceu tão silenciosa e, ao mesmo tempo, tão carregada de uma energia nova. Fazia quatro meses que Ágata havia chegado ao mundo, transformando o império de concreto e aço do tatuador em um santuário vigiado. Emanuel, em seu habitual estilo controlador, havia imposto uma quarentena rigorosa. Ninguém entrava, ninguém saía sem sua autorização expressa. Ele queria garantir que sua filha e Sara estivessem em uma bolha de perfeição, longe de germes, curiosos e do caos do mundo exterior.
Sara, por incrível que pareça, aceitou a clausura com uma paciência que ninguém esperava dela. Talvez fosse o efeito da maternidade, ou talvez fosse apenas o prazer de ver Emanuel agir como um leão protegendo a toca. Ela estava mais radiante do que nunca; a loira siliconada e exuberante agora desfilava pelo apartamento com robes de seda caríssimos, mantendo a maquiagem impecável mesmo nas noites mal dormidas, com Ágata sempre aninhada em seu colo ou no de Emanuel.
— Ela já tem quatro meses, Manu — disse Sara, ajeitando a alça do robe que caía pelo ombro, revelando o decote generoso. — O grupo está implorando. Até a sua mãe já ligou três vezes hoje. Você precisa abrir os portões do castelo.
Emanuel, que estava sentado na ponta da cama observando a pequena Ágata dormir no berço acoplado, suspirou. Ele parecia mais exausto, com olheiras leves sob os olhos observadores, mas havia uma satisfação profunda em sua postura.
— Eu só queria que ela estivesse forte o suficiente — ele respondeu, a voz grave e baixa. — Mas você tem razão. Vamos liberar as visitas neste final de semana. Mas com regras. Nada de perfumes fortes, nada de beijar as mãos da bebê.
Sara riu, um som anasalado e irônico.
— Você é um ditador, sabia? Mas um ditador muito atraente. — Ela se aproximou, abraçando-o por trás. — E a Eduarda? Ela não mandou mais mensagem esta semana. É estranho. Ela é a pessoa que eu mais achei que estaria acampada na nossa porta.
O rosto de Emanuel se contraiu levemente. O nome de Eduarda sempre causava uma oscilação em seu campo magnético. Durante os meses da gravidez e o início do puerpério de Sara, ele tentou manter contato, enviando mimos, suplementos e mensagens de "bom dia" que beiravam o interrogatório. Mas, nas últimas semanas, a bailarina parecia ter evaporado.
— Ela deve estar ocupada com o final do semestre na faculdade — Emanuel ponderou, embora a dúvida o corroesse. — Ou os pais dela a levaram para alguma daquelas viagens "espirituais" sem aviso prévio.
— Hum, não sei não — comentou Sara, pensativa. — Duda não é de sumir assim do nada. Ela é manhosa, gosta de atenção. Tem algo errado.
Emanuel não admitiria em voz alta, mas o silêncio de Eduarda o deixava furioso. Ele estava acostumado a ser o porto seguro dela, o homem que resolvia seus problemas e ditava o ritmo de sua segurança. O fato de ela não ter insistido para ver o bebê, de não ter enviado flores ou perguntado como eles estavam, parecia uma falha no sistema que ele tanto se esforçava para controlar.
O que Emanuel e Sara não podiam imaginar era que, a poucos quilômetros dali, a vida de Eduarda havia se transformado em um campo de batalha emocional.
No apartamento dos pais de Eduarda — que felizmente estavam viajando para um retiro de yoga na Índia —, o cenário era de puro desespero. Eduarda, a menina doce e delicada, estava sentada no chão da sala, cercada por fraldas descartáveis, latas de fórmula e uma montanha de roupas de bebê que ela não sabia como dobrar. Em seus braços, uma pequena criatura de quatro meses chamada Maya chorava com uma insistência que partia o coração da bailarina.
