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O Eco do Ventre e o Peso do Ouro

— Emanuel, se você me trouxer mais uma taça de suco de cranberry com ferro, eu juro que vou derramar na sua cabeça! — Eduarda exclamou, embora sua voz não tivesse nenhuma autoridade real.

Ela estava afundada em uma poltrona de veludo rosa no amplo closet de Sara, observando a loira experimentar o décimo vestido da manhã. O apartamento em São Paulo parecia menor agora que a barriga de Sara, aos oito meses de gestação, ocupava quase todo o espaço visual.

— Beba tudo, Eduarda. O médico disse que seus níveis estão estáveis, mas não quero correr riscos — Emanuel respondeu, sem tirar os olhos do iPad onde revisava os lucros de sua nova franquia em Berlim. — E não faça essa cara. Você sabe que eu não aceito pirraça quando o assunto é a sua saúde.

— Ele é um tirano, não é, Duda? — Sara riu, ajeitando o vestido dourado que realçava seu silicone e a curva perfeita da pequena Ágata, que chutava sem parar dentro dela. — Um tirano rico e bonitão, mas ainda assim, um chato de galochas.

Emanuel levantou o olhar, a expressão séria de sempre, mas com aquele brilho possessivo que só elas despertavam.

— Eu ouvi isso, Sara. E você, não deveria estar subindo e descendo desse banquinho. Onde está o segurança que eu deixei na porta?

— Mandamos ele buscar açaí para a Duda — Sara piscou para a bailarina. — Ela acordou hoje querendo açaí com granola, leite em pó e... qual era a outra coisa estranha, Duda?

— Anchovas — Eduarda murmurou, sentindo o rosto esquentar. — Mas foi só um pensamento passageiro.

Emanuel franziu o cenho, deixando o iPad de lado. Ele caminhou até Eduarda e colocou a mão em sua testa, depois deslizou-a para o pescoço dela, checando a pulsação de forma quase clínica.

— Açaí com anchovas? Você está com febre? — perguntou ele, a voz carregada de uma proteção sufocante.

— Não, Manu! Eu só... ando com fome. Muita fome. E sono. Deve ser o ensaio novo de ballet clássico, a coreografia de Giselle exige muito — Eduarda tentou se levantar, mas Emanuel a manteve sentada com uma pressão suave no ombro.

— Você não vai a ensaio nenhum hoje se continuar com esses desejos bizarros.

Sara, que observava a cena pelo espelho, parou de ajeitar o cabelo. Ela se virou devagar, os olhos azuis faiscando com uma intuição que só as mulheres grávidas parecem possuir. Ela caminhou até a bailarina, ignorando o peso da própria barriga, e inclinou a cabeça.

— Duda... quando foi a última vez que você teve aquele seu sangramento de anemia? Aquele que você diz que é o seu ciclo?

Eduarda franziu a testa, tentando puxar pela memória.

— Ah, não sei. Com o tratamento novo, ficou tudo meio bagunçado. O médico disse que era normal. Por quê?

— Porque você está com "cara de grávida" — Sara sentenciou, cruzando os braços sobre o decote generoso. — Esse brilho nos olhos, essa pele... e essa vontade de comer peixe com doce. Eu reconheço o sintoma, meu amor.

Eduarda soltou uma risada cristalina, mas nervosa.

— Sara, você está louca! Ficou muito tempo no sol na fazenda. Eu não posso estar grávida. Eu tomo os remédios, eu sou anêmica, meu corpo mal dá conta de mim mesma!

— Emanuel — Sara chamou, ignorando os protestos da outra —, olhe para os seios dela. Estão maiores. E ela está mais manhosa que o normal. Ontem ela chorou porque o comercial da margarina acabou antes dela ver o final.

Emanuel olhou para Eduarda com uma intensidade renovada. Ele a analisou como se estivesse estudando um esboço de tatuagem, procurando cada detalhe.

— Ela tem razão, Duda. Você está mais... cheia.

— Vocês dois são impossíveis! — Eduarda levantou-se, desta vez com uma energia súbita, embora tenha sentido uma leve pontada no baixo ventre. — Eu não estou grávida. Emanuel, você é superprotegido, mas até você sabe que as chances eram mínimas.

— Mínimas não são zero — Emanuel disse, a voz ficando mais rouca. Ele se aproximou, envolvendo a cintura esguia de Eduarda com suas mãos grandes. — Vamos fazer o teste. Agora.

— Eu não vou fazer teste nenhum! — Eduarda fez pirraça, tentando se soltar. — Eu tenho aula de História da Arte em uma hora!

— Você não vai a lugar nenhum até urinar naquele palito, Eduarda Timida — Emanuel decretou, a autoridade de tirano voltando com força total. — Sara, onde estão aqueles testes que sobraram da sua suspeita no mês passado?

— Na gaveta de maquiagem, gaveta de baixo! — Sara respondeu, animada com a possibilidade de ter uma companheira de maternidade.

Meia hora de discussão, duas idas ao banheiro e muito choro de pirraça depois, o silêncio caiu sobre o quarto. Emanuel segurava o teste de farmácia como se fosse um contrato de bilhões de dólares. Sara estava sentada na beirada da cama, roendo as unhas perfeitamente feitas. Eduarda estava encolhida em um canto, tremendo.

— E então? — Sara perguntou, impaciente.

Emanuel não disse nada. Ele apenas virou o visor para elas. Duas linhas vermelhas, tão nítidas que pareciam gritar.

— Não pode ser — Eduarda sussurrou, sentindo as lágrimas transbordarem. — Eu estou com quatro meses de tratamento intensivo... eu deveria ter percebido.

— Quatro meses... — Emanuel repetiu, a voz falhando. — Duda, se você está grávida, você concebeu logo depois daquela crise na fazenda.

