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O Despertar da Bailarina e a Fúria do Guardião

A manhã na fazenda começou com o som distante dos pássaros e o cheiro de café fresco, mas para Eduarda, o ar parecia mais pesado, carregado com uma resolução que ela vinha cultivando desde a conversa da noite anterior. No quarto, enquanto as primas ainda se espreguiçavam, o assunto "sexo" voltou à tona como um eco inevitável. Eduarda sentia-se deslocada, como uma peça de porcelana antiga em uma prateleira de vidro moderno. Ela tinha vinte anos, era professora de ballet, entendia a história da arte, mas não entendia nada sobre o próprio corpo no contexto do prazer.

— Eu não aguento mais — Eduarda murmurou, sentada na beira da cama, apertando as mãos pequenas contra os joelhos. — Parece que eu sou a única que ainda está esperando por algo que nem sei se existe.

Lúcia, que estava passando rímel diante do espelho, virou-se com um sorriso malicioso.

— Duda, querida, a virgindade não é um tesouro que você precisa guardar em um cofre. É só uma fase. E, sinceramente? Às vezes é melhor tirar o curativo de uma vez.

— Mas com quem? — Eduarda perguntou, a voz falhando levemente. — Eu não conheço ninguém aqui.

— Ah, mas nós conhecemos — Beatriz interveio, sentando-se ao lado da prima. — O filho do dono da fazenda vizinha, o Rodrigo. Ele é... bom, ele é um ogro de bonito. E ele não quer compromisso, não quer romance. Ele quer exatamente o que você precisa: resolver o problema e seguir em frente.

Eduarda sentiu um frio na barriga. A ideia de se entregar a um estranho apenas para "resolver o problema" era aterrorizante, mas a pressão de sua própria timidez e a sensação de estar ficando para trás falavam mais alto. Ela queria deixar de ser a "menininha" da família. Queria que Emanuel parasse de olhá-la apenas como algo frágil que precisava de proteção constante.

Enquanto isso, no andar de baixo, Emanuel e Sara compartilhavam um momento de silêncio na varanda. Emanuel estava tenso, os olhos fixos na linha do horizonte, enquanto Sara bebia um suco de laranja, observando o marido com aquela perspicácia que só ela possuía.

— Você está sentindo, não está? — Sara perguntou, a voz rouca e direta. — O ar está mudando. A sua pequena bailarina está prestes a fazer algo estúpido.

Emanuel franziu a testa, os nós dos dedos ficando brancos ao apertar a caneca de café.

— Ela está estranha desde que chegamos. Quieta demais, até para os padrões dela.

— Ela quer crescer, Manu — Sara deu de ombros, ajeitando o generoso decote que exibia o silicone com orgulho. — E quando meninas reprimidas decidem crescer, elas costumam escolher o caminho mais rápido e doloroso. Eu se fosse você, ficava de olho.

O aviso de Sara ficou martelando na cabeça de Emanuel durante todo o dia. Ele tentou se ocupar com as planilhas dos seus estúdios de tatuagem, mas sua mente sempre voltava para Eduarda. Ele a amava com uma possessividade que beirava o irracional. Amava Sara por sua força e por ser sua cúmplice, mas Eduarda era sua alma, a parte dele que ainda acreditava em pureza. A ideia de alguém tocando nela, de alguém profanando aquela doçura, fazia seu sangue ferver.

O plano foi traçado pelas primas para o final da tarde, no antigo celeiro desativado que ficava no limite das terras. Era um lugar isolado, perfeito para um encontro clandestino. Eduarda, vestida com um vestido de alças finas que parecia simples demais para a importância do momento, caminhou até lá com o coração batendo na garganta.

Rodrigo já a esperava. Ele era alto, bronzeado e tinha um sorriso convencido que fez Eduarda se encolher por dentro. Ele não tinha a delicadeza de Emanuel, nem a presença imponente e respeitosa que ela estava acostumada a ver no primo.

— Então você é a prima do "todo-poderoso" Emanuel? — Rodrigo perguntou, aproximando-se com uma confiança predatória. — As meninas disseram que você queria ter uma experiência... educativa.

— Eu... eu só quero acabar com isso — Eduarda disse, a voz manhosa e trêmula, recuando até que suas costas batessem na madeira velha do celeiro.

— Relaxa, boneca. Vai ser rápido.

Rodrigo avançou, as mãos ásperas alcançando a cintura de Eduarda. Ela fechou os olhos, tentando imaginar que estava em outro lugar, tentando se convencer de que aquilo era o certo. Mas, no momento em que ele inclinou o rosto para beijar seu pescoço, o som da porta do celeiro sendo escancarada ecoou como um tiro de canhão.