Há duas semanas, sua prima, uma mulher instável e sempre envolvida em problemas, apareceu na sua porta com uma bolsa de maternidade e um bebê nos braços. "Só por uma noite, Duda. Eu preciso resolver uma coisa de vida ou morte", ela disse. E nunca mais voltou. O celular foi desligado, as redes sociais apagadas. Eduarda foi deixada com uma criança que não era sua, sem documentos, sem instruções e com um medo paralisante de que, se contasse a alguém, o conselho tutelar levaria a pequena Maya embora.
— Shhh, Maya... por favor, meu anjo — Eduarda soluçava junto com a bebê, balançando-a freneticamente. — Eu não sei o que fazer. Eu não sei por que você está chorando. É fome? É cólica? Eu já dei o remédio...
Eduarda estava exausta. Ela não ia às aulas de ballet há dez dias. Mal comia. Sua aparência, sempre tão impecável e leve, agora era de puro desalento. O cabelo castanho estava preso em um coque malfeito, e as olheiras eram profundas em seu rosto pálido. Ela se sentia sozinha, mas o medo de decepcionar Emanuel ou de parecer "incapaz" diante da perfeição de Sara a impedia de pedir ajuda.
Naquela tarde, o interfone tocou. O coração de Eduarda saltou pela boca. Ela não esperava ninguém.
— Quem é? — ela perguntou com a voz trêmula, tentando abafar o choro de Maya contra seu ombro.
— Sou eu, Eduarda. Abra.
A voz de Emanuel veio como um trovão pelo alto-falante. Era autoritária, carregada de uma irritação que ele não tentava esconder. Ele estava ali. E ele não ia embora.
Eduarda entrou em pânico. Ela olhou para a sala bagunçada, para a bebê chorando e para sua própria imagem no espelho do corredor. Ela parecia um fantasma.
— Emanuel, eu... eu não posso agora. Estou doente! — ela mentiu, a voz falhando.
— Eu não perguntei se você pode. Eu estou subindo. O porteiro me conhece, Eduarda. Não me faça perder a paciência.
Alguns minutos depois, a batida na porta foi firme. Eduarda, sem saída, abriu a fechadura com as mãos trêmulas. Quando a porta se abriu, Emanuel parou no limiar, sua figura alta e imponente bloqueando a luz do corredor. Ele estava impecável em uma camisa preta, o olhar severo percorrendo o ambiente até parar na pequena figura embrulhada em uma manta rosa nos braços de Eduarda.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, quebrado apenas pelos soluços baixos de Maya.
Emanuel entrou no apartamento e fechou a porta atrás de si com um clique seco. Ele cruzou os braços, a mandíbula tão tensa que os músculos do rosto saltavam.
— Que porra é essa, Eduarda? — ele perguntou, a voz perigosamente baixa.
Eduarda desabou. As pernas falharam e ela se sentou no sofá, chorando copiosamente enquanto segurava Maya com força.
— Ela me deixou, Emanuel... a minha prima... ela simplesmente foi embora e me deixou com ela... eu não sabia o que fazer... eu tive tanto medo...
Emanuel sentiu uma onda de fúria subir pelo pescoço. Não uma fúria contra Eduarda, mas contra a situação, contra a negligência alheia e, principalmente, contra o fato de ela não ter corrido para ele no primeiro segundo.
— E você achou que a solução era se esconder aqui? — Ele caminhou até ela, a presença dominando o espaço. — Há quanto tempo você está sozinha com essa criança?
— Duas semanas — ela sussurrou, sem coragem de olhá-lo nos olhos.
Emanuel soltou um palavrão entre dentes. Ele se inclinou e, com uma delicadeza que contrastava com sua expressão furiosa, tirou Maya dos braços de Eduarda. A bebê, surpreendentemente, parou de chorar quase instantaneamente ao sentir a firmeza e o calor dos braços do homem. Emanuel a segurou com a experiência de quem vinha cuidando de Ágata intensamente nos últimos meses.
