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De frente com a dor

O Pranto das Cores

A luz da manhã entrava pelas janelas do novo apartamento como se pedisse permissão para iluminar o caos criativo que se tornara a sala. Amaia estava sentada no chão, cercada por tubos de tinta e telas inacabadas. Desde que deixaram o Internato Saint Jude, o silêncio não era mais seu inimigo; agora, ele era o espaço onde ela podia finalmente ouvir seus próprios pensamentos sem a interferência ácida de sua mãe.

Atlas apareceu na porta da cozinha, os cabelos escuros ainda bagunçados pelo sono. Ele vestia apenas uma calça de moletom cinza, revelando as tatuagens que antes ficavam escondidas sob o uniforme rígido do colégio. Ele observou Amaia por um momento, admirando a forma como ela franzia a testa quando estava concentrada.

— Você está acordada há horas — comentou ele, sua voz rouca de sono preenchendo o ambiente. ele caminhou até ela e deixou uma caneca de café fumegante sobre a mesa de centro. — O que está tentando capturar hoje?

Amaia levantou os olhos, e o brilho neles era uma mistura de exaustão e determinação.

— O horizonte — respondeu ela, limpando uma mancha de azul da bochecha com as costas da mão. — Mas não o horizonte que vemos da janela. O horizonte que a Noah costumava descrever. Aquele que não tem muros, nem inspetores, nem... nem culpas.

Atlas sentou-se no chão ao lado dela, ignorando o fato de que poderia manchar sua pele com a tinta fresca. Ele pegou a mão dela e entrelaçou seus dedos nos dela.

— Você ainda sente, não é? — perguntou ele, suavemente. — Mesmo depois de termos enfrentado a sua mãe no tribunal, mesmo depois de tudo.

— Sinto — sussurrou Amaia. — Às vezes, o silêncio deste apartamento fica tão alto que eu ainda consigo ouvir o estampido daquela noite. E a voz da minha mãe... ela não precisa mais estar aqui para me dizer que eu sou um fardo. Eu mesma faço isso por ela.

— Amaia, olhe para mim — Atlas segurou o queixo dela, forçando-a a encarar os olhos dele, que queimavam com uma intensidade protetora. — Helen Fontes é uma mulher amarga que perdeu o direito de ser chamada de mãe no momento em que tentou transformar o seu luto em uma arma. Você não a matou. Você foi a única coisa boa na vida daquela garota nos últimos meses dela.

— Eu queria ter sido mais rápida, Atlas — as lágrimas começaram a rolar, traçando caminhos claros através do pigmento em seu rosto. — Eu queria ter sido eu.

— Nunca mais diga isso — Atlas a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto dela em seu pescoço. — Se tivesse sido você, eu estaria morto por dentro agora. Nós sobrevivemos por um motivo. Talvez o motivo seja justamente este: para que você possa pintar o mundo que ela não pôde ver, e para que eu possa garantir que ninguém mais te machuque.

A campainha tocou, quebrando a bolha de melancolia. Era Damon. Ele entrou carregando uma caixa de donuts e um sorriso que parecia forçado, mas necessário. Damon fora o elo que os manteve unidos durante os meses de audiências judiciais e pesadelos compartilhados.

— Bom dia, pombinhos sobreviventes! — exclamou Damon, jogando-se no sofá de veludo azul. — Trouxe açúcar e gordura para compensar a falta de sono de vocês. Amaia, você parece que brigou com um arco-íris e perdeu.

Amaia soltou uma risada curta, a primeira do dia.

— Eu estou tentando terminar a peça para a galeria, Damon. O curador disse que preciso de algo que "grite".

— Bem, se o critério é gritar, você devia pintar o Atlas quando ele perde no videogame — ironizou Damon, pegando um donut de chocolate. — Mas falando sério... recebi uma mensagem da diretoria do Saint Jude hoje. Eles estão demolindo o antigo pavilhão das festas. Vão construir um ginásio novo.

O ar na sala pareceu esfriar instantaneamente. O pavilhão das festas era o lugar onde a vida de todos eles mudara para sempre. Onde o sangue de Noah manchara o chão de concreto e onde a inocência de Amaia fora enterrada.

— Deviam queimar aquele lugar e salgar a terra — rosnou Atlas, seus olhos escurecendo.

— Eles convidaram os ex-alunos para uma cerimônia de "encerramento" — continuou Damon, olhando para as próprias mãos. — Eu acho que é uma bobagem burocrática, mas... talvez seja uma chance.

— Uma chance para quê? — perguntou Amaia, sentindo o coração disparar. — Para ter outro ataque de pânico na frente de todo mundo? Para ver o lugar onde ela caiu?