A silhueta de Emanuel estava emoldurada pela luz do pôr do sol, e a aura de fúria que emanava dele era quase palpável. Ele não parecia o empresário racional de sempre; parecia um predador que acabara de encontrar um invasor em seu território.

— Tira as mãos dela — a voz de Emanuel saiu baixa, perigosa, carregada de uma promessa de violência que fez Rodrigo congelar instantaneamente.

— Cara, a gente só estava... — Rodrigo começou a dizer, mas não teve tempo de terminar.

Emanuel avançou o espaço entre eles em segundos. Ele agarrou Rodrigo pelo colarinho com uma força que o levantou do chão, os olhos escuros brilhando com um ódio frio.

— Se você encostar nela de novo, eu juro que não vai haver lugar neste mundo onde você possa se esconder. Suma daqui. Agora!

Rodrigo não esperou uma segunda ordem. Ele tropeçou ao ser solto e correu para fora do celeiro, deixando para trás um silêncio carregado de eletricidade e tensão.

Eduarda estava encolhida contra a parede, as lágrimas começando a rolar por seu rosto fino. Ela se sentia humilhada, exposta e, acima de tudo, irritada.

— Por que você fez isso?! — ela gritou, sua voz falhando em um soluço manhoso. — Você não tinha o direito!

Emanuel virou-se para ela, a respiração ainda pesada. Ele tentou se acalmar, mas ver Eduarda naquele estado, pronta para se entregar a um qualquer, tinha quebrado algo dentro dele.

— Eu não tinha o direito? Eduarda, você tem noção do que estava prestes a fazer? Aquele idiota não se importa com você! Ele ia te usar e te jogar fora como se você fosse nada!

— E o que importa?! — Eduarda rebateu, dando um passo à frente, a timidez dando lugar a uma frustração acumulada de anos. — Eu tenho vinte anos, Emanuel! Eu sou a única virgem, a única que não sabe o que é ser tocada! Eu só queria perder isso, queria ser como as outras! E você estragou tudo! Você sempre estraga tudo agindo como se fosse meu dono!

Emanuel sentiu um soco no estômago. Ele caminhou até ela, encurtando a distância até que pudesse sentir o calor do corpo de Eduarda. Sua mão, grande e marcada por tatuagens, subiu para o rosto dela, o polegar limpando uma lágrima com uma delicadeza que contrastava com sua fúria anterior.

— Você não é como as outras, Duda — ele sussurrou, a voz agora rouca de emoção. — Você é preciosa demais para ser desperdiçada com alguém que não sabe o valor da joia que tem nas mãos. Você acha que eu sou seu dono? Talvez eu seja. Porque eu não suporto a ideia de qualquer outro homem tocando em você.

Eduarda olhou para ele, os olhos grandes e úmidos buscando os dele. A proximidade física era inebriante. Ela sentia o cheiro de Emanuel — uma mistura de tabaco caro, tinta e algo puramente masculino.

— Você tem a Sara — ela murmurou, a voz ficando pequena e carente. — Você tem a sua vida, o seu bebê... Por que não me deixa ter a minha?

— Porque a minha vida não está completa sem você — Emanuel confessou, a honestidade rasgando sua fachada de controle. — Eu amo a Sara, eu a amo com tudo o que sou. Mas o que eu sinto por você... é algo que me consome. Eu quero proteger você, mas também quero você para mim. De um jeito que não é puro, Duda. De um jeito que me enlouquece.

Eduarda sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A revelação de Emanuel era o que ela sempre desejara ouvir, mas nunca ousara admitir. Ela se apoiou no peito dele, buscando o conforto que só ele proporcionava.

— Você me quer? — ela perguntou, manhosa, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Mais do que qualquer coisa — ele respondeu, fechando os olhos e inspirando o perfume de flores de sua pele. — Mas não assim. Não por desespero de "perder algo". Se você for minha, será porque você quer, não porque quer ser como as outras.

Nesse momento, o som de saltos altos ecoou no chão de madeira do celeiro. Sara apareceu na entrada, encostando-se no batente da porta com uma elegância vulgar e um sorriso de quem já previa toda a cena. Ela usava um conjunto de cetim preto que deixava pouco para a imaginação, e seus olhos loiros brilhavam com diversão.

— Eu disse que ele ia enlouquecer, não disse? — Sara comentou, caminhando em direção ao casal.

Eduarda tentou se afastar de Emanuel, envergonhada, mas ele a segurou firme pela cintura, recusando-se a soltá-la.

