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O Sangue e a Inocência: O Caos do Cuidado Excessivo

A luz da manhã entrava pelas janelas da suíte de Eduarda, banhando o quarto com uma claridade suave que combinava com a decoração em tons pastéis. O apartamento de Emanuel era um monumento ao luxo, mas o quarto de Eduarda era o seu refúgio de delicadeza. Naquele sábado, o ritmo da casa estava incomumente calmo. Emanuel estava no escritório resolvendo questões burocráticas de suas filiais em Madri, e Sara tinha saído para uma sessão de fotos para a nova coleção de sua loja.

Eduarda, aproveitando a rara quietude, decidiu que precisava de um tempo para si. Entre as aulas de ballet e os cuidados com Maya, ela mal tivera tempo de se olhar no espelho com atenção. No banheiro espaçoso, revestido de mármore carrara, ela preparou o ambiente. Maya, agora com pouco mais de um ano e meio, estava em uma fase de curiosidade absoluta, seguindo Eduarda como uma pequena sombra.

— Mamãe, binca? — pediu a menina, sentada no tapete do banheiro com uma boneca de pano.

— A mamãe vai se cuidar rapidinho, meu anjo. Fica aí com a sua boneca que eu já brinco com você — respondeu Eduarda, sorrindo para a filha.

Eduarda começou sua rotina de cuidados. Ela era meticulosa, quase ritualística. No entanto, o cansaço das últimas noites mal dormidas — já que Maya estava em uma fase de pesadelos — cobrava seu preço na forma de uma leve falta de coordenação. Ao manusear a lâmina de depilação íntima, em um movimento um pouco mais apressado para terminar logo, a mão escorregou.

Foi um corte pequeno, superficial, mas como qualquer ferimento naquela região sensível, o sangramento foi imediato e vívido.

— Ai! — exclamou Eduarda, franzindo o cenho pela ardência repentina.

Ela se inclinou para limpar o local com um pedaço de algodão, mas o ângulo e a quantidade de sangue que manchou o branco do algodão foram suficientes para criar uma cena dramática aos olhos de quem não entendia o que estava acontecendo. E esse "alguém" era Maya, que se levantara para ver o que a mãe estava fazendo.

A pequena estancou, os olhos escuros arregalados. Ela viu o sangue, viu a expressão de dor no rosto de Eduarda e, na sua mente infantil, o mundo acabara de desabar.

— Mamãe! — gritou Maya, a voz aguda carregada de um pavor genuíno. — Sangue! Mamãe dodói!

— Não, Maya, está tudo bem! É só um cortinho, meu amor! — Eduarda tentou acalmar a filha, mas estava em uma posição comprometedora, tentando estancar o sangramento e se cobrir ao mesmo tempo.

Maya não ouviu. Para ela, sua mãe estava sendo atacada por um monstro invisível. Ela deu meia-volta e saiu correndo do banheiro, suas pequenas pernas batendo no chão de madeira do corredor enquanto soltava gritos lancinantes.

— Papai! Papai Manu! Mamãe morre! Sangue! — berrava a menina, cruzando a sala em direção ao escritório.

Dentro do escritório, Emanuel estava concentrado em uma planilha de custos quando a porta foi aberta com um estrondo. Maya entrou como um pequeno furacão de desespero, jogando-se contra as pernas dele. O choro era histérico, daqueles que impedem a criança de respirar direito.

— Maya? O que foi? O que aconteceu? — Emanuel a pegou no colo instantaneamente, o coração disparando. Ele nunca a vira naquele estado.

— Mamãe! — soluçava a menina, apontando freneticamente para o corredor. — Mamãe... sangue... muito sangue, papai! Dodói grande! Mamãe caiu!

O sangue de Emanuel gelou. Na sua mente prática e protetora, o pior cenário se formou em milésimos de segundo. Eduarda era frágil, sensível; talvez tivesse desmaiado, batido a cabeça, ou algo pior. O pavor de Maya era contagioso e, para Emanuel, a segurança de Eduarda era o pilar de sua sanidade.

— Eduarda! — ele rugiu, saindo do escritório com Maya ainda nos braços.

Ele atravessou o corredor em passos largos, a mente fervilhando. Se alguém tivesse invadido o apartamento, se ela estivesse passando mal... ele não sabia o que faria. Emanuel era um homem que resolvia tudo com força e lógica, mas a possibilidade de perder Eduarda o deixava cego de preocupação.

Ele chutou a porta do quarto dela, que estava entreaberta, e correu para o banheiro.

— Eduarda, pelo amor de Deus! — Ele parou na porta do banheiro, a respiração ofegante.

