D
O Magnetismo do Colo e o Caos da Intimidade
A mansão de Emanuel, geralmente um templo de design minimalista e silêncio produtivo, havia se transformado em um campo de batalha doméstico onde a lógica não tinha jurisdição. Aos vinte e seis anos, Emanuel acreditava que poderia gerenciar qualquer crise — desde a abertura de um estúdio em Tóquio até as flutuações do mercado financeiro. No entanto, ele não contava com a determinação férrea de uma criança de quase dois anos que decidira que a proximidade física com Eduarda era uma questão de sobrevivência básica.
Maya havia se tornado a sombra de Eduarda. Onde a bailarina ia, a pequena seguidora ia atrás, agarrada à barra de seu vestido ou exigindo colo com um choro que parecia vir das profundezas da alma. Para Maya, o mundo era dividido em duas categorias: a "Mamãe Duda" e o "Resto Irrelevante". Nem mesmo os brinquedos mais caros comprados por Emanuel ou as tentativas provocadoras de Sara de distrair a menina com maquiagens coloridas funcionavam por mais de cinco minutos.
Naquela manhã de terça-feira, a tensão atingiu o ápice. Eduarda, que tentava equilibrar sua rotina de professora de ballet com a faculdade de História da Arte e as demandas da maternidade, sentia-se à beira de um colapso sensorial. Ela amava Maya com cada fibra de seu ser, mas a possessividade da menina estava começando a interferir em sua própria autonomia física.
— Emanuel, eu só preciso de trinta minutos — disse Eduarda, a voz carregada de um cansaço doce, enquanto tentava desvencilhar os dedos gordinhos de Maya de seu cabelo castanho. — A esteticista chega em dez minutos. Eu marquei essa depilação há três semanas.
Emanuel, que estava sentado à mesa de carvalho da sala de jantar revisando contratos, levantou o olhar. Seus olhos escuros suavizaram-se ao ver a figura frágil de Eduarda sendo quase engolida pela energia de Maya.
— Eu cuido dela, Duda. Vá para o andar de cima, feche a porta e relaxe. Eu dou um jeito — afirmou ele, levantando-se com a autoridade de quem estava acostumado a comandar.
— Você disse isso ontem quando eu tentei tomar um banho de quinze minutos — lembrou Eduarda, dando um sorriso triste. — E ela quase derrubou a porta do banheiro com a cabeça.
— Ontem eu estava em uma chamada com Londres. Hoje, meu foco é a fada rebelde — Emanuel caminhou até elas e pegou Maya no colo.
A reação foi instantânea. Maya arqueou as costas, soltando um grito que faria um soprano ter inveja.
— Não! Papai não! Mamãe Duda! — As lágrimas começaram a rolar, e as mãos de Maya se estenderam desesperadamente para Eduarda.
— Maya, olhe para mim — Emanuel tentou, usando seu tom mais firme e protetor. — A mamãe vai cuidar da beleza dela. Nós vamos brincar com os carrinhos novos.
— Não carrinho! Mamãe! — Maya soluçou, o rosto ficando vermelho.
Sara, que acabara de descer as escadas usando um conjunto de academia neon que realçava seu corpo escultural, parou no último degrau e soltou uma risada debochada.
— Pelo amor de Deus, Emanuel, você é um mestre da intimidação e está sendo derrotado por uma fralda. Dá ela aqui.
Sara pegou a menina com uma habilidade surpreendente, mas Maya não se deixou enganar. Ela olhou para a loira, viu os cílios postiços e o sorriso irônico, e redobrou o volume do choro.
— Sai, Sara! Mamãe! — gritou a pequena.
— "Sai, Sara"? — A loira arqueou uma sobrancelha, fingindo estar ofendida. — Essa menina tem um gosto péssimo para companhias. Duda, vai logo. Se você não for agora, ela vai sentir o seu cheiro de hesitação e o dia está perdido.
Eduarda aproveitou a brecha e subiu as escadas quase correndo, sentindo-se culpada e aliviada ao mesmo tempo. Ela entrou na suíte master, trancou a porta e encostou a cabeça na madeira, ouvindo os gritos de Maya diminuírem conforme Emanuel a levava para o jardim.
Dez minutos depois, a esteticista, uma mulher paciente chamada Cida, já estava organizando a maca e a cera quente no closet espaçoso.
