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D

Entre o Fogo e a Calmaria

O sol da tarde filtrava-se pelas enormes janelas de vidro da mansão, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Emanuel, sentado em sua poltrona de couro favorita, tentava revisar alguns contratos em seu tablet, mas sua atenção era constantemente desviada para o centro do tapete persa, onde o futuro de seu império — ou pelo menos a versão em miniatura dele — estava reunido.

Ágata, com seus cachos loiros perfeitamente alinhados e um vestidinho de grife que Sara fizera questão que ela usasse, segurava com possessividade uma boneca de porcelana de edição limitada. Ao seu lado, Maya, a doçura em pessoa, observava o brinquedo com olhos brilhantes. Eduarda estava a poucos metros, sentada no chão com Arthur, tentando ensinar o pequeno furacão a empilhar blocos de madeira sem arremessá-los na televisão de oitenta polegadas.

— Minha! — exclamou Ágata, puxando a boneca para mais perto do peito, imitando o gesto protetor que via na mãe quando Sara segurava uma bolsa nova.

— Dá? — pediu Maya, estendendo a mãozinha pequena, a voz saindo como um sussurro manhoso.

— Não! É da Ágata! — A pequena loira virou as costas, deliberadamente excluindo a irmã.

Emanuel observava a cena pelo canto do olho. Ele sentia um orgulho imenso de Ágata; ela tinha a fibra de Sara, a determinação de quem sabia o que queria. Mas Maya... Maya despertava nele um senso de proteção quase doloroso, o mesmo que sentia por Eduarda.

O conflito escalou em segundos. Maya, geralmente passiva, sentiu um ímpeto raro de coragem e tentou tocar o vestido rendado da boneca. Ágata, rápida como a mãe em um dia de liquidação, empurrou a mão de Maya com força.

— Sai! É meu! — gritou Ágata.

Maya, assustada com a agressividade súbita, não recuou. Ela agarrou a perna da boneca. Começou um cabo de guerra infantil que Emanuel decidiu que precisava de sua intervenção antes que a porcelana virasse cacos.

— Maya! Solte isso agora! — A voz de Emanuel ecoou na sala, firme e autoritária, o tom que ele usava para fechar negócios multimilionários.

Maya soltou o brinquedo instantaneamente, o susto fazendo seu corpinho estremecer. Ágata, vitoriosa, abraçou a boneca e lançou um olhar triunfante para a irmã.

— A boneca é da Ágata, Maya. Você não pode simplesmente pegar o que não é seu — continuou Emanuel, levantando-se e caminhando até elas. — Peça desculpas para sua irmã por ter tentado tirar o brinquedo dela.

Eduarda, que até então apenas observava, sentiu o coração apertar. Ela conhecia aquele tom de Emanuel. Ele não estava sendo cruel, estava sendo prático, mas Maya não entendia lógica; ela entendia afeto.

Maya olhou para Emanuel. Seus olhos castanhos, tão parecidos com os de Eduarda, encheram-se de lágrimas em uma velocidade alarmante. O lábio inferior começou a tremer violentamente. Ela não pediu desculpas. Em vez disso, soltou um grito agudo de mágoa e correu para as pernas de Eduarda, enterrando o rosto no tecido macio da calça da mãe.

O choro que se seguiu não foi um simples manha; era um berreiro de alma partida. Maya soluçava tão alto que Arthur, assustado com o barulho, começou a chorar também, criando uma sinfonia de desespero infantil.

— Emanuel... — murmurou Eduarda, pegando Maya no colo e tentando acalmar a menina, que se encolhia como se tivesse sido ferida fisicamente.

Emanuel parou no meio da sala, o tablet esquecido na poltrona. A expressão de autoridade desmoronou, substituída por uma careta de pura culpa. Ele olhou para Ágata, que agora brincava calmamente com a boneca, alheia ao caos que causara, e depois para Maya, que soluçava de forma convulsiva no colo de Eduarda.

— Eu não quis... eu só estava tentando ensinar sobre propriedade — justificou-se Emanuel, a voz agora vacilante.

— Você foi muito duro, Manu — disse Eduarda, balançando Maya de um lado para o outro. Ela olhou para ele, e Emanuel viu que ela estava mordendo o lábio inferior. Não de tristeza, mas para conter o riso diante da cara de tacho do homem mais poderoso que ela conhecia.

Emanuel aproximou-se, estendendo os braços para pegar Maya.

— Vem cá, princesa do papai. Desculpe o papai. Eu não quis gritar com você.

Maya, ao sentir as mãos de Emanuel, teve uma reação que ele nunca esperaria. Ela se impulsionou para trás, agarrando-se ainda mais ao pescoço de Eduarda, e soltou um "Não!" abafado pelos soluços. Ela literalmente rejeitou o toque dele.

Emanuel recuou, como se tivesse levado um tapa.

— Ela não quer vir comigo? — perguntou ele, a voz carregada de um desespero cômico.

— Ela está sentida, Emanuel — explicou Eduarda, a voz falhando enquanto ela lutava bravamente contra a gargalhada que ameaçava escapar. — Você a assustou. Ela é sensível, lembra?

— Mas eu sou o pai dela! Eu dou tudo para ela! — Emanuel começou a andar de um lado para o outro, gesticulando. — Maya, olha para o papai. Quer um chocolate? Quer ir passear no shopping com a Sara? O papai compra uma boneca maior que essa!

