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O Tribunal da Realeza e o Veredito do Submundo

A sala de reuniões do Valhalla raramente estava tão cheia em um dia de folga. Representantes de ambos os lados do Ragnarok — humanos e deuses — estavam sentados em poltronas dispostas em semicírculo diante de um enorme telão de cristal divino. O motivo? Um "vazamento" de informações providenciado por Loki, que alegava ter obtido imagens raras de uma "negociação diplomática de alto nível" entre o Rei do Submundo e o Primeiro Imperador da China.

— Eu ainda não entendo por que fomos convocados para isso — resmungou Leônidas, cruzando os braços e soltando uma baforada de fumaça de seu charuto. — Se não envolve sangue ou glória, é perda de tempo.

— Ah, relaxa, velhote! — exclamou Okita Souji, balançando as pernas na cadeira. — Dizem que o Qin se meteu em uma situação engraçada. Eu quero ver a cara dele quando souber que estamos assistindo.

Ao lado dos humanos, os deuses mantinham uma postura mais rígida, embora a curiosidade fosse evidente. Zeus acariciava a barba com um sorriso malicioso, enquanto Poseidon permanecia imóvel, com uma expressão de profundo desdém, como se a própria existência daquela reunião fosse um insulto à sua divindade. Beelzebub, no canto mais escuro, apenas observava com seus olhos vazios, e Nikola Tesla tentava analisar tecnicamente como a gravação havia sido feita.

— Silêncio, meros mortais e irmãos! — gritou Zeus, batendo o martelo. — Vamos ver como meu irmão mais velho se porta em território inimigo.

A tela brilhou, revelando Qin Shi Huang e Hades sentados no restaurante luxuoso. A qualidade da imagem era impecável, capturando até o brilho das joias de Qin e a elegância austera de Hades.

— Olhem só para ele — comentou Jack, o Estripador, ajustando seu monóculo. — O cavalheiro chinês parece estar apreciando as cores do ambiente... e o sabor do vinho, que, devo dizer, custa mais do que alguns distritos de Londres.

Na tela, Qin pedia o prato mais caro do cardápio com um gesto de mão desdenhoso.

— "Eu quero este, este e aquele. E tragam duas garrafas da safra imperial" — o Qin da gravação dizia, com um sorriso de escárnio.

— Ele é tão arrogante quanto o Poseidon — murmurou Sasaki Kojiro, limpando sua orelha com o dedo. — Mas pelo menos ele fala.

A cena avançou para o momento crucial. O jantar havia terminado, e a atmosfera entre os dois reis na tela era palpável, carregada de uma tensão que até os espectadores sentiam. Qin levou a mão às vestes, procurando o cartão.

— Ele perdeu — disse Raiden Tameemon, rindo alto. — O Imperador da China está apalpando as próprias roupas e não acha a carteira! Isso é melhor que qualquer luta!

No telão, a expressão de Qin Shi Huang mudou. O sorriso confiante vacilou. O rubor começou a subir por seu pescoço.

— — Parece que... o meu cartão decidiu fazer uma viagem sem o meu consentimento — dizia o Qin da gravação, tentando manter a dignidade.

— Que vergonha — zombou Shiva, rindo com seus quatro braços. — O grande rei que unificou a China não tem como pagar um frango assado divinal?

— — Eu resolvo isso — respondeu o Hades da tela, com uma calma que fez as divindades suspirarem.

Quando Hades entregou seu selo real para pagar a conta astronômica, o silêncio caiu sobre a sala de projeção.

— — Diga-me uma coisa — continuou Hades na gravação, aproximando-se de Qin — eu, por acaso, lhe pareço pobre?

— Uau — sussurrou Apollo, admirado. — Isso foi... extremamente radiante. A confiança, a postura... Hades realmente sabe como dominar uma situação.

— Meu irmão sempre foi um exibido — resmungou Poseidon, embora houvesse um traço imperceptível de respeito em sua voz.

— Ele é um verdadeiro rei — comentou Adão, comendo uma maçã calmamente. — Ele cuida dos seus, mesmo que o "seu" seja um imperador teimoso de outro reino.

