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D

Entre Mimos e Estilhaços

O reflexo do sol da tarde batia nos frascos de perfume importados espalhados pela imensa penteadeira de Sara. Ela terminava de retocar o batom vermelho vibrante, vestindo um minivestido justo de estampa de leopardo que acentuava cada uma de suas curvas esculpidas pelo silicone e pela academia. Emanuel a observava pelo espelho, sentado na ponta da cama de casal king-size, com um sorriso de canto nos lábios. Ele adorava o exagero dela. Adorava a forma como Sara não pedia desculpas por ser exatamente quem era: chamativa, barulhenta e irresistível.

— Você vai gastar todo o meu limite do cartão nessa nova coleção da sua loja, não vai? — perguntou Emanuel, a voz grave ecoando pelo quarto luxuoso da cobertura.

Sara se virou, caminhando até ele com um rebolado lento, os saltos agulha estalando no piso de madeira nobre. Ela sentou-se no colo dele, passando os braços cheios de pulseiras douradas ao redor do pescoço do tatuador.

— Claro que vou, meu amor — ela ronronou, mordiscando o lóbulo da orelha dele, bem em cima de uma de suas pequenas tatuagens. — E você vai pagar com o maior prazer do mundo, porque sabe que eu fico uma grande gostosa com aquelas roupas. Além disso, a Ágata precisa de sapatinhos novos. Aquela menina puxou o bom gosto da mãe, não se contenta com qualquer coisa.

Emanuel soltou uma risada baixa, as mãos firmes apertando a cintura marcada de Sara. Ele a puxou para um beijo faminto, daqueles que sempre incendiavam a dinâmica dos dois. Sara correspondia com a intensidade de sempre, sem filtros, sem timidez. Ele a mimava porque podia, porque seu império de estúdios de tatuagem pelo mundo lhe dava mais dinheiro do que jamais conseguiria gastar, e porque ver Sara feliz o satisfazia profundamente.

— Tudo o que você quiser, Sara. Você sabe disso — ele murmurou contra os lábios dela, afastando-se um pouco para olhar em seus olhos claros. — Vou precisar passar no estúdio central mais tarde para resolver uma pendência com os sócios de Londres.

— Vá lá, meu ricaço — ela disse, dando um tapinha estalado na bochecha dele antes de se levantar. — Eu vou cuidar da nossa princesinha e depois dar uma olhada no estoque. Ah, e como está a santinha da sua prima? Você falou com ela hoje?

— Ainda não. Os pais da Duda viajaram para um congresso no Sul, então ela está sozinha com a Maya este fim de semana. Pensei em passar lá amanhã para ver se precisam de algo.

Sara deu de ombros, ajeitando o cabelo loiro platinado no espelho.

— Acho ótimo. Aquela menina é muito sonsa para ficar sozinha por muito tempo. Se ela precisar de ajuda com a faculdade ou com a bebê, você já sabe: traga ela para cá ou vá resolver. Não quero você estressado pelos cantos.

Emanuel sorriu, sentindo o peito leve. A total ausência de ciúmes de Sara e sua aceitação prática do amor que ele sentia por Eduarda eram o pilar que mantinha aquele arranjo funcionando.

***

A alguns quilômetros dali, em um bairro residencial de classe média alta, o ambiente era completamente diferente. A rua onde Eduarda morava com os pais era conhecida pelo silêncio e pelas árvores que cercavam as calçadas. Naquela tarde, a casa estava imersa em uma calmaria quase melancólica.

Eduarda estava sentada no tapete da sala, cercada por livros grossos de História da Arte. Ela usava um short de moletom leve e uma camiseta antiga de Emanuel, que ficava enorme em seu corpo esguio. A pequena Maya, de um ano, estava sentada ao seu lado, balbuciando alegremente enquanto tentava folhear um catálogo de pinturas renascentistas com suas mãozinhas gordinhas.

— Não, meu amor, esse não é para rasgar — disse Eduarda com sua voz doce e manhosa, tirando gentilmente o livro das mãos da filha e entregando-lhe um brinquedo de pelúcia. — O papai Manu comprou esse livro para a mamãe estudar, lembra?

Ao ouvir o nome, Maya abriu um sorriso banguela, batendo palminhas.

— Papá! Papá Manu!

