D62
Soberania e Saciedade
O escritório de Hades, outrora um santuário de ordem e silêncio absoluto, agora era o cenário de uma rendição completa. O som da carne colidindo, o ranger da madeira de ébano e os balbucios desconexos de Qin Shi Huang preenchiam o ar denso de Helheim. Hades não mostrava sinais de fadiga; pelo contrário, a energia vibrante do Imperador parecia alimentar sua própria força vital.
As estocadas eram profundas, cada uma delas arrancando de Qin um som que não era mais linguagem, mas sim a expressão pura de um prazer que beirava a agonia. A sinestesia toque-espelho de Qin trabalhava em dobro, fazendo-o sentir não apenas a própria satisfação, mas o êxtase possessivo que emanava de Hades. Era demais para um mortal, mesmo para um que havia ascendido ao status de rei entre deuses.
— Hades... eu... — Qin tentou formular uma frase, mas sua língua parecia pesada, e sua mente era um turbilhão de cores douradas e púrpuras.
— Shhh — sussurrou o Rei do Submundo, sua voz vibrando contra a nuca de Qin. — Não tente falar. Apenas sinta o que é ser meu.
Quando o ápice finalmente os atingiu pela segunda vez, foi como se o próprio Submundo tremesse. Qin desabou contra a mesa, seus braços sem força espalhados sobre os papéis agora arruinados e manchados. Suas pernas, que antes envolviam a cintura de Hades com vigor, agora tremiam incontrolavelmente, os músculos exaustos e "bombados" pelo esforço contínuo.
Hades se afastou lentamente, recompondo suas vestes com uma elegância assustadora, como se não tivesse acabado de desmantelar a compostura de um imperador. Ele olhou para Qin, que ainda tentava recuperar o fôlego, os olhos desfocados e um sorriso bobo e satisfeito brincando nos lábios.
— Venha, meu rei — disse Hades, pegando Qin nos braços com uma facilidade impressionante. — Este escritório não é mais adequado para o seu descanso.
Hades o carregou pelos corredores sombrios até os aposentos reais. Qin, em seu estado de torpor, mal percebeu o trajeto, apenas sentindo o calor do peito de Hades e o movimento rítmico de seus passos. Ao chegarem ao quarto, Hades o colocou gentilmente no chão, perto da entrada do banheiro privativo.
— Vou deixá-lo se limpar — disse Hades, seu tom de voz voltando àquela seriedade calma, mas com um brilho de algo perigoso nos olhos. — Tenho um assunto pendente para resolver.
Qin, ainda cambaleando, apoiou-se na parede. Suas pernas falharam por um momento, e ele quase se arrastou em direção à banheira de mármore negro já preparada com água quente.
— Assunto... pendente? — Qin conseguiu murmurar, sua voz rouca.
Hades apenas sorriu, um gesto que não chegou aos olhos, e saiu do quarto sem dizer mais nada.
O Rei do Submundo caminhou pelos corredores com uma aura que fazia até os guardas mais experientes recuarem. Ele não precisou procurar muito. O deus menor que tivera a audácia de insultar Qin — ou melhor, de cobiçar o que pertencia exclusivamente ao soberano de Helheim — estava no pátio de registros, rindo com alguns companheiros sobre o "humano petulante" que agora vivia no palácio.
Hades parou à sombra de uma coluna, sua presença obscurecendo a luz das tochas próximas.
— Ouvi dizer que você tem um vocabulário muito específico para se referir aos meus convidados — a voz de Hades cortou o ar como uma lâmina de gelo.
O deus menor empalideceu instantaneamente, caindo de joelhos. O terror que emanava de Hades era palpável, uma pressão física que dificultava a respiração de todos ao redor.
— Meu Senhor... eu... eu não quis ofender... — gaguejou o subordinado, a testa batendo no chão frio.
Hades inclinou-se ligeiramente, sua sombra cobrindo o deus trêmulo.
