Voltar ao resumo

d39

O Despertar das Cores e a Promessa de Kimi

O silêncio que se seguiu às palavras de Qin Shi Huang na arena foi preenchido por um novo brilho vindo da tela de memórias. A tensão do combate iminente entre o Imperador e o Rei do Submundo parecia ter sido colocada em suspensão por uma força invisível, enquanto o dispositivo celestial decidia mostrar o que aconteceu logo após aquele primeiro dia de liberdade.

As imagens tremeluziram, estabilizando-se em um pátio interno, mas não no palácio suntuoso e frio de antes. Era uma residência mais simples, porém acolhedora. O jovem Qin, com dezessete anos e as roupas ainda empoeiradas das ruas, cruzava o portão carregando uma quantidade absurda de pacotes, pergaminhos e sacos de doces.

Parada no centro do pátio, com as mãos na cintura e uma expressão que misturava preocupação e alívio, estava Kimi. Sua figura era vibrante, uma presença que parecia ser o único ponto de cor constante na vida até então cinzenta do jovem soberano.

— Olha só quem decidiu voltar para o mundo dos mortais! — exclamou a Kimi da tela, cruzando os braços. — Eu já estava pronta para invadir a cidade com um exército de vassouras para te procurar, Ying Zheng!

O Qin da gravação parou bruscamente. Ele soltou um suspiro profundo, colocou todas as compras no chão de pedra com um baque surdo e, por um momento, apenas ficou parado, respirando o ar da noite. Então, ele olhou para ela. Seus olhos brilhavam com uma intensidade que quase cegava.

— Kimi... — Ele começou, e então as comportas se abriram. — Kimi, você não tem noção! O mundo... o mundo é barulhento! E tem cheiros, muitos cheiros! Eu vi um homem vendendo algo chamado "tanghulu" e o açúcar quebra nos dentes como se fosse vidro doce! E os livros? Eu comprei livros que não falam sobre estratégia militar ou linhagens de sangue, falam sobre viagens para montanhas que eu nem sabia que existiam! E as pessoas, elas esbarram umas nas outras e pedem desculpas, ou gritam, e ninguém se curva o tempo todo, e o céu... Kimi, o céu não tem o formato do telhado do palácio! Ele é um arco infinito de azul que vira laranja e depois roxo, e eu vi um cachorro, um cachorro de verdade, ele tentou lamber minha mão e eu não tive que mandá-lo executar!

Ele falava tão rápido que as palavras se atropelavam, sem espaço para respirar. Suas mãos gesticulavam freneticamente, tentando descrever a imensidão de sete anos de curiosidade reprimida que explodiam em uma única tarde.

Nas arquibancadas do Valhalla, a reação foi imediata.

— Ele parece um filhote de Golden Retriever que acabou de descobrir o parque — comentou Nikola Tesla, com um sorriso genuíno por trás de seu bigode. — A ciência da felicidade é, às vezes, a mais simples de todas.

— É uma torrente de vida — murmurou Hermes, observando com curiosidade. — Ele está tentando processar o mundo inteiro de uma só vez.

Na tela, Kimi ouvia tudo com um sorriso que crescia a cada segundo. Quando Qin finalmente parou para recuperar o fôlego, com o rosto levemente corado de entusiasmo, ela caminhou até ele e deu um tapinha firme em seu ombro.

— Finalmente — disse ela, os olhos brilhando de alegria. — Finalmente você viu. Agora que você sabe que o mundo não morde — ou morde, mas é divertido —, eu tenho planos. Grandes planos, meu caro "Imperador".

Qin a olhou com desconfiança, recuperando um pouco de sua postura real.

— Que tipo de planos? Eu tenho um império para unificar, Kimi. Não posso ficar apenas olhando pássaros e comendo doces de rua.

— Ah, deixe de ser chato! — Kimi riu, agitando as mãos no ar. — Agora que você saiu dessa gaiola, eu vou te levar para todas as festas da província! Vamos dançar até nossos pés pedirem clemência e beber o vinho que os camponeses fazem, que é muito melhor que aquela água suja e cara que seu pai bebia!

A câmera da memória focou no rosto de Qin. Ele arqueou uma sobrancelha, fazendo uma careta de julgamento tão absoluta e aristocrática que arrancou risadas de vários deuses e humanos na arena.

— Festas? — perguntou o jovem Qin, com um tom de desdém fingido. — Eu sou o filho do Céu, Kimi. Eu não "danço" em festas de vilarejo como um camponês embriagado. Agradeço o convite, mas minha dignidade real me impede de tal... vulgaridade.

— Veremos, Ying Zheng — Kimi piscou para ele. — Veremos.

Nesse momento, a gravação mudou de formato. Em vez de uma cena contínua, uma sucessão de imagens estáticas — como se fossem fotografias capturadas pelo tempo — começou a passar rapidamente pela tela, acompanhada por uma música animada que parecia vir de flautas e tambores antigos.

A primeira foto mostrava Qin, ainda com sua túnica elegante, mas com o cabelo desalinhado, segurando uma caneca de barro enorme enquanto Kimi o puxava para um círculo de dança em volta de uma fogueira. A expressão dele era de puro choque.

Na foto seguinte, ele já estava rindo, com o braço em volta dos ombros de um desconhecido, enquanto tentava equilibrar um prato de comida em uma festa de colheita.

— Olhem só para ele! — gritou Okita Soji, apontando para a tela e rindo. — O grande Imperador não aguenta uma rodada de saquê!

— Ele está se divertindo — notou Héracles, com um olhar caloroso. — Isso é o que um coração jovem deve fazer. Ele está recuperando o tempo perdido.