Maya nem sequer olhou. Ela apenas apertou o abraço em Eduarda, escondendo-se do "monstro" que havia gritado com ela.

Eduarda sentou-se no sofá, com Maya e Arthur agora devidamente acomodados em seu colo, um de cada lado. O choro de Arthur tinha diminuído para resmungos, mas Maya permanecia em um silêncio obstinado, recusando-se a olhar na direção de Emanuel.

— Isso é ridículo — resmungou Emanuel, ajoelhando-se no tapete em frente a Eduarda. — Maya, meu amor, olhe para mim. O papai ama você.

Ele tentou fazer uma careta engraçada, algo que geralmente funcionava. Maya espiou por cima do ombro de Eduarda, viu o rosto de Emanuel, e imediatamente voltou a se esconder, soltando um novo soluço dramático.

Eduarda soltou um som que parecia um engasgo. Ela cobriu a boca com a mão livre.

— Você está rindo de mim, Eduarda? — Emanuel perguntou, estreitando os olhos, embora a dor no peito pela rejeição da filha fosse real.

— Eu? Imagina — disse ela, os olhos brilhando de diversão. — É que você parece um gigante tentando pedir desculpas para uma formiga que ele quase pisou. Você não tem jeito nenhum com a delicadeza dela, Manu.

— Eu sou um tatuador, Duda! Eu trabalho com agulhas e detalhes milimétricos! Eu sou delicado! — ele protestou, indignado.

— Com a pele dos outros, talvez. Mas com os sentimentos da sua filha... — Eduarda deu de ombros, finalmente deixando um pequeno riso escapar. — Você usou a voz de "dono do mundo" com uma bebê de um ano. Agora vai ter que reconquistar o território.

Emanuel suspirou, derrotado. Ele olhou para a porta, esperando que Sara aparecesse e trouxesse seu pragmatismo ácido para resolver a situação, mas Sara estava na loja, provavelmente convencendo alguma cliente a gastar o equivalente a um carro popular em roupas de seda. Ele estava sozinho nessa.

— O que eu faço? — perguntou ele, a voz baixa e vulnerável.

Eduarda suavizou a expressão. Ela estendeu a mão e tocou o rosto de Emanuel, o polegar acariciando a mandíbula tensa dele.

— Dê tempo a ela. E talvez... tente ser apenas o Manu, não o Emanuel que comanda cinco estúdios.

Emanuel assentiu. Ele sentou-se no chão, encostado nas pernas de Eduarda, e começou a brincar com os carrinhos de Arthur, fazendo barulhos de motor de forma distraída. Ele não tentou tocar em Maya novamente. Apenas ficou ali, presente.

Passaram-se dez minutos de um silêncio tenso, quebrado apenas pelos ruídos de Arthur. Lentamente, Maya começou a se desprender do pescoço de Eduarda. Ela olhou para o topo da cabeça de Emanuel. Ele percebeu o movimento, mas manteve o foco no carrinho.

— Vrum, vrum... o carro vai subir a montanha — murmurou Emanuel, fingindo total desinteresse na menina.

Maya deslizou do colo de Eduarda para o sofá e, depois, para o tapete. Ela caminhou cautelosamente até ficar ao lado de Emanuel. Ele segurou a respiração.

Ela estendeu a mãozinha e tocou a orelha dele, onde um pequeno brinco de diamante brilhava.

— Papai? — chamou ela, a voz ainda rouca do choro.

Emanuel sentiu como se tivesse ganhado na loteria. Ele se virou devagar, com um sorriso que poderia iluminar a cidade inteira.

— Oi, minha vida. O papai está aqui.

Maya não o abraçou de imediato. Ela apontou para a boneca de Ágata, que agora estava esquecida no canto, e depois para o próprio peito.

— Maya quer.

Emanuel olhou para Eduarda, que agora não conseguia mais esconder o riso e gargalhava abertamente, a cabeça jogada para trás.

— Viu só? — disse Eduarda entre risos. — Ela não está só magoada, Emanuel. Ela é uma negociadora. Ela aprendeu com a Sara. Ela só vai te perdoar se ganhar uma boneca igual.

Emanuel soltou uma gargalhada alta, pegando Maya e jogando-a para o alto, fazendo a menina finalmente rir.

— Tudo bem, pequena manipuladora. Nós vamos comprar a loja de bonecas inteira se você quiser. Só não me olhe mais daquele jeito, ou eu infarto antes dos trinta.

Eduarda observava a cena, sentindo aquela familiar onda de calor no peito. Emanuel era um homem complexo, muitas vezes duro e controlador, mas ali, com os joelhos no tapete e a filha nos braços, ele era apenas o homem que ela amava.

— Você é um desastre, Emanuel — disse ela, aproximando-se e beijando-lhe a bochecha.

— Sou o seu desastre favorito — ele rebateu, puxando-a para um beijo rápido, enquanto Arthur decidia que aquele era o momento perfeito para pular nas costas do pai.

O caos havia voltado, mas era o caos que Emanuel escolhera. E enquanto Maya desse um sorriso para ele, o mundo poderia continuar girando, com ou sem aulas de jiu-jitsu. Pelo menos por hoje, a paz — e as bonecas de porcelana — haviam vencido.

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