— Você está um trapo, Eduarda — ele disse, embora o tom tivesse amolecido um pouco ao ver o estado dela. — Olhe para este lugar. Você não comeu, não é?
— Eu não consegui... ela chora tanto...
Emanuel pegou o celular no bolso e discou um número rapidamente.
— Sara? Sou eu. Escute bem. Pegue a bolsa da Ágata, algumas roupas extras e chame o motorista. Mande ele buscar você e o bebê agora. Estamos no apartamento da Eduarda.
— O quê? — A voz de Sara soou confusa e estridente do outro lado da linha. — O que aconteceu? A Duda está bem?
— A Eduarda está em crise e tem um bebê aqui. Uma história longa. Só venha. Agora.
Ele desligou sem esperar resposta. Emanuel olhou para a pequena Maya em seus braços, que agora o encarava com olhos curiosos e úmidos. Ele sentiu uma pontada de proteção por aquela criança também. Se Eduarda a amava, ou se Eduarda era responsável por ela, então aquela criança agora fazia parte do seu círculo de proteção.
— Vá tomar um banho — ordenou Emanuel, apontando para o corredor. — Agora. Eu vou cuidar dela até a Sara chegar.
— Mas Emanuel... os meus pais... se eles souberem...
— Seus pais estão na Índia tentando encontrar o nirvana enquanto você está aqui se afogando — ele a cortou, a rigidez voltando. — Eu resolvo os seus pais. Eu resolvo a sua prima. Eu resolvo a lei. Mas você precisa parar de ser tão teimosa e deixar que eu cuide de você. Entendeu?
Eduarda assentiu, enxugando as lágrimas com as costas das mãos. Ela se levantou, sentindo-se pequena e frágil, mas, pela primeira vez em duas semanas, sentiu que o peso do mundo não estava mais apenas em seus ombros.
Enquanto Eduarda estava no banho, Emanuel limpou a área central da sala com uma eficiência militar. Ele preparou uma mamadeira com o que encontrou na cozinha, testando a temperatura no pulso com a precisão de quem não admitia erros. Quando Sara chegou, vinte minutos depois, ela entrou no apartamento como um furacão loiro, carregando Ágata no bebê conforto e uma sacola de grife cheia de suprimentos.
— Meu Deus, Emanuel! Que caos é esse? — Ela parou, olhando para o marido alimentando um bebê desconhecido no sofá. — Quem é essa coisinha?
— Maya. A prima da Eduarda a abandonou aqui — explicou Emanuel, sem desviar os olhos da bebê. — A Eduarda está em choque.
Sara deixou Ágata em um lugar seguro e caminhou até Emanuel, colocando a mão no ombro dele. Ela olhou para Maya e depois para o rastro de destruição emocional que Eduarda havia deixado pela sala.
— Coitada da pequena... — Sara murmurou, e por um momento, a máscara de mulher vulgar e superficial caiu, revelando uma empatia genuína. — Emanuel, ela não tem estrutura para isso. A Duda é uma criança cuidando de outra criança.
— Eu sei — ele respondeu, a voz carregada de determinação. — É por isso que elas vão para casa conosco. Hoje.
Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada.
— Para a nossa casa? Com dois bebês de quatro meses? Você ficou louco, Manu?
— Eu não vou deixar ela aqui, Sara. E não vou deixar essa criança ser levada para um abrigo enquanto eu tiver recursos para impedir. Você disse que queria a felicidade de todos, não disse? A felicidade da Eduarda é estar sob nossa proteção.
Sara deu um sorriso de lado, um brilho de admiração e malícia surgindo em seus olhos. Ela sabia que aquele era o momento que Emanuel estava esperando, mesmo que as circunstâncias fossem trágicas. Ele agora tinha o pretexto perfeito para trazer Eduarda para dentro de seu domínio permanente.
— Tudo bem, "papai" — ela brincou, embora o tom fosse sério. — Se é para ter uma família nada convencional, que seja com estilo. Eu ajudo a arrumar as coisas dela.
