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Deep whole

Cicatrizes Sob o Capuz

O corredor da escola parecia um túnel de ruídos inúteis. O barulho de cacifos a bater, risadas estridentes e o murmúrio constante de adolescentes que achavam que os seus problemas eram o fim do mundo faziam a cabeça de Luke latejar. Ele enfiou os fones de ouvido com força, aumentando o volume até que a voz agressiva e rápida de Eminem preenchesse cada canto do seu crânio. "Not Afraid" martelava nos seus tímpanos, um hino de resistência que ele não sentia, mas que era o único fio que o prendia à realidade.

Ele não precisava de um mapa. Não queria saber onde era a biblioteca ou o refeitório. Luke apenas caminhava, o seu corpo atlético movendo-se com uma agressividade natural que fazia as pessoas abrirem caminho. Ele sentia os olhares. Sentia o julgamento e a curiosidade mórbida das raparigas que tentavam decifrar a cicatriz que lhe rasgava o rosto. Para elas, era um traço de mistério rebelde; para ele, era a lembrança constante de uma garrafa de vidro quebrada e das mãos pesadas de um pai que agora apodrecia na prisão.

Ao chegar à porta da sala de História, Luke parou por um segundo. O cheiro de desinfetante barato misturado com suor adolescente fez o seu estômago revirar. Ele precisava de um gole de qualquer coisa forte. Ou de um cigarro. Ou de desaparecer.

Entrou na sala sem tirar o capuz. O professor, um homem magro de meia-idade chamado Sr. Miller, parou de escrever no quadro e olhou para ele por cima dos óculos.

— Tu deves ser o Luke Arrow. Estás atrasado dez minutos — disse o professor, tentando manter um tom de autoridade que claramente não possuía.

Luke nem sequer o olhou nos olhos. Ele caminhou até à última fila, arrastando a mochila pelo chão, e sentou-se na última cadeira disponível, perto da janela.

— Arrow, estou a falar contigo. Tira o capuz e os fones — insistiu Miller, dando um passo na direção dele.

Luke sentiu o corpo retesar instantaneamente. Quando o professor fez um movimento brusco para apontar para a secretária, Luke estremeceu, os seus ombros subindo até às orelhas num reflexo defensivo que ele odiava. Os seus olhos azuis, antes gélidos, brilharam com um lampejo de pânico transformado em fúria.

— Vai-te foder — sibilou Luke, a voz rouca e carregada de desprezo.

A sala ficou em silêncio absoluto. Algumas raparigas na fila da frente trocaram olhares chocados, enquanto os rapazes se entreolhavam, meio impressionados, meio intimidados.

— O que disseste? — O Sr. Miller gaguejou, o rosto a ficar vermelho.

— Ouviste bem, caralho. Deixa-me em paz ou enfia esse giz no rabo — Luke disse, recostando-se na cadeira e colocando os pés em cima da mesa, as calças largas escondendo os hematomas que a sua mãe lhe tinha deixado na noite anterior, num dos seus delírios alcoólicos.

O professor abriu a boca para retorquir, mas a expressão no rosto de Luke — uma mistura de vazio absoluto e uma promessa implícita de violência — fê-lo recuar. Miller apenas suspirou, derrotado antes mesmo de começar a luta.

— Vai para a direção depois da aula, Arrow.

Luke apenas levantou a mão e mostrou o dedo do meio, fechando os olhos enquanto a batida de Detroit voltava a dominar os seus sentidos. Ele não se importava com a direção, com as notas ou com o futuro. O futuro era uma mentira que contavam às crianças para que elas não se matassem antes dos dezoito.

Quando o sinal finalmente tocou, Luke foi o primeiro a sair. Ele precisava de ar. Precisava de silêncio. No entanto, enquanto atravessava o pátio em direção às escadas onde costumava andar de skate, uma voz feminina chamou-o.

— Ei! Luke, certo?

Ele parou, mas não se virou. Era uma rapariga de cabelo loiro perfeitamente alinhado, uma daquelas que parecia ter saído de um catálogo de moda. Chloe, se ele bem se lembrava das fofocas do corredor.

— O que é que queres? — perguntou ele, a voz seca como papel de lixa.

— Eu... eu só queria dizer que o que fizeste ao Miller foi... intenso — disse ela, aproximando-se com um sorriso tímido que ela achava ser encantador. — De onde vieste? A tua cicatriz... foi num acidente de skate?

Luke virou-se lentamente. A proximidade dela incomodava-o. O perfume doce que ela usava era sufocante, lembrando-o do cheiro das mulheres que entravam e saíam do quarto da sua mãe a meio da noite.

