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Segredos entre Sangue e Tinta
A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas de seda do quarto principal, iluminando a pele bronzeada de Sara, que se espreguiçava como uma gata satisfeita. Aos seus pés, Emanuel terminava de ajustar a sandália dela, um gesto de cuidado que se tornara um ritual desde que o teste de gravidez dera positivo. Ele estava mais atento do que nunca, observando cada movimento da loira, temendo que qualquer esforço pudesse prejudicar o bebê que crescia ali.
— Emanuel, se você apertar essa tira mais um pouco, meu pé vai parar de receber sangue — Sara brincou, a voz rouca de sono, mas carregada daquela ironia vibrante que a definia. — Eu estou grávida, não sou uma boneca de porcelana.
— Você é a mãe do meu filho, Sara. E é teimosa demais para o seu próprio bem — Emanuel respondeu, levantando-se e depositando um beijo casto na testa dela. — Já tomou suas vitaminas? A loja vai estar cheia hoje, não quero você em pé o tempo todo.
— Eu sei me cuidar, tatuador — ela retrucou, levantando-se e ajeitando o vestido justo que marcava sua silhueta impecável, apesar do silicone e das curvas agora mais acentuadas. — A boutique vai bem, e eu tenho gerentes para o trabalho pesado. Mas obrigada pelo mimo. Eu adoro quando você fica mandão assim.
Emanuel sorriu, mas sua mente já divagava para o outro lado do corredor. Onde estava Eduarda? Normalmente, a essa hora, a bailarina já estaria na cozinha, cantarolando baixinho enquanto preparava seu chá verde.
Enquanto isso, no banheiro da suíte de hóspedes, Eduarda apoiava-se na pia, respirando fundo. O reflexo no espelho não a agradava. Embora tivesse aplicado um pouco mais de blush nas maçãs do rosto e um hidratante labial com cor, seus olhos pareciam fundos, e a fadiga pesava em seus ombros como uma capa de chumbo. Ela abriu a gaveta escondida sob as toalhas e verificou o pequeno frasco de suplemento de ferro e o cartão da clínica onde, secretamente, realizava as transfusões de sangue e as injeções de eritropoietina.
A anemia severa fora um golpe silencioso. O médico fora enfático: repouso absoluto. Mas Eduarda conhecia Emanuel. Se ele soubesse que seus níveis de hemoglobina estavam baixos o suficiente para causar desmaios, ele a trancaria naquela casa, proibiria suas aulas de ballet e a transformaria em uma prisioneira de luxo sob sua vigilância constante. E ela amava sua liberdade, amava o palco e, acima de tudo, não queria ser um fardo enquanto Sara vivia o momento glorioso da gravidez.
— É a minha doença, o meu corpo — sussurrou para si mesma, guardando tudo rapidamente ao ouvir passos no corredor.
Ela saiu do quarto tentando exibir a leveza que o ballet lhe ensinara. Encontrou Emanuel no corredor. Ele a olhou de cima a baixo, os olhos de águia buscando qualquer sinal de irregularidade.
— Duda, você está pálida — sentenciou ele, cruzando os braços. A voz dele era um trovão contido.
— É a luz, Manu — ela respondeu prontamente, aproximando-se e enroscando os braços no pescoço dele, buscando o calor do seu peito. — E eu não dormi muito bem pensando na prova de História da Arte. Você sabe como eu fico ansiosa.
Emanuel relaxou o corpo, mas não totalmente. Ele a abraçou, sentindo como ela parecia mais frágil, quase etérea.
— Você está se alimentando? Eu vi que não tocou no bife ontem à noite.
— Eu comi a salada, estava com o estômago pesado — ela mentiu, a voz doce e manhosa, escondendo a náusea que o ferro medicamentoso lhe causava. — Não briga comigo, por favor. Minha aula começa em trinta minutos.
Sara apareceu na porta, terminando de passar um batom rosa vibrante.
— Deixa a menina, Emanuel! Ela tem cara de fada, fadas são pálidas. Vamos, Duda, eu te dou uma carona até a faculdade. Quero passar na loja e ver se as novas peças da coleção de verão chegaram.
Emanuel suspirou, derrotado pelas duas mulheres.
— Eu busco você às quatro, Eduarda. Sem atrasos. E você, Sara, me ligue se sentir qualquer pontada.
As duas saíram, deixando Emanuel sozinho com seus pensamentos e o silêncio do apartamento luxuoso. Ele tinha um império para gerir, estúdios de tatuagem em três continentes, mas nada era tão difícil quanto decifrar os silêncios de Eduarda.
O dia passou em um borrão de reuniões e desenhos. No entanto, por volta das três da tarde, o telefone de Emanuel tocou. Era um dos seus seguranças que ele mantinha, discretamente, vigiando os arredores da faculdade de Eduarda.