Eduarda saiu do banheiro minutos depois, vestindo um pijama de seda clara, o rosto ainda inchado, mas os cabelos lavados. Ela estancou ao ver Sara na sala, segurando Ágata enquanto Emanuel ainda ninava Maya.
— Sara... eu sinto muito... eu não queria estragar as coisas — Eduarda começou a se desculpar, a voz manhosa e insegura.
Sara caminhou até ela e, em um gesto inesperado, envolveu-a em um abraço apertado. O perfume caro de Sara e a firmeza de seu corpo siliconado trouxeram uma sensação de realidade para Eduarda que ela não sentia há dias.
— Cala a boca, Duda — disse Sara, carinhosa. — Você não estragou nada. Na verdade, você acabou de ganhar uma equipe de apoio. Nós vamos levar você e a Maya para a cobertura. Lá tem espaço, tem babá, tem segurança e tem o Emanuel para dar ordens em todo mundo.
Eduarda olhou para Emanuel, que a observava com uma intensidade que a fazia tremer.
— Você quer que eu vá? — ela perguntou, quase em um sussurro.
Emanuel se levantou, entregando Maya para Sara e caminhando até Eduarda. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a sustentar o olhar dele.
— Eu não quero que você vá, Eduarda. Eu estou mandando você ir. Você não tem mais que decidir nada sozinha. De agora em diante, o que for seu, é meu. As suas dores, as suas responsabilidades... e essa criança também.
— Mas e a faculdade? E o ballet? — ela perguntou, buscando apoio no peito dele.
— Você vai continuar tudo. Mas com estrutura. — Ele beijou a testa dela, um gesto de posse e carinho profundo. — Agora, pegue o que for essencial. O resto eu mando comprar novo amanhã.
A mudança foi rápida. Emanuel não dava espaço para contestações. Em menos de uma hora, o grupo de amigos que esperava uma visita social à Ágata recebeu a notícia de que a cobertura estava fechada por mais alguns dias para "ajustes familiares".
Naquela noite, a grande cobertura de Emanuel estava diferente. No quarto de hóspedes luxuoso, transformado às pressas em um segundo berçário, Maya dormia tranquilamente. No quarto principal, Ágata descansava sob a vigilância das câmeras.
Emanuel estava na varanda, observando as luzes da cidade. Ele sentia uma adrenalina que nenhum negócio bilionário jamais lhe proporcionara. Ele tinha Sara, sua mulher, sua parceira de vida e mãe de sua filha. E agora, no quarto ao lado, ele tinha Eduarda, protegida, dependente dele, ligada a ele por uma dívida de gratidão e um amor que ela ainda não conseguia nomear.
Sara apareceu na varanda, entregando-lhe uma dose de uísque.
— Ela dormiu — disse Sara, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — Estava exausta. Ela é tão doce, Manu. Dá vontade de guardar em uma caixinha.
— Eu vou fazer mais do que isso, Sara — ele respondeu, bebendo um gole do líquido ambarino. — Eu vou construir uma fortaleza em volta dela.
— Eu sei que vai. — Sara sorriu, olhando para o marido. — E eu vou estar aqui para garantir que ela não fuja. Afinal, duas bebês de quatro meses vão dar um trabalho danado. Vamos precisar de muita "energia positiva", como os pais dela dizem.
Emanuel soltou uma risada curta, a primeira da noite. A fúria havia passado, dando lugar a um plano meticuloso. Ele não sabia como lidaria com a situação legal de Maya, ou como explicaria para o grupo de amigos a presença permanente de Eduarda em sua casa, mas ele não se importava.
Ele era Emanuel. Ele era o porto, a agulha e a tinta. E ele estava apenas começando a tatuar o destino daquelas duas mulheres na sua própria pele. A família "perfeita" que ele imaginara estava finalmente reunida, sob o seu teto, sob as suas regras, e sob o seu amor possessivo e inabalável.