Descendentes
O Paradoxo do Chapeleiro
Maxwell "Max" Hatter se considerava um desgraçado de sorte, embora a parte do "desgraçado" estivesse pesando muito mais do que a "sorte" naquela manhã nublada em Auradon Prep. Ele encarava sua bandeja de café da manhã com uma intensidade que poderia derreter o metal. Havia ovos mexidos, torradas perfeitamente douradas e uma xícara de chá de hibisco que já estava perdendo o vapor, mas seu estômago parecia um nó apertado de marinheiro.
Ninguém entendia. Max sabia disso. Ele via os olhares de soslaio nos corredores, os sussurros abafados nas arquibancadas e as expressões de choque puro que ainda não tinham desaparecido completamente após três meses. Como o filho de Maddox Hatter — um garoto sarcástico, de língua afiada, que preferia o isolamento da oficina de chapéus à luz do sol — tinha conseguido fisgar o peixe mais dourado do oceano de Auradon?
Luís Madrigal era, por falta de uma palavra melhor, perfeito. O filho de Luísa Madrigal herdara não apenas a força física lendária da mãe, mas uma força de caráter que atraía as pessoas como abelhas ao mel. Ele era o capitão de cinco times esportivos, o tipo de garoto que ajudava as senhoras a atravessarem a rua e que tirava notas máximas sem sequer parecer que estava se esforçando. Ele era alto, tinha ombros largos que pareciam capazes de carregar o mundo e um sorriso que fazia o coração de Max errar a batida desde que ele tinha treze anos.
Max sempre foi pateticamente apaixonado por ele. Mas ele era o Max. O meio-irmão "estranho" de Red e Pink Hearts. Ele nunca teria coragem de dizer uma palavra, se não fosse por aquela maldita noite de pijama.
A lembrança ainda o fazia querer se enfiar em um buraco de coelho. Hazel Hook, com aquele brilho maligno nos olhos que só os filhos de piratas possuem, o desafiara no Verdade ou Desafio. "Ligue para o Madrigal e chame-o para sair", ela dissera, enquanto Red e Chloe riam ao fundo e Félix o incentivava com um sorriso torto. Max, movido pelo ódio, pela vergonha e por uma quantidade perigosa de açúcar, ligou. Ele esperava a humilhação. Esperava que Luís risse educadamente e dissesse que ele era um bom garoto, mas que não.
Em vez disso, Luís aceitara. E agora, três meses depois, eles eram namorados.
O problema era que a realidade de namorar o garoto mais popular da escola era um pesadelo para a mente insegura de Max.
— Se você continuar encarando esse ovo, ele vai começar a pedir socorro — a voz de Hazel quebrou o transe de Max. Ela se sentou ao lado dele, com Chloe Charming logo atrás, parecendo radiante como sempre.
Max apenas bufou, empurrando a bandeja para longe.
— Não estou com fome.
— Você não está com fome ou está esperando o "Grande Homem do Campus" aparecer para te dar um beijo de bom dia? — Red se juntou a eles, jogando sua bolsa na mesa com a energia caótica de sempre. — Aliás, cadê o Luís? Ele geralmente já está aqui te bajulando a essa hora.
Max sentiu uma pontada de ansiedade no peito. Ele pegou o celular pela centésima vez. Nada.
— Ele não veio. Ontem à noite ele só mandou um "estou exausto, boa noite" e sumiu. Nem um "bom dia" hoje. Nada.
— Ele é o capitão de metade da escola, Max — Chloe disse, tentando ser a voz da razão, como sempre. — Os treinos de pré-temporada começaram. Ele deve estar ocupado.
— Ocupado demais para um emoji de coração? — Max retrucou, o sarcasmo mascarando a insegurança que corroía suas entranhas. — Ele é o Luís Madrigal. Ele sempre tem tempo para todo mundo. Ele para pra falar com os calouros, para pra ajudar o professor de química, para pra rir das piadas sem graça daquela torcida organizada... mas para o namorado, ele está "exausto".
— Você está sendo dramático — Félix comentou, chegando à mesa acompanhado de Robie Wood. Os dois estavam de mãos dadas, o que só fez Max se sentir mais amargo. — O cara te ama, Max. Ele olha para você como se você fosse a última xícara de chá do País das Maravilhas.
— Ele olha para todo mundo assim, Félix! — Max explodiu, a voz um pouco mais alta do que o pretendido. — Esse é o problema! O Luís é gentil por natureza. Ele é educado por obrigação genética. Às vezes eu acho que ele só aceitou sair comigo porque ficou com pena. Quem diria "não" para o irmãozinho esquisito da melhor amiga dele quando ele liga gaguejando no meio da noite? Ele é bom demais para dizer "não" para qualquer um.
— Max, para com isso — Red advertiu, sua expressão ficando séria. — O Luís não é assim. Ele gosta de você.
— Gosta? — Max soltou uma risada seca, sem alegria. — Olha para mim, Red. Eu sou um desastre de nervos, sou ciumento, sou inseguro e passo metade do meu tempo reclamando de coisas que ninguém se importa. E olha para ele. Ele é o sol. Por que o sol escolheria ficar preso a uma nuvem de tempestade como eu?
Hazel suspirou, trocando um olhar preocupado com Chloe.
— Talvez porque o sol precise de um pouco de sombra de vez em quando?
— Não venha com metáforas baratas, Hazel — Max se levantou, a frustração transbordando. — Eu estou cansado de me sentir como um projeto de caridade. Três meses. Talvez ele tenha finalmente percebido que eu sou um erro. Talvez ele esteja lá fora agora, sendo "gentil" com alguém que realmente combine com ele. Alguém que não tenha que ser desafiado a ligar para ele.