Eduarda sorriu, sentindo aquela pontada morna de gratidão e amor no peito. Emanuel tinha salvo a vida delas. Quando o mundo desabou com o abandono do ex-namorado, seu primo foi o homem que estendeu a mão, que assumiu a paternidade de Maya sem hesitar e que, aos poucos, conquistou o coração dela de uma forma que ela jamais imaginou ser possível. Ela sabia que ele pertencia à Sara, mas o espaço que Emanuel havia cavado para ela e para a filha era sagrado.

O fim da tarde começou a cair, e Eduarda decidiu subir para o quarto para dar banho em Maya. O silêncio do bairro, no entanto, foi subitamente quebrado por gritos vindos da rua.

Eduarda parou no meio do corredor, com Maya no colo. A vizinha da frente, uma jovem que costumava dar festas barulhentas, estava no portão gritando com um homem dentro de um carro escuro. A discussão escalou rapidamente. Palavrões e ameaças cruzavam o ar outrora pacífico do bairro.

Insegura e com o coração acelerado, Eduarda caminhou até a janela do seu quarto, que dava de frente para a rua, mantendo-se atrás da cortina clara. Ela apertou Maya contra o peito, sentindo uma intuição ruim.

— Você não vai embora! — gritou a mulher na rua, chutando a porta do veículo.

O homem saiu do carro, enfurecido. A discussão física começou. Eduarda deu um passo para trás, prestes a pegar o celular para ligar para Emanuel, quando o som aterrorizante ecoou.

*POW!*

O estampido do tiro rasgou o silêncio. O homem havia puxado uma arma e disparado a esmo para o alto, mas a trajetória da bala mudou quando a mulher tentou segurar seu braço.

O projétil viajou em linha reta, atravessando a copa de uma árvore e atingindo em cheio a janela do quarto de Eduarda.

O som do vidro estilhaçando foi ensurdecedor. Pedaços de vidro voaram pelo quarto, brilhando como chuva mortal sob a luz do crepúsculo.

— Ah! — Eduarda soltou um grito agudo, instintivamente jogando-se no chão e cobrindo o corpo de Maya com o seu próprio.

Maya começou a chorar desesperadamente, assustada pelo barulho e pelo pânico da mãe. Eduarda estava paralisada no chão de madeira, o coração batendo na garganta, sentindo alguns pequenos estilhaços de vidro arranharem suas pernas, mas sua única preocupação era a bebê.

— Calma, meu amor, calma... A mamãe está aqui — ela soluçava, sem coragem de se levantar, enquanto ouvia o pneu do carro do vizinho cantar no asfalto em uma fuga desesperada e, logo em seguida, os gritos de socorro da vizinha.

***

No estúdio central de Emanuel, o clima era de foco total. O ambiente era decorado com quadros de suas artes exclusivas, paredes escuras e iluminação industrial. Ele estava na sala de reuniões terminando de revisar os lucros do último trimestre quando o som da televisão ligada na recepção chamou sua atenção.

A secretária havia aumentado o volume. A voz da jornalista da TV local ecoava com urgência.

— ...um tiroteio assustou os moradores de um pacato bairro na zona sul nesta tarde. Segundo informações preliminares da polícia militar, uma briga de casal terminou em disparos de arma de fogo. Um dos projéteis atingiu a janela de uma residência onde, segundo testemunhas, mora uma jovem com sua filha pequena...

Emanuel congelou. A caneta em sua mão caiu sobre a mesa de vidro. Ele caminhou lentamente até a recepção, os olhos cravados na tela. Quando a imagem aérea da reportagem mostrou a fachada da casa com a fita de isolamento da polícia, o sangue de Emanuel gelou, sendo imediatamente substituído por uma fúria avassaladora.

Era a casa de Eduarda. A janela quebrada era a do quarto dela.

— Emanuel? O que foi? — perguntou um de seus tatuadores, assustado com a expressão no rosto do chefe.

Emanuel não respondeu. Suas mãos tremiam levemente de puro ódio e adrenalina. Ele puxou o celular do bolso e discou o número de Eduarda. Chamou uma, duas, três vezes, até cair na caixa postal.

— Droga, Eduarda! Atende! — ele rosnou, a voz saindo como um trovão.

Ele ligou para Sara. Ela atendeu no segundo toque.

— Oi, lindo, já está voltando?

— Sara, liga a TV agora. No jornal local — a voz de Emanuel era puro aço, fria e controladora, o tom que ele usava quando estava prestes a explodir.

— O que aconteceu? Você está me assustando... — houve uma pausa do outro lado da linha, seguida pelo som de passos rápidos e o áudio da TV de Sara ao fundo. Um suspiro chocado escapou dos lábios da loira. — Meu Deus, Emanuel. É a casa da Duda.

