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D68

O Banquete da Liberdade e o Gosto do Açúcar

O silêncio das Terras Desoladas de Helheim foi quebrado não por gritos, mas por uma melodia rítmica e eletrônica que ecoava apenas nos ouvidos de Qin Shi Huang. Ele usava fones de ouvido modernos, um presente tecnológico de Nikola Tesla que ele aprendera a apreciar. Sob o capuz de sua túnica, Qin balançava a cabeça levemente no ritmo da batida, seus pés executando uma dança mortal enquanto ele atravessava o posto avançado dos rebeldes de Niflheim.

Aquela era a última missão. O "trabalho final" que Beelzebub exigira para devolver o fragmento derradeiro de sua alma.

Ao redor do imperador, o cenário era de uma carnificina absoluta. Qin não usava apenas sua força; ele era um borrão de movimento e precisão. Com um movimento de mãos, ele redirecionava a força dos ataques dos demônios gigantes contra eles mesmos. Ossos estalavam, armaduras eram esmagadas e o sangue manchava o solo cinzento. Qin não parecia perturbado. Ele desviava de lâminas com a elegância de quem desvia de gotas de chuva, mantendo um sorriso leve nos lábios.

O último sobrevivente, um general demoníaco de três metros de altura, caiu de joelhos, com o peito aberto pela técnica da Garra de Dragão. Qin parou a música, deslizando os fones para o pescoço. O silêncio que se seguiu foi pesado. Ele olhou para o ser moribundo sob seus pés. A fome, aquela fome antiga e visceral que o acompanhava desde a adolescência, rugiu em suas entranhas.

Sem um pingo de hesitação ou remorso visível, Qin inclinou-se. Ele deu uma única e decisiva mordida no ombro do general, o gosto metálico e quente preenchendo sua boca pela última vez. Ele mastigou devagar, engoliu e limpou o queixo com as costas da mão protegida pela armadura de dedos dourada.

— Onde o Rei pisa, o caminho se abre — murmurou ele para o cadáver, antes de começar a saltitar de volta em direção ao laboratório de Beelzebub, como se estivesse apenas retornando de um passeio matinal.

Enquanto isso, no coração do Submundo, uma reunião incomum acontecia. Hades, movido por uma suspeita que não conseguia mais ignorar, havia convocado não apenas seus irmãos, mas os representantes da humanidade e dos deuses que estavam no Valhalla. Ele sentia que algo estava profundamente errado com seu marido.

— Eu digo que ele está escondendo algo — afirmou Zeus, acariciando a barba enquanto observava a expressão sombria de Hades. — E Beelzebub está no centro disso.

— O garoto não é de mentir sem motivo — comentou Sasaki Kojiro, limpando sua espada. — Mas o cheiro que ele exala às vezes... não é de um humano vivo.

Buda, mascando calmamente um chiclete, olhou para o horizonte.

— As cores da alma do Qin estão... esquisitas. Metade delas pertence a outra pessoa.

Foi nesse momento que a figura de Qin Shi Huang apareceu no horizonte. Ele estava coberto de sangue, da cabeça aos pés, mas sua energia era diferente. Ele caminhava em direção a Beelzebub, que esperava na entrada de seu laboratório, cercado pelos deuses e humanos que haviam decidido segui-lo.

Qin parou diante do Senhor das Moscas. Ele estendeu a mão, ignorando os olhares de horror de figuras como Adão, Eva e até mesmo do implacável Leônidas ao verem o estado em que o imperador se encontrava.

— Está feito — disse Qin, a voz clara e desprovida de sua habitual arrogância teatral. — O último.

Beelzebub, com sua apatia habitual, estendeu a mão. Um brilho pálido e etéreo emanou de seus dedos e fluiu para o peito de Qin. O imperador arqueou as costas, soltando um suspiro longo que pareceu carregar o peso de milênios. Pela primeira vez em eras, Qin Shi Huang sentiu-se... inteiro. A conexão fria e viscosa que o prendia ao demônio científico se dissolveu.

Livre. Ele estava finalmente livre.

Qin deu um sorriso radiante, o tipo de sorriso que ele costumava dar antes do ritual que mudara sua vida. Ele ignorou o sangue em suas vestes e caminhou diretamente para Hades. Sem dizer uma palavra, ele envolveu o pescoço do Rei do Submundo em um abraço apertado e o beijou com uma intensidade que deixou todos os presentes em um silêncio atordoado.

— Eu voltei, meu senhor — sussurrou Qin contra os lábios de Hades. — Eu sou eu mesmo agora.

Hades o segurou pelos ombros, os olhos vermelhos brilhando com uma mistura de alívio e fúria contida.

— Qin... o que você fez? E por que ele tem metade da sua alma?

A tensão no grupo explodiu. Lu Bu deu um passo à frente, sua aura de batalha esmagadora, enquanto Jack, o Estripador, ajustava o monóculo com um olhar de profunda tristeza.

— Que cor de alma mais trágica — murmurou Jack. — Beber o sangue alheio é uma coisa, mas isso...

