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O Labirinto de Seda e a Fúria das Chaves Perdidas
A tarde na cobertura de Emanuel tinha começado com uma calmaria enganosa. Emanuel estava em uma conferência internacional por vídeo, trancado em seu escritório envidraçado, tratando da expansão de seus estúdios de tatuagem para Tóquio. Sara e Eduarda, aproveitando a rara brecha na vigilância constante dele, decidiram que as meninas precisavam de um "dia de princesas" fora das paredes luxuosas, mas sufocantes, do apartamento.
— Manu proibiu a gente de levá-las ao shopping sem os seguranças, Sara — sussurrou Eduarda, ajeitando o laço no cabelo de Maya. — Ele disse que é perigoso, que tem muita gente...
— Ah, Duda, o Emanuel é um paranoico possessivo — Sara respondeu, retocando o gloss labial enquanto Ágata tentava calçar seus sapatos de salto. — Ele acha que o mundo inteiro quer sequestrar a família dele. Vamos rapidinho, só para tomar um sorvete e comprar uns brinquedos. Ele nem vai notar.
Eduarda hesitou, o coração disparado. Ela odiava desobedecer Emanuel, a ideia de vê-lo furioso a fazia tremer, mas a vontade de Sara era contagiante e o desejo de ver Maya correr em um lugar diferente era maior.
O "rapidinho", porém, transformou-se em um desastre. No meio do shopping lotado, enquanto Sara se distraía com uma vitrine de joias e Eduarda tentava equilibrar as sacolas, um grupo de adolescentes em skates passou voando pelo corredor proibido. O susto foi geral. Maya, assustada com o barulho, soltou a mão de Eduarda e correu em direção a uma escada rolante. No pânico, Ágata tentou seguir a irmã e tropeçou, batendo o queixo no chão de mármore.
O resultado: Maya foi resgatada por um segurança desconhecido a poucos metros do perigo, e Ágata agora exibia um corte que precisaria de pontos e um hematoma roxo no rosto. Elas voltaram para casa em silêncio, o pânico substituindo a adrenalina.
— A gente está morta — murmurou Eduarda, as lágrimas escorrendo enquanto limpava o rosto de Maya, que ainda soluçava.
— Calma, Duda. Eu tive uma ideia — disse Sara, os olhos brilhando com uma mistura de medo e audácia. — O Emanuel é um homem de ação. Se a gente contar agora, ele vai explodir, vai tirar a gente daqui, vai nos trancar em quartos separados. Precisamos... desarmar a fera antes de dar a notícia.
— Como? — perguntou Eduarda, secando as mãos no vestido leve.
— Vamos usar o ponto fraco dele. Nós duas.
***
Emanuel saiu do escritório duas horas depois, os ombros tensos e o olhar cansado. Ele estranhou o silêncio da casa. Geralmente, as meninas estariam correndo ou Sara estaria ouvindo música alta.
— Sara? Eduarda? — chamou ele, caminhando em direção ao quarto principal.
Ao abrir a porta, ele estancou. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas por velas aromáticas. O cheiro de sândalo e baunilha era inebriante. Sara estava sentada na ponta da cama, usando um conjunto de lingerie preta que deixava pouco para a imaginação, as pernas longas cruzadas com elegância. Ao lado dela, Eduarda parecia uma visão de inocência corrompida, vestindo uma camisola de seda branca, curta e fluida, com os cabelos castanhos caindo sobre os ombros.
— O que é isso? — perguntou Emanuel, a voz rouca, a guarda baixando por um segundo diante da visão das duas mulheres que ele mais desejava no mundo.
— Você trabalhou demais hoje, Manu — disse Sara, levantando-se e caminhando até ele com a sensualidade de uma pantera. — Queremos te dar um presente. Um momento só nosso.
Emanuel deixou-se levar. Ele foi conduzido até a cama, onde Sara o empurrou suavemente para o colchão.
— Deita, amor — sussurrou ela. — Relaxa.
Antes que Emanuel pudesse processar o que estava acontecendo, ouviu o som metálico de um clique. E depois outro. Suas mãos foram puxadas para cima e presas à cabeceira de ferro trabalhado da cama de design.
— Algemas, Sara? Sério? — Emanuel soltou uma risada curta, achando que era apenas um jogo erótico. — Vocês estão muito criativas hoje.
— É para garantir que você nos ouça até o fim, Manu — disse Eduarda, a voz trêmula, aproximando-se dele.