— Senhor, a senhorita Eduarda não foi para a biblioteca após a aula. Ela pegou um táxi para uma clínica particular no centro. A Clínica Hematos.
O sangue de Emanuel gelou. Hematologia. Sangue.
— Ela está ferida? — perguntou ele, a voz saindo como um rosnado, enquanto já pegava as chaves do carro.
— Não, senhor. Ela entrou caminhando, embora parecesse um pouco lenta. Ela entra lá duas vezes por semana, senhor. Achei que o senhor soubesse.
Emanuel desligou o telefone sem responder. A fúria começou a borbulhar em suas veias, uma mistura tóxica de medo e sentimento de traição. Como ela ousara esconder algo relacionado à saúde dele? Ele, que movia montanhas para garantir que ela tivesse o melhor de tudo?
Ele dirigiu como um louco pelas ruas de São Paulo, estacionando o carro de luxo de qualquer jeito em frente à clínica. Ao entrar, sua presença imponente e o olhar gélido fizeram a recepcionista gaguejar.
— Eduarda Timida. Onde ela está? — exigiu ele, a voz ecoando no ambiente asséptico.
— Senhor, a privacidade do paciente...
— Eu sou o responsável por ela. Onde. Ela. Está?
Assustada, a enfermeira apontou para uma sala nos fundos. Emanuel empurrou a porta sem bater.
A cena que encontrou partiu seu coração e alimentou seu ódio simultaneamente. Eduarda estava deitada em uma poltrona reclinável, o braço esguio estendido com uma agulha inserida na veia. Acima dela, uma bolsa de sangue vermelho vivo gotejava lentamente, devolvendo-lhe a vida que sua teimosia tentava drenar. Ela estava com um livro de arte no colo, mas seus olhos estavam fechados, a expressão exausta.
— Então é aqui que você estuda História da Arte? — a voz de Emanuel foi um chicote.
Eduarda deu um pulo, os olhos arregalados de terror. Ela tentou se sentar, mas a enfermeira que estava no canto a impediu.
— Manu! O que... o que você está fazendo aqui?
— O que eu estou fazendo aqui? — ele caminhou até ela, ficando a poucos centímetros da poltrona. — Eu deveria te perguntar isso. Por que tem uma bolsa de sangue pendurada no seu braço, Eduarda? Por que você está escondendo isso de mim há semanas?
— Não é nada... é só uma anemia boba — ela gaguejou, as lágrimas começando a inundar seus olhos castanhos. — Eu estou me tratando, veja! Eu estou bem.
— Bem? Você está recebendo uma transfusão! Isso não é "estar bem", isso é uma crise! — ele se virou para a enfermeira. — Qual é o quadro dela? Agora!
— A senhorita Eduarda sofre de anemia ferropriva severa com má absorção — explicou a profissional, intimidada. — Os níveis de hemoglobina dela estavam em sete quando começou. Ela insistiu que o senhor não fosse avisado, disse que não queria preocupar a família por causa da gravidez da irmã ou esposa...
Emanuel fechou os olhos por um segundo, tentando não quebrar nada. Ele se voltou para Eduarda, que agora chorava silenciosamente.
— Você achou que eu era fraco demais para cuidar das duas? Achou que eu não daria conta de saber que você está doente?
— Eu não queria que você me prendesse, Manu! — ela explodiu, a teimosia e a pirraça surgindo em meio ao choro. — Eu conheço você. Você ia me tirar do ballet, ia me fazer trancar a faculdade, ia me tratar como uma inválida! Eu odeio quando você me controla assim!
— Eu controlo você para te manter viva! — ele gritou, perdendo a paciência. — Você é uma criança teimosa e irresponsável! Se você tivesse desmaiado no palco? Se você tivesse tido uma parada cardíaca por falta de oxigenação no sangue?
— Mas eu não tive! — ela rebateu, soluçando. — Eu estou cuidando disso sozinha! É o meu segredo, a minha dor!
Emanuel respirou fundo, passando as mãos pelo rosto. Ele queria gritar, queria carregá-la para casa e nunca mais deixá-la sair, mas ver a agulha no braço dela o lembrava de quão frágil ela realmente era.
Ele pegou o celular e ligou para Sara.
— Sara, a loja acabou para você hoje. Vá para casa agora.
— O que aconteceu, Emanuel? Você está com voz de quem vai matar alguém — a voz de Sara soou preocupada do outro lado.
— A Eduarda está em uma clínica de hematologia. Ela está escondendo uma anemia grave de nós. Estou levando ela para casa assim que essa bolsa acabar. E você e eu vamos ter uma conversa muito séria sobre como essa casa funciona a partir de agora.