— Eu estou indo para lá agora — disse ele, já caminhando em direção à saída do estúdio, pegando as chaves do seu carro esportivo preto. — Se aqueles desgraçados encostaram um dedo na minha mulher ou na minha filha...

— Vá logo, Emanuel! — Sara o interrompeu, sua voz habitualmente irônica agora preenchida por uma seriedade firme. — Esqueça a polícia, tira a menina de lá. Traga as duas para cá. A casa dos pais dela não é segura sem ninguém. Eu vou arrumar o quarto de hóspedes agora mesmo. Vai!

Emanuel desligou o telefone e pisou no acelerador. O trajeto que normalmente levava trinta minutos foi feito em quinze. Ele cortou o trânsito com a habilidade de quem não se importava com multas ou leis. Sua mente estava focada apenas na fragilidade de Eduarda e na inocência de Maya.

Quando ele estacionou na rua de Eduarda, o cenário era caótico. Viaturas da polícia com as luzes vermelhas e azuis piscando, vizinhos curiosos na calçada e a fita amarela isolando o local.

Emanuel saiu do carro, sua postura alta e imponente chamando a atenção imediatamente. Suas tatuagens cobrindo os braços e o pescoço, combinadas com o olhar assassino que carregava, faziam as pessoas se afastarem naturalmente.

— Ei, senhor, o senhor não pode passar da fita! — um policial jovem tentou barrá-lo.

Emanuel sequer diminuiu o passo. Ele fixou os olhos no policial com uma intensidade fria.

— Aquela é a casa da minha família. Minha mulher e minha filha estão lá dentro. Se você tentar me parar, nós dois vamos ter um problema muito sério — a voz de Emanuel era mansa, mas carregada de uma autoridade perigosa que fez o policial hesitar por um segundo crucial. O empresário rico e influente sabia exatamente como se impor.

Ele passou pela barreira e empurrou a porta da frente da casa, que estava encostada.

— Eduarda! — ele chamou, a voz ecoando pela sala escura.

— Manu... — um sussurro fraco veio do topo da escada.

Eduarda estava descendo os degraus lentamente, segurando Maya firmemente contra o peito. A bebê já havia parado de chorar, mas mantinha os olhinhos arregalados, assustada. Eduarda estava pálida, os olhos castanhos inundados de lágrimas e pequenos arranhões vermelhos visíveis em suas pernas devido aos estilhaços.

Emanuel subiu os degraus de dois em dois, envolvendo as duas em seus braços fortes em um abraço desesperado. Ele escondeu o rosto no pescoço de Eduarda, sentindo o perfume suave dela misturado ao cheiro de poeira do vidro quebrado. O alívio correu por suas veias, seguido imediatamente pela rigidez de seu instinto protetor.

— Vocês estão bem? Pelo amor de Deus, Duda, me diz que vocês estão bem — ele murmurou, a voz levemente trêmula enquanto inspecionava o corpo da prima e da bebê.

— Sim... sim, nós estamos bem — Eduarda soluçou, afundando o rosto no peito largo dele, buscando o porto seguro que ele sempre representou. — Foi tão rápido, Manu. Um barulho horrível... o vidro voou por toda parte. Eu tive tanto medo pela Maya.

— Shh, já passou. Eu estou aqui — Emanuel pegou Maya do colo de Eduarda por um momento, beijando a testa da menina, que imediatamente segurou o colarinho da camisa dele. — Papai está aqui, minha princesa. Nada vai acontecer com você.

Ele olhou para Eduarda, a expressão séria e decidida retornando ao seu rosto. O lado controlador de Emanuel assumiu o comando total da situação.

— Você vai pegar algumas roupas para você e para a Maya. Agora.

Eduarda piscou, confusa e manhosa.

— Mas... e a polícia? E a casa? Meus pais só voltam na terça-feira...

— Eu não quero saber da polícia ou desta casa — Emanuel cortou, o tom firme, sem espaço para discussões. — Eu vou deixar meu advogado cuidando de tudo aqui com os policiais. Você e a Maya não ficam mais um segundo nesta casa sozinhas. Vocês vão morar comigo.

Eduarda arregalou os olhos, a insegurança falando mais alto.

— Manu, eu não posso... E a Sara? A cobertura é dela também, eu não quero incomodar, eu me sinto tão pequena perto dela...

