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A Fortaleza de Vidro e a Fuga das Fadas
O sol da tarde incidia sobre a sala de estar da mansão, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Aos vinte e seis anos, Emanuel sentia que sua vida era um relógio suíço de alta precisão, exceto quando o assunto envolvia suas filhas. Ágata, a cópia fiel de Sara, era um furacão previsível: ela gritava, batia o pé e exigia o que queria com a sutileza de um tanque de guerra. Já Maya, a filha que ele e Eduarda adotaram e criavam com o mesmo fervor, era uma criatura de silêncios estratégicos e manhas silenciosas.
Naquele sábado, a paz havia sido declarada morta no momento em que Emanuel anunciou que era hora do banho.
— Maya, eu não vou repetir. Venha aqui agora — a voz de Emanuel ecoou pelo corredor, firme, no tom que ele usava para comandar seus estúdios de tatuagem ao redor do mundo.
A menina de quase dois anos, com seus cachos castanhos e olhos grandes e expressivos herdados de uma linhagem de doçura, olhou para o pai com um desafio que Emanuel sabia ter sido incentivado pelas risadas de Sara. Maya não se moveu. Ela segurava uma boneca de pano contra o peito, os pés descalços firmes no tapete persa.
— Não banho, papai. Banho não — declarou ela, com a clareza de quem já havia tomado uma decisão executiva.
— Maya, você passou a tarde brincando com a Ágata no jardim. Você está cheia de terra. Vamos logo, a Duda está preparando o jantar e ela não quer que você se atrase.
Mencionar Eduarda costumava funcionar. Eduarda era o porto seguro, a voz que cantava para elas dormirem, a professora de ballet que as ensinava a flutuar. Mas Maya parecia ter acordado com um espírito de rebeldia que nem mesmo o nome da mãe conseguia aplacar.
— Mamãe Duda disse que eu sou uma fada. Fadas não tomam banho, elas brilham — Maya retrucou, dando um passo para trás.
Emanuel suspirou, passando a mão pelo cabelo curto. Ele estava exausto. O dia no estúdio fora longo, e Sara estava no andar de cima, em meio a uma sessão de massagem e cuidados estéticos, provavelmente rindo da situação através da babá eletrônica.
— As fadas também precisam lavar as asas, Maya. Agora, chega de pirraça.
Ele deu um passo em direção a ela, pretendendo pegá-la no colo e encerrar o assunto. Foi o erro fatal. Maya, com a agilidade de quem passava horas observando os ensaios de ballet de Eduarda, girou sobre os calcanhares e disparou pelo corredor.
— Maya! Volte aqui! — Emanuel correu atrás dela, mas a menina era pequena e rápida.
Ela passou pela cozinha, onde o cheiro do risoto de Eduarda perfumava o ar, e entrou na biblioteca. A biblioteca de Emanuel era um cômodo vasto, com prateleiras que iam do chão ao teto e uma escada de correr de madeira escura. Nos cantos, o design moderno de Emanuel havia criado nichos de leitura e estruturas decorativas que eram o pesadelo de qualquer adulto tentando capturar uma criança.
Emanuel entrou na sala a tempo de ver um par de pés gordinhos desaparecendo atrás de uma estrutura de suporte de uma escultura de mármore, que ficava em um recuo estreito entre a parede de vidro e o final de uma estante maciça. Era um espaço de apenas trinta centímetros de largura, projetado para ventilação e estética arquitetônica.
Emanuel se aproximou, mas parou diante do vão. Ele era um homem alto, de ombros largos e porte atlético. Não havia a menor possibilidade de ele passar por ali.
— Maya, saia daí agora. É um lugar sujo e perigoso.
Um silêncio se seguiu, e então, uma risadinha abafada e cristalina.
— Papai não entra. Papai é grandão. Maya é fada pequena.
Emanuel se inclinou, tentando enxergar no vão escuro. Maya estava sentada lá no fundo, protegida pela estrutura da estante, com as costas contra o vidro que dava para o jardim. Ela o olhava com uma expressão de puro triunfo, os olhos brilhando de diversão.
— Isso não é engraçado, Maya. Saia daí ou eu vou ficar muito zangado.
— Papai zangado é feio — ela respondeu, fazendo uma careta e rindo logo em seguida. — Maya fica aqui. Aqui é meu castelo.
Emanuel sentiu a veia em sua têmpora pulsar. Ele tentou enfiar o braço, mas a estante era fixa e o ângulo não permitia que ele a alcançasse. Ele estava sendo derrotado por uma criança de dois anos em sua própria casa.
— Emanuel? O que está acontecendo aqui? — A voz suave de Eduarda surgiu na porta da biblioteca.