As fotos continuavam. Qin e Kimi em um festival de lanternas, ambos com os rostos pintados. Qin tentando tocar um instrumento de cordas e parecendo frustrado enquanto Kimi ria ao fundo. Qin dormindo encostado em uma árvore depois de uma celebração que claramente durou a noite toda, com uma guirlanda de flores torta na cabeça.

Em cada imagem, o "Imperador Arrogante" desaparecia para dar lugar a um jovem que estava, pela primeira vez, conectado ao seu povo não por poder, mas por experiência.

— Que coisa ridícula — murmurou Poseidon, embora não tivesse desviado o olho da tela nem por um segundo. — Misturar-se com a ralé dessa forma...

— Ah, cala a boca, Poseidon — retrucou Buda, jogando um chiclete para o alto e pegando-o com a boca. — Isso se chama "viver". Você deveria tentar um dia, pode ser que pare de ser tão ranzinza.

Na arena, Hades observava as fotos com um interesse profundo. Ele viu a transição no olhar de Qin. Nas primeiras imagens, havia um rastro de medo e hesitação. Nas últimas, havia a confiança de um homem que conhecia o sabor do chão que pisava.

— Então foi assim que você aprendeu a amar o seu povo — disse Hades, alto o suficiente para que Qin o ouvisse. — Não através de decretos, mas através do vinho e da poeira.

Qin Shi Huang, que assistia a tudo com os braços cruzados e um sorriso nostálgico, soltou uma gargalhada que ecoou como trovão.

— Exatamente, Rei do Submundo! — exclamou Qin. — Como eu poderia ser o Rei de tudo se não conhecesse o nada? Kimi me ensinou que um trono sem o povo é apenas uma cadeira fria. Aquelas festas... — Ele fez uma pausa, os olhos brilhando por trás da venda. — Elas foram os meus verdadeiros campos de batalha antes da unificação. Eu venci o tédio e a solidão em cada uma daquelas danças!

— Você é um homem estranho, Qin Shi Huang — disse Shiva, balançando seus quatro braços em sinal de aprovação. — Mas eu gosto do seu estilo. Dançar é a linguagem do universo, afinal.

— Aquela garota, Kimi... — começou Brunhilde, olhando para a tela com uma expressão suave. — Ela foi a âncora dele. Sem ela, talvez ele tivesse se tornado o tirano que todos esperavam que ele fosse.

— Ela deu a ele as cores — disse Jack, o Estripador, ajustando seu monóculo. — E agora, vejam... a cor dele é a mais vibrante de todas nesta arena. Não é o vermelho do sangue, nem o dourado da realeza. É a cor da liberdade.

A tela começou a desaparecer lentamente, mas a última imagem que ficou gravada na mente de todos foi a de Qin e Kimi sentados no topo de uma colina, olhando para o horizonte. Qin não estava usando sua venda. Ele olhava para o mundo com os olhos bem abertos, e Kimi apontava para o sol nascente.

— Você prometeu que nunca mais ficaria trancado, lembra? — dizia a voz de Kimi na gravação final.

— Eu sou o Imperador — respondeu a voz de Qin, firme e cheia de promessa. — Para onde quer que eu olhe, não haverá mais muros. Onde eu estiver, será o meu reino. E no meu reino, ninguém mais terá que implorar por cinco minutos de sol.

A luz da tela apagou-se por completo, devolvendo a arena ao seu estado de combate. Mas o clima havia mudado drasticamente. A piedade que os humanos sentiam havia se transformado em uma admiração fervorosa. Os deuses, por sua vez, olhavam para Qin não mais como um humano atrevido, mas como um soberano que merecia cada centímetro do chão que ocupava.

Hades bateu a base de seu bidente no chão, criando uma onda de choque que limpou a poeira da arena.

— A diversão acabou, Imperador — disse Hades, com um respeito renovado em sua voz. — Suas memórias são dignas. Sua vida é um testemunho de resistência. Mas agora, eu represento a dignidade dos deuses.

Qin Shi Huang ajustou sua armadura de dedos, ajeitou a túnica e assumiu sua postura de defesa, o sorriso mais largo do que nunca.

— Dignidade? — Qin riu. — Eu aprendi sobre dignidade em uma taverna suja, dançando com camponeses, Rei do Submundo. E deixe-me te dizer... ela é muito mais forte do que qualquer coisa que você encontrou em seu trono de ossos.

— Então me mostre — desafiou Hades, avançando com a velocidade de um raio.

— Com prazer! — gritou Qin, movendo-se com uma fluidez que lembrava as danças que acabara de ver na tela.

Enquanto os dois reis colidiam no centro da arena, provocando uma explosão de energia que fez as arquibancadas tremerem, os outros lutadores observavam em silêncio.

Sasaki Kojiro sorriu, limpando uma pequena lágrima do canto do olho.

— Ele realmente é o maior de todos nós em termos de espírito — murmurou o espadachim.

— Ele é o nosso filho — disse Adão, com uma calma absoluta, enquanto observava Qin desviar de um golpe mortal de Hades com a graça de quem ainda se lembrava dos passos de dança de Kimi.

A batalha continuava, mas agora todos sabiam: Qin Shi Huang não estava lutando apenas pela humanidade. Ele estava lutando por aquele menino que, aos dezessete anos, descobriu que o açúcar era doce, que o céu era infinito e que a liberdade era algo pelo qual valia a pena desafiar até os próprios deuses.

E lá no fundo, na memória de cada um que assistiu, a imagem de Qin fazendo aquela careta de julgamento para Kimi permaneceria como um lembrete de que, por trás da coroa e do poder, batia o coração de alguém que finalmente aprendeu a ser livre.