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D22

O Renascer do Rei Dourado: A Quebra do Destino

A paz que se seguiu ao Ragnarok era uma ilusão frágil, um véu de seda sobre uma ferida aberta. Na ala médica do Valhalla, Qin Shi Huang repousava. Para os outros humanos, ele era o herói que derrotara um dos deuses mais poderosos. Para os deuses, ele era uma anomalia, um "ex-irmão" cuja existência era um lembrete constante de uma traição antiga.

Hades, o Rei do Submundo, mantinha-se como uma sentinela silenciosa nos corredores. Ele não entrava no quarto. Cada fibra de seu ser gritava para que ele tomasse Qin em seus braços, mas o medo — um sentimento que Hades raramente conhecia — o paralisava. Ele sabia que um único lampejo de memória real, um único "eu me lembro de você" vindo dos lábios de Qin, ativaria a engrenagem final da maldição.

Lá dentro, Qin não estava sendo um paciente exemplar.

— Eu já disse que não preciso de mais caldos! — exclamou Qin, afastando a bandeja que uma serva divina tentava lhe oferecer. — Um rei se alimenta de iguarias, não de água com ervas. Onde está Brunhilde? Onde está aquele deus de cabelos platinados que me olhava como se eu fosse um tesouro perdido?

Alvitr, a Valquíria que permanecia ao seu lado para auxiliar em sua recuperação, suspirou profundamente.

— O "deus de cabelos platinados" é Hades, Qin. E ele está respeitando o seu espaço. Você quase morreu na arena, tente ser menos arrogante por cinco minutos.

Qin soltou uma risada curta, mas o som não tinha a mesma vivacidade de antes. Ele levou a mão aos olhos, sentindo a cicatriz invisível que a maldição deixara. Sua visão, embora recuperada em grande parte ao longo das reencarnações, ainda tinha aquele "defeito" — um brilho turvo que às vezes invertia as cores do mundo sem aviso prévio.

— Arrogante? — Qin sorriu, sentando-se na borda da cama. — Um rei não é arrogante, Alvitr. Um rei é apenas ciente de sua posição. Mas há algo... algo que queima aqui dentro.

Ele tocou o peito, exatamente onde a sinestesia toque-espelho costumava castigá-lo. Mas não era a dor de outra pessoa que ele sentia agora. Era um vácuo. Uma peça de quebra-cabeça que fora arrancada à força.

Do lado de fora, Hades sentiu a oscilação na aura de Qin. Ele não estava sozinho. Beelzebub e Hermes observavam de longe, enquanto Zeus, em sua forma reduzida, coçava a barba com ansiedade.

— Você não pode evitar o inevitável, irmão — murmurou Zeus, aproximando-se de Hades. — Se ele for lembrar, ele vai lembrar. A maldição foi tecida no âmago da alma dele.

— Eu não vou deixar que ele morra de novo — rosnou Hades, a mão apertando o cabo do bidente com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Já o vi perder a cabeça vinte vezes. Já vi o chão tragá-lo, o fogo consumi-lo e o ar faltar em seus pulmões. Se o Tecelão da Maldição pensa que este ciclo continuará, ele não conhece a fúria de Helheim.

Nesse exato momento, o destino, com seu senso de ironia cruel, decidiu agir.

Qin Shi Huang, ignorando as ordens de Alvitr, levantou-se e caminhou até a janela do quarto. O sol do Valhalla batia em seus ornamentos, fazendo-o brilhar como se fosse feito de ouro puro — uma estética que ele carregava desde sua origem divina, mesmo sem saber. Ao olhar para o horizonte, seus olhos deram um solavanco.

O mundo girou. O sentido anti-horário de seu Olho Reverso ativou-se involuntariamente.

As nuvens não eram mais brancas; eram douradas. O jardim abaixo não era verde; era de um azul profundo, idêntico aos jardins que ele e Hades cultivavam no Submundo antes da Queda. A inversão conceitual não mudou apenas as cores; ela removeu o véu da mortalidade por um milésimo de segundo.

— O jardim... — sussurrou Qin.

As memórias vieram como uma avalanche de neve incandescente. Ele viu a si mesmo, não como o Rei de Qin, mas como o Deus do Equilíbrio. Viu Hades entregando-lhe uma flor de lótus feita de cristal negro. Viu o momento em que a lâmina celestial cortou o ar e o som da voz de Hades chamando seu nome antes que a escuridão o levasse pela primeira vez.

— Hades! — O grito de Qin ecoou por toda a ala médica.

O Rei do Submundo não hesitou. Ele atravessou a porta, estilhaçando a madeira com sua entrada abrupta.

— Qin! Não! Não tente lembrar! — gritou Hades, o pânico distorcendo sua face nobre.

Mas era tarde demais. O reconhecimento nos olhos de Qin era absoluto. O brilho de ouro puro emanava de sua pele, e a divindade adormecida começava a despertar, entrando em conflito direto com a maldição que exigia sua morte imediata por tal "transgressão".

O teto do quarto começou a rachar. Não por causa de Hades, mas porque o próprio ar ao redor de Qin estava se tornando tóxico para sua forma física. A maldição da reencarnação estava tentando colapsar seu coração.

— Eu me lembro... — Qin disse, sua voz falhando enquanto ele caía de joelhos, cuspindo sangue dourado. — Hades... o trono... o nosso pacto...

— Cale-se, meu amor! — Hades se lançou ao chão, segurando Qin contra o peito. — Por favor, esqueça! Force-se a esquecer!

— Um rei... não esquece sua coroa — Qin sorriu, mesmo com a agonia rasgando seus pulmões. — E eu não vou... deixar você de novo.