Ela entrou na sala usando um vestido leve de algodão, o cabelo castanho preso em uma trança lateral. Ela parecia a personificação da calma, o que só irritou Emanuel ainda mais.
— Sua filha resolveu que é uma fada e se trancou em um lugar onde eu não consigo entrar — Emanuel apontou para o vão, a frustração evidente em seu rosto.
Eduarda se aproximou, olhando para o esconderijo de Maya. Ela se agachou, o movimento gracioso de quem vivia para a dança.
— Maya, meu amor? O que você está fazendo aí atrás? O papai está preocupado.
— Papai quer tirar meu brilho de fada com água, mamãe — Maya explicou, a voz agora um pouco mais manhosa, buscando a aliança de Eduarda. — Eu não quero banho.
— Mas a água não tira o brilho, Maya. A água faz o brilho ficar mais forte — Eduarda disse, mantendo o tom de voz doce e persuasivo. — E se você sair, eu posso te mostrar como as fadas tomam banho de espuma.
— Não! — Maya gritou, subitamente decidida. — Papai mandou. Se papai manda, Maya não faz.
Emanuel cruzou os braços, bufando.
— Viu? Ela está fazendo pirraça só porque eu dei uma ordem. Ela está igualzinha à Sara.
— Eu ouvi meu nome e espero que seja um elogio — a voz de Sara ecoou, vibrante e provocadora.
Ela entrou na biblioteca usando um robe de seda rosa choque, os cabelos loiros perfeitamente alinhados e um sorriso irônico nos lábios. Sara caminhou até Emanuel e passou o braço pela cintura dele, dando-lhe um beijo na bochecha que deixou uma marca de batom.
— Então a pequena rebelde finalmente encontrou um bunker? — Sara olhou para o vão e começou a rir. — Ah, Manu, olhe para a cara dela. Ela está rindo da sua cara de derrota. Isso é impagável.
— Não tem graça, Sara. Ela precisa tomar banho e jantar.
— Tem toda a graça do mundo — Sara rebateu, soltando-se dele e se aproximando do esconderijo. — Ei, pirralha! Você sabe que se ficar aí muito tempo, a Ágata vai comer todo o seu risoto e ainda vai brincar com os seus unicórnios novos, não sabe?
Houve um momento de hesitação no fundo do vão. O medo de perder para a irmã era a única coisa que costumava mover Maya. Mas a teimosia venceu.
— Ágata não pega. Maya tem a chave do castelo.
— Ela não vai sair, Emanuel — disse Eduarda, levantando-se e olhando para o marido com preocupação. — E eu não consigo entrar ali também, o espaço é muito apertado por causa da curvatura da estante.
Emanuel olhou para a parede de vidro. Ele pensou seriamente em chamar a manutenção para remover a estante, ou talvez usar uma mangueira de jardim pelo lado de fora, mas sabia que Eduarda nunca o perdoaria por traumatizar a menina.
— Maya, esta é a última chance. Saia daí agora ou não haverá história antes de dormir — Emanuel tentou sua última cartada.
— Não precisa de história. Maya conta história para a boneca — a voz da menina veio acompanhada de um som de beijo estalado em sua boneca de pano.
Emanuel olhou para Sara, que estava encostada na mesa de carvalho, observando a cena como se fosse um espetáculo de entretenimento.
— Faça alguma coisa, Sara. Você é a mãe dela também.
— Eu estou fazendo. Estou admirando a genética — Sara deu de ombros. — Ela tem a sua determinação, Manu, e a minha falta de filtro para autoridade. É uma combinação perigosa. Boa sorte tentando convencer ela.
— Eduarda, tente você de novo — Emanuel pediu, a voz quase implorante.
Eduarda se ajoelhou novamente, aproximando o rosto do vão tanto quanto podia.
— Maya, querida... se você sair agora, a mamãe deixa você usar aquele sabonete de brilho que a gente comprou na viagem. Aquele que deixa a água toda colorida.
Maya pareceu considerar. O silêncio se arrastou por quase um minuto. Emanuel segurou a respiração.
— Com glitter? — a vozinha perguntou.
— Com muito glitter — prometeu Eduarda.
— E o papai não pode entrar no banho?
Emanuel abriu a boca para protestar, mas Sara colocou a mão sobre seus lábios.
— O papai vai ficar bem longe, prometo — disse Sara, piscando para o vão.
Lentamente, Maya começou a se arrastar para fora. Ela saiu de trás da estante coberta de teias de aranha e poeira, o que a deixava ainda mais longe da imagem de uma fada brilhante. Assim que ela ficou ao alcance, Emanuel fez menção de pegá-la, mas a menina correu direto para as pernas de Eduarda, escondendo o rosto no vestido da mãe.
