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D10

O Alvorecer do Imperador

O silêncio matinal em Helheim era diferente de qualquer outro lugar. Não havia o canto dos pássaros ou o som do vento nas árvores; apenas a quietude solene de um reino que não conhecia o tempo. No entanto, dentro dos aposentos reais, o ar ainda parecia vibrar com a intensidade da noite anterior. A luz pálida e prateada que entrava pelas frestas das cortinas de veludo iluminava os corpos entrelaçados na imensa cama de dossel.

Hades foi o primeiro a despertar. Seus olhos esmeralda abriram-se com a clareza de quem nunca perde o controle por completo, mesmo após uma noite de entrega absoluta. Ele sentiu o peso quente de Qin Shi Huang contra seu peito, a respiração do imperador ainda era profunda e ritmada, embora ocasionalmente interrompida por um suspiro trêmulo, um resquício dos espasmos que haviam dominado seu corpo até o amanhecer.

Com uma delicadeza que poucos deuses acreditariam que o temível Rei do Submundo possuía, Hades afastou os fios de cabelo preto que grudavam na testa suada de Qin. O rosto do imperador, geralmente rígido com uma máscara de arrogância e confiança, estava suavizado pelo sono. Ele parecia quase jovem, quase frágil, se não fossem as cicatrizes que contavam a história de sua ascensão.

Hades sorriu minimamente. Ele sabia que, assim que Qin acordasse, aquela vulnerabilidade desapareceria atrás de um sorriso petulante e de uma frase de efeito sobre sua própria realeza.

Algumas horas se passaram em um repouso confortável até que Qin começou a se mexer. Seus dedos tatearam os lençóis de seda, buscando o calor familiar ao seu lado. Quando abriu os olhos, a sinestesia toque-espelho, embora mais calma agora, trouxe-lhe imediatamente a sensação da presença sólida de Hades. Cada músculo do corpo de Qin protestava; era uma dor surda, mas estranhamente gratificante.

— Bom dia, meu rei — murmurou Qin, sua voz saindo mais rouca do que o habitual. Ele tentou dar aquele sorriso característico, mas acabou em um bocejo longo.

— Bom dia, Ying Zheng — respondeu Hades, sua voz barítona vibrando suavemente. — Dormiu bem?

— Como um morto — brincou Qin, esticando os braços acima da cabeça, apenas para sentir uma fisgada aguda na lombar. — Embora eu suspeite que alguns dos seus súditos tenham tido uma noite mais tranquila que a minha.

Hades soltou uma risada baixa, um som raro que Qin adorava provocar.

— Você me desafiou a mostrar o que acontece quando um humano governa ao meu lado. Eu apenas cumpri meu dever como anfitrião.

Qin bufou, tentando se sentar.

— Pois bem, o imperador precisa de água. E de um trono que não seja feito de travesseiros, por mais confortáveis que sejam.

Com a confiança habitual, Qin jogou as pernas para fora da cama. Ele ignorou o aviso silencioso de seus nervos e tentou se levantar de uma vez, impulsionando o corpo com a dignidade que sua posição exigia. No entanto, assim que seus pés tocaram o chão de mármore frio e ele colocou seu peso sobre as pernas, a realidade o atingiu.

Seus joelhos simplesmente cederam. A força que ele usava para comandar exércitos e enfrentar deuses havia evaporado, drenada pelas horas incessantes de prazer e esforço físico.

— O quê...? — Qin mal teve tempo de completar a expressão de surpresa antes de despencar.

O som do impacto foi evitado pela rapidez divina de Hades, mas não totalmente. Qin acabou de joelhos no chão, os braços apoiados na borda da cama, enquanto suas pernas tremiam de forma incontrolável, como se fossem feitas de gelatina.

— Pelos deuses... — Qin praguejou, olhando para as próprias coxas que espasmavam visivelmente. — Minhas pernas... elas não estão me obedecendo!

Hades, que já estava de pé, contornou a cama com uma elegância irritante para quem acabara de ter a mesma noite que o outro. Ele se inclinou, passando um braço por baixo das axilas de Qin e outro por trás de seus joelhos, erguendo-o do chão como se o imperador não pesasse nada.

— Eu avisei que você estava tremendo antes de desmaiar — disse Hades, um brilho de diversão nos olhos. — Parece que o Imperador do Início encontrou um oponente que não pode derrotar apenas com força de vontade.

— Me solte, Hades! Isso é... é um ultraje à minha dignidade! — Qin protestou, embora tenha passado os braços em volta do pescoço do deus para não cair. — Eu sou o único soberano sob o céu!

— E aqui, sob a terra, você é meu marido — rebateu Hades, caminhando em direção à imensa sala de banho anexa ao quarto. — E meu marido claramente precisa de ajuda para não dar um beijo no chão de mármore.

— Foi um golpe baixo — resmungou Qin, escondendo o rosto no ombro de Hades para ocultar o rubor que subia por seu pescoço. — Você planejou isso. Você me usou até que eu não sobrasse nada.

— Eu apenas o amei até que você não tivesse mais dúvidas de a quem pertence — corrigiu o deus, depositando-o com cuidado na borda da banheira de pedra já aquecida.