— A fase do apego é difícil, dona Eduarda — comentou Cida, preparando os materiais. — Mas passa.
— Eu espero que sim — suspirou Eduarda, deitando-se na maca. — Eu me sinto péssima por querer um tempo sozinha, mas às vezes parece que eu não sou mais uma pessoa, apenas um suporte para ela.
A sessão começou. O calor da cera e o ambiente climatizado trouxeram uma paz momentânea. Eduarda fechou os olhos, tentando se reconectar com a própria pele, com a sensação de ser cuidada em vez de cuidar. No entanto, a mansão de Emanuel tinha uma acústica excelente, e o silêncio durou pouco.
Primeiro, veio o som de algo pesado batendo contra a porta do quarto. Depois, o arranhar persistente de unhas pequenas na madeira.
— Mamãe? Duda? Abre! — A voz de Maya, agora rouca de tanto chorar, soou abafada, mas carregada de uma angústia que perfurou o coração de Eduarda.
— Ignore, dona Eduarda — aconselhou Cida. — Se a senhora abrir agora, ela nunca mais vai deixar a senhora em paz.
Eduarda cerrou os dentes, as mãos apertando a borda da maca.
— Emanuel! — gritou ela. — Leve ela daqui!
— Eu estou tentando! — A voz de Emanuel veio do corredor, soando tão estressado quanto um homem em meio a um motim. — Ela escapou do cercadinho e subiu as escadas como um macaco! Sara, me ajuda aqui!
— Eu não vou encostar nela, Emanuel! Ela tentou me morder! — Sara exclamou, e o som de seus saltos indicava que ela estava mantendo uma distância segura. — Essa menina é possessiva demais. Ela é igual a você, Manu. Quando quer uma coisa, não aceita substitutos.
Na maca, Eduarda sentiu a primeira puxada da cera. A dor física foi um alívio comparado à pressão emocional. Mas Maya não desistia. Ela começou a chutar a porta rítmicamente.
— Mamãe! Dói! Maya dói! — A menina começou a usar a tática suprema: a simulação de dor física.
Eduarda sentou-se na maca, o lençol de papel amassado sob ela.
— Cida, me desculpe, eu não consigo.
— Dona Eduarda, falta pouco...
— Não dá. Ela vai se machucar de tanto bater nessa porta.
Eduarda levantou-se, enrolou-se em um roupão de seda e caminhou até a porta. Ao girar a chave, ela foi quase atropelada por uma pequena massa de energia e lágrimas. Maya se atirou contra as pernas de Eduarda, soluçando tão forte que seu corpo inteiro tremia.
Emanuel estava parado no corredor, o rosto suado, a camisa social amassada e um olhar de absoluta derrota. Sara estava encostada na parede oposta, lixando uma unha com uma indiferença que Eduarda sabia ser apenas uma fachada para não admitir que também estava preocupada.
— Eu tentei, Duda — disse Emanuel, a voz baixa. — Eu juro que tentei. Dei chocolate, mostrei o desenho, prometi um pônei... ela não quer nada. Ela só quer você.
Eduarda pegou Maya no colo. A menina imediatamente enterrou o rosto no pescoço da mãe, o choro cessando quase instantaneamente, substituído por suspiros profundos de alívio.
— Está tudo bem, meu amor. A mamãe está aqui — sussurrou Eduarda, olhando para Emanuel com uma mistura de amor e exaustão.
— E a depilação? — perguntou Sara, apontando para o closet.
— Vai ter que ser com plateia — suspirou Eduarda.
Cida, a esteticista, olhou para a cena com uma sobrancelha erguida. Ela já vira muita coisa em vinte anos de profissão, mas ver um empresário milionário e uma loira siliconada deslumbrante sendo rendidos por uma criança de dois anos era uma novidade.
Eduarda voltou para a maca com Maya. A menina recusou-se a descer. O acordo final foi: Eduarda deitada, e Maya sentada em sua barriga, segurando a mão da mãe como se fosse um cabo de guerra.
— Isso é ridículo — comentou Sara, entrando no closet e sentando-se em um banquinho de veludo. — Manu, vem ver isso. A sua fada virou um carrapato.