— Ela é impossível — Emanuel murmurou, embora o alívio estivesse começando a substituir a irritação.
Eduarda pegou a menina no colo, limpando uma mancha de poeira da bochecha dela.
— Ela só é uma criança, Emanuel. Ela precisa de espaço para ser... bem, pirracenta às vezes.
— Ela riu de mim, Duda. Ela literalmente riu da minha cara porque eu não conseguia entrar ali.
— E você queria o quê? — Sara se aproximou, passando a mão pelos cachos de Maya. — Você é um gigante de um metro e noventa tentando dar ordens para uma fada de oitenta centímetros. A física estava do lado dela, Manu. Aceite a derrota com dignidade.
Emanuel olhou para as três: Sara, com seu sorriso provocador; Eduarda, com seu olhar de ternura infinita; e Maya, que agora mostrava a língua para ele por cima do ombro de Eduarda.
— Eu vou para o escritório — Emanuel declarou, embora soubesse que não iria a lugar algum. — Preciso de um uísque antes que a Ágata resolva se esconder no lustre.
— O uísque pode esperar — disse Eduarda, aproximando-se dele com Maya no colo. — Primeiro, você vai ajudar a levar a Maya para o banho. Mas sem dar ordens. Apenas... ajude.
Emanuel olhou para a filha. Maya estendeu os bracinhos para ele, o humor mudando instantaneamente como só as crianças conseguem fazer.
— Papai me carrega? Fada está cansada.
Emanuel não conseguiu evitar o sorriso. Ele pegou a menina, sentindo o peso leve e o cheiro de infância e travessura.
— Você é uma pequena manipuladora, sabia?
— Sou fada — ela corrigiu, encostando a cabeça no ombro dele.
Enquanto subiam as escadas, com Eduarda de um lado e Sara do outro, Emanuel sentiu a familiar pressão daquela vida que ele construíra. Era um equilíbrio delicado, uma dança entre o controle que ele tentava exercer e a liberdade que aquelas mulheres exigiam.
No banheiro, a promessa do glitter foi cumprida. Eduarda despejou os sais coloridos na banheira, transformando a água em um mar de azul cintilante. Sara sentou-se na borda da banheira, contando histórias exageradas sobre sereias que não gostavam de pentear o cabelo, enquanto Emanuel observava da porta, garantindo que tudo estivesse sob controle.
— Viu só? — Sara disse, olhando para ele enquanto Maya brincava com a espuma. — Não foi tão difícil. Você só precisa aprender a negociar com o inimigo.
— O problema é que eu tenho três inimigas nesta casa — Emanuel comentou, embora o tom fosse de pura adoração.
— Três não, Manu — Eduarda o corrigiu, levantando-se e indo até ele, envolvendo seus braços em volta do pescoço dele. — Três mulheres que te amam. E a Ágata, que neste momento está provavelmente pintando a parede do quarto com o seu batom caro, Sara.
Sara saltou da borda da banheira como se tivesse levado um choque.
— O quê? Ágata! Se aquele for o meu batom da Chanel, eu vou transformar você em uma fada sem asas!
Sara saiu correndo do banheiro, seus saltos ecoando pelo corredor. Emanuel e Eduarda ficaram sozinhos com Maya, que ria da confusão.
— A nossa vida nunca é calma, não é? — Eduarda perguntou, encostando a testa na dele.
— Eu não gostaria que fosse de outro modo — Emanuel admitiu, puxando-a para mais perto. — Mas amanhã, eu vou mandar fechar aquele vão na biblioteca.
— Não vai, não — Eduarda sorriu, dando-lhe um beijo suave. — É o castelo dela. E você sabe que, no fundo, você adora que ela tenha um lugar onde você não pode mandar.
Emanuel olhou para Maya, que agora tentava fazer uma barba de espuma em si mesma, e soube que Eduarda tinha razão. Ele era o mestre de um império, um homem rico e poderoso, mas naquelas quatro paredes, ele era apenas o súdito de três rainhas e duas pequenas princesas que sabiam exatamente como dobrar sua vontade.
— Tudo bem — ele cedeu, suspirando. — O castelo fica. Mas na próxima vez que ela se esconder lá, é você quem vai tirar a poeira dela.
— Combinado — disse Eduarda, rindo.
E ali, entre o brilho do glitter e o som das risadas, Emanuel entendeu que a verdadeira arte não estava na tinta que ele cravava na pele alheia, mas na paciência e no amor que ele aprendia a cultivar a cada pirraça, a cada fuga e a cada retorno para os braços daqueles que o faziam se sentir, finalmente, em casa.