— O Imperador Qin Shi Huang é a minha soberania compartilhada. Cada palavra direcionada a ele é ouvida por mim. Se eu souber que você, ou qualquer outro, ousou olhar para ele com qualquer intenção que não seja a de servir... Helheim terá um novo tipo de punição, desenhada pessoalmente por mim para durar uma eternidade. Fui claro?
O deus menor mal conseguia emitir um som, apenas acenando freneticamente com a cabeça. Hades deu as costas, o recado dado. Em Helheim, o respeito era a moeda de troca, e Qin era o tesouro mais protegido do rei.
Quando Hades retornou aos aposentos reais, o ambiente estava impregnado com o aroma de essências florais e o vapor do banho. Ele encontrou Qin deitado na imensa cama de dossel, vestido apenas com uma túnica de seda leve que deixava seus ombros à mostra. O Imperador tinha uma expressão de pura beatitude, o olhar perdido no teto, parecendo um homem que havia descoberto os segredos do universo e estava muito feliz com eles.
— Qin? — chamou Hades suavemente.
Ao ouvir a voz, Qin pareceu despertar de um transe. Seus olhos brilharam e, esquecendo-se da exaustão que sentia momentos antes, ele se levantou rapidamente — embora um pouco vacilante — e se jogou nos braços de Hades assim que o deus se aproximou da cama.
Hades o segurou com firmeza, sentindo o corpo quente e macio de Qin contra o seu.
— Hao! Você voltou! — exclamou Qin, enterrando o rosto no pescoço de Hades e deixando um beijo ali.
Hades soltou um riso baixo, envolvendo-o em um abraço protetor antes de selar seus lábios em um beijo calmo, mas profundo, que transmitia toda a afeição que ele raramente colocava em palavras. Ele o colocou de volta na cama, ajeitando os travesseiros ao redor dele.
— Eu vou tomar meu banho agora. Não saia daí — ordenou Hades, embora o tom fosse mais de um pedido carinhoso do que de um comando real.
— Eu não vou a lugar nenhum — respondeu Qin, aconchegando-se nos lençóis. — Minhas pernas ainda acham que estamos no campo de batalha.
Hades retirou-se para o banho e, quando retornou, vestindo apenas um robe escuro, encontrou Qin exatamente onde o havia deixado. O Imperador estava deitado de lado, observando a porta com expectativa. Assim que Hades se deitou ao seu lado, Qin se aproximou, buscando o contato físico como se fosse vital.
Hades começou a distribuir beijos lentos e deliberados. Ele começou pela clavícula de Qin, sentindo a pulsação acelerada do outro sob seus lábios. Depois, subiu para o pescoço, onde a pele era sensível e cheirosa.
Qin começou a rir, um som cristalino e genuíno que iluminava a penumbra do quarto.
— Isso faz cócegas, Hades! — ele protestou entre risos, tentando se esquivar levemente, mas sem realmente querer se afastar.
Hades ignorou os protestos e desceu os beijos para a barriga de Qin, soprando levemente contra a pele, o que fez o Imperador se contorcer e rir ainda mais alto, suas mãos puxando os cabelos platinados de Hades com carinho.
— Você é adorável quando está assim — murmurou Hades, parando por um momento para olhar nos olhos de Qin. — Tão diferente do homem que tentou derrubar meu castelo.
Qin sorriu, um sorriso que não carregava arrogância, apenas uma vulnerabilidade confiante.
— Um rei deve saber quando conquistar e quando ser conquistado — disse Qin, puxando Hades para mais perto. — E eu devo admitir... o Submundo não é tão ruim quando se tem o guia certo.
Hades se inclinou, beijando a testa de Qin.
— Você terá tudo o que desejar aqui, Qin. Desde as melhores uvas até o silêncio de qualquer um que ouse desrespeitá-lo.
Qin suspirou, fechando os olhos enquanto sentia as mãos grandes de Hades acariciarem seu rosto.
— Eu já tenho o que desejo — sussurrou o Imperador, antes de cair em um sono profundo e tranquilo, seguro nos braços do Rei que, por ele, transformaria o próprio inferno em um paraíso.