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D58

O Despertar do Homem sob a Coroa

A luz purpúrea de Helheim começava a perder sua intensidade habitual, indicando a transição para o que os habitantes do Submundo chamavam de ciclo matinal. Dentro dos aposentos reais, o caos de pergaminhos da noite anterior havia sido substituído por uma ordem impecável. Qin Shi Huang, com uma determinação que beirava a teimosia divina, havia passado as últimas horas da madrugada finalizando cada relatório pendente. O pincel deslizava com precisão, selando o destino de milhares de almas com a autoridade que só o Primeiro Imperador possuía.

Quando o último selo de cera carmesim foi pressionado sobre o pergaminho de redistribuição do setor leste, Qin soltou um suspiro longo, soltando o pincel sobre o suporte de jade. Ele esticou os braços, ouvindo o estalo satisfatório de suas articulações.

— Terminei — declarou ele para o quarto vazio, embora soubesse que Hades não estava longe. — Onde eu coloco meu selo, a ordem se estabelece.

— Vejo que sua obstinação continua sendo sua maior virtude, e talvez seu maior vício — a voz de Hades ecoou da entrada da varanda. O Rei do Submundo entrou no recinto, já devidamente trajado, mas não com as túnicas pesadas e sombrias de costume.

Qin piscou, surpreso. Hades vestia uma calça de alfaiataria escura e uma camisa de linho branca, levemente aberta no colarinho. Era uma vestimenta humana, moderna e surpreendentemente elegante, que realçava seu porte atlético e sua aura de nobreza sem o peso da coroa.

— O que é isso? — Qin inclinou a cabeça, um sorriso travesso surgindo em seus lábios. — O Rei dos Mortos decidiu se tornar um modelo de Paris?

Hades soltou uma risada leve, aproximando-se do divã.

— Eu prometi que, assim que a burocracia fosse domada, teríamos um momento apenas nosso. Considere isso um convite oficial. Vá se arrumar, Ying Zheng. Hoje, não haverá imperadores ou deuses. Apenas nós.

Qin sentiu um formigamento de excitação. A perspectiva de deixar as paredes do palácio e a pressão do trono, mesmo que por algumas horas, era revigorante. Ele se levantou, a exaustão da noite anterior agora substituída por uma energia vibrante.

— Um encontro? — Qin caminhou até Hades, passando as mãos pelo peito da camisa do marido. — Você tem sorte de eu ser um homem de gostos refinados. Não me farei de rogado.

Algum tempo depois, nos corredores principais do palácio, a tensão era palpável. Brunhilde, Hermes, Ares e até alguns Einherjar como Jack, o Estripador e Nikola Tesla, estavam reunidos no átrio, discutindo as consequências dos relatórios entregues naquela manhã. Hades estava encostado em uma das colunas de obsidiana, de braços cruzados, esperando pacientemente. Sua presença em roupas casuais já era motivo de sussurros e olhares chocados de Ares.

— Tio... por que você está vestido como um... um mortal comum? — gaguejou Ares, limpando o suor da testa.

— Porque hoje eu não sou o seu tio, Ares — respondeu Hades sem desviar o olhar da escadaria. — Sou apenas um homem esperando seu companheiro.

— Oh, que romântico! — exclamou Hermes, ajustando suas luvas. — O Submundo nunca esteve tão... doméstico.

De repente, o som de passos leves e rítmicos ecoou pelo salão. Todos se viraram simultaneamente.

Qin Shi Huang estava descendo as escadarias, e a imagem que ele projetava era nada menos que deslumbrante. Ele havia abandonado as vendas nos olhos e os trajes imperiais pesados. Em vez disso, vestia uma calça boca de sino preta que alongava suas pernas e uma blusa de seda branca com detalhes em fios de ouro, cujas mangas eram bufantes nos pulsos. Seu cabelo estava preso de forma despojada, e ele carregava um sorriso que não era de superioridade, mas de pura e genuína alegria.

Mas o que mais chamou a atenção dos presentes foi o pequeno dispositivo prateado, quase invisível, encaixado em seu ouvido.

— Tesla — chamou Qin, acenando para o cientista enquanto terminava de descer os degraus. — Sua invenção é simplesmente... magnífica!

Nikola Tesla deu um passo à frente, ajustando o bigode com orgulho.

— Fico feliz que tenha funcionado, Imperador! — disse Tesla entusiasticamente. — O "Supressor de Ressonância Empática" utiliza frequências de rádio para criar uma barreira de interferência nas suas percepções sensoriais. Ele não anula sua sinestesia, mas a reduz a um ruído de fundo suportável. A ciência sempre tem a resposta para o conforto humano!

Qin riu, um som claro e leve que fez os outros trocarem olhares confusos. Onde estava o homem que exigia que todos se ajoelhassem? Onde estava o guerreiro que sentia a dor do mundo?

