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O Reflexo de um Rei Quebrado

A sala de projeção, um espaço místico onde as memórias do passado de deuses e humanos se materializavam para o entretenimento e julgamento dos presentes, estava mergulhada em um silêncio sepulcral. Lu Bu, Adão, Sasaki, Jack, Raiden, Buda e todos os outros guerreiros da humanidade estavam paralisados. Do outro lado, os deuses — de Zeus a Odin, passando por um Hades visivelmente tenso — mantinham os olhos fixos na tela etérea que flutuava no centro do salão.

A imagem que viam não era a do Imperador Qin Shi Huang que todos conheciam. Não era o homem arrogante que caminhava sobre os tapetes vermelhos exigindo que o mundo fosse seu trono. O que viam era um Qin jovem, com o rosto marcado por hematomas que a maquiagem mal conseguia esconder, caminhando trêmulo ao lado de um homem alto e de feições cruéis.

— Aquele... aquele é o Qin? — sussurrou Okita, apertando o cabo de sua espada. — Ele parece... pequeno.

A cena mudou drasticamente. Em um local isolado, longe dos olhos da corte, a tensão explodiu. O namorado de Qin, um nobre cujo nome a história preferiu esquecer, desferiu um tapa violento contra o rosto do jovem imperador. Através da tela, todos podiam sentir — e Qin, sentado em um canto da sala com a venda sobre os olhos, sentia em dobro devido à sua sinestesia — a dor física e emocional daquele momento.

Mas algo quebrou dentro do jovem Qin. No vídeo, ele não se encolheu. Com um movimento desesperado e frenético, ele sacou uma adaga oculta. O que se seguiu foi uma explosão de violência traumática. Qin avançou contra o agressor, golpeando-o repetidamente. Ele chorava, um pranto ruidoso e agônico, enquanto gritava palavras que cortavam o ar.

— Você nunca mais vai me tocar! — gritava o jovem Qin na tela, entre soluços e golpes de faca. — Você é o maior abusador que já existiu! Eu te odeio! Eu te odeio!

O silêncio na sala de projeção era interrompido apenas pelo som dos soluços de Qin na gravação. Quando o corpo do homem caiu sem vida, o jovem imperador, em um último ato de fúria e libertação, cravou a lâmina profundamente na testa do cadáver.

Hades, que até então mantinha uma postura de nobreza inabalável, sentiu um aperto no peito que não conseguia explicar. Ele olhou de relance para o Qin real, que estava sentado imóvel, com as mãos apertando os braços da cadeira até os nós dos dedos ficarem brancos.

Na tela, o choque pós-traumático atingiu o jovem. Ele olhou para as próprias mãos cobertas de sangue e recuou, tropeçando.

— Fudeu... — murmurou o jovem Qin, os olhos arregalados de terror. — Eles vão me matar. Eles vão descobrir e vão me matar.

O desespero dele era palpável. Ele tentava limpar o sangue, mas apenas o espalhava mais. A vulnerabilidade daquele que se tornaria o Rei da Unificação era demais para alguns ali presentes. Jack, o Estripador, inclinou a cabeça, observando a cor da alma de Qin naquele momento: um cinza turvo, manchado pelo medo absoluto.

A cena saltou no tempo. Qin havia retornado ao palácio, as roupas trocadas, o rosto lavado, mas o olhar vazio. Ele estava diante de seu pai, o governante anterior.

— Ele fugiu, meu pai — disse o jovem Qin, a voz falhando levemente. — Ele disse que não aguentava mais as responsabilidades e partiu durante a noite.

O pai de Qin, um homem de olhar gélido e coração de pedra, não demonstrou alívio ou preocupação com o "desaparecimento". Em vez disso, ele se aproximou do filho e desferiu um olhar de puro desprezo que fez até mesmo Zeus franzir o cenho.

— Você é um inútil — rosnou o pai na projeção. — Nem para manter uma pessoa ao seu lado você serve. É fraco, Qin. Um rei que não consegue dominar nem o coração de um amante não é digno de coroa alguma. Você vai morrer sozinho. Ninguém jamais amará um ser tão deplorável quanto você.

O jovem Qin não respondeu. Ele apenas baixou a cabeça enquanto as lágrimas voltavam a cair, silenciosas agora, sob o peso das palavras cruéis.

Na sala dos deuses, a atmosfera mudou de choque para uma fúria contida.

— Que tipo de pai diz isso a um filho? — rosnou Raiden, batendo o punho na palma da mão.

— Um homem que não merece ser chamado de pai — respondeu Adão, sua voz carregada de um tom protetor que raramente usava, seus olhos brilhando com uma intensidade perigosa.

