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D

Estilhaços e Curativos

A manhã na mansão de Emanuel não começou com o silêncio que ele tanto almejava após uma semana exaustiva gerenciando seus estúdios em Londres e Tóquio. O sol mal havia cruzado a linha do horizonte, filtrando-se pelas cortinas de seda, e o som de pés pequenos correndo pelo corredor de mármore já anunciava que o caos doméstico estava em pleno vigor.

Emanuel sentou-se na cabeceira da mesa da sala de jantar, uma caneca de café preto e forte entre as mãos. Ele observava a cena com seu habitual olhar analítico, tentando prever onde o próximo incêndio começaria.

Eduarda estava sentada em uma das cadeiras laterais, vestindo um robe de seda rosa pálido que realçava sua pele alva. Maya, a pequena de um ano que herdara a doçura e os traços delicados da mãe, estava literalmente grudada ao pescoço de Eduarda. A menina escondia o rosto no ombro da mãe, recusando-se a soltar o xale de lã que Duda usava.

— Ela está tão manhosa hoje, Manu — sussurrou Eduarda, a voz carregada de uma ternura cansada. — Acho que os dentinhos de trás estão incomodando de novo.

Emanuel inclinou-se e beijou a testa da filha, sentindo o calor suave da pele de Maya.

— Ela é como você, Duda. Quando o mundo fica difícil, ela só quer o seu colo — disse ele, a voz grave e protetora. — Tente comer alguma coisa, pequena. Eu seguro ela um pouco se precisar.

— Não, tudo bem — Eduarda sorriu, aquele sorriso que sempre desarmava as defesas de Emanuel. — Eu gosto de sentir que ela precisa de mim.

O momento de paz durou exatamente três segundos. O som de algo pesado batendo no chão, seguido por um choro agudo e estridente, ecoou da sala de brinquedos adjacente.

Arthur, o "furacão" de dois anos, havia tentado escalar o encosto do sofá para alcançar um avião de brinquedo e, previsivelmente, a gravidade vencera.

Eduarda empalideceu instantaneamente. Ela se levantou com Maya ainda no colo, os olhos castanhos arregalados de puro pânico.

— Arthur! Meu Deus, Arthur! — o grito dela foi abafado pela ansiedade.

Emanuel foi mais rápido. Ele atravessou a sala em passos largos, chegando ao filho antes que Eduarda pudesse sequer contornar a mesa. Arthur estava caído de bruços, o rosto vermelho e as lágrimas já inundando o tapete.

— Calma, Duda. Respire — Emanuel ordenou, embora sua própria mandíbula estivesse rígida enquanto ele pegava o menino nos braços para avaliar o dano.

— Ele se machucou, Manu! Veja o joelho dele! — Eduarda estava trêmula, aproximando-se com passos incertos. A insegurança dela sempre aflorava em momentos de crise física. — Eu não deveria ter deixado ele ir para lá sozinho... eu sou uma péssima mãe...

— Eduarda, pare — Emanuel disse com firmeza, sentando-se no sofá com Arthur, que agora soluçava alto contra seu peito. — É apenas um arranhão no joelho e um susto. Ele é um menino, ele vai cair mil vezes.

— Mas está sangrando! — ela exclamou, as lágrimas começando a rolar por seu próprio rosto. Maya, sentindo a angústia da mãe, começou a chorar também, criando um coro de desespero que preenchia a sala.

— Duda, por favor, pegue o kit de primeiros socorros — Emanuel pediu, tentando manter a voz calma para não escalar o pânico dela. — E tente se acalmar. Se você ficar assim, eles não vão parar de chorar.

Nesse exato momento, Sara entrou na sala. Ela era o oposto visual de Eduarda. Mesmo sendo cedo, Sara já estava impecável em um conjunto de loungewear de renda preta, os cabelos loiros perfeitamente alinhados e o rosto com uma camada leve de maquiagem que destacava seus olhos astutos. Ela segurava Ágata pela mão. A menina, de um ano, tinha o mesmo olhar desafiador da mãe e usava um par de óculos escuros de brinquedo na cabeça.

Sara avaliou a cena em um segundo: Arthur chorando, Eduarda em frangalhos e Emanuel tentando ser a âncora de um navio que afundava.

