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D67

O Banquete da Liberdade e o Eco do Silêncio

A madrugada em Helheim nunca fora tão densa, tão carregada de uma eletricidade estática que parecia arrepiar os pelos da nuca até dos deuses mais imperturbáveis. No centro do grande pátio que ligava as arenas de treinamento aos jardins reais, uma reunião improvável acontecia. Deuses e humanos, outrora inimigos mortais no Ragnarok, estavam dispersos em grupos, discutindo a tensão que emanava do palácio de Hades. Zeus coçava a barba, Thor mantinha o Mjölnir apoiado no chão, e Tesla explicava alguma teoria complexa para um Buda que parecia mais interessado em seus doces do que na ciência.

O clima mudou quando o dispositivo no pulso de Beelzebub emitiu um sinal agudo. O Senhor das Moscas, encostado em uma coluna de mármore negro, desencadeou uma sombra que fez até Odin estreitar os olhos.

— É agora — murmurou Beelzebub, sua voz sem vida ecoando pelo pátio.

Longe dali, em uma região esquecida das bordas do Submundo, o caos tinha um ritmo. Qin Shi Huang não estava apenas lutando; ele estava performando. Em seus ouvidos, fones de ouvido de tecnologia avançada — um presente "ajustado" por Tesla a pedido secreto de Beelzebub — tocavam uma melodia vibrante e imperial. Ele não ouvia os gritos de agonia das centenas de demônios renegados e divindades caídas que tentavam um golpe de estado contra as fronteiras de Hades.

Qin movia-se como uma fita de seda ao vento, mas com o peso de uma montanha. Cada movimento da forma *Chi You* era uma sentença de morte. Ele girava, saltava e golpeava, o sangue dourado e negro manchando suas vestes cerimoniais, mas seu rosto mantinha uma expressão de serenidade absoluta, quase lúdica. Ele estava no centro de sua maior chacina, um exército inteiro dizimado por um único homem que se recusava a ser menos que um imperador.

Ao derrubar o último general inimigo, um ser de proporções titânicas que implorava por misericórdia, Qin removeu um dos fones de ouvido. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som de sua respiração leve. Com um movimento rápido e instintivo, quase animal, Qin inclinou-se e deu uma única mordida no ombro do caído. Não era por maldade. Era a fome, a necessidade química e espiritual que o mantinha de pé.

Limpando o lábio com as costas da mão, ele guardou os fones e começou a caminhar de volta. Ele não foi arrastado pela exaustão; ele voltou saltitando, os passos leves como os de uma criança que acabara de ganhar um prêmio de festival.

Quando Qin surgiu no pátio principal, a visão era dantesca. Ele estava coberto de sangue da cabeça aos pés, a venda levemente deslocada, mas o sorriso no rosto era radiante.

Beelzebub deu um passo à frente. Em sua mão, uma pequena esfera de luz purpúrea pulsava — o último fragmento da alma de Qin. Sem dizer uma palavra, o Senhor das Moscas estendeu a mão. Assim que a esfera tocou o peito de Qin, um clarão envolveu o pátio.

Qin sentiu um choque que percorreu cada terminação nervosa. O vazio que ele carregava no peito desde a adolescência, aquela sensação de ser um vidro rachado, desapareceu. Ele estava inteiro. Ele era, pela primeira vez em séculos, dono absoluto de si mesmo.

O imperador soltou uma gargalhada genuína, vibrante, e correu em direção a Hades, que observava tudo com uma expressão de choque e horror contido. Qin saltou nos braços do marido, sujando as vestes imaculadas de Hades com o sangue da batalha, e deu-lhe um beijo profundo, seguido de um abraço apertado.

— Eu voltei, meu rei! — exclamou Qin, a voz cheia de uma alegria que ninguém ali jamais ouvira. — O caminho está livre!

Hades, ainda processando a cena, retribuiu o abraço, mas seus olhos encontraram os de Beelzebub. A tensão no pátio explodiu.

— O que significa isso, Beelzebub? — a voz de Poseidon ecoou como um trovão, sua mão apertando o tridente.

— Você usou um humano… usou o cônjuge do meu irmão como um cão de caça? — Zeus perguntou, sua musculatura expandindo-se perigosamente.

Em segundos, os combatentes do Ragnarok cercaram Beelzebub. Leônidas acendeu um charuto, exalando fumaça com desprezo; Lu Bu rosnou, sentindo a injustiça de um guerreiro ser escravizado por contratos sombrios; e Jack, o Estripador, observava as cores da alma de Beelzebub com uma tristeza profunda.

— Explique-se — ordenou Hades, sua voz carregada com a autoridade de quem poderia apagar a existência de Beelzebub ali mesmo. — Por que Zheng estava vinculado a você? Por que ele… ele teve que fazer aquilo?

Beelzebub não recuou. Ele parecia mais cansado do que nunca.

