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Herança de Sangue e Algodão Doce

A luz da manhã infiltrava-se pelas janelas de vidro duplo da cobertura, iluminando as partículas de poeira que dançavam sobre o tapete persa da sala de estar. O ambiente, que antes era um santuário de minimalismo e design industrial, agora estava permanentemente transformado. Brinquedos de marcas europeias, tapetes de atividades coloridos e o som constante de risadinhas infantis haviam se tornado a nova decoração do império de Emanuel.

Seis meses haviam se passado desde a noite na rodoviária. Seis meses desde que Maya deixara de ser uma sombra na beira da estrada para se tornar o centro gravitacional da vida de Eduarda. E, consequentemente, da vida de Emanuel.

Emanuel estava sentado na poltrona de couro, observando a cena diante de si com uma expressão que oscilava entre o cansaço profundo e a adoração absoluta. Ele segurava um tablet, tentando revisar os lucros de seu novo estúdio em Tóquio, mas seus olhos não conseguiam focar nos números. Eles estavam fixos nas duas crianças no centro do tapete.

Ágata, com seus dezoito meses, era a imagem cuspida e escarrada de Sara. Os cabelos loiros, já compridos o suficiente para pequenos rabos de cavalo, emolduravam um rosto de boneca, mas com uma expressão que Emanuel reconhecia bem: a arrogância natural de quem nasceu sabendo que o mundo lhe pertencia. Ela estava sentada com as costas eretas, cercada por um castelo de blocos de montar, olhando para o nada com um desdém que chegava a ser cômico para sua idade.

Ao lado dela, Maya era o oposto. A menina, agora com um ano e meio, tinha a pele levemente bronzeada e olhos grandes e curiosos que pareciam sempre pedir permissão para existir. Ela era travessa, sim — tinha o hábito de esconder as chaves de Emanuel dentro dos vasos de plantas —, mas sua timidez era sua marca registrada. Ela se movia com a leveza de quem não queria incomodar, um traço que Emanuel tinha certeza ter sido moldado pela convivência constante com a doçura de Eduarda.

A porta da frente se abriu, e o som de saltos altos e risadas preencheu o vácuo. Sara entrou primeiro, carregando sacolas de grife, seguida pelos pais de Eduarda, que traziam um embrulho grande e colorido.

— Chegamos, família! — exclamou Sara, jogando as chaves no aparador. Ela usava um vestido de leopardo justo e óculos escuros sobre a cabeça, a personificação da exuberância. — Os vovôs decidiram que essas crianças não tinham brinquedos suficientes. Como se isso fosse possível.

Eduarda veio logo atrás, saindo da cozinha com um avental sujo de farinha. Ela estava mais radiante do que nunca. A maternidade — mesmo que não biológica — dera a ela uma confiança suave, um brilho nos olhos castanhos que fazia o coração de Emanuel errar a batida toda vez que ela sorria para Maya.

— Mãe! Pai! — Eduarda correu para abraçá-los. — Não precisavam ter comprado nada, a Maya já ganhou tanta coisa essa semana.

— Bobagem, Duda — disse o pai de Eduarda, um homem de aparência jovem e sorriso fácil, enquanto se aproximava de Maya. — Vimos essa boneca na vitrine e sabíamos que era a cara da nossa neta.

Ele entregou o embrulho para Maya. A menina, tímida, olhou primeiro para Eduarda, buscando aprovação, e depois para Emanuel. Só quando Emanuel assentiu com um pequeno sorriso é que ela começou a rasgar o papel com dedos gordinhos e cuidadosos.

Lá dentro estava uma boneca de pano artesanal, com vestidos de algodão doce e cabelos de lã castanha, muito parecida com a própria Maya.

— Oh, Maya! Que linda! — Eduarda se ajoelhou ao lado da menina, ajudando-a a segurar o brinquedo. — Diga obrigada ao vovô.

Maya abraçou a boneca contra o peito, escondendo o rosto no ombro de Eduarda, soltando uma risadinha abafada.

— Obrigada... — sussurrou a pequena, a voz quase inaudível.

Do outro lado do tapete, o clima mudou instantaneamente. Ágata, que até então ignorava a presença de todos, fixou os olhos azuis na boneca de Maya. Ela olhou para o próprio brinquedo — um tablet educativo de última geração que ganhara minutos antes da avó — e o jogou para o lado com um estalo seco contra o chão de madeira.

