D
Tensão no Paraíso de Cristal
A estrada para a casa de campo era cercada por um verde exuberante que, em dias normais, traria paz a qualquer alma cansada. Mas, dentro do SUV blindado de Emanuel, o clima era de uma tempestade iminente. O ar-condicionado trabalhava no máximo, mas o ambiente parecia saturado de uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Emanuel se arrepiarem.
Ao volante, ele mantinha a mandíbula tão cerrada que sentia os músculos do rosto latejarem. Emanuel era um homem de controle, mas o controle estava escorrendo por entre seus dedos como areia fina.
No banco do passageiro, Sara era a personificação da irritação. Ela usava um conjunto de ginástica de grife, rosa choque, que realçava seu bronzeado e o decote generoso, mas sua expressão era de puro desprezo por qualquer coisa que cruzasse seu campo de visão. Ela batucava as unhas longas e decoradas no painel de couro, um som rítmico que martelava a paciência do marido.
— Dá para você parar de dirigir como se estivéssemos em um funeral, Emanuel? — disparou Sara, a voz carregada de um sarcasmo ácido. — A gente vai chegar lá e minha mãe já vai ter morrido de velhice.
— Sara, eu estou no limite de velocidade — Emanuel respondeu, tentando manter a voz plana, embora o tom fosse gélido. — E você sabe que a estrada para o sítio da minha mãe é cheia de curvas.
— Ah, claro, o senhor Prudência — ela bufou, cruzando os braços sobre os seios siliconados, o que só os destacava mais. — Minhas costas estão doendo, eu estou com cólica e esse cheiro de aromatizante de carro está me dando vontade de vomitar em você.
Emanuel respirou fundo, contando mentalmente até dez. Ele sabia que a TPM de Sara era um evento sísmico. Ela ficava mais impulsiva, mais vulgar nas palavras e absolutamente intolerante. Mas o problema real estava no banco de trás.
Eduarda, geralmente a calmaria do grupo, estava encolhida contra a janela, enrolada em um xale de lã, apesar do calor. Seus olhos castanhos estavam marejados e ela mordia o lábio inferior com força. Ela também estava no seu ciclo, mas enquanto Sara explodia, Eduarda implodia em uma manha carente e irritadiça que Emanuel conhecia bem.
— Manu... — a voz de Eduarda saiu pequena, quase um sussurro choroso.
— O que foi, Duda? — ele perguntou, olhando-a rapidamente pelo retrovisor.
— A Maya não para de puxar meu cabelo — ela reclamou, e uma lágrima solitária rolou por sua bochecha. — E eu estou com frio. E a Ágata está chutando o meu banco.
— Eu não estou chutando! — gritou Ágata, a cópia fiel de Sara em miniatura, começando a espernear na cadeirinha. — Eu quero descer! Eu quero o meu tablet!
— O tablet descarregou, Ágata! — Sara gritou de volta, virando-se para o banco de trás sem a menor paciência. — E se você não calar a boca, eu vou jogar esse brinquedo pela janela!
O grito de Sara foi o gatilho. Ágata começou a berrar a plenos pulmões, uma birra digna de um Oscar. Maya, sentindo a agitação e sendo o reflexo emocional de Eduarda, começou a soluçar e a esticar os bracinhos para a "mamãe" Duda, mas Eduarda estava ocupada demais choramingando baixinho, escondendo o rosto no xale.
— Eu não aguento mais... — Eduarda soluçou, a voz manhosa e trêmula. — Você está sendo grosso comigo também, Emanuel. Você nem olhou para mim desde que saímos de casa.
Emanuel sentiu uma veia saltar em sua testa.
— Eu estou dirigindo, Eduarda! — ele explodiu, a voz ecoando no carro. — Tem duas crianças gritando, a Sara reclamando do cheiro do carro e você chorando porque eu não olhei para você enquanto tento não nos matar em uma curva! Dá para todo mundo ter um pouco de bom senso?
O silêncio que se seguiu foi pior que a barulheira. Sara semicerrou os olhos, pronta para o contra-ataque. Eduarda soltou um soluço audível e se encolheu ainda mais, parecendo uma criança pequena e castigada. As gêmeas, assustadas com o tom do pai, fizeram uma pausa de dois segundos antes de recomeçarem o coro de choro em um volume ainda mais alto.
Quando finalmente chegaram à casa de campo, Emanuel estacionou o carro de qualquer jeito e saiu, batendo a porta. O ar puro da montanha não foi suficiente para acalmá-lo.
A mãe de Emanuel, uma mulher serena que via aquela dinâmica com uma mistura de entretenimento e compaixão, apareceu na varanda.
— Pelo visto, a viagem foi ótima — comentou ela, vendo Sara descer do carro bufando e Eduarda sair com os olhos inchados, carregando Maya que não a soltava por nada.
— Não comece, mãe — Emanuel disse, abrindo o porta-malas com força excessiva.