— Para dizer adeus de verdade, Amaia — Damon levantou os olhos, e neles havia uma dor que ele raramente mostrava. — Eu ainda sonho com ela pedindo para eu tirar ela dali. Eu preciso ver aquele lugar cair. Preciso saber que ele não existe mais.

Amaia olhou para Atlas. Ele parecia pronto para recusar, pronto para protegê-la de qualquer gatilho emocional, mas ele viu a dúvida nos olhos dela.

— Se você quiser ir, eu vou — disse Atlas, segurando a mão dela com firmeza. — Eu não vou sair do seu lado nem por um segundo. Se você sentir que não consegue respirar, nós vamos embora na mesma hora.

— Eu... eu preciso pensar — murmurou Amaia.

Os dias que se seguiram foram de uma tensão silenciosa. Amaia passava horas diante de sua tela, mas as cores haviam sumido. Ela pintava apenas em tons de cinza, preto e um vermelho profundo que a assustava. O trauma não era algo que se curava com uma mudança de endereço ou uma conta bancária cheia; era um parasita que se alimentava de momentos de paz.

Em uma noite de tempestade, o som do trovão ecoou como um tiro. Amaia acordou gritando, o corpo ensopado de suor frio. Atlas estava lá em segundos, envolvendo-a nos braços, sussurrando palavras de conforto que ela mal conseguia processar.

— Ela está lá, Atlas! — soluçava Amaia, escondendo o rosto no peito dele. — Eu vejo o ex-namorado dela, eu vejo a arma... e vejo a minha mãe rindo no canto, dizendo que eu mereço isso.

— Shh, calma. Ela não está aqui. Sua mãe está a quilômetros daqui, sozinha e amarga. E o desgraçado que atirou está atrás das grades — Atlas a balançava suavemente, como se ela fosse de vidro. — Respira comigo, Amaia. Um, dois, três...

— Eu quero ir — disse ela subitamente, a voz rouca.

— Ir aonde?

— Para o Saint Jude. Para a cerimônia. Eu preciso ver aquele pavilhão ser destruído. Eu preciso mostrar para a memória da minha mãe que ela não tem mais poder sobre mim. Se eu não enfrentar aquele lugar, eu nunca vou conseguir pintar o horizonte da Noah.

No dia da cerimônia, as nuvens pesadas pairavam sobre o internato Saint Jude, tornando os muros de pedra ainda mais sombrios. Amaia vestia um casaco preto comprido, sentindo-se pequena diante da imensidão da escola que fora sua prisão. Atlas estava ao seu lado, a mão firme em sua cintura, enquanto Damon caminhava à frente, com os ombros tensos.

Havia outros alunos, professores e curiosos. O diretor fez um discurso sobre "progresso" e "superação", palavras que soavam vazias para quem conhecia a verdadeira história daquele solo.

Quando a cerimônia oficial terminou e as máquinas começaram a se posicionar, Amaia pediu para se aproximar do cordão de isolamento.

— Tem certeza? — perguntou Atlas, preocupado com a palidez dela.

— Tenho.

Ela caminhou até a beira do pavilhão. O lugar estava em ruínas, as janelas quebradas parecendo olhos vazios. Ela fechou os olhos e, por um momento, não ouviu o barulho das escavadeiras. Ouviu a música daquela noite, o riso de Noah, o cheiro de perfume barato e o medo súbito.

— Amaia?

Ela se virou e sentiu o sangue congelar. Helen Fontes estava ali, a poucos metros de distância. Ela parecia mais velha, mais magra, mas o olhar de desprezo ainda era o mesmo. Ela não fora convidada, mas Helen sempre dava um jeito de aparecer onde não era querida.

— Vejo que ainda frequenta cenas de crime — disse Helen, sua voz como veneno destilado. — Veio ver se consegue limpar o sangue das suas mãos com a poeira da demolição?

Atlas deu um passo à frente, o rosto transformado em uma máscara de fúria cega, mas Amaia colocou a mão em seu peito, impedindo-o.

— Não, Atlas. Deixa que eu falo.

Ela caminhou até a mãe, parando a apenas alguns centímetros dela. Amaia não era mais a garota que se encolhia no canto do quarto rosa. Ela estava ereta, os olhos fixos nos da mulher que tentara destruí-la.

— Você veio aqui para quê, mãe? — perguntou Amaia, sua voz soando fria e clara. — Para tentar me convencer de novo de que a culpa é minha? Para tentar se sentir poderosa através da minha dor?

— Eu vim ver o fim do que você começou — sibilou Helen. — Você destruiu a vida daquela menina e destruiu a nossa família.