A gravação continuou, mostrando os dois saindo do restaurante. A tensão romântica era tão óbvia que até Simo Häyhä, que raramente falava, soltou um pequeno "oh".

— Eles vão se beijar? — perguntou Buda, mastigando um doce. — Se eles se beijarem, eu ganho a aposta contra o Loki.

Na tela, eles chegaram à bifurcação. Hades se despediu e começou a caminhar. Foi quando o Qin da gravação esticou a mão e segurou a manga de Hades.

— — Você... gostaria de ver o meu palácio? — perguntou o imperador, com uma vulnerabilidade que fez a sala inteira prender a respiração.

— Ele o convidou! — gritou Shiva. — O humano fisgou o Rei do Submundo!

— Na verdade — corrigiu Tesla, apontando para a tela —, parece que ambos foram fisgados por uma força de atração mútua que desafia a lógica das facções.

A gravação seguiu os dois até os portões do Palácio de Qin. Quando as portas do quarto real se fecharam com um estrondo suave, a imagem no telão começou a chiar e ficou preta.

— O quê?! — gritou Zeus, levantando-se da poltrona. — Onde está o resto? Loki, seu moleque, cadê a continuação?

— Ora, ora, vovô — disse Loki, surgindo do teto de cabeça para baixo. — Eu tenho meus limites. O que aconteceu atrás daquelas portas é segredo de estado... e provavelmente algo que faria os olhos de alguns aqui derreterem.

— Uma pena — lamentou Rasputin, com um sorriso malicioso. — Eu estava esperando aprender alguns truques novos com o imperador.

Enquanto os outros discutiam e apostavam sobre o que teria acontecido no quarto, a porta da sala de reuniões se abriu. Qin Shi Huang entrou, caminhando com uma elegância que, para olhos atentos, parecia um pouco forçada. Ele mancava levemente, mas mantinha o queixo erguido e os braços cruzados.

Logo atrás dele, Hades entrou, sua expressão tão serena e nobre quanto sempre, mas com um brilho de satisfação nos olhos que não passava despercebido por seus irmãos.

A sala ficou em silêncio absoluto. Qin olhou para o telão apagado e depois para a plateia.

— — Onde o Rei se senta, torna-se o seu trono — disse Qin, sua voz ecoando com autoridade. — E onde o Rei decide passar a noite, não é da conta de ninguém, a menos que queiram ser executados por insolência.

Hades colocou uma mão no ombro de Qin, um gesto que era ao mesmo tempo possessivo e protetor.

— — Espero que tenham apreciado o espetáculo — disse o Rei do Submundo, olhando diretamente para Zeus e Poseidon. — Mas a próxima vez que alguém decidir espionar minha vida privada, o Submundo terá novas almas permanentes para processar. E eu não serei gentil.

— — Não seja tão ranzinza, Hades — Qin disse, virando o rosto para o deus com um sorriso travesso. — Eles só estão com inveja porque o Imperador escolheu você.

Hades soltou um suspiro curto, mas seus lábios se curvaram em um meio sorriso.

— — Vamos, Qin. Você ainda precisa descansar. Suas pernas parecem... cansadas.

Qin ficou vermelho instantaneamente, uma reação que fez os humanos na sala caírem na gargalhada.

— — Cale a boca! — exclamou Qin, tentando acelerar o passo, o que só o fez mancar mais. — Eu estou perfeitamente bem!

— — Claro que está — murmurou Hades, seguindo-o de perto.

Enquanto os dois saíam, deixando para trás um rastro de fofocas e espanto, Héracles suspirou, olhando para o teto.

— — No fim das contas, parece que o amor realmente floresce nos lugares mais inesperados... mesmo entre um imperador arrogante e o senhor dos mortos.

— — Amor? — zombou Leônidas, acendendo outro charuto. — Aquilo ali é pura estratégia de dominação de território. E, pelo que vi, o território do imperador foi muito bem conquistado.

A discussão continuou por horas, mas uma coisa era certa: ninguém no Valhalla olharia para Qin Shi Huang ou para Hades da mesma forma novamente. O trono agora tinha dois donos, e a união entre Helheim e o Império Qin era, sem dúvida, a aliança mais poderosa — e escandalosa — que o Ragnarok já vira.