— Queres saber da cicatriz? — Luke deu um passo em frente, invadindo o espaço pessoal dela. Chloe recuou um pouco, o sorriso a vacilar. — Queres saber se sou um bad boy de filme? A verdade é que não queres saber nada sobre mim, boneca. Vai brincar com os teus amigos populares e deixa-me em paz antes que te arrependas de ter falado comigo.

— Eu só estava a ser simpática... — balbuciou ela.

— A tua simpatia não vale merda nenhuma aqui — ele cuspiu as palavras, virando as costas e saltando para cima do skate com um impulso violento.

Ele rolou para longe, sentindo a adrenalina a começar a dissipar-se, deixando para trás apenas aquele vazio familiar e pesado. Luke dirigiu-se para a parte de trás do ginásio, um lugar onde os toxicodependentes da escola se escondiam. Ele sentou-se no chão de cimento, encostado à parede de tijolos frios, e tirou um pequeno saco plástico do bolso do moletom.

Os seus dedos tremiam ligeiramente. Era o resto de um stock antigo, algo que ele tinha guardado dos tempos em que ele próprio era quem fornecia o veneno nas esquinas de Detroit. Agora, ele era apenas o consumidor, tentando anestesiar a dor de existir.

— Porquê esta merda de novo, Luke? — sussurrou para si mesmo, olhando para o pó branco.

Ele pensou na mãe. Pensou nela deitada no sofá, rodeada de garrafas vazias, com o olhar perdido enquanto vendia o próprio corpo por mais uma dose ou por uma renda que nunca parecia estar paga. Pensou no pai, nas pancadas que recebia sempre que não vendia o suficiente, nas noites passadas ao frio porque a porta de casa estava trancada.

A ideia de acabar com tudo não era nova. Era uma visita frequente, uma sombra que se sentava à mesa com ele todas as noites. Ele olhou para o skate. Era a única coisa que o pai não tinha conseguido destruir, a única coisa que ele tinha levado consigo quando fugiram para aquela cidade nova e decadente.

— "You only get one shot, do not miss your chance to blow..." — cantarolou ele baixinho, as palavras de Marshall Mathers servindo como um mantra de sobrevivência.

Ele guardou o saco. Ainda não era a altura. Não ali.

Luke levantou-se, sentindo-se tonto. A fome era uma dor aguda no estômago, mas ele não tinha dinheiro para comida, apenas para o vício. Ele caminhou em direção à saída da escola, ignorando o facto de que ainda tinha mais quatro aulas. O sistema não tinha lugar para alguém como ele, e ele não tinha paciência para o sistema.

Enquanto atravessava o portão principal, um carro da polícia passou com as sirenes desligadas. O som do motor e a visão das luzes azuis e vermelhas fizeram o seu coração disparar. Por um segundo, ele voltou a ter dez anos, escondido debaixo da cama enquanto a polícia arrombava a porta de casa. O suor frio escorreu-lhe pelas costas.

Ele precisava de desaparecer.

Luke subiu no skate e começou a descer a rua principal em alta velocidade, ziguezagueando entre os carros. O perigo era a única coisa que o fazia sentir que o seu sangue ainda corria nas veias. Ele não queria saber da escola, não queria saber das raparigas que o achavam bonito, e certamente não queria saber da sua própria vida.

Ele era Luke Arrow, um fantasma a rolar sobre quatro rodas, à espera que o mundo finalmente se cansasse dele tanto quanto ele se tinha cansado do mundo.

Ao chegar ao prédio decrépito onde morava, o cheiro de mofo e urina atingiu-o como um soco. Ele subiu as escadas a correr, evitando o vizinho do segundo andar que sempre lhe pedia dinheiro. Quando abriu a porta do apartamento, encontrou o que já esperava.

A mãe estava desmaiada na poltrona, a televisão ligada num canal de compras sem som. Havia um homem desconhecido na cozinha, a beber uma cerveja da marca mais barata.

— Quem és tu, miúdo? — perguntou o homem, a voz arrastada.

Luke não respondeu. Apenas caminhou até ao seu quarto — que não passava de um colchão no chão e uma pilha de roupas sujas — e bateu a porta com força. Ele atirou o skate para o canto, deitou-se e colocou os fones de ouvido.

O volume no máximo. O mundo lá fora em silêncio.

— Só mais um dia — murmurou ele, fechando os olhos enquanto a escuridão o abraçava. — Só mais um dia nesta merda de vida.

Ele não sabia se conseguiria aguentar o dia seguinte, mas por agora, a voz de Eminem nos ouvidos era o suficiente para o impedir de desistir completamente. Luke Arrow era um desastre anunciado, uma cicatriz ambulante numa cidade que não se importava com feridas abertas. E, no fundo, era exatamente assim que ele queria que fosse.