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O Intruso no Reino e a Rebelião do Coração
A mansão de Emanuel, geralmente um monumento à ordem estética e ao luxo silencioso, transformara-se em um campo de batalha de brinquedos espalhados e risadas agudas. O sol da tarde filtrava-se pelas grandes janelas de vidro, iluminando a sala de estar onde o destino de Emanuel parecia ser testado por forças que nem seu império de tatuagens nem sua presença intimidadora podiam controlar: crianças e seus sentimentos precoces.
Emanuel estava parado no topo da escada, observando a cena lá embaixo com a expressão de um general que acabara de ver o inimigo cruzar a fronteira sem disparar um único tiro. Patrícia, a agora ex-esposa de Ricardo, estava sentada no sofá conversando animadamente com Sara. A separação fora rápida e, pelo brilho nos olhos de Patrícia, libertadora. Ela trouxera Alice para brincar com Arthur, ignorando solenemente as proibições do ex-marido.
— Eu simplesmente não aguentava mais aquela rigidez, Sara — dizia Patrícia, aceitando uma taça de espumante. — A Alice merece crescer em um ambiente onde o afeto não seja tratado como um crime financeiro.
Sara riu, cruzando as pernas e exibindo suas curvas impecáveis.
— Você fez o certo, querida. E a Alice e o Arthur formam um par adorável. Olhe para eles.
No tapete, Arthur e Alice estavam em um mundo à parte. O pequeno furacão, surpreendentemente contido, mostrava seus carrinhos para a menina, que o olhava com uma adoração que fazia o estômago de Emanuel dar voltas.
— Tia Sara! — gritou Arthur, apontando para a menina. — A Alice disse que meu carrinho vermelho é o mais rápido de todos!
— É claro que é, meu amor — respondeu Sara, lançando um olhar vitorioso para Emanuel no topo da escada.
Mas o verdadeiro tormento de Emanuel não era a "nora". Seu olhar desviou-se para o outro lado da sala, onde Eduarda, com um sorriso radiante que Emanuel raramente via com tanta frequência, recebia o último convidado da tarde.
— Léo! Que bom que você veio, querido! — disse Eduarda, abaixando-se para abraçar um menininho de cabelos cacheados e olhos espertos que carregava, para o horror absoluto de Emanuel, um pequeno buquê de margaridas colhidas no jardim.
Emanuel sentiu o braço esquerdo formigar instantaneamente.
— Duda — Emanuel chamou, a voz saindo mais rouca do que o pretendido enquanto ele descia os degraus lentamente —, o que esse... esse indivíduo está fazendo aqui?
Eduarda olhou para cima, os olhos brilhando de alegria, alheia ou talvez apenas ignorando o drama iminente do primo e companheiro.
— Manu, não seja bobo. É o Léo! A mãe dele o trouxe para a tarde de brincadeiras. A Maya ficou tão feliz quando soube!
Maya correu em direção ao menino, os olhinhos brilhando. A cicatriz em sua bochecha, agora apenas um traço fino, parecia desaparecer diante do sorriso largo que ela exibia.
— Léo! — gritou a menina, abraçando o garoto.
Léo, com uma galanteria que Emanuel considerou criminosa para alguém que ainda usava sapatos com velcro, estendeu as margaridas.
— Para você, Maya. As flores são bonitas, mas você é mais.
Emanuel parou no último degrau, a mão no corrimão apertando a madeira com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Eduarda, isso é um ataque coordenado — sibilou Emanuel, aproximando-se dela. — Primeiro o Arthur traz a filha do engravatado, e agora esse pequeno Casanova entra na minha casa com flores? Onde está a segurança desta casa?
— Deixe de ser ranzinza, Emanuel — disse Sara, aproximando-se e passando o braço pela cintura dele, provocando-o. — A Duda está adorando. E olhe para a sua filha. Ela está radiante.
— Ela tem quatro anos, Sara! — Emanuel protestou, a voz subindo um tom. — Ela deveria estar interessada em blocos de montar, não em botânica romântica!
— Manu, respira — disse Eduarda, aproximando-se e colocando a mão no peito dele, sentindo o coração acelerado. — É apenas uma brincadeira. O Léo é um menino doce. Ele cuida da Maya na escola. Você não queria que ela tivesse amigos que a tratassem bem?
— Tratar bem é uma coisa, Duda. Fazer cortejo floral é outra totalmente diferente — Emanuel bufou, mas não conseguiu manter a postura rígida sob o toque suave de Eduarda.
Ele se deixou levar até o sofá, sentando-se entre as duas mulheres. De um lado, Sara, exalando confiança e diversão com o caos. Do outro, Eduarda, a personificação da doçura e da felicidade materna. E à sua frente, o seu maior pesadelo: a infância de seus filhos se transformando em algo que ele não podia controlar.
— Papai! — Maya correu até ele, puxando-o pela mão. — Vem ver o desenho que o Léo fez para mim!
Emanuel levantou-se, sentindo-se como um condenado ao patíbulo. Ele seguiu a filha até a mesinha de atividades. Léo estava lá, segurando um giz de cera azul.
— Oi, tio Emanuel — disse o menino, sem um pingo de medo.
— "Tio"? — Emanuel arqueou uma sobrancelha. — Para você, é Senhor Emanuel. Ou, de preferência, "Aquele que tudo vê".
— Manu! — Eduarda o repreendeu, rindo ao fundo.