Emanuel segurou o queixo delicado de Eduarda com os dedos, forçando-a a olhar para ele.

— A Sara foi a primeira a me dizer para trazer você. Não existe "incomodar", Eduarda. Você é minha. A Maya é minha. E eu protejo o que é meu. Ninguém vai questionar isso. Agora, suba e pegue o essencial. Eu espero aqui.

Eduarda acenou com a cabeça, submissa àquela demonstração de força que, no fundo, era tudo o que ela precisava para se sentir segura. Ela subiu as escadas para o quarto de hóspedes (já que o dela estava destruído) para arrumar uma mala rápida.

Vinte minutos depois, Emanuel colocava a mala no porta-malas do carro. Ele acomodou Maya na cadeirinha que já mantinha no banco de trás (uma precaução que sempre tomava) e ajudou Eduarda a entrar no banco do passageiro. Ela ainda tremia um pouco, encolhida no banco de couro.

Durante o trajeto até a cobertura, Emanuel manteve uma das mãos firmemente sobre a coxa de Eduarda, apertando-a de leve para lembrá-la de sua presença.

Quando o elevador privativo se abriu diretamente na sala da cobertura, o contraste com o caos da rua foi imediato. O apartamento exalava o perfume caro de Sara, misturado ao cheiro de comida quente.

Sara estava de pé perto da ilha da cozinha americana. Ela havia trocado o minivestido por um roupão de seda preta, mas a maquiagem ainda estava impecável. Ao ver a porta do elevador se abrir, ela caminhou até eles.

Eduarda encolheu-se instintivamente perto de Emanuel, temendo alguma reação ríspida da loira. Mas Sara surpreendeu. Ela olhou para o estado de Eduarda — pálida, assustada, com os pequenos arranhões nas pernas — e soltou um estalo com a língua, aproximando-se.

— Mas que inferno de vizinhança é aquela, afinal? — Sara exclamou, a voz alta e cheia de indignação, mas sem qualquer traço de maldade direcionado à Eduarda. Ela esticou os braços e pegou Maya do colo de Emanuel. — Venha cá com a tia Sara, sua lindeza. Você está bem? Aquele susto não foi nada para uma princesa, não é?

Maya, que já conhecia Sara de outros encontros familiares, aceitou o colo, puxando um dos brincos grandes de argola da loira.

— Cuidado com o brinco, mocinha, que esse custou caro — brincou Sara, antes de olhar diretamente para Eduarda. — E você, Duda, deixe de parecer que vai desmaiar. Você está na minha casa agora. Ninguém vai dar tiros perto de você aqui no trigésimo andar. Emanuel, leve a mala dela para o quarto azul. E depois cuide desses arranhões nas pernas dela, ela está parecendo um fantasma de tão branca.

Eduarda olhou de Sara para Emanuel, uma lágrima de alívio finalmente rolando por sua bochecha.

— Obrigada, Sara... — sussurrou a bailarina, a voz sumindo.

— Não me agradeça, querida. Eu detesto drama, e ver o Emanuel com aquela cara de quem vai matar alguém no estúdio estava acabando com o meu dia — Sara piscou, com seu sorriso provocante de sempre. — Vá tomar um banho quente. Eu fiz uma sopa para vocês. E amanhã eu vou te levar na minha loja para te dar umas roupas decentes, porque essas suas roupas de estudante de arte me dão depressão.

Emanuel observou a cena, sentindo a rigidez de seus ombros finalmente desaparecer. Ele caminhou até Sara, dando-lhe um beijo rápido na testa como agradecimento silencioso por sua generosidade prática, e depois passou o braço pela cintura de Eduarda, guiando-a em direção aos quartos.

Naquela noite, a cobertura de luxo abrigava todo o mundo de Emanuel. Suas duas filhas dormiam tranquilas em seus respectivos berços. Na cozinha, Sara tomava uma taça de vinho, revisando suas planilhas de administração com a confiança de quem comandava o próprio império. E no quarto azul, Eduarda descansava com a cabeça no peito de Emanuel, sentindo os dedos dele acariciarem seus cabelos castanhos até que ela pegasse no sono.

O perigo havia passado. O equilíbrio que muitos julgariam impossível ou escandaloso estava ali, selado entre quatro paredes. Emanuel sorriu na penumbra do quarto, ouvindo a respiração leve de Eduarda. Ele tinha o fogo de Sara na sala e a paz de Eduarda em seus braços. E, sob o seu teto, ninguém jamais ousaria tocar no que era dele.

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