— Sara... — Emanuel começou, mas ela o interrompeu com um gesto de mão.

— Poupe-me das explicações, Manu. Eu conheço você melhor do que você mesmo. E você, Duda... — Sara parou diante da jovem bailarina, avaliando-a com um olhar crítico, mas não maldoso. — Você é uma boba. Querendo se entregar para aquele vizinho de quinta categoria só para riscar um item da lista de afazeres? Você merece muito mais do que um "ogro" no meio do feno.

Eduarda baixou a cabeça, o rosto queimando.

— Eu só queria não ser mais diferente — sussurrou Eduarda.

Sara aproximou-se e, para surpresa de Eduarda, tocou seu queixo, levantando seu rosto.

— Ser diferente é o seu maior trunfo, querida. É por isso que este homem aqui, que tem o mundo aos seus pés, fica de joelhos por você.

Sara olhou para Emanuel e depois de volta para Eduarda.

— Eu já disse ao Emanuel e vou dizer a você: eu não sou uma mulher de metades. E eu não quero um homem que olhe para mim e sinta que falta um pedaço dele em outro lugar. Se o Emanuel precisa de nós duas para ser o homem que ele é, então que assim seja.

Eduarda arregalou os olhos, a confusão nublando sua mente.

— O que você está dizendo?

— Estou dizendo que não existe segredos entre eu e o Manu — Sara sorriu, um sorriso predatório e generoso ao mesmo tempo. — Ele me contou o que sente por você há muito tempo. E eu não me importo. Na verdade, eu acho que você é exatamente o que falta na nossa vida. Você traz a paz, eu trago o fogo. E ele... bom, ele traz o controle que nós duas adoramos desafiar.

Emanuel observava as duas mulheres de sua vida, sentindo um peso enorme sair de seus ombros. A aceitação de Sara era sua âncora, e o desejo de Eduarda era seu motor.

— Você está falando sério? — Eduarda perguntou, olhando de Sara para Emanuel.

— Eu nunca falo nada que não seja sério, boneca — Sara respondeu, dando um passo atrás e entrelaçando seu braço no de Emanuel, mas deixando espaço para Eduarda. — Mas agora, vamos voltar para a casa grande. Temos um jantar em família e você, Duda, precisa recompor essa sua carinha de anjo. O seu "momento" vai chegar, mas será nos nossos termos. Com cuidado. Com amor. E com a intensidade que você merece.

Emanuel estendeu a outra mão para Eduarda. Ela hesitou por um segundo, olhando para o primo que ela amava em segredo e para a mulher exuberante que ela sempre admirou à distância. Com um suspiro trêmulo e um sorriso tímido, ela aceitou a mão dele.

— Eu me senti tão sozinha — Eduarda admitiu, deixando-se ser guiada por eles para fora do celeiro.

— Você nunca mais estará sozinha, pequena bailarina — Emanuel prometeu, apertando a mão dela com firmeza. — Eu vou cuidar de tudo. Eu vou cuidar de vocês duas.

Enquanto caminhavam de volta sob o céu estrelado da fazenda, o contraste entre eles era evidente: a elegância suave de Eduarda, a exuberância marcante de Sara e a força estável de Emanuel. Três mundos que, contra todas as normas, estavam começando a se fundir.

Eduarda sentia que o peso de sua virgindade não era mais um fardo, mas uma promessa. Ela ainda era a menina tímida e manhosa, mas agora sabia que tinha um lugar seguro onde poderia florescer. E Emanuel, sentindo o calor das duas mulheres ao seu lado, soube que a partir daquela noite, o controle que ele tanto prezava seria exercido de uma forma muito mais complexa e prazerosa.

A família na casa grande não tinha ideia da revolução que acabara de acontecer no celeiro. Para eles, eram apenas primos voltando de um passeio. Mas, para Emanuel, Sara e Eduarda, era o início de uma nova dinastia, construída sobre a verdade, o desejo e um amor que não conhecia fronteiras.

Ao chegarem à varanda, Sara sussurrou no ouvido de Emanuel, alto o suficiente para que Eduarda ouvisse:

— Ela vai ser uma aluna maravilhosa, Manu. Só tente não ser tão bruto com ela quanto é comigo.

Emanuel soltou uma risada curta, a primeira em muito tempo que soava genuinamente relaxada.

— Eu farei o meu melhor, Sara. Eu farei o meu melhor.

Eduarda sorriu, sentindo-se protegida e, pela primeira vez, verdadeiramente desejada. A noite estava apenas começando, e o futuro, embora incerto para o resto do mundo, parecia perfeitamente desenhado para eles três.

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