Ele desligou sem esperar resposta. Sentou-se em uma cadeira ao lado de Eduarda, o rosto rígido como pedra.
— Manu... — ela chamou, tentando tocar a mão dele.
— Não encoste em mim agora, Eduarda. Eu estou furioso demais para ser carinhoso. Você mentiu para mim. Todos os dias, quando eu te perguntava se estava bem, você olhava nos meus olhos e mentia.
— Eu fiz por amor... — sussurrou ela.
— Não. Você fez por egoísmo, para não perder sua rotina. Mas isso acaba hoje.
O trajeto para casa foi um silêncio sepulcral. Emanuel a ajudou a sair do carro, mas seus movimentos eram mecânicos, desprovidos da doçura habitual. Ao entrarem no apartamento, Sara já os esperava. Ela estava sem os saltos, com uma expressão que misturava choque e irritação.
— Eduarda, sua maluca! — Sara avançou, mas parou ao ver o estado da menina, que parecia prestes a desmoronar. — Por que você não contou? Eu podia ter te ajudado, podia ter ido com você!
— Eu não queria atrapalhar... o bebê... a loja... — Duda se encolheu no sofá.
— Atrapalhar? — Sara riu, uma risada sem humor. — Nós somos uma família, sua tonta. Se você cai, o Emanuel pira, e se ele pira, eu não tenho paz para gerar meu filho. Você foi muito burra.
— Chega — Emanuel interrompeu, sua voz autoritária cortando o ar. — Eduarda, você vai para o quarto. Amanhã, um hematologista particular virá aqui. Suas aulas de ballet estão suspensas por tempo indeterminado. Suas idas à faculdade serão reduzidas ao mínimo necessário para as provas.
— Você não pode fazer isso! — Eduarda levantou-se, a pirraça voltando com força. — Eu sou maior de idade!
Emanuel deu um passo à frente, sua altura e presença silenciando-a instantaneamente.
— Eu posso e eu vou. Ou você aceita meus cuidados e minha supervisão, ou eu mesmo te interno em um hospital onde você não terá escolha. Você provou que não tem maturidade para cuidar da própria saúde.
Eduarda olhou para Sara, buscando apoio, mas a loira apenas cruzou os braços sobre a barriga, a expressão severa.
— Dessa vez eu estou com ele, Duda. Você passou dos limites. Quase nos matou de susto.
Derrotada e sentindo o peso da anemia retornar com o fim da adrenalina, Eduarda começou a soluçar, escondendo o rosto nas mãos. Emanuel, apesar da fúria, não conseguiu vê-la sofrer. Ele se aproximou e a pegou no colo, como se ela não pesasse nada.
— Você vai dormir agora — disse ele, o tom um pouco mais baixo, mas ainda firme. — E não pense que o meu perdão virá fácil. A confiança é algo que você vai ter que reconquistar, gota a gota, assim como aquele sangue na clínica.
Ele a levou para o quarto, deitando-a na cama com um cuidado que contrastava com suas palavras duras. Sara os seguiu, sentando-se na beirada da cama e começando a acariciar os cabelos castanhos da bailarina.
— A gente ama você, sua pirracenta — murmurou Sara, a vulgaridade dando lugar a uma ternura materna. — Mas o Manu está certo. Você quase nos destruiu com esse segredo.
Emanuel ficou de pé à porta, observando as duas. Ele sentia o peso da responsabilidade esmagando seus ombros. Uma grávida impulsiva e uma bailarina anêmica e mentirosa. O mundo dele era um caos, mas era o seu caos.
— Eu vou preparar algo para você comer — Emanuel disse, olhando para Eduarda. — E se eu descobrir que você jogou fora um comprimido sequer, eu juro que as consequências serão piores. Entendido?
Eduarda assentiu, o lábio inferior trêmulo.
— Entendido, Manu.
Ele saiu do quarto, fechando a porta e encostando a cabeça na madeira fria. Ele era o protetor, o tatuador que marcava a pele dos outros com tinta eterna, mas eram aquelas duas mulheres que haviam marcado sua alma de forma indelével. E ele faria qualquer coisa, até mesmo ser o vilão da história dela, para garantir que Eduarda continuasse respirando ao seu lado.
Naquela noite, a casa estava silenciosa, mas a tensão era palpável. Emanuel não dormiu. Ele ficou sentado na poltrona da sala, vigiando o corredor, como um sentinela. O segredo fora revelado, a batalha começara, e ele não aceitaria nada menos que a rendição total de Eduarda aos seus cuidados. Afinal, para ele ser feliz, as duas precisavam estar inteiras. E ele não permitiria que a morte ou a teimosia levassem sua pequena bailarina embora.