Ele estava ali, mas de uma forma diferente. Qin começou a caminhar em direção a Hades, mas não era a caminhada solene de um monarca. Ele estava saltitando, os pés quase não tocando o chão, movendo-se com uma liberdade que ninguém ali jamais imaginara que ele possuísse.

— Hades! Veja! — Qin girou diante do marido, fazendo a calça boca de sino balançar. — Eu me sinto leve. Como se o mundo tivesse parado de gritar no meu ouvido.

Hades estendeu a mão, segurando a cintura de Qin e puxando-o para perto. O contraste entre eles era hipnotizante: a elegância clássica de Hades e a exuberante modernidade de Qin.

— Você está magnífico, Zheng — sussurrou Hades, ignorando completamente a plateia de deuses e humanos boquiabertos.

— Eu sei, eu sei — respondeu Qin, piscando um dos olhos, mas desta vez a arrogância era carinhosa. — Mas é bom ouvir você dizer.

Brunhilde deu um passo à frente, a boca levemente aberta.

— Qin Shi Huang... você está... saltitando?

Qin parou e olhou para a Valquíria. Ele não a encarou com o olhar de um soberano que exige obediência, mas com o olhar de alguém que finalmente encontrou paz.

— Brunhilde, minha cara — disse ele, ajeitando o fone no ouvido —, o Imperador está de folga. Hoje, você só verá Ying Zheng. E Ying Zheng gosta de saltitar quando está feliz.

— Isso é... perturbador e fascinante ao mesmo tempo — murmurou Jack, o Estripador, observando as cores da aura de Qin, que agora brilhavam em tons de ouro e rosa suave.

Hades ofereceu o braço a Qin, que o aceitou prontamente.

— Vamos? — perguntou o Rei do Submundo. — O jardim de flores de asfódelo no vale sul está em plena floração, e eu providenciei para que ninguém nos incomode.

— Oh, um jardim! — Qin se inclinou contra o ombro de Hades enquanto caminhavam em direção à saída. — Espero que tenha levado aquele vinho que eu gosto. Sabe, aquele que os escribas tentaram esconder de mim porque diziam que era "sagrado demais".

— Eu levei a adega inteira se for necessário para ver esse sorriso de novo — respondeu Hades com uma sinceridade que fez Ares quase desmaiar de choque.

Enquanto o casal atravessava os portões do palácio, deixando para trás o silêncio atônito dos espectadores, a atmosfera em Helheim parecia ter mudado. A barreira de mistério e a aura de intocabilidade que cercavam o Imperador haviam caído, revelando algo muito mais poderoso: um homem que, apesar de todo o poder e sofrimento, ainda sabia como ser feliz.

— Eles parecem... tão humanos — comentou Kojiro Sasaki, aproximando-se de Brunhilde e observando as figuras que se afastavam.

— Talvez seja isso que acontece quando você divide o peso da coroa com alguém que realmente entende o que é ser um rei — respondeu Brunhilde, cruzando os braços, um raro sorriso de satisfação surgindo em seu rosto.

Longe dali, nos campos tranquilos de Helheim, Qin Shi Huang parou de saltitar por um momento para olhar para o céu roxo. Ele levou a mão ao ouvido, sentindo o dispositivo de Tesla, e depois tocou a mão de Hades, que permanecia firmemente entrelaçada à sua.

Pela primeira vez em sua vida, tanto na Terra quanto no pós-vida, Qin não sentiu a dor das feridas alheias. Ele não sentiu a ansiedade dos súditos ou a raiva dos inimigos.

Ele sentia apenas o calor da mão de Hades, o cheiro suave das flores de asfódelo e a brisa leve do Submundo.

— Sabe, Hades — começou Qin, parando no meio do caminho e forçando o marido a olhá-lo nos olhos —, eu sempre disse que onde eu me sento é o trono.

Hades sorriu, acariciando o rosto de Qin.

— Eu me lembro.

— Mas eu estava errado — continuou Qin, aproximando-se até que suas testas se tocassem. — O trono não é um lugar. O trono é onde eu me sinto seguro o suficiente para ser apenas eu. E, no momento... o trono é aqui, com você.

Hades não respondeu com palavras. Ele apenas inclinou a cabeça e selou a confissão com um beijo calmo e profundo, um pacto silencioso de que, independentemente das crises burocráticas, das redistribuições de almas ou das intrigas políticas dos deuses, aquele espaço entre eles permaneceria inviolável.

Naquele dia, Helheim não viu o Primeiro Imperador da China ou o temível Rei do Submundo. Viu apenas dois seres que, no meio da eternidade, decidiram que a maior conquista não era o domínio sobre os outros, mas a liberdade de serem vulneráveis nos braços um do outro.

E enquanto caminhavam de volta para o horizonte roxo, Ying Zheng continuou a saltitar, e Hades, pela primeira vez em eons, não se importou em segui-lo, passo a passo, no ritmo daquela nova e doce melodia.