Hades sentiu uma onda de indignação percorrer seu corpo. Ele, que valorizava a família acima de tudo, sentiu nojo daquela figura paterna. Ele olhou para Qin, que permanecia em silêncio absoluto no fundo da sala.

A projeção continuou. O jovem Qin caminhou até seu quarto e trancou a porta. Ele começou a juntar tudo o que pertencia ao ex-namorado: joias, tecidos caros, cartas. Ele empilhou tudo no centro do quarto e, com uma tocha, ateou fogo. As chamas subiram, iluminando as paredes de pedra.

O jovem Qin sentou-se diante da fogueira improvisada. Ele chorava convulsivamente, mas, pela primeira vez, um sorriso começou a se formar em seus lábios enquanto as cinzas do seu passado abusivo voavam pelo ar. Era o sorriso de alguém que havia acabado de nascer das cinzas, mas que carregava cicatrizes que nunca fechariam.

A tela se apagou. O silêncio que se seguiu foi opressor.

Qin Shi Huang levantou-se lentamente de sua cadeira. Ele ainda usava a venda, mas todos podiam sentir que ele estava olhando para cada um deles através do tecido.

— Uma performance interessante, não acham? — disse Qin, sua voz recuperando aquele tom de arrogância real, embora houvesse um leve tremor que ele não conseguia esconder totalmente. — O passado de um Rei é sempre pavimentado com sangue e fogo.

— Qin... — começou Buda, mas o imperador o interrompeu com um gesto de mão.

— Não precisam dizer nada. Onde eu me sento é o meu trono, e o meu trono foi construído sobre as carcaças daqueles que tentaram me diminuir.

Hades levantou-se e caminhou em direção ao humano. Os outros deuses observaram, esperando um confronto, mas o Rei do Submundo parou a apenas dois passos de distância.

— As palavras daquele homem... o seu pai — disse Hades, sua voz profunda ecoando pelo salão. — Ele estava errado.

Qin inclinou a cabeça, o sorriso de lado ainda presente.

— Oh? O Rei do Submundo agora é um conselheiro sentimental?

— Um rei não morre sozinho porque é fraco — continuou Hades, ignorando a provocação. — Ele morre sozinho porque a coroa é um fardo que poucos têm a força de carregar. Mas você... você não estava sendo fraco naquele momento. Estava sobrevivendo.

Qin vacilou por um segundo. A armadura emocional que ele construiu ao longo de milênios foi atingida por uma sinceridade que ele não esperava, vinda de um deus, e logo daquele que ele teria que enfrentar em combate mortal.

— Eu queimei tudo — sussurrou Qin, quase para si mesmo. — Eu queimei o medo, a dor e o garoto que eu era.

— Mas as cinzas ainda mancham suas mãos, não é? — perguntou Beelzebub do fundo da sala, seu tom clínico e desprovido de emoção, embora seus olhos mostrassem que ele entendia o que era carregar um trauma insuportável.

— Talvez — respondeu Qin, recuperando a postura. — Mas são essas cinzas que me tornam o Imperador. Eu não sou um inútil. Eu sou o início e o fim.

Sasaki Kojiro suspirou, guardando sua espada.

— Você é um homem bem complicado, garoto. Mas acho que todos nós aqui temos fantasmas no armário.

— Nenhum fantasma é tão barulhento quanto o de um pai que nos renegou — comentou Loki, embora seu tom de deboche estivesse estranhamente ausente.

Qin Shi Huang caminhou em direção à saída da sala, sua capa flutuando atrás dele. Ele parou na porta e olhou por cima do ombro.

— Hades.

O deus olhou para ele.

— Da próxima vez que nos encontrarmos, será na arena. Não pense que essas memórias me tornam vulnerável. Pelo contrário. Elas são o combustível para o meu império.

Hades assentiu levemente, uma expressão de respeito mútuo selada no ar.

— Eu não esperaria nada menos do homem que sobreviveu ao seu próprio inferno antes mesmo de chegar ao meu.

Quando Qin saiu da sala, ele finalmente permitiu que seus ombros caíssem um pouco. Ele tocou a cicatriz em seu rosto, escondida pela venda, e lembrou-se do calor daquelas chamas em seu quarto de infância. Ele havia sobrevivido. Ele sempre sobreviveria. Porque, no fim das contas, ele era o único dono de seu destino, e nenhum deus ou pai cruel poderia tirar o trono que ele mesmo havia esculpido na dor.

No salão, os deuses e humanos começaram a se dispersar, mas a imagem do jovem Qin sorrindo em meio ao fogo e às lágrimas permaneceria gravada na mente de todos. Eles viram o homem por trás da coroa, e o que viram foi algo muito mais perigoso do que um simples guerreiro: viram um sobrevivente que não tinha mais nada a perder.