Sara caminhou até ele, ignorando a sogra por um momento.
— Eu vou deitar. Não quero ninguém me enchendo o saco. Emanuel, se você deixar a Ágata entrar no quarto, eu juro que vendo todas as suas máquinas de tatuagem — ela disse, passando por ele e dando um tapa propositalmente forte em seu braço.
— Sara, volta aqui e pega pelo menos uma bolsa! — ele ordenou, mas ela apenas mostrou o dedo médio sem olhar para trás e entrou na casa, os quadris balançando furiosamente no conjunto justo.
Emanuel suspirou, sentindo a pressão subir. Ele olhou para o lado e viu Eduarda parada perto da porta do carro. Ela segurava Maya no colo, que choramingava baixinho contra seu pescoço. Duda olhava para o chão, os ombros subindo e descendo em soluços silenciosos.
— Duda, por favor... — ele pediu, aproximando-se dela. Sua irritação começou a ser substituída pelo instinto protetor que ele sempre tinha com ela. — Não começa agora.
— Você gritou comigo — ela disse, a voz abafada pelo choro. — Você nunca grita comigo. Você prefere a Sara porque ela é forte e eu sou só um peso.
— Isso é a maior bobagem que eu já ouvi — ele disse, passando a mão pelo rosto dela, mas Eduarda desviou, fazendo pirraça. — Vem cá, me dá a Maya.
— Não! Ela quer a mamãe dela — Eduarda retrucou, usando a palavra que Maya usava para ela, tentando marcar território em meio à sua insegurança. — Vai lá cuidar da Sara, que é o que você sempre faz.
Emanuel fechou os olhos. Ele estava exausto. A riqueza, os estúdios em Londres, a fama de ser o melhor tatuador do país... nada disso o preparava para lidar com duas mulheres sincronizadas no humor mais difícil do mês.
— Mãe, pega a Ágata, por favor? — ele pediu, e a senhora prontamente pegou a neta que ainda tentava chutar o ar.
Emanuel pegou Eduarda pelo braço, não com força, mas com firmeza, e a conduziu para dentro, ignorando seus protestos manhosos. Ele a levou até um dos quartos de hóspedes no andar de baixo, longe do quarto principal onde Sara provavelmente estava destruindo algum travesseiro.
— Senta aqui — ele disse, indicando a cama.
Eduarda sentou-se, ainda segurando Maya.
— Eu vou pegar um remédio para você e uma compressa morna. E depois vou levar a Maya para a minha mãe — ele disse, o tom de comando voltando, mas agora suavizado pelo cuidado.
— Eu não quero remédio, eu quero atenção — Eduarda resmungou, fazendo um bico que, em qualquer outro dia, Emanuel acharia adorável. Hoje, era apenas mais um teste de resistência.
— Duda, se você não colaborar, eu vou trancar todo mundo nesse quarto e só volto amanhã — ele ameaçou, embora sem intenção real.
Ele conseguiu tirar Maya do colo de Eduarda — a bebê protestou, mas o cansaço a fez ceder ao colo do pai. Após entregar a menina à avó, Emanuel subiu para o quarto principal. O clima ali era outro.
Sara estava deitada de bruços, com a cara enterrada no travesseiro. O quarto cheirava ao perfume forte dela, misturado com um creme de massagem.
— Sai daqui, Emanuel — a voz dela veio abafada.
— Vim ver se você morreu — ele disse, aproximando-se da cama.
Sara se virou bruscamente, o cabelo loiro todo bagunçado, os olhos carregados de uma fúria que ele sabia que escondia dor física.
— Minha barriga parece que tem um alienígena tentando sair. E você é um idiota.
Emanuel sentou-se na beira da cama. Ele conhecia Sara. Ela não queria palavras doces ou carinho excessivo como Eduarda; ela queria que ele estivesse ali, sendo o pilar que ela podia atacar sem que ele caísse.
— Eu sei que sou um idiota — ele disse, começando a massagear a base das costas dela, por cima do tecido fino da roupa de ginástica. — Mas sou o seu idiota.
Sara soltou um gemido que era metade alívio, metade reclamação.
— Mais para a esquerda... Isso. Se você parar, eu te mato.
Emanuel continuou a massagem por longos minutos. O silêncio no quarto era quebrado apenas pela respiração pesada de Sara, que aos poucos ia relaxando.
— A Duda está chorando, não está? — Sara perguntou, a voz agora menos agressiva, embora ainda áspera.
— Está. Dizendo que eu não a amo e fazendo pirraça com a Maya.
Sara soltou uma risada curta e seca.
— Aquela garota é uma manteiga derretida. Às vezes dá vontade de sacudir ela até ela acordar, mas... — ela fez uma pausa, suspirando. — Vá lá ver ela. Se ela ficar triste demais, a Maya não para de chorar e eu não vou conseguir dormir com aquele berreiro.
Emanuel inclinou-se e beijou o ombro de Sara.