— Max, você está exagerando... — Robie tentou intervir, mas Max estava em uma espiral.
— Exagerando? Ele nem apareceu! Ele provavelmente está evitando o "trabalho" de ter que lidar comigo hoje. Ser o namorado perfeito do Luís Madrigal deve ser cansativo, mas ser o namorado do Maxwell Hatter deve ser um fardo insuportável. Eu sou um desgraçado, e ele é um santo por me aguentar, mas até os santos se cansam de carregar peso morto.
O silêncio que caiu sobre a mesa não foi o que Max esperava. Ele esperava que seus amigos discutissem com ele, que o chamassem de idiota ou que rissem de suas inseguranças como faziam às vezes. Mas eles estavam todos olhando para um ponto atrás dele, com expressões que variavam entre o choque e a pura pena.
Max sentiu o sangue congelar nas veias. Ele conhecia aquele perfume. Era um cheiro de grama cortada, suor limpo e algo cítrico. Um cheiro que ele normalmente associava a segurança, mas que agora parecia o cheiro de sua própria ruína.
Ele se virou lentamente.
Luís estava parado a poucos metros de distância. Ele usava o uniforme do time de tourney, o cabelo castanho estava levemente bagunçado e ele segurava uma pequena caixa de papelão da padaria favorita de Max. Seus olhos, que costumavam brilhar com uma doçura infinita, estavam nublados, as pálpebras pesadas de cansaço, mas agora também de mágoa.
— Luís... — o nome saiu da boca de Max como um sopro sem vida.
O Madrigal não disse nada por um longo momento. Ele olhou para a caixa em sua mão, depois para Max, e depois para os amigos de Max, que pareciam querer desaparecer da face da terra.
— Eu... eu tive treino extra às cinco da manhã — a voz de Luís estava rouca, desprovida da animação habitual. — O treinador confiscou nossos celulares para que tivéssemos "foco total". Eu saí de lá correndo e passei na vila para pegar aqueles bolinhos de limão que você gosta. Eu queria fazer uma surpresa porque sabia que não tinha falado muito com você ontem.
Max sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. A culpa subiu pela sua garganta, amarga e sufocante.
— Luís, eu não... eu só estava...
— "Peso morto"? — Luís repetiu as palavras de Max, e o som delas na voz dele parecia mil vezes pior. — "Projeto de caridade"? É assim que você me vê, Max? Como alguém que está com você por pena?
— Não! Quer dizer, às vezes eu sinto que...
— Eu achei que, depois de três meses, você soubesse que eu não faço nada por obrigação — Luís deu um passo para trás, e o movimento cortou Max mais do que qualquer palavra. — Eu estou com você porque eu quero estar com você. Mas ouvir que você me vê como alguém que está apenas "me aguentando"... dói. Dói muito.
— Me desculpa, eu sou um idiota, eu sou inseguro e... — Max tentou se aproximar, as mãos tremendo.
Luís balançou a cabeça, desviando o olhar. Ele colocou a caixa de bolinhos sobre uma mesa vazia próxima.
— Eu não consigo fazer isso agora, Max. Eu estou exausto, meu corpo dói e ouvir que meu namorado acha que nosso relacionamento é um fardo para mim... eu só preciso ir.
— Luís, espera! — Red tentou intervir, levantando-se. — Ele não quis dizer isso, ele é só um idiota inseguro que não sabe fechar a boca!
Luís forçou um sorriso pequeno e triste para Red, o tipo de sorriso que ele usava quando estava tentando ser forte para os outros.
— Está tudo bem, Red. Eu só... eu tenho aula de História da Magia agora. Não quero me atrasar.
— Luís, por favor — Max implorou, sua arrogância e sarcasmo completamente evaporados, deixando apenas o garoto de dezesseis anos que tinha medo de perder a única coisa boa que já lhe aconteceu.
— A gente se fala depois, Max — Luís disse, sem olhar para trás enquanto se virava e caminhava em direção à saída do refeitório. Seus passos, geralmente firmes e confiantes, pareciam pesados.
Max ficou parado, assistindo as costas largas de Luís desaparecerem pela porta. O silêncio no refeitório parecia ensurdecedor. Ele sentiu o olhar de todos sobre ele — não mais o olhar de inveja por namorar o garoto popular, mas o olhar de julgamento por ter quebrado algo tão precioso.
— Parabéns, Max — Hazel disse, sua voz sem o tom de brincadeira habitual. — Você realmente conseguiu.
— Eu sou um desgraçado — Max sussurrou, deixando os ombros caírem enquanto se afundava de volta na cadeira.
— É, você é — Red concordou, cruzando os braços e encarando o meio-irmão com uma mistura de raiva e tristeza. — E o pior é que o Luís é bom demais para te mandar para o inferno, o que significa que ele vai ficar sofrendo sozinho enquanto você se afoga no seu próprio drama.
Max olhou para a caixa de bolinhos de limão na mesa vizinha. O gesto de carinho de Luís, feito em meio ao cansaço e ao esforço, agora servia como um monumento à sua própria estupidez. Ele sempre teve medo de que Luís percebesse que ele não era bom o suficiente, mas, no final, foi o próprio Max quem provou que sua insegurança era a coisa mais destrutiva entre eles.
Ele não tinha apetite. Ele não tinha palavras sarcásticas. Ele só tinha o vazio de uma cadeira vazia à sua frente e a percepção dolorosa de que o sol de Auradon talvez estivesse começando a se cansar do frio que Max insistia em carregar.