Eduarda estava sentada na borda da banheira, enrolada em uma toalha branca, tentando desesperadamente limpar o chão e a si mesma. Havia alguns pedaços de algodão com manchas vermelhas na lixeira aberta, o que, para Emanuel, parecia o cenário de um crime.

— Emanuel! O que... o que você está fazendo aqui? — perguntou ela, o rosto ficando vermelho de vergonha.

— Onde você está ferida? — Ele se ajoelhou na frente dela, ignorando completamente a etiqueta, colocando Maya no chão. — A Maya disse que você estava sangrando, que tinha caído! Eduarda, você está pálida! É o coração? Você se cortou com vidro?

— Emanuel, se acalme! — Eduarda tentou segurar as mãos dele, que já começavam a tatear seus braços e pescoço em busca de ferimentos. — Eu estou bem!

— Não mente para mim! — ele explodiu, a voz carregada de uma fúria que era, na verdade, medo puro. — Maya estava histérica! Olha para esse algodão, olha para o seu rosto! O que aconteceu aqui?

Maya continuava a chorar alto, agarrada à perna de Emanuel.

— Mamãe dodói! Papai cura mamãe!

— Emanuel, por favor, me escuta... — Eduarda suspirou, sentindo que a situação tinha saído completamente do controle. — Eu estava me depilando.

O silêncio que se seguiu foi quase cômico. Emanuel parou, as mãos ainda suspensas no ar. Ele piscou, processando a informação.

— Depilando? — repetiu ele, a voz baixando o tom.

— Sim. Eu me cortei. Um corte minúsculo, mas você sabe como é... sangra muito no começo. A Maya entrou bem na hora e se assustou. Eu não consegui explicar para ela antes dela sair correndo atrás de você como se eu estivesse morrendo.

Emanuel olhou para a lixeira, depois para a lâmina sobre a bancada e, finalmente, para a toalha de Eduarda. A tensão começou a sair de seu corpo, substituída por uma exaustão mental profunda e, logo em seguida, por uma irritação latente.

— Você quase me matou de susto por causa de uma depilação? — Ele passou a mão pelo rosto, sentindo o suor frio na testa. — Eduarda, a menina disse que você estava morrendo! Eu achei que... que alguém tinha entrado aqui!

— Eu tentei falar! — Eduarda exclamou, começando a rir pelo absurdo da situação, apesar da vergonha. — Mas você entrou aqui como se fosse derrubar o prédio!

— Eu não brinco com a segurança de vocês — ele disse, a voz voltando à sua rigidez habitual. Ele pegou Maya no colo, que agora estava apenas soluçando, observando a mãe com cautela. — Viu, Maya? A mamãe está bem. Foi só um "dodói" bobo.

— Mamãe não morre? — perguntou a pequena, limpando o nariz na camisa de Emanuel.

— Não, meu anjo. A mamãe é apenas um pouco desastrada — Emanuel respondeu, lançando um olhar severo para Eduarda.

— Desastrada? — Eduarda protestou, levantando-se, ainda segurando a toalha com firmeza. — Acontece com qualquer mulher, Emanuel! Eu não posso nem ter um momento de privacidade para me cuidar que vira um evento de emergência nacional nesta casa?

— Se esse "cuidado" envolve derramamento de sangue e traumas psicológicos na minha filha, então sim, vira um evento — Emanuel retrucou, cruzando os braços. — Por que você não usa laser? Ou vai a uma clínica profissional? Eu já disse que pago o que for necessário para você não ter que lidar com lâminas ou cera em casa.

— Porque eu gosto de fazer as minhas coisas no meu tempo, Emanuel! — Ela deu um passo à frente, a timidez dando lugar a uma pontada de rebeldia. — Você quer controlar até o jeito que eu tiro meus pelos?

— Eu quero controlar o fato de eu não ter um infarto antes dos trinta! — ele gritou de volta, embora o brilho de alívio em seus olhos traísse sua raiva.

Nesse momento, Sara apareceu na porta, carregada de sacolas de compras, atraída pelos gritos.

— Mas que zona é essa? Dá para ouvir os gritos do elevador — disse a loira, olhando para o cenário: Eduarda de toalha e rosto vermelho, Emanuel furioso com Maya no colo e o banheiro parecendo um posto de saúde improvisado.

— A Eduarda decidiu tentar se suicidar com uma gilete — ironizou Emanuel, embora o tom fosse amargo.

— Eu me cortei, Sara! Só isso! — Eduarda explicou, quase implorando por sanidade. — E a Maya achou que eu estava esvaindo em sangue.

Sara olhou para a lixeira, depois para Eduarda e soltou uma gargalhada alta e escandalosa, jogando a cabeça para trás.