— Você é impossível, sabia?
— Eu sou a melhor coisa que já aconteceu na sua vida, Emanuel. Agora vaza e traz um chocolate amargo para mim quando voltar.
Emanuel saiu do quarto, sentindo que tinha vencido uma pequena batalha, mas a guerra ainda continuava no andar de baixo. Ele passou na cozinha, pegou o chocolate de Sara, um chá de camomila para Eduarda e seguiu para o quarto onde a mais jovem estava.
Eduarda estava deitada em posição fetal, olhando para a parede. Ela parecia tão pequena e frágil que a irritação de Emanuel se dissolveu completamente. Ele era o protetor delas. Era para isso que ele trabalhava tanto, para que elas pudessem ter o luxo de serem exatamente quem eram.
— Duda? — ele chamou baixinho.
Ela não respondeu, mas ele viu seus ombros tremerem. Ele colocou o chá na mesa de cabeceira e se deitou atrás dela, puxando-a para o seu peito. Eduarda resistiu por três segundos antes de se virar e esconder o rosto em seu pescoço, soluçando novamente.
— Shhh... eu estou aqui — ele sussurrou, acariciando os cabelos castanhos e macios. — Desculpa por ter gritado no carro. As coisas saíram do controle.
— Você... você gosta mais da Sara porque ela não é chorona — Eduarda murmurou contra a pele dele, a voz infantilizada pela carência.
— Eu amo a Sara porque ela é o fogo que me mantém acordado. E amo você porque é a paz que me faz querer voltar para casa — ele explicou pela milésima vez, sentindo Eduarda se aconchegar mais. — Vocês são as duas metades do que eu preciso. E a Maya e a Ágata são o resultado disso. Não faz pirraça comigo, pequena. Meu dia já foi difícil.
Eduarda levantou o olhar, os olhos grandes e úmidos procurando os dele.
— Você está cansado?
— Exausto — ele admitiu.
Ela esticou a mão, tocando a tatuagem no antebraço dele, seguindo o desenho com a ponta dos dedos.
— Eu vou ser boazinha — ela prometeu, a manha dando lugar a uma doçura genuína. — Mas você tem que dormir aqui um pouquinho comigo.
— Eu tenho que levar o chocolate da Sara e ver as meninas.
— Só cinco minutos? — ela pediu, fazendo aquele olhar de quem ia começar a chorar de novo se ouvisse um "não".
Emanuel suspirou, derrotado. Ele se acomodou na cama com ela, sentindo o cheiro de baunilha que emanava de sua pele. Eduarda era leve, macia, o oposto exato da intensidade de Sara.
Dez minutos depois, ele subiu com o chocolate. Sara já estava quase dormindo, mas abriu um olho quando ele entrou.
— Demorou — ela reclamou, pegando o doce. — Ela parou de chorar?
— Parou. Está quase dormindo também.
Sara deu uma mordida no chocolate e olhou para Emanuel. Apesar da vulgaridade e do jeito expansivo, ela tinha uma percepção aguçada.
— Você está um caco, Manu. Vem cá.
Ela abriu espaço na cama. Emanuel, que raramente se permitia ser cuidado, deitou-se entre os travesseiros caros. Sara, com seus movimentos decididos, sentou-se ao lado dele e começou a passar as mãos por sua cabeça, desfazendo a tensão que ele carregava.
— Amanhã vai ser melhor — ela disse, a voz rouca. — Eu vou levar as meninas para o pomar e deixar você e a Duda em paz por um tempo. Ela precisa de você sem ninguém gritando em volta. E eu preciso de um tempo longe daquelas miniaturas de gente antes que eu venda uma delas no OLX.
Emanuel riu, o primeiro riso sincero do dia.
— Você não venderia nem o brinquedo delas.
— Não me testa, Emanuel.
Naquela noite, a casa de campo estava silenciosa. No andar de baixo, Eduarda dormia um sono tranquilo, sonhando talvez com coreografias de ballet. No andar de cima, Emanuel estava entre o sono e a vigília, sentindo a presença forte de Sara ao seu lado.
Ele sabia que, na manhã seguinte, Ágata provavelmente faria outra birra por causa do café da manhã. Sabia que Maya só comeria se estivesse no colo de Eduarda. Sabia que Sara diria algo inapropriado para sua mãe e que Eduarda ficaria vermelha de vergonha.
Mas, enquanto observava a lua através da janela da casa de campo, Emanuel sentiu que, apesar do caos, da TPM, das birras e do estresse, ele não trocaria aquele equilíbrio frágil por nenhuma paz solitária no mundo. Ele era o centro daquele universo particular, e enquanto ele fosse forte o suficiente para segurar as mãos daquelas duas mulheres tão diferentes, o mundo lá fora não poderia tocá-los.
Ele finalmente fechou os olhos, deixando-se levar pelo cansaço, sabendo que era amado da forma mais complexa e completa que um homem poderia desejar.