— Não — interrompeu Amaia. — Você destruiu a nossa família muito antes daquela noite. Você a destruiu com cada palavra cruel, com cada silêncio punitivo. A Noah morreu por causa de um monstro com uma arma, mas eu quase morri por causa de um monstro com um sobrenome. Mas olhe para mim agora.

Amaia apontou para as máquinas que começavam a derrubar a primeira parede do pavilhão. O som do concreto quebrando ecoou como um trovão.

— Aquele lugar está caindo — continuou Amaia. — E a sua influência sobre mim está caindo junto com ele. Eu tenho o Atlas. Eu tenho o Damon. Eu tenho a minha arte. E você? Você tem o quê, além de uma casa vazia e um coração cheio de rancor?

Helen tentou levantar a mão para esbofeteá-la, mas Atlas segurou o pulso dela com uma força que a fez recuar.

— Nunca mais — disse Atlas, sua voz baixa e perigosa. — Se você chegar perto dela de novo, eu vou usar cada centavo e cada contato da minha família para garantir que você passe o resto dos seus dias em uma cela tão pequena quanto a mente que você tem.

Helen puxou o braço, os olhos brilhando com uma mistura de ódio e medo. Ela percebeu, pela primeira vez, que perdera. Amaia não era mais uma presa. Ela era parte de algo que Helen nunca entenderia: um amor nascido das cinzas.

Sem dizer mais nada, Helen virou as costas e caminhou em direção ao estacionamento, desaparecendo na névoa da manhã.

Amaia voltou sua atenção para o pavilhão. Uma grande nuvem de poeira subiu quando o teto desabou. Ela respirou fundo, sentindo o ar entrar em seus pulmões sem o aperto habitual.

— Acabou — sussurrou Damon, aproximando-se deles.

— Acabou — concordou Amaia.

Eles ficaram ali por um longo tempo, observando as máquinas transformarem o palco do pesadelo em apenas um monte de entulho. Quando finalmente voltaram para o carro, o sol começou a romper as nuvens.

De volta ao apartamento, Amaia foi direto para a sua tela. Ela pegou o pincel e, pela primeira vez em semanas, mergulhou-o em uma cor vibrante. Um dourado quente, como o sol que ela acabara de ver.

Atlas sentou-se na poltrona próxima, observando-a trabalhar. Ele sabia que o trauma não desapareceria completamente — haveria dias ruins, haveria gatilhos inesperados —, mas ele também sabia que eles eram mais fortes do que qualquer coisa que o passado pudesse lançar contra eles.

— O que está pintando agora? — perguntou ele, sorrindo.

Amaia deu a última pincelada e afastou-se para observar a obra. Não era mais apenas o horizonte da Noah. Era um campo de flores que pareciam feitas de luz, crescendo sobre ruínas de concreto cinza. No canto da tela, quase imperceptível, havia a silhueta de três pessoas caminhando juntas.

— Estou pintando o amanhã — respondeu ela.

Atlas levantou-se e a abraçou por trás, descansando o queixo em seu ombro.

— É lindo, Amaia.

— Sabe, Atlas... — ela se virou nos braços dele, passando as mãos manchadas de tinta pelo pescoço dele. — Eu costumava achar que as janelas serviam para nos proteger do mundo. Mas agora eu entendo que elas servem para nos mostrar que o mundo é grande demais para ficarmos trancados.

— Eu nunca vou deixar ninguém fechar as suas cortinas de novo — prometeu ele, antes de selar a promessa com um beijo que carregava todo o peso da superação deles.

Damon apareceu na porta, segurando uma garrafa de vinho e três taças.

— Sei que ainda é cedo, mas acho que temos motivos para brindar. À Noah, ao fim do Saint Jude e à nossa nova vida.

Eles brindaram ali mesmo, entre telas e sonhos, no centro de um lar que não tinha mais espaço para o rancor de Helen Fontes ou para o eco de tiros antigos. Amaia olhou para a sua pintura e depois para os dois garotos que a salvaram da escuridão.

Ela finalmente entendera que a arte não servia para esconder a dor, mas para transformá-la em algo que pudesse ser suportado. E com Atlas ao seu lado, ela sabia que qualquer cor que escolhesse para o seu futuro seria, enfim, uma cor de liberdade.

A noite caiu sobre a cidade, mas dentro daquele apartamento, a luz nunca pareceu tão intensa. Amaia adormeceu nos braços de Atlas, e pela primeira vez em muito tempo, ela não sonhou com o pavilhão. Ela sonhou com o horizonte, e desta vez, ele era inteiramente dela.