— Ah, não! Manu, você caiu nessa? — Sara se aproximou, dando um tapinha no ombro de Emanuel. — Deixa a menina se depilar em paz. Mas Duda, sério, gilete? Estamos em que ano? Eu te levo na minha esteticista segunda-feira. Ela faz um serviço completo e você não assusta as crianças.

— Eu não quero ir na esteticista, eu quero privacidade! — Eduarda resmungou, sentando-se novamente na banheira, sentindo-se exausta.

Emanuel suspirou, sua raiva evaporando e dando lugar àquela proteção automática que ele sentia por Eduarda. Ele colocou Maya no chão e caminhou até a bailarina. Ignorando a presença de Sara, ele se inclinou e beijou a testa de Eduarda.

— Me desculpe por gritar — ele sussurrou, a voz agora suave. — Mas você não tem ideia do que eu senti quando ouvi a Maya. Eu achei que tinha perdido você.

Eduarda olhou para ele, vendo a vulnerabilidade genuína por trás daqueles olhos escuros e controladores. Ela relaxou os ombros e apoiou a cabeça no peito dele por um momento.

— Eu estou bem, Manu. Prometo.

— Ótimo — interrompeu Sara, que já estava pegando Maya no colo para levá-la para longe do "cenário do crime". — Agora que o drama médico acabou, Emanuel, você pode levar a Maya para tomar um sorvete? Eu preciso conversar com a Duda sobre técnicas de depilação que não envolvam chamar o SAMU.

Emanuel olhou para as duas mulheres. Ele ainda estava trêmulo por dentro, a adrenalina demorando a baixar.

— Eu vou levar a Maya para a sala. Eduarda, termine o que tem que fazer, mas por favor... tenha cuidado. Se eu ver mais uma gota de sangue nesse chão, eu jogo todas as suas lâminas fora e contrato uma esteticista para morar aqui.

— Você não faria isso — disse Eduarda, com um sorriso desafiador.

— Tente para ver — ele respondeu, com um brilho de posse nos olhos, antes de sair do banheiro com a filha.

Sara fechou a porta e sentou-se no tapete, olhando para Eduarda.

— Ele é louco por você, sabe disso, né? O cara quase teve um colapso porque você se cortou.

— Ele é exagerado, Sara. É sufocante às vezes — admitiu Eduarda, limpando o último vestígio do corte, que já parara de sangrar.

— É o jeito dele. Ele quer as duas aqui, seguras, sob a asa dele. E a Maya... bem, a Maya é uma pequena atriz dramática. Ela puxou isso de mim, com certeza — Sara riu, pegando um dos cremes de Eduarda e cheirando. — Mas falando sério, Duda... deixa ele cuidar. É mais fácil. Se ele quer pagar laser, deixa ele pagar. Se ele quer se estressar, deixa ele se estressar. No final do dia, ele só quer saber que você está inteira para ele.

Eduarda assentiu, sentindo o peso daquela dinâmica. Ela amava Emanuel, amava a segurança que ele provia, mas momentos como aquele a lembravam de que, naquela casa, até um pequeno corte era assunto de Estado.

Mais tarde, após o turbilhão ter passado, Emanuel voltou ao quarto de Eduarda. Ele trazia um curativo pequeno, daqueles com desenhos infantis que pertenciam a Maya, e uma caixa de chocolates finos.

— Para o seu "dodói" — disse ele, sentando-se na cama ao lado dela.

Eduarda riu, pegando o chocolate.

— Você não desiste, não é?

— Nunca. — Ele a puxou para perto, prendendo-a em seus braços. — Eu falei sério sobre o laser, Eduarda. Não quero mais sustos.

— Tudo bem, Emanuel. Você venceu. Vou fazer o laser — ela cedeu, sentindo o calor do corpo dele e a paz que vinha com sua presença, apesar de tudo.

— Bom. — Ele beijou o pescoço dela, um toque possessivo e lento. — Agora, por que você não me mostra onde exatamente foi esse corte? Só para eu garantir que a cicatrização está ocorrendo bem... puramente por preocupação médica, claro.

Eduarda corou, empurrando-o de leve, mas acabou cedendo ao beijo dele. Naquela cobertura, entre o luxo, o controle e os gritos de uma criança imaginativa, a vida seguia seu curso peculiar. Emanuel podia ser um tirano, Sara podia ser uma provocadora e Eduarda podia ser sensível demais, mas no fim das contas, eles eram um organismo único. E, mesmo que um pequeno corte de depilação pudesse causar um caos monumental, era esse mesmo caos que mantinha o coração de Emanuel batendo forte, lembrando-o a cada segundo de que ele tinha tudo o que sempre quis, bem ali, sob o seu comando e o seu cuidado infinito.