— Beelzebub! — rugiu Thor, levantando o Mjölnir. — Explique-se antes que eu reduza este lugar a pó. Como ousa escravizar um dos nossos?

Beelzebub não recuou. Ele olhou para a multidão de divindades e heróis humanos com olhos vazios, mas havia um cansaço genuíno em sua postura.

— Eu não o escravizei por prazer — disse Beelzebub, sua voz monótona cortando o caos. — O ritual que fizeram com ele quando era jovem foi um desastre. Aqueles humanos tentaram me invocar usando Qin como sacrifício, mas erraram as palavras e os componentes. Qin não era o que precisavam, e o portal colapsou.

Ele fez uma pausa, olhando para Qin, que agora se apoiava em Hades.

— Qin morreu naquele dia. O ritual o rasgou ao meio. Eu só consegui manter a consciência dele ligada a este plano fundindo a alma dele à minha. Mas uma alma humana não suporta a essência de um deus do submundo de uma vez só. Ele teria se dissipado.

— Então você o fez matar para ele? — perguntou Nikola Tesla, cruzando os braços, a lógica científica lutando com a ética.

— Eu precisei que ele recuperasse fragmentos de essência vital de outros seres para "reconstruir" a parte humana dele — explicou Beelzebub. — E sobre a carne...

Hades sentiu o corpo de Qin retesar.

— O ritual o transformou em algo que não é vivo, nem morto — continuou o Senhor das Moscas. — O sistema digestivo dele foi corrompido pela energia do submundo. Comida normal, o que vocês chamam de sustento, era veneno para ele. Ele vomitava tudo. A única coisa que o corpo dele aceitava, a única coisa que fornecia a proteína e a energia necessárias para ele não apodrecer por dentro, era a carne da sua própria espécie.

Um silêncio sepulcral caiu sobre o campo. Adão fechou os olhos, uma lágrima solitária descendo pelo rosto ao pensar no sofrimento de um de seus "filhos". Raiden Tameemon e Shiva, que costumavam ser barulhentos, apenas desviaram o olhar, incapazes de encarar o imperador.

Hades apertou Qin contra o peito. A dor que ele sentia agora não era a da sinestesia de Qin, mas uma dor própria, de culpa por não ter percebido o fardo que seu marido carregava sozinho nas madrugadas frias.

— Eu vou tomar um banho — disse Qin, sua voz quebrando o silêncio. Ele parecia exausto. — Este sangue está começando a feder.

Ele se soltou de Hades com um sorriso fraco e caminhou em direção aos seus aposentos privados. Ninguém ousou impedi-lo.

Cerca de uma hora depois, a porta do quarto real se abriu. Qin Shi Huang saiu vestindo uma túnica leve de seda branca, o cabelo ainda úmido e a pele limpa, embora as cicatrizes de sua sinestesia ainda estivessem lá, como mapas de sua resistência.

Ele caminhou até o centro do pátio, onde os deuses e humanos ainda discutiam em tons baixos com Beelzebub. Buda estava sentado em um banco próximo, com um saco de doces coloridos ao seu lado.

Qin aproximou-se de Buda sem dizer nada. Ele estendeu a mão e pegou uma pequena bala de morango, coberta de açúcar.

Todos pararam para olhar. Hades deu um passo à frente, o coração na boca.

Qin levou o doce à boca. Ele mastigou lentamente. Seus olhos se arregalaram por um momento. Ele esperou. Esperou pelo refluxo, pela náusea, pela queimação que sempre vinha quando tentava comer algo que não fosse sangue e músculo.

Mas nada veio. Apenas a doçura. O gosto artificial e maravilhoso do açúcar.

Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador da China, o homem que desafiou os deuses e unificou nações, começou a rir. Era uma risada leve, quase infantil. Ele pegou outro doce, e depois outro, devorando-os com uma alegria que nenhum banquete real jamais lhe proporcionara.

— É bom? — perguntou Buda, com um sorriso de canto.

— É a melhor coisa que já provei em toda a minha existência — respondeu Qin, com os olhos brilhando.

Hades aproximou-se e colocou a mão no ombro de Qin, sentindo a alma do marido finalmente em paz, vibrando em uma frequência pura. Ele olhou para Beelzebub, que ainda permanecia à sombra do laboratório. O ódio de Hades não havia desaparecido totalmente, mas ao ver Qin comendo um simples doce, ele compreendeu o sacrifício distorcido que o cientista fizera.

— Você está livre, Qin — disse Hades suavemente.

— Eu sempre fui livre, Hades — retrucou Qin, recuperando seu brilho arrogante enquanto apontava para si mesmo com o polegar. — Mas agora... agora o mundo inteiro é o meu banquete. E desta vez, eu escolho o cardápio.

Ele jogou um doce para Beelzebub. O Senhor das Moscas o pegou no ar, olhando para a pequena esfera colorida com curiosidade.

— Obrigado, Bel — disse Qin, de forma simples.

Beelzebub apenas acenou com a cabeça e voltou para as sombras de seu laboratório, o único lugar onde se sentia seguro, enquanto, do lado de fora, o Imperador da Humanidade celebrava sua verdadeira vitória: o simples direito de ser humano novamente.