— Mas que drama é esse? — Sara perguntou, a voz carregada de sua ironia característica. — Alguém perdeu um membro ou a Duda assistiu a outro filme triste de época?

— Sara, não comece — Emanuel advertiu, limpando o rosto de Arthur com a barra da própria camiseta.

— O Arthur caiu, Sara! — Eduarda soluçou, voltando com a caixa de curativos, as mãos tremendo tanto que os frascos chacoalhavam lá dentro.

Sara revirou os olhos e caminhou até a prima. Com uma autoridade natural, ela tirou Maya do colo de Eduarda e a entregou para a babá que acabara de aparecer na porta, sinalizando para que a levasse para o jardim. Depois, segurou os ombros de Eduarda.

— Duda, olhe para mim — Sara ordenou. — O garoto está vivo. Ele tem os ossos do pai, ou seja, é feito de ferro e teimosia. Pare de tremer ou você vai acabar passando álcool no olho do menino em vez de no joelho.

Eduarda respirou fundo, tentando absorver a confiança agressiva de Sara.

— Eu só... eu tenho tanto medo que algo aconteça com eles — murmurou a morena, limpando as lágrimas.

— Eu sei, docinho. Mas para isso o Emanuel paga uma fortuna em seguro saúde e temos você para dar carinho e eu para ensinar a revidar — Sara deu um tapinha leve na bochecha de Eduarda e se virou para a filha. — Ágata, fique aqui e não se mova enquanto eu ajudo seu pai com o seu primo.

Ágata, no entanto, tinha outros planos. A personalidade da menina era um espelho da de Sara: se lhe diziam para ficar parada, ela entendia aquilo como um desafio de exploração. Enquanto Emanuel e Eduarda se concentravam em colocar um curativo de super-herói no joelho de Arthur, Ágata avistou algo brilhante no aparador de mármore.

Era um vaso de cristal legítimo, uma peça de design que Emanuel trouxera de uma galeria em Milão.

— Ágata, não... — Emanuel começou a dizer, percebendo o movimento pelo canto do olho.

Mas foi tarde demais. Com um movimento rápido e deliberado, Ágata empurrou o vaso para testar a teoria da gravidade que Arthur acabara de comprovar. O som do cristal estraçalhando-se no chão de mármore foi como um tiro.

O silêncio que se seguiu foi tenso. Arthur parou de chorar pelo susto. Eduarda deu um ganido baixo, escondendo o rosto no ombro de Emanuel.

Sara, porém, não ficou em silêncio. Seus olhos faiscaram.

— Ágata Maria! — a voz de Sara subiu dois oitavos, cortante e autoritária.

A menina, que raramente se intimidava, deu um passo atrás ao ver a expressão da mãe.

— O que foi que eu te disse sobre tocar nas coisas do seu pai? — Sara caminhou até a filha, o dedo em riste. — Esse vaso custa mais do que a sua coleção inteira de bonecas importadas!

— Sara, é só um objeto — Emanuel interveio, embora estivesse visivelmente irritado com a perda da peça.

— Não é o objeto, Emanuel, é a audácia! — Sara rebateu, virando-se para ele antes de voltar o olhar para a filha. — Você vai para o seu quarto agora, mocinha. E vai ficar sem ver desenho até eu decidir que você aprendeu a ter modos.

Ágata fez um bico, os olhos começando a marejar, mas não de tristeza, e sim de raiva. Ela cruzou os braços pequenos, imitando exatamente a postura de Sara.

— Não! — a menina gritou.

— "Não" digo eu! — Sara pegou a menina pelo braço, não com força, mas com uma firmeza que não aceitava discussões. — Emanuel, não ouse intervir. Ela tem a minha personalidade, se eu não colocar limite agora, aos quinze anos ela incendeia a casa.

Sara saiu da sala carregando uma Ágata protestante, deixando para trás o rastro de seu perfume caro e a energia de um furacão que acabara de passar.

Emanuel soltou um suspiro longo, passando a mão pelo rosto. Ele sentiu o corpo de Eduarda relaxar contra o dele. Arthur, agora mais calmo, começou a brincar com o curativo no joelho.

— Ela é tão dura com a Ágata às vezes — Eduarda comentou baixinho, a voz ainda trêmula. — Eu fico com pena.