Emanuel entrou, encostando-se no batente da porta. Ele observava a cena com uma intensidade silenciosa. Havia algo na vulnerabilidade de Eduarda e na possessividade de Maya que despertava nele um instinto primordial. Ele amava Sara pela sua força, pelo seu fogo, pela forma como ela desafiava o mundo. Mas ele amava Eduarda pela paz que ela trazia, pela doçura que o ancorava. E ver as duas crianças — Ágata, que agora dormia no andar de baixo, e Maya — orbitando em torno daquela fragilidade de Eduarda o fazia sentir-se o homem mais rico do mundo, e ao mesmo tempo, o mais sobrecarregado.
— Cida, pode continuar — disse Eduarda, respirando fundo.
A esteticista retomou o trabalho. Cada vez que Eduarda soltava um pequeno gemido de dor pela cera, Maya apertava sua mão e olhava feio para Cida.
— Não machuca mamãe! — dizia a menina, os olhos semicerrados.
— Eu não estou machucando, querida. Estou deixando ela bonita — explicava Cida, tentando não rir.
Sara, observando a cena, cruzou as pernas e olhou para Emanuel.
— Sabe, Manu... a gente devia ter pensado nisso antes de trazer a Duda para cá. Ela é como um ímã. A gente se atrai por ela, as crianças se atraem por ela. Ela é o centro gravitacional dessa bagunça.
— Eu pensei nisso, Sara — Emanuel respondeu, a voz grave. — Só não achei que o ímã fosse tão potente.
— É potente porque ela é de verdade — disse Sara, e por um momento, o sarcasmo desapareceu de sua voz, dando lugar a uma sinceridade rara. — Ela não tem filtros, não tem jogos. Ela é só... a Duda. E nesse mundo de plástico em que a gente vive, até um bebê sabe o que é ouro.
Eduarda olhou para Sara, surpresa pelo elogio disfarçado. A relação entre as duas era um labirinto de aceitação e convivência. Sara não via Eduarda como uma ameaça ao seu posto de "mulher oficial", mas como um complemento necessário para a alma torturada de Emanuel. E Eduarda, em sua timidez, via em Sara a força que muitas vezes lhe faltava.
A sessão terminou sob o olhar vigilante de Maya. Cida guardou suas coisas, recebeu um pagamento generoso de Emanuel e saiu da mansão prometendo voltar na próxima semana — desde que houvesse reforços.
Eduarda sentou-se na maca, ajeitando o roupão. Maya ainda estava em seu colo, agora brincando com os dedos de Eduarda, finalmente calma.
— Agora que a crise diplomática foi resolvida — começou Emanuel, aproximando-se da maca —, eu acho que nós merecemos um almoço em família. Sem choro, sem fugas e sem esconderijos.
— Eu topo — disse Sara, levantando-se. — Mas a Duda vai ter que comer com uma mão só, porque eu duvido que essa menina solte o braço dela hoje.
Emanuel pegou Eduarda pela cintura e a ajudou a descer da maca, mantendo Maya entre eles. Ele beijou a testa de Eduarda e depois o topo da cabeça de Maya.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz baixa, apenas para Eduarda ouvir.
— Estou cansada, Emanuel. Mas estou feliz. É um tipo estranho de cansaço.
— É o cansaço de ser amada demais — ele afirmou. — E eu pretendo garantir que você nunca descanse disso.
Eles desceram para o almoço. A mesa estava posta na varanda, com vista para o jardim onde as flores da primavera começavam a abrir. Ágata, que havia acordado de sua soneca, já estava sentada em seu cadeirão, tentando enfiar um pedaço de pão no nariz.
— Ágata, modos! — repreendeu Sara, embora estivesse rindo.
O almoço seguiu com a confusão habitual. Maya, como previsto, comeu sentada no colo de Eduarda, recusando-se a ir para o seu próprio lugar. Emanuel tentava cortar a carne para Eduarda enquanto Sara contava histórias sobre as clientes difíceis de sua loja de roupas.
Em um momento, Emanuel observou as duas mulheres. Sara, loira, siliconada, falando alto, gesticulando com suas unhas perfeitas, exalando uma vulgaridade magnética que ele sempre amaria. E Eduarda, com sua aparência delicada, os cabelos levemente bagunçados pela manhã difícil, os olhos doces focados na criança em seu colo, transmitindo uma pureza que ele protegia com ferocidade.