O banho foi um processo lento. Hades cuidou de Qin com uma atenção meticulosa, lavando o corpo do imperador com óleos perfumados, massageando os músculos tensos das pernas e das costas para aliviar os tremores. Qin, inicialmente reclamando de sua "perda de autonomia", logo se rendeu ao cuidado, fechando os olhos e aproveitando o toque firme e experiente do marido. Havia uma paz profunda entre eles, uma compreensão que ia além das palavras e dos títulos.

Depois de limpos e secos, Hades buscou uma de suas próprias camisas em um armário próximo. Era uma peça de seda fina, de um roxo tão escuro que parecia preto, com bordados em prata nos punhos. Em Qin, a camisa ficava enorme; a barra chegava quase ao meio de suas coxas e as mangas precisavam ser dobradas várias vezes.

— Você fica bem nas minhas roupas — comentou Hades, observando o imperador se acomodar de volta na cama.

Qin não respondeu de imediato. Ele havia encontrado um livro sobre táticas militares antigas que estava na mesa de cabeceira e já se posicionara de barriga para baixo, com os travesseiros sustentando seu peito. Seus cabelos estavam soltos, caindo em cascata sobre os ombros, e a camisa larga subia levemente, revelando a curva de suas nádegas e as marcas de dedos que Hades deixara ali durante a madrugada.

— Eu fico bem em qualquer coisa, Hades. Onde eu me sento é o trono, e o que eu visto se torna a moda imperial — disse Qin, sem tirar os olhos das páginas, embora o leve balançar de seus pés no ar denunciasse que ele estava de bom humor.

Hades terminou de se vestir com suas calças formais, mas permaneceu sem camisa, observando a cena. A visão de Qin, tão relaxado e doméstico em seu território, trazia-lhe uma satisfação que o governo de Helheim jamais proporcionaria. Ele se aproximou da cama silenciosamente.

Qin estava concentrado na leitura, a ponta da língua aparecendo levemente entre os lábios, um hábito que ele tinha quando estava focado. Ele parecia ter esquecido completamente a presença do deus, ou talvez estivesse apenas testando a paciência de Hades com sua indiferença fingida.

Sem aviso, Hades ergueu a mão e desferiu um tapa sonoro e firme na nádega direita de Qin.

O som ecoou pelo quarto silencioso.

— HAA! — Qin deu um pulo, o livro voando de suas mãos e pousando no chão com um baque seco. Ele se virou rapidamente, apoiando-se nos cotovelos, o rosto vermelho de choque e indignação. — Mas que porra, Hades?!

Hades permaneceu parado ao lado da cama, os braços cruzados sobre o peito largo, uma expressão de absoluta calma e um meio sorriso provocador nos lábios.

— Você estava muito distraído — disse o Rei dos Mortos. — Achei que precisava de um lembrete de que ainda estou no quarto.

— Um lembrete?! Você quase me fez ter um ataque cardíaco! — Qin exclamou, levando a mão ao local atingido, que ainda ardia. — Seu deus desgraçado, brutamontes de Helheim! Eu estava lendo sobre a formação de cerco da dinastia Zhou!

— E agora você está prestando atenção em mim — observou Hades, imperturbável. — Missão cumprida.

Qin estreitou os olhos, a arrogância real voltando com força total, mesmo que ele estivesse usando apenas uma camisa maior que ele e estivesse descabelado.

— Você é um idiota, sabia? Um grande e pomposo idiota grego — Qin bufou, sentando-se com dificuldade, as pernas ainda dando pequenos sinais de fraqueza. — Se eu pudesse andar direito agora, eu chutaria você até o Tártaro.

— Eu adoraria ver você tentar — provocou Hades, aproximando-se e sentando-se na beira da cama. Ele estendeu a mão e segurou a nuca de Qin, puxando-o para um beijo profundo e possessivo.

Qin tentou resistir por meio segundo, mantendo os lábios cerrados, mas logo cedeu, soltando um suspiro e passando as mãos pelos ombros nus de Hades. O beijo era quente, com gosto de desejo remanescente e de uma familiaridade reconfortante. Quando se separaram, as testas ainda estavam encostadas.

— Você ainda me odeia? — sussurrou Hades, o polegar acariciando a bochecha de Qin.

Qin revirou os olhos, mas não conseguiu conter o sorriso que iluminava seu rosto.

— Com todas as minhas forças — mentiu o imperador. — Mas suponho que, como sou um soberano benevolente, posso perdoar sua insolência... por enquanto.

Hades riu e puxou Qin para seus braços, deitando-se com ele e cobrindo ambos. O livro de táticas militares foi esquecido no chão. Naquele momento, não havia humanos, deuses ou guerras pendentes. Havia apenas o rei e seu imperador, aproveitando o resto da manhã no único lugar onde ambos podiam, finalmente, baixar a guarda.

— Só não tente me bater de novo — resmungou Qin, acomodando a cabeça no peito de Hades. — Ou eu vou contar para o Poseidon que você chora assistindo aos dramas que eu trago do mundo humano.

Hades ficou rígido por um momento.

— Você não ousaria.

— Tente a sorte, meu rei — desafiou Qin, fechando os olhos com um sorriso vitorioso.

Hades suspirou, derrotado pela audácia do homem que amava. Ele o apertou mais forte contra si, sabendo que, em todo o cosmos, não havia tesouro mais valioso do que aquele humano atrevido que o chamava de marido.