— Minha — disse Ágata, a voz firme e exigente.

Ela se levantou e caminhou em direção a Maya com a determinação de um pequeno trator.

— Ágata, não — Emanuel avisou da poltrona, sua voz baixando para aquele tom de advertência que geralmente fazia seus funcionários tremerem. — Você ganhou o seu presente. A boneca é da Maya.

Ágata nem sequer olhou para o pai. Ela parou diante de Maya e estendeu a mão, fechando os dedos em torno do braço da boneca de pano.

— Minha! — repetiu a menina loira, puxando o brinquedo com força.

Maya, assustada, arregalou os olhos e segurou a boneca com mais força, começando a choramingar. Ela não revidava, apenas tentava manter o que era seu, o corpo encolhido como se esperasse um golpe.

— Ágata, solte agora! — Emanuel se levantou, a paciência evaporando. O estresse acumulado de uma semana de negociações difíceis encontrou um foco na teimosia da filha.

Sara, que observava a cena enquanto servia uma taça de vinho, soltou uma risada cínica.

— Deixe a menina, Manu. Ela sabe o que quer. É uma sobrevivente, igual à mãe.

— Ela está sendo egoísta, Sara — retrucou Emanuel, aproximando-se das crianças. — Maya não tem nada que era dela, e a primeira coisa que ganha dos avós, a Ágata quer tomar? Não sob o meu teto.

Emanuel pegou Ágata pelo braço, não com força, mas com uma firmeza que interrompeu o cabo de guerra. Ele desvencilhou a mão da filha da boneca de Maya.

— Vá para o seu quarto, Ágata. Agora.

A menina loira olhou para o pai com uma indignação pura. Ela não chorou; em vez disso, cruzou os braços e soltou um som de desprezo, dando as costas e caminhando para o corredor com o nariz empinado, uma cópia perfeita de Sara quando estava contrariada.

Eduarda pegou Maya no colo, ninando a menina que agora chorava baixinho, soluçando contra seu pescoço.

— Está tudo bem, meu amor... a boneca é sua. Ninguém vai tirar — sussurrava Eduarda, lançando um olhar de mágoa para Sara. — Sara, você não deveria incentivar isso. A Maya fica assustada.

Sara deu de ombros, bebericando o vinho com elegância vulgar.

— Duda, querida, o mundo não é um palco de ballet. A Ágata só está expressando a dominância dela. Se a Maya é molenga, o problema não é da minha filha.

— Chega, Sara! — Emanuel explodiu, a voz ecoando pelas paredes da cobertura. — A Maya é tão minha filha quanto a Ágata. E eu não vou permitir que você ou a Ágata a tratem como se ela fosse inferior. Se você quer criar uma tirana, faça isso longe daqui. Nesta casa, as duas são iguais.

O silêncio que se seguiu foi denso. Os pais de Eduarda trocaram olhares desconfortáveis, sentindo a eletricidade entre o trio. Sara arqueou uma sobrancelha, nem um pouco intimidada pela explosão do marido. Pelo contrário, o poder dele a excitava.

— Uau, Manu. Todo esse fogo por causa de uma boneca de pano? — Ela caminhou até ele, passando a mão livre pelo peito dele, ignorando a tensão. — Você fica tão lindo quando tenta ser o juiz do mundo.

Emanuel a afastou rudemente, caminhando até Eduarda. Ele colocou a mão grande na nuca da prima, um gesto que se tornara seu refúgio pessoal nos últimos meses.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz suavizando apenas para ela.

— Estou... só fico triste pela Maya — disse Eduarda, os olhos marejados. — Ela já passou por tanto antes de chegar aqui. Eu só queria que ela se sentisse segura.

— Ela está segura — afirmou Emanuel, olhando profundamente nos olhos de Eduarda. — Eu prometi a você, não prometi? Ninguém toca no que é dela.

Ele se virou para os sogros, tentando recuperar a compostura.

— Me desculpem por isso. A Ágata tem uma personalidade... difícil.

— Ela é uma criança, Emanuel — disse a mãe de Eduarda, tentando aliviar o clima. — Mas é bom ver como você defende a Maya. Nós ficamos muito felizes em ver como vocês se tornaram uma família de verdade.

Família de verdade. As palavras ecoaram na mente de Emanuel. O que eles tinham era qualquer coisa, menos convencional. Ele tinha a esposa que desafiava seus limites e a prima que curava suas feridas. E agora, tinha duas filhas que representavam os dois lados de sua própria alma: a ambição feroz e a sensibilidade silenciosa.