Ele queria as duas. Ele tinha as duas. E embora o mundo pudesse julgar aquela configuração, ali, naquela varanda, tudo fazia sentido.
— Manu? — chamou Eduarda, tirando-o de seus devaneios. — A Maya disse que quer ir ao ballet comigo hoje à tarde.
Emanuel olhou para a filha, que agora tinha o rosto sujo de molho de tomate.
— Ao ballet? Ela mal consegue andar em linha reta sem tropeçar nos próprios pés.
— Ela disse que quer ser uma fada de verdade — Eduarda sorriu. — Eu acho que vou levar ela. Pelo menos lá ela vai estar cercada de outras crianças e talvez me dê cinco minutos de folga.
— Ou ela vai tentar expulsar todas as outras alunas da sala para ter você só para ela — previu Sara, tomando um gole de vinho branco. — Eu conheço essa peça. Ela é territorialista.
— Deixe ela ir — decidiu Emanuel. — Eu vou junto. Quero ver a minha pequena fada e a minha professora favorita em ação.
— Você vai faltar à reunião com os investidores do novo estúdio? — perguntou Sara, surpresa.
— Os investidores podem esperar. A infância da minha filha e a paz da minha mulher, não — Emanuel afirmou, com uma clareza que não admitia discussões.
À tarde, a academia de ballet de Eduarda foi o palco de uma cena inusitada. Enquanto as alunas de cinco e seis anos faziam seus exercícios na barra, uma pequena Maya, vestindo um tutu rosa que Emanuel fizera questão de comprar no caminho, tentava imitar os movimentos da mãe no centro da sala.
Emanuel estava sentado no banco de espera, observando através do vidro. Ele via Eduarda se movendo com uma leveza etérea, corrigindo a postura das alunas com uma paciência infinita, enquanto Maya a seguia como um satélite desgovernado.
Sara apareceu meia hora depois, trazendo cafés gelados e sentando-se ao lado de Emanuel.
— Elas ficam bem juntas, não ficam? — perguntou Sara, olhando para a sala.
— Ficam. É como se a Duda desse um ritmo para o caos da Maya — Emanuel respondeu.
— E quem dá o ritmo para o seu caos, Manu? — Sara provocou, encostando a cabeça no ombro dele.
Emanuel olhou para a loira ao seu lado e depois para a bailarina na sala.
— Vocês duas dão. Cada uma do seu jeito.
De volta à mansão, ao cair da noite, o cansaço finalmente venceu Maya. A menina adormeceu no colo de Eduarda ainda no carro. Emanuel a carregou para o quarto, colocando-a no berço com uma delicadeza que poucos associariam ao renomado tatuador de traços firmes e personalidade controladora.
Eduarda estava na porta, observando a cena.
— Ela finalmente apagou — sussurrou ela, quando Emanuel se aproximou.
— Ela lutou até o último segundo — Emanuel sorriu, envolvendo a cintura de Eduarda. — Agora, eu acho que é a minha vez de ter você só para mim.
— E a Sara? — perguntou Eduarda, embora soubesse a resposta.
— A Sara está no quarto nos esperando. Ela disse que comprou um óleo de massagem novo e que a gente precisa testar... para relaxar do estresse do dia.
Eduarda sentiu o rosto esquentar, a timidez sempre presente, mas a segurança que Emanuel lhe transmitia era maior do que qualquer hesitação. Eles caminharam juntos pelo corredor, deixando para trás o mundo das fadas, dos tutus e da possessividade infantil.
Naquela noite, entre as tintas do império de Emanuel e a suavidade da vida que eles construíram, não havia espaço para dúvidas. O magnetismo de Eduarda, que atraía Maya de forma tão implacável, era o mesmo que mantinha Emanuel e Sara orbitando ao seu redor. Eles eram um ecossistema próprio, um arranjo de amor, desejo e proteção que desafiava qualquer lógica, mas que brilhava com a intensidade de algo que, contra todas as probabilidades, era absolutamente real.
Enquanto a lua subia no céu, a mansão finalmente mergulhou no silêncio. Maya dormia, sonhando com palcos e colos; Ágata descansava, pronta para o caos do dia seguinte; e no quarto principal, Emanuel, Sara e Eduarda reafirmavam o pacto silencioso que os unia: o de que, naquele castelo de vidro e concreto, o amor não precisava ser simples, ele apenas precisava ser deles.