Emanuel tentou puxar as mãos, mas as algemas eram profissionais, de aço frio. Ele olhou de Sara para Eduarda, e seu instinto de controle começou a apitar. Algo estava errado. Onde estavam as meninas?
— Cadê a Ágata e a Maya? — A voz dele subiu um tom, a autoridade voltando com força.
— Elas estão dormindo, Manu... — começou Eduarda, subindo na cama e sentando-se no colo dele. O peso leve dela, o calor de sua pele contra a dele através do moletom, era uma tortura doce. — Mas aconteceu uma coisa.
— Que coisa? — Emanuel rosnou, tentando se sentar, mas as algemas o mantinham preso. — Eduarda, sai de cima de mim e me solta agora.
— Não — disse Sara, sentando-se ao lado da cabeça dele, começando a distribuir beijinhos pelo seu pescoço e mandíbula. — Primeiro você escuta. A gente saiu. Levamos as meninas ao shopping.
O corpo de Emanuel ficou rígido como pedra. As veias de seu pescoço saltaram.
— Vocês o quê? Eu proibi! Eu disse que não era seguro!
— A Ágata caiu, Manu — Eduarda disparou, as palavras saindo em um soluço. Ela começou a distribuir beijos suaves no peito dele, tentando acalmar a fera que despertava. — Ela cortou o queixo. E a Maya quase se perdeu na escada rolante. Um segurança a pegou.
O silêncio que se seguiu foi aterrador. Emanuel não gritou. Ele apenas respirou fundo, os olhos cinzas tornando-se duas pedras de gelo. A fúria dele era silenciosa e absoluta.
— Soltem-me — disse ele, a voz tão baixa que era quase um sussurro. — Agora.
— Manu, por favor, não fica assim — pediu Eduarda, começando a rebolar suavemente no colo dele, um movimento manhoso que ela sabia que costumava desarmá-lo. — Foi um acidente, estamos arrependidas. A gente só queria um pouco de liberdade.
— Liberdade? — Emanuel deu um solavanco, fazendo as algemas rangerem. — Vocês colocaram a vida das minhas filhas em risco por causa de um sorvete? Eduarda, eu assumi a Maya! Ela é minha! Ágata é meu sangue! Se algo acontecesse com elas, eu queimaria aquele shopping com vocês dentro!
— Calma, lobão — provocou Sara, embora houvesse um traço de nervosismo em sua voz. Ela começou a beijar os lábios dele, tentando abafar os protestos. — Estamos aqui agora. Estamos seguras. E vamos compensar você.
Eduarda continuava o movimento em seu colo, as mãos pequenas acariciando o rosto dele, os lábios buscando os dele com uma doçura desesperada. Emanuel sentia o corpo reagir, a traição de seus próprios sentidos, mas sua mente estava fixa na imagem de Maya sozinha em uma escada rolante.
— Eu vou falar pela última vez — Emanuel disse, ignorando os estímulos das duas. — Peguem a chave e me soltem. Se eu tiver que arrebentar essa cabeceira, as consequências serão muito piores para vocês duas.
Sara revirou os olhos, mas cedeu. A fúria dele estava começando a passar do ponto onde era excitante para o ponto onde era perigosa.
— Tá bom, tá bom. O sermão já deu. Onde você colocou a chave, Duda?
Eduarda parou de rebolar, o rosto pálido.
— Eu... eu deixei em cima da cômoda.
Sara foi até a cômoda. Não havia nada lá. Ela procurou no chão, debaixo da cama, entre os lençóis. O pânico começou a subir pela sua garganta.
— Duda... a chave não está aqui.
— Como não está aí? Eu coloquei do lado do perfume do Manu! — Eduarda desceu do colo dele, começando a procurar freneticamente.
Emanuel observava a cena, o rosto uma máscara de incredulidade e ódio.
— Vocês estão me dizendo que me algemaram e perderam a chave? — perguntou ele, a voz subindo de oitava.
— A gente deve ter derrubado quando você se mexeu — disse Sara, a voz trêmula. — Espera, vou chamar o porteiro, ou o chaveiro...
— Você não vai chamar ninguém! — gritou Emanuel, a fúria finalmente explodindo. — Você quer que o prédio inteiro saiba que o dono dos estúdios de tatuagem está preso na cama por duas irresponsáveis? Procurem essa chave agora!
