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Entre o Silêncio da Dança e o Rugido do Controle

O sol da manhã entrava pelas janelas da casa dos pais de Eduarda, iluminando a poeira que dançava no ar. O ambiente, antes um refúgio de paz e simplicidade, agora parecia pequeno demais para a presença magnética de Emanuel. Ele estava sentado à mesa da cozinha, bebendo café com o pai de Eduarda, um arquiteto de espírito livre que, para a surpresa da filha, parecia ter se afeiçoado rapidamente ao genro inesperado.

— Você tem uma visão interessante sobre o urbanismo, Emanuel — comentou o pai de Eduarda, ajustando os óculos. — Embora seu método de gestão pareça... um pouco mais rígido que o meu.

— O controle é a única forma de garantir que a arte não se perca no caos, senhor — respondeu Emanuel, a voz calma, mas carregada daquela autoridade natural que o acompanhava.

Eduarda observava da porta, sentindo um nó no estômago. Emanuel havia permitido que ela ficasse na casa dos pais pelos últimos três dias, uma "concessão" para que ela pudesse processar a mudança e se despedir da rotina. Mas ela sabia que não era um pedido; era um prazo. Sara, por sua vez, passava as tardes na sala, conversando com a mãe de Eduarda sobre tecidos e moda, agindo como se fossem amigas de longa data. A loira era um turbilhão de carisma e vulgaridade refinada que deixava a família de Eduarda hipnotizada.

— Está na hora, Eduarda — disse Emanuel, levantando-se assim que a viu. Ele caminhou até ela e tocou seu rosto com a ponta dos dedos, um gesto de carinho que carregava uma promessa de posse. — Seus pais precisam viajar para aquele congresso em Curitiba, e nós temos um compromisso.

— Eu sei — sussurrou ela, baixando o olhar. — Já arrumei as coisas da Maya.

— Ótimo. Vamos para a fazenda. Minha família quer conhecer a nova herdeira.

Eduarda assentiu, sentindo um alívio momentâneo. Ela achava que Emanuel levaria Maya para apresentar aos avós paternos e que ela teria mais alguns dias de solidão para organizar seus pensamentos. No fundo, ela temia o encontro com a família dele. Se Emanuel já era intimidador, como seriam aqueles que o criaram?

...

Duas horas depois, a movimentação na frente da casa era intensa. O SUV blindado de Emanuel estava estacionado, e um motorista carregava as malas de Sara. Emanuel estava encostado no carro, observando Sara, que usava um conjunto de linho branco curtíssimo e saltos agulha, totalmente inadequados para uma fazenda, mas que nela pareciam uma declaração de poder.

— Emanuel, querido, você acha que essa cor realça meu bronzeado ou eu deveria ter ido de rosa? — perguntou Sara, girando para que ele a visse.

Emanuel sorriu, um dos poucos sorrisos genuínos que Eduarda via. Ele se aproximou da esposa, abraçando-a pela cintura e puxando-a para um beijo possessivo.

— Você fica perfeita de qualquer jeito, Sara. Mas guarde o rosa para o jantar. Quero que meu pai veja que eu escolhi a mulher mais exuberante do país.

— E a mais inteligente — piscou ela, dando um tapinha no rosto dele antes de entrar no carro.

Eduarda saiu da casa carregando a bolsa de fraldas, com Maya no colo. A bebê estava vestida com um macacãozinho de algodão doce, alheia à tensão dos adultos. Eduarda caminhou até Emanuel e estendeu a bebê para ele.

— Aqui está. A mala dela já está no porta-malas. Eu deixei uma lista com os horários das mamadeiras e o remédio para cólica, caso ela sinta o peso da viagem.

Emanuel pegou a filha, acomodando-a no braço com uma facilidade que ainda surpreendia Eduarda, mas não se moveu para o carro. Ele ficou parado, olhando para Eduarda com os olhos cerrados.

— O que você está fazendo? — perguntou ele.

— Entregando a Maya. Você não disse que ia levá-la para a fazenda?

— Eu disse que nós vamos para a fazenda — corrigiu ele, a voz baixando de tom, sinalizando o início de sua irritação. — Onde está a sua mala?

Eduarda sentiu o sangue fugir do rosto.

— Eu... eu achei que você só levaria ela. Eu não quero ir, Emanuel. Eu não conheço sua família, eu não me sinto bem... Eu prefiro ficar aqui, ou ir para o meu apartamento.

Emanuel deu um passo à frente, a sombra de seu corpo alto cobrindo Eduarda. A atmosfera mudou instantaneamente. A paciência que ele demonstrara nos últimos dias diante dos pais dela evaporou.

— Escute bem, Eduarda — disse ele, a voz ríspida, cada palavra soando como um comando. — Eu não pedi sua opinião sobre o roteiro da viagem. Você é a mãe da minha filha e você faz parte da minha vida agora. Você acha que eu vou deixar você aqui, longe dos meus olhos, para que você suma de novo?

— Eu não vou sumir! Meus pais estão viajando, eu só quero um tempo... — a voz dela falhou, os olhos enchendo-se de lágrimas. — Eu me sinto deslocada. A Sara vai estar lá, a sua família... Eu sou só a garota que...