— Temos que ir ao médico. Agora! — Sara se levantou, já pegando a bolsa. — O clínico geral não vai servir, precisamos do meu obstetra. Emanuel, ligue para a clínica. Diga que é uma emergência.

O hospital era o mesmo onde Eduarda quase perdera a vida meses atrás. Mas desta vez, a atmosfera era diferente. Emanuel andava de um lado para o outro na sala de ultrassom, ignorando os avisos da enfermeira para se sentar. Sara segurava a mão de Eduarda, que estava deitada na maca, pálida de pavor.

— Vai ficar tudo bem, pequena — Sara murmurou. — Se eu dei conta, você também dá.

O médico, Dr. Ricardo, entrou na sala com um sorriso calmo.

— Então, temos uma surpresa aqui? Vamos ver como está esse bebê.

Ele espalhou o gel gelado sobre o abdômen reto de Eduarda. No momento em que o transdutor tocou a pele, a tela se iluminou. Emanuel parou de andar. Sara prendeu a respiração.

— Bom — começou o médico, ajustando o foco —, aqui está o motivo de tanto sono e fome. E, pelo que vejo, a senhora está muito além das doze semanas. Eu diria... dezesseis semanas. Quatro meses completos.

— Um bebê? — Eduarda perguntou, a voz trêmula.

— Um bebê? — o médico riu, movendo o aparelho. — Não, Eduarda. Aqui está um coração... e aqui está o outro.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Emanuel sentiu os joelhos fraquejarem e, pela primeira vez na vida, o grande tatuador rico e controlador precisou se apoiar na parede para não cair.

— Gêmeos? — Sara gritou, batendo palmas. — Eu sabia! Eu sabia que essa fome não era normal!

— Dois... — Emanuel murmurou, aproximando-se da tela. — Duda, tem dois corações batendo dentro de você.

Eduarda olhava para a tela, hipnotizada. A imagem dos dois pequenos seres, tão próximos um do outro, fez algo mudar dentro dela. A insegurança e o medo da doença foram substituídos por um instinto de sobrevivência avassalador.

— Eles estão bem, doutor? — ela perguntou, a voz agora firme. — Com a minha anemia... com tudo o que eu tomei...

— Eles são milagres, Eduarda. Estão perfeitamente desenvolvidos. E, se eu não me engano... sim, aqui está. Um menino e uma menina.

Emanuel cobriu o rosto com as mãos, soltando um suspiro que era metade riso, metade choro. Ele se inclinou sobre Eduarda, beijando sua testa com uma reverência que nunca demonstrara.

— Arthur e Maya — Eduarda disse, o nome surgindo em sua mente como se já estivesse escrito nas estrelas.

— Arthur e Maya — Emanuel repetiu, a voz carregada de uma promessa solene. — Eu vou precisar de dez seguranças extras para esta casa. Ninguém toca nelas. Ninguém respira perto delas sem minha autorização.

Sara revirou os olhos, mas tinha lágrimas nos mesmos.

— Lá vem o tirano de novo. Mas dessa vez, Manu, eu deixo. Três bebês em um ano... você vai ficar louco.

— Eu já sou louco por vocês — Emanuel admitiu, olhando para as duas mulheres à sua frente.

Sara, a loira siliconada e vibrante que carregava Ágata, sua força e sua paixão. E Eduarda, a bailarina frágil e manhosa que carregava Arthur e Maya, sua paz e seu renascimento.

— Nós vamos precisar de um apartamento maior — Sara comentou, já pegando o celular para procurar coberturas. — E de muitas babás. Mas, principalmente, vamos precisar de muito estoque de anchovas.

Eduarda riu, uma risada que ecoou pelo consultório, cheia de uma esperança que ela nunca pensou que teria. Ela olhou para Emanuel, que agora segurava a mão de Sara com uma mão e a dela com a outra, formando um círculo inquebrável.

O mundo lá fora podia não entender. Podiam julgar a vulgaridade de Sara, a dependência de Eduarda ou o controle excessivo de Emanuel. Mas ali, entre o som dos batimentos cardíacos duplicados e o brilho das lágrimas de um homem que achava que tinha tudo, eles sabiam que a verdadeira riqueza não estava nos estúdios de tatuagem ou nos diamantes.

Estava na vida que brotava, contra todas as probabilidades, no ventre daquela que eles juraram proteger.

— Manu? — Eduarda chamou, enquanto ele a ajudava a se levantar da maca.

— Diga, meu amor.

— Você prometeu que eu ia ganhar um presente se seguisse o tratamento... acho que Arthur e Maya contam como bônus, não?

Emanuel sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto sério.

— Você vai ganhar tudo o que quiser, Duda. Mas, por enquanto, o presente é meu. Eu sou o homem mais rico do mundo, e não tem nada a ver com a minha conta bancária.

Sara passou o braço pela cintura de Emanuel, e os três caminharam para fora do hospital. O sol de São Paulo parecia brilhar apenas para eles. O futuro seria um caos de fraldas, mamadeiras e ciúmes protetores, mas para Emanuel, era o único futuro que importava. As duas mulheres que ele amava estavam ali, seguras, e agora, o seu legado estava triplicado.

— Só uma coisa, Emanuel — Sara disse, enquanto entravam no carro.

— O quê?

— Se você tentar controlar o horário que os gêmeos vão chorar, eu mesma te dou uma surra.

Emanuel riu, dando partida no motor.

— Eu vou tentar, Sara. Mas não prometo nada.

E assim, entre o riso de uma e a manha da outra, o império de Emanuel se expandia para além da pele e da tinta, gravando-se para sempre na eternidade daquelas novas vidas que estavam apenas começando.

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