— A Sara sabe o que está fazendo, Duda — Emanuel respondeu, puxando Eduarda para mais perto e beijando sua têmpora. — Se a Ágata crescer sem freios, ninguém vai conseguir lidar com ela. A Sara se vê na filha, e isso a assusta um pouco.

— Eu queria ser forte como ela — Eduarda murmurou, fechando os olhos e aproveitando o calor do peito de Emanuel. — Eu quase desmaiei por causa de um joelho ralado.

Emanuel sorriu, um gesto raro e genuíno que suavizou suas feições endurecidas pelo estresse.

— Você não precisa ser forte daquele jeito, pequena. A força da Sara é o escudo, a sua é o porto seguro. Se fôssemos todos como a Sara, esta casa explodiria em uma hora. Se fôssemos todos como você, morreríamos de preocupação no primeiro tombo.

Ele se levantou, carregando Arthur em um braço e usando o outro para ajudar Eduarda a ficar de pé.

— Vamos. Vou pedir para limparem esse vidro antes que alguém se corte de verdade. E depois, vamos ver como a Sara está. Ela grita, mas você sabe que ela odeia quando a Ágata fica brava com ela.

Eles subiram as escadas. No corredor, podiam ouvir o som abafado de Sara conversando com Ágata no quarto. O tom de voz de Sara havia mudado; não era mais o grito de autoridade, mas uma explicação firme, pontuada por alguns fungados da menina.

Emanuel parou diante da porta entreaberta. Eduarda espiou por cima do ombro dele. Sara estava sentada na beira da cama, com Ágata no colo. A loira limpava o rosto da filha com um lenço de papel, enquanto a menina segurava um dos dedos de Sara com força.

— ... e é por isso que você não quebra as coisas, Ágata. Porque as pessoas trabalham para ter o que têm, e porque você pode se machucar. Entendeu? — Sara perguntava, a voz agora suave, mas sem perder a seriedade.

— Entendi, mamãe — a voz pequena de Ágata respondeu. — Desculpa.

— Ótimo. Agora dê um beijo aqui e prometa que vai tentar ser menos terrível pelos próximos dez minutos.

Emanuel entrou no quarto, seguido por Eduarda e Arthur. Ao verem o grupo reunido, o clima de tensão finalmente se dissipou por completo.

— O ferido sobreviveu? — Sara perguntou, arqueando uma sobrancelha para Arthur.

— Sobrevivi, tia Sara! — Arthur exclamou, descendo do colo de Emanuel e correndo para a cama. — Olha o meu adesivo de Batman!

— Muito chique — Sara comentou, abrindo espaço para o menino.

Eduarda aproximou-se de Sara e colocou a mão em seu ombro.

— Você está bem? — perguntou a morena.

Sara deu um sorriso de lado, aquele que escondia sua vulnerabilidade sob camadas de confiança.

— Claro, Duda. Só preciso de um Martini e de um dia inteiro em um spa. Mas, como sou mãe de uma delinquente e namorada de um viciado em trabalho, vou me contentar com um banho quente.

Emanuel se aproximou das duas, envolvendo-as em um abraço coletivo. Ali, no centro daquele quarto, cercado pelos filhos e pelas duas mulheres que eram o sol e a lua de sua existência, ele sentiu a tensão deixar seus ombros.

— Eu amo vocês — ele disse, a voz soando profunda e sincera.

— Nós sabemos, Manu — Eduarda respondeu, encostando a cabeça em seu ombro esquerdo.

— É claro que ama — Sara completou, encostando-se no direito. — Quem mais aguentaria esse nível de entretenimento gratuito todos os dias?

Emanuel riu. A vida dele era um equilíbrio constante entre o pânico de Eduarda e a impulsividade de Sara, entre o silêncio do ballet e o barulho do cristal quebrando. Era um caos perfeitamente orquestrado, e ele não mudaria um único detalhe.

— Vamos descer — Emanuel sugeriu. — Vou fazer panquecas. E ninguém vai quebrar nada, ou eu mesmo mando todos vocês para o castigo.

— Duvido — Sara sussurrou no ouvido dele enquanto saíam do quarto. — Você é louco por esse hospício.

E, enquanto via Arthur e Ágata apostando corrida pelo corredor, Emanuel teve que admitir que ela, como sempre, estava absolutamente certa.

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