— Você é a mulher que eu escolhi — interrompeu ele, segurando o braço dela com firmeza, mas sem machucar. — E na minha família, nós não deixamos ninguém para trás. Você vai entrar naquele carro, vai colocar um sorriso nesse rosto e vai agir como a mulher doce que você é.

— Eu não vou! — Eduarda tentou recuar, sua timidez dando lugar a um desespero infantil. — Você não pode me obrigar a tudo!

Emanuel soltou um suspiro pesado, o tipo de som que ele fazia antes de perder o controle total. Ele entregou Maya para Sara, que observava a cena da janela do carro com uma expressão de tédio divertido.

— Segura ela, Sara — ordenou ele.

Emanuel voltou-se para Eduarda, encurralando-a contra o portal da casa. Ele não era violento fisicamente, mas sua presença era uma agressão aos sentidos dela. Ele era rico, poderoso e acostumado a ter o mundo aos seus pés.

— Você tem cinco minutos para pegar uma mala — disse ele, o rosto a centímetros do dela. — Se você não subir agora, eu mesmo vou entrar no seu quarto, jogar tudo o que você possui dentro de um saco e carregar você nos ombros até este carro. E eu garanto, Eduarda, que você não vai gostar do meu humor se eu tiver que fazer isso.

— Por que você é assim? — soluçou ela, apertando as mãos contra o peito dele. — Você diz que gosta de mim, mas me trata como se eu fosse um dos seus estúdios, uma propriedade.

— Porque eu sei o que é melhor para você — ele respondeu, a racionalidade fria voltando à sua voz. — Você é instável, emocional e se deixou levar pelo medo por oito meses. Meu trabalho é garantir que você nunca mais tenha motivo para ter medo, mesmo que para isso eu precise ser o motivo do seu receio agora. Agora, suba.

Eduarda olhou para os lados, procurando socorro, mas seus pais já haviam saído para o aeroporto minutos antes. Ela olhou para o carro. Sara acenou para ela, um gesto quase encorajador, como se dissesse: "é melhor obedecer".

Humilhada e sentindo-se pequena, Eduarda deu as costas e subiu as escadas correndo. Ela jogou algumas roupas de qualquer jeito em uma mala de mão, o coração batendo tão forte que chegava a doer. Ela odiava como ele a dobrava. Odiava como ele conseguia ser protetor e tirano na mesma frase.

Quando ela voltou para o jardim, Emanuel estava esperando ao pé da escada. Ele pegou a mala da mão dela sem dizer uma palavra e caminhou até o carro. Ele abriu a porta traseira para ela.

— Entre.

Eduarda obedeceu, sentando-se no banco de couro perfumado. Sara estava ao lado dela, segurando Maya e brincando com os pezinhos da bebê.

— Não fique assim, boneca — disse Sara, a voz carregada de um sarcasmo que, estranhamente, não parecia maldoso. — O Emanuel é um ogro quando não fazem o que ele quer, mas a fazenda é maravilhosa. Tem piscina aquecida, vinhos que custam mais que a sua faculdade e, o melhor de tudo, eu vou estar lá para garantir que a mãe dele não te morda.

Eduarda não respondeu. Ela encostou a cabeça na janela e viu a casa de seus pais diminuir conforme o carro ganhava velocidade.

— Você está bem? — perguntou Emanuel do banco da frente, olhando-a pelo retrovisor.

— Estou — mentiu ela, a voz sumida.

— Ótimo. Teremos um final de semana longo. Quero que você relaxe. Se você se comportar, talvez eu te deixe dar aulas de ballet na cidade vizinha quando voltarmos.

Eduarda fechou os olhos. O "se você se comportar" ecoou em sua mente como uma sentença. Ela olhou para Maya, que agora dormia no colo de Sara. Sua filha estava segura, cercada de luxo e de um pai que a amava fervorosamente. Mas Eduarda sentia que, a cada quilômetro que o carro percorria em direção à fazenda, ela perdia um pedaço da menina que costumava ser, tornando-se apenas mais uma peça no tabuleiro perfeitamente controlado de Emanuel.

— Emanuel? — chamou Sara, quebrando o silêncio.

— Sim, querida?

— Peça para o motorista parar em uma daquelas lojas de conveniência de luxo na estrada. Quero comprar um brinquedo novo para a Maya e talvez uma joia para a Eduarda. Ela está muito pálida, precisa de algo que brilhe para se sentir melhor.

Emanuel deu um sorriso de lado, satisfeito com a dinâmica que estava criando.

— O que você quiser, Sara. O que você quiser.

Eduarda apertou as próprias mãos, sentindo-se como um pássaro em uma gaiola de ouro, onde as grades eram feitas de diamantes e as portas eram guardadas por um homem que a amava demais para deixá-la ser livre. A viagem estava apenas começando, e o interior de São Paulo guardava segredos e confrontos que ela ainda não estava pronta para enfrentar. Mas, sob o olhar vigilante de Emanuel e a presença vibrante de Sara, ela percebeu que não tinha outra escolha a não ser dançar conforme a música que eles tocavam.

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