— Duda — chamou Emanuel, enquanto os pais dela começavam a se despedir para ir ao hotel. — Leve a Maya para o quarto. Eu vou falar com a Ágata. E depois... precisamos conversar sobre a viagem para a Europa.

Eduarda assentiu, dando um beijo casto na bochecha de Emanuel, um gesto que fez Sara sorrir com malícia por trás da taça de vinho.

Quando Eduarda e a bebê saíram da sala, Emanuel se virou para Sara. O rosto dele era uma máscara de seriedade.

— Você precisa parar com isso, Sara. De colocar a Ágata contra a Maya.

— Eu não coloco ninguém contra ninguém, Manu — Sara disse, aproximando-se e colando o corpo ao dele, o cheiro de perfume caro inundando os sentidos do tatuador. — Eu apenas não finjo que elas são iguais. A Ágata tem o nosso sangue. A Maya é um projeto de caridade da Duda que você adotou por culpa e desejo.

Emanuel segurou o rosto de Sara com força, os olhos brilhando com uma intensidade perigosa.

— Escute bem. A Maya é minha. No papel e no coração. Se eu tiver que escolher entre a paz da Eduarda e os seus jogos mentais, você sabe quem ganha.

Sara soltou uma risada rouca, pressionando-se contra ele.

— Eu sei, meu amor. É por isso que eu te amo. Você é um animal protetor. Mas não se engane... a Duda pode ter a sua proteção, mas eu tenho a sua pele.

Ela o beijou, um beijo faminto e possessivo que Emanuel retribuiu com uma frustração latente. Era o ciclo eterno de sua vida: a necessidade de controlar o fogo de Sara enquanto buscava o abrigo na suavidade de Eduarda.

Mais tarde naquela noite, após o caos ter se dissipado e as crianças estarem finalmente dormindo, Emanuel caminhou até o quarto de hóspedes, que agora era permanentemente de Eduarda.

Ele a encontrou sentada na beira da cama, observando Maya dormir no berço ao lado. A boneca de pano estava aninhada nos braços da pequena.

— Ela está bem? — perguntou ele, entrando sem bater.

— Sim. Ela é resiliente — Eduarda respondeu, olhando para ele com uma doçura que sempre o desarmava. — Obrigada por hoje, Manu. Eu sei que é difícil para você ficar entre a Sara e eu.

Emanuel sentou-se ao lado dela, sentindo o colchão afundar. Ele pegou a mão de Eduarda, traçando as linhas da palma dela com o polegar.

— Não é difícil, Duda. É necessário. Eu não conseguiria viver em um mundo onde você não estivesse feliz.

Eduarda inclinou a cabeça, encostando-a no ombro dele.

— Às vezes eu me sinto culpada. Por tirar você da sua vida perfeita com a Sara. Por trazer a Maya e toda essa confusão.

Emanuel virou o rosto, beijando o topo da cabeça dela.

— Minha vida não era perfeita, pequena. Era apenas... funcional. Você e a Maya trouxeram a cor que faltava. A Sara é o meu império, mas você é o meu lar.

Eduarda fechou os olhos, permitindo-se ser envolvida pelo calor dele. Ela ainda não entendia completamente a dinâmica que Sara aceitara com tanta facilidade, mas ali, no silêncio do quarto, com o som da respiração de Maya, ela sabia que não importava o quão arrogante Ágata fosse ou o quão vulgar Sara se comportasse.

Emanuel era o porto seguro. E enquanto ele estivesse ali, segurando sua mão com aquela força silenciosa, Eduarda sabia que a boneca de pano de Maya — e o coração de ambas — estariam sempre protegidos.

— Durma um pouco — ele sussurrou, levantando-se relutante. — Amanhã temos muito o que resolver.

— Manu? — ela chamou quando ele já estava na porta.

— Sim?

— Você é um pai maravilhoso. Para as duas.

Emanuel não respondeu com palavras. Ele apenas acenou com a cabeça, uma sombra de sorriso cruzando seu rosto cansado antes de fechar a porta. No corredor escuro, ele respirou fundo, sentindo o peso de suas escolhas. Ele queria as duas. Ele tinha as duas. E, custasse o que custasse, ele manteria aquele mundo frágil e complexo girando, traço por traço, como a mais eterna das tatuagens.

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