— Eu desenhei a Maya no castelo — explicou Léo, ignorando a tentativa de intimidação. — E eu sou o cavaleiro que protege ela do dragão.
Emanuel olhou para o desenho. Era, reconhecidamente, melhor do que os seus próprios desenhos na mesma idade.
— E cadê o papai dela nesse desenho? — perguntou Emanuel, cruzando os braços.
Léo olhou para o papel, pensativo, e depois para Emanuel.
— O senhor é o dragão, tio. Mas um dragão legal que deixa o cavaleiro entrar.
Sara, que ouvira a conversa, soltou uma gargalhada tão alta que Patrícia e Patrícia se viraram para olhar.
— Ele te pegou, Emanuel! — gritou Sara. — Você é o dragão da torre!
Emanuel sentiu as orelhas arderem. Ele olhou para Eduarda, esperando apoio, mas ela estava ocupada demais limpando o nariz de Arthur, que acabara de ter uma disputa territorial por um dinossauro com Ágata.
— Tia Sara! — chamou Ágata, a pequena loira siliconada em miniatura, puxando o roupão da mãe. — A Alice quer brincar de boneca, mas eu quero brincar de loja. Diz para ela que eu sou a dona da loja!
Sara abaixou-se, ficando na altura da filha, com aquele olhar de quem ensinava as táticas de guerra da administração.
— Ágata, querida, uma boa dona de loja sabe que o cliente tem sempre razão até que você o convença do contrário. Proponha uma sociedade. Ela traz as bonecas para comprar na sua loja.
Ágata sorriu, um brilho astuto nos olhos azuis.
— Tá bom, mamãe!
Emanuel observava a dinâmica, sentindo uma mistura de exaustão e um amor profundo que o ancorava. Ali estavam as duas mulheres que ele amava. Sara, que não era a mãe biológica dos gêmeos, mas que os tratava com uma proteção feroz e uma praticidade que equilibrava a sensibilidade de Eduarda. E Eduarda, que era a alma daquela casa, o porto seguro para onde todos corriam quando o mundo lá fora se tornava barulhento demais.
— Você está bem? — perguntou Eduarda, aproximando-se dele enquanto as crianças se distraíam com um desenho animado na TV.
— Meu braço parou de formigar — admitiu Emanuel, passando o braço pelos ombros dela e puxando-a para perto. — Mas ainda acho que o Léo é um espião enviado para testar minha sanidade.
— Ele é só um menino, Manu. E a Maya gosta dele. Veja como ela está confiante. Ela não se esconde mais atrás de mim quando alguém novo chega.
Emanuel olhou para a filha. Maya estava sentada ao lado de Léo, apontando para algo na tela e rindo. Eduarda tinha razão. O afeto, mesmo aquele infantil e inocente, estava curando as inseguranças que os traumas passados haviam deixado.
— Eu só quero que eles sejam felizes, Duda — confessou Emanuel em voz baixa. — Mas dói perceber que eu não sou mais o único homem da vida dela.
— Você sempre será o primeiro, Manu — disse Eduarda, dando um beijo terno em sua bochecha. — E o mais importante.
Do outro lado da sala, Sara observava os dois com um sorriso satisfeito. Ela se aproximou, sentando-se do outro lado de Emanuel e encostando a cabeça em seu ombro.
— Que cena patética e adorável — provocou Sara. — O dragão finalmente foi domesticado pelas suas princesas.
— Não se acostume, Sara — retrucou Emanuel, embora o sorriso em seu rosto o traísse. — Amanhã eu volto a ser o dragão. Especialmente se o Léo aparecer aqui de novo com margaridas.
— Pois prepare o fogo, Emanuel — disse Sara, apontando para a porta de vidro que dava para o jardim —, porque a mãe do Léo acabou de dizer que eles adorariam nos convidar para um piquenique no próximo domingo.
Emanuel fechou os olhos e soltou um suspiro dramático, fazendo as duas mulheres rirem.
— Eu vou precisar de um uísque mais forte — murmurou ele.
— Eu te acompanho — disse Sara.
— E eu cuido das crianças — completou Eduarda, pegando a mão de Emanuel e a de Sara, unindo o círculo que formava a base daquela vida não convencional.
Naquela tarde, entre beijos roubados na bochecha, flores de jardim e a presença de novos amigos, Emanuel percebeu que sua mansão não era apenas um prédio de luxo. Era um organismo vivo, pulsante, onde o amor de Sara e a ternura de Eduarda criavam um espaço onde seus filhos podiam ser quem quisessem.
E se ser o dragão da torre era o preço para garantir que Maya, Arthur e Ágata crescessem cercados por essa proteção, Emanuel aceitaria o papel de bom grado. Afinal, até os dragões sabiam que o tesouro mais valioso não era o ouro, mas o brilho nos olhos daqueles que chamavam sua caverna de lar.
Enquanto o sol se punha, tingindo a sala de tons alaranjados, Emanuel olhou para o desenho de Léo mais uma vez. Ele pegou um giz de cera preto e, discretamente, desenhou um óculos escuros e uma tatuagem no braço do dragão.
— Se eu vou ser o vilão dessa história infantil — sussurrou ele para si mesmo —, pelo menos vou ser o vilão mais estiloso do reino.
Eduarda e Sara trocaram um olhar cúmplice, rindo do homem que, apesar de todo o poder e controle, era completamente dominado pelo amor que sentia por aquela família caótica, plural e intensamente real.