As próximas duas horas foram um pesadelo. Sara e Eduarda reviraram o quarto. Ágata acordou chorando pela dor no queixo, e Eduarda teve que ir cuidar dela, deixando Sara sozinha na busca. Emanuel estava em um estado de fúria cega, proferindo ameaças que faziam Eduarda chorar no quarto ao lado.
— Quando eu sair daqui, Sara, eu juro por tudo o que é sagrado que você não vai ver a cor do meu cartão de crédito por um ano! E Eduarda, você vai esquecer que o ballet existe! Você vai ficar sob minha vigilância vinte e quatro horas por dia!
Finalmente, Eduarda voltou ao quarto, segurando a chave com as pontas dos dedos trêmulos. Estava dentro de um dos sapatos de salto de Ágata, que a menina devia ter pegado no meio da confusão.
— Achei... — sussurrou ela.
— Abre logo isso, Eduarda — ordenou Emanuel, o olhar fixo nela.
Com as mãos balançando violentamente, Eduarda inseriu a chave. O primeiro clique. O segundo. Emanuel estava livre.
Ele não se levantou imediatamente. Ele sentou-se na cama, massageando os pulsos marcados pelo metal, o silêncio no quarto sendo tão pesado que Eduarda sentia dificuldade em respirar. Sara estava encostada na parede, a confiança habitual dando lugar a uma postura defensiva.
— Manu... — começou Sara.
Emanuel levantou-se em um movimento rápido. Ele não encostou nelas, mas sua presença parecia diminuir o tamanho do quarto.
— Saiam — disse ele.
— O quê? — perguntou Eduarda, as lágrimas voltando.
— Saiam do meu quarto. Agora. As duas.
— Manu, vamos conversar, a gente tentou agradar você... — Sara tentou se aproximar.
Emanuel virou-se para ela, o olhar tão carregado de autoridade que ela recuou um passo.
— Vocês me desobedeceram. Colocaram as meninas em perigo. Mentiram. E depois me prenderam como um animal para tentar me manipular com sexo. Vocês acham que eu sou tão simples assim? Que meu amor por vocês apaga o fato de que vocês falharam como responsáveis por aquelas crianças hoje?
— A gente só queria que você não ficasse bravo... — murmurou Eduarda, encolhida.
— Pois agora eu estou mais do que bravo. Eu estou decepcionado. E um Emanuel decepcionado é muito pior do que um Emanuel furioso.
Ele caminhou até a porta e a abriu, apontando para o corredor.
— Vão para o quarto das meninas. Fiquem lá com elas. Amanhã de manhã, eu vou decidir o que fazer com vocês. E não ousem sair de lá.
Sara, percebendo que não havia espaço para negociação, pegou a mão de Eduarda e a puxou. Eduarda olhou para Emanuel uma última vez, esperando ver um traço de suavidade, mas encontrou apenas a rigidez de um homem que havia sido traído em sua confiança mais profunda.
Quando a porta se fechou com um estrondo, Emanuel desabou na poltrona. Ele olhou para as algemas jogadas no chão. Ele amava aquelas duas mulheres com uma intensidade que o assustava, uma necessidade de tê-las sob seu controle para garantir que nada de ruim acontecesse. E hoje, elas haviam provado que sua redoma de vidro tinha rachaduras.
Ele sabia que não conseguiria ficar longe delas por muito tempo. O cheiro de Eduarda ainda estava em sua pele, e a audácia de Sara ainda o irritava e o atraía. Mas o castigo seria severo. Ele precisava que elas entendessem que ele era o porto seguro, mas também a lei daquela casa.
No quarto das meninas, Eduarda chorava abraçada a Maya, enquanto Sara, sentada no chão, observava o queixo enfaixado de Ágata.
— Ele vai nos perdoar, não vai, Sara? — perguntou Eduarda entre soluços.
Sara suspirou, passando a mão pelo cabelo loiro, a expressão séria.
— Ele vai, Duda. Ele nos ama demais para nos deixar. Mas prepare-se. A partir de amanhã, o Manu vai ser a nossa sombra. E a gente vai ter que ralar muito para conseguir aquela chave de volta... a chave da confiança dele.
A noite na cobertura terminou em silêncio, mas era um silêncio carregado de promessas. Emanuel vigiaria o sono delas do corredor, como o predador protetor que era, e elas aprenderiam que, no mundo dele, o amor era absoluto, mas a obediência era o preço da paz.