— Não era um capricho — disse ele, a voz monótona escondendo uma fadiga milenar. — O ritual que fizeram com ele quando era jovem foi um desastre. O culto tentou me invocar usando Qin como um sacrifício "puro". Mas o ritual exigia alguém que já tivesse conhecido o pecado da carne para ancorar a energia. Qin era virgem. A energia não tinha onde se fixar e começou a rasgar a alma dele de dentro para fora.

Beelzebub olhou para Qin, que agora se afastava de Hades para ouvir a conversa, ainda sorridente, mas atento.

— Eu não podia salvar a alma dele de uma vez. Ela estava fragmentada no plano astral. Se eu entregasse tudo de uma vez, o corpo humano dele colapsaria. Eu precisei que ele realizasse essas tarefas para que a alma se "reacostumasse" à sua própria essência, pedaço por pedaço. Foi uma transfusão lenta de séculos.

— E a carne? — perguntou Kojiro Sasaki, com uma careta de desconforto. — Por que ele precisava comer… aquilo?

Beelzebub suspirou.

— Qin morreu naquele ritual. Eu o trouxe de volta usando uma centelha da minha própria essência vital de Helheim. Por causa disso, o sistema digestivo dele foi corrompido. Para o corpo dele, comida normal era como veneno ou cinzas. Ele vomitava tudo. A única coisa que o corpo dele reconhecia como sustento, devido à ligação com a minha natureza e ao trauma do ritual, era a carne de sua própria espécie, imbuída de energia vital. Era a única forma de ele não definhar até virar pó.

Um silêncio pesado caiu sobre o grupo. A raiva que sentiam de Beelzebub começou a se transformar em uma melancolia amarga. Olharam para Qin — o grande e arrogante Primeiro Imperador, o homem que dizia que o mundo era seu trono — e perceberam que ele viveu milênios em uma prisão de fome e servidão silenciosa, tudo para manter a dignidade de sua coroa.

— Eu vou tomar um banho — anunciou Qin, quebrando o silêncio com uma leveza desconcertante. — Esse sangue está começando a feder e eu tenho planos para o resto da madrugada que não envolvem decapitações.

Ele piscou para Hades e caminhou em direção aos seus aposentos, deixando para trás um rastro de pegadas escarlates e deuses atônitos.

Cerca de meia hora depois, a porta dos aposentos reais se abriu novamente. Qin Shi Huang saiu vestindo um robe de seda branca e dourada, os cabelos ainda úmidos, a pele limpa e brilhante. Ele não usava a venda; seus olhos, claros e focados, brilhavam com uma curiosidade nova.

Ele caminhou calmamente pelo pátio, ignorando os olhares de pena de Adão e a expressão confusa de Raiden. Ele foi direto até Buda, que estava sentado em um banco de pedra, segurando um saco de doces coloridos e um pirulito na boca.

Sem pedir permissão, Qin estendeu a mão e pegou uma pequena esfera de açúcar coberta com mel de um pote ao lado de Buda.

Todos prenderam a respiração. Eles sabiam o que Beelzebub dissera: Qin vomitava comida normal.

Qin levou o doce à boca. Ele mastigou lentamente, fechando os olhos. O sabor do açúcar, do mel e da essência de frutas divinas explodiu em sua língua. Ele esperou. Esperou pela náusea, pelo aperto no estômago, pelo gosto de cinzas que o perseguira por toda a sua vida pós-mortal.

Nada veio. Apenas o prazer simples e puro da doçura.

Qin engoliu. Um sorriso largo, o mais verdadeiro que Hades já vira em toda a sua eternidade, iluminou o rosto do imperador.

— É bom — sussurrou Qin, a voz embargada por uma emoção que ele raramente se permitia mostrar. — É realmente muito bom.

Buda sorriu de volta, oferecendo o saco inteiro.

— Pode ficar, Rei. Você parece que está precisando de um pouco de glicose.

Qin pegou mais um doce e começou a comer com a avidez de alguém que descobre um mundo novo. Ele olhou para Hades, que se aproximou e envolveu sua cintura, protegendo-o do mundo, mesmo que Qin não precisasse de proteção.

Beelzebub, observando de longe, deu as costas e começou a caminhar em direção à escuridão de seu laboratório. Ele fizera o que prometera. O contrato estava encerrado.

— Beelzebub! — gritou Qin, fazendo o deus parar.

Qin levantou um doce no ar, como se fizesse um brinde.

— Onde o Rei pisa, a estrada se abre. Mas admito… a estrada é muito mais saborosa agora.

O Senhor das Moscas não se virou, mas houve um leve movimento em seus ombros, quase como um riso contido, antes de ele desaparecer nas sombras.

Naquela noite, Helheim não celebrou uma vitória de guerra ou um triunfo político. Celebrou-se a liberdade de um homem que, mesmo acorrentado ao inferno e alimentado pelo horror, nunca deixou de se sentar em seu trono. E enquanto Qin Shi Huang saboreava cada grama de açúcar, rodeado por deuses e humanos que finalmente entendiam o preço de sua arrogância, Hades soube que, não importa quais segredos ainda restassem, ele finalmente tinha o seu imperador por inteiro.