De repente, uma sombra se manifestou no canto do quarto. Uma figura encapuzada, tecida de fios de destino e malícia. O Tecelão. O deus menor que, por inveja da união entre o Submundo e o Equilíbrio, lançara a maldição milênios atrás. Ele rira nas sombras por vinte vidas, mas agora, sua presença fora forçada a se revelar pelo despertar prematuro de Qin.

— Ele morre agora, Rei do Submundo — sibilou a sombra. — É a regra. O conhecimento é o gatilho da execução.

Hades levantou o olhar. Não havia mais tristeza ali. Apenas uma promessa de aniquilação.

— Você cometeu um erro, verme — disse Hades, sua voz vibrando com um poder que fez Beelzebub recuar no corredor. — Você apareceu para assistir ao seu trabalho. E a maldição diz que ela só termina quando o sangue do tecelão for derramado por minhas mãos.

Com um movimento mais rápido do que qualquer olho humano ou divino pudesse seguir, Hades projetou seu bidente. A arma não atingiu o corpo físico da sombra, mas perfurou a própria essência da maldição que ligava Qin ao Tecelão.

— Morra.

O grito da criatura foi ensurdecedor. O bidente de Hades brilhou com uma luz arroxeada, consumindo a sombra até que não restasse nada além de cinzas etéreas. No mesmo instante, a pressão esmagadora que sufocava Qin desapareceu. O sangue dourado que ele cuspira parou de fluir, e as feridas em sua alma, abertas por vinte mortes sucessivas, começaram a se fechar em um brilho de ouro.

O silêncio voltou ao quarto, mas era um silêncio diferente. Era o silêncio do fim de uma guerra.

Qin respirou fundo, o peito subindo e descendo com força. Ele olhou para cima, encontrando os olhos de Hades. Desta vez, não havia cegueira. Não havia defeito. Sua visão estava perfeitamente clara, vendo o deus diante dele em toda a sua glória e vulnerabilidade.

— Demorou o suficiente, não acha? — perguntou Qin, a arrogância real voltando à sua voz, mas agora temperada com um carinho infinito.

Hades, o senhor de Helheim, o homem que nunca se ajoelhava diante de ninguém, enterrou o rosto no pescoço de Qin, tremendo.

— Eu achei que tinha perdido você. De novo. E de novo. Foram milênios, Qin...

Qin passou as mãos pelos cabelos platinados de Hades, sentindo a textura que tanto sentira falta. Ele se afastou apenas o suficiente para olhar o rosto do amante, limpando uma lágrima solitária que teimava em cair do rosto do deus.

— Eu lhe disse uma vez, em uma vida que você provavelmente tentou esquecer — disse Qin, sorrindo de forma radiante —, que onde quer que eu esteja, ali é o meu reino. E meu reino é ao seu lado. A maldição foi apenas um pequeno contratempo no caminho de um imperador.

Hades soltou uma risada rouca, o alívio lavando sua alma como uma chuva bendita.

— Um pequeno contratempo? Você quase foi decapitado vinte vezes!

— Detalhes técnicos — Qin deu de ombros, levantando-se com a ajuda de Hades.

À porta, os outros deuses e humanos observavam em choque. Zeus estava boquiaberto. Adão tinha um pequeno sorriso no rosto, como se estivesse orgulhoso de um de seus filhos. Jack, o Estripador, limpava uma lágrima imaginária com um lenço.

— Bem — disse Qin, olhando para a plateia improvisada —, o show acabou. Um rei exige privacidade para tratar de assuntos de estado com seu consorte.

Hades não esperou que ninguém saísse. Ele envolveu a cintura de Qin com um braço firme, puxando-o para perto. A aura de ambos se fundiu — o roxo profundo do Submundo e o ouro brilhante do Equilíbrio.

— Eu nunca mais vou deixar você sair da minha vista — prometeu Hades.

— Tente me manter preso e você descobrirá que eu posso transformar o seu Submundo em um jardim de flores brancas em um piscar de olhos — provocou Qin, passando os braços pelo pescoço de Hades.

— Eu adoraria ver você tentar.

Hades inclinou a cabeça, e Qin se elevou na ponta dos pés. Quando seus lábios finalmente se encontraram, não foi apenas um beijo de dois amantes que se reencontraram. Foi a colisão de dois mundos que haviam sido mantidos separados por uma crueldade milenar.

O beijo era carregado de saudade, de cada morte que Qin sofrera e de cada lágrima que Hades derramara. Era quente, profundo e possuía a autoridade de dois reis que haviam dobrado o próprio destino à sua vontade. O brilho que emanava deles era tão intenso que os outros presentes foram forçados a desviar o olhar.

Quando se afastaram, Qin tinha aquele sorriso vitorioso que usara para derrotar Chi You e Hades na arena. Mas, desta vez, seus olhos brilhavam apenas para o homem à sua frente.

— Então, meu querido Hades — disse Qin, ajeitando a túnica com elegância —, onde está o meu trono? Espero que tenha mantido o lugar ao seu lado limpo de poeira.

Hades sorriu, um sorriso que iluminou Helheim e o Valhalla.

— O trono sempre foi seu, Qin. Eu estava apenas guardando o assento.

E assim, de mãos dadas, o Imperador dos Homens e o Rei dos Mortos caminharam para fora da enfermaria, deixando para trás um rastro de luz dourada. A maldição fora quebrada, o ciclo de mortes encerrado, e o Ragnarok, para eles, tornara-se apenas o prelúdio de uma eternidade que finalmente lhes pertencia.

Pois, no final, nem mesmo os deuses podem ditar o fim de uma história quando o autor é um Rei que se recusa a morrer e um Amante que se recusa a esquecer.