Descendentes
Engrenagens Quebradas e Corações de Vidro
O ar da biblioteca de Auradon Prep sempre teve um cheiro característico: pergaminho antigo, cera de madeira e, no caso da mesa escondida nos fundos, o cheiro metálico de óleo de motor e cobre que emanava das invenções de Max Hatter. Para quem olhasse de longe, Max parecia o epítome do sucesso social. Ele era inteligente, excêntrico na medida certa e, para a surpresa de todos, o namorado do rapaz mais cobiçado e gentil da escola, Luis Madrigal.
Mas, por trás do sorriso enigmático e das cartolas impecáveis, a mente de Max funcionava como um relógio suíço, movida por uma fria e calculista necessidade de reparação.
Max nunca esqueceria o momento em que a realidade "estalou". A sensação de que suas memórias não batiam com o presente, a descoberta de que seu pai, Maddox, não era apenas um louco obcecado por cronômetros, mas uma vítima. Red e Chloe haviam brincado com o tempo. Elas haviam costurado o passado para salvar suas próprias peles e, no processo, desbotaram a vida que Max conhecia. A arrogância daquelas duas, achando que tinham o direito de decidir qual linha temporal era a "correta", fervia em seu sangue.
A vingança não foi algo impulsivo. Foi uma obra de engenharia. Ele sabia que Red, apesar de toda a pose de rebelde do País das Copas, tinha um ponto fraco: Luis Madrigal. O filho da força, o coração de ouro, o rapaz que representava tudo o que havia de puro em Auradon. Roubar Luis não era apenas um troféu; era tirar de Red a única âncora de sanidade que ela tinha naquele novo mundo.
— Você está com aquela cara de novo — comentou Hazel Hook, afiando uma pequena adaga decorativa enquanto balançava as botas de couro sobre a mesa da biblioteca.
Max despertou de seus devaneios, ajustando os óculos de proteção na testa.
— Que cara, Hazel? A cara de um gênio trabalhando?
— A cara de quem está prestes a ter um colapso nervoso se tiver que ouvir mais uma declaração de amor em público — zombou Félix Facilier, embaralhando suas cartas de tarô com uma destreza hipnótica. — Sério, Max. Já faz seis meses. A Red quase teve um aneurisma quando viu vocês dois se beijando no festival. A missão foi cumprida. Por que você ainda está arrastando esse cadáver de relacionamento?
Max soltou um suspiro pesado, largando uma chave de fenda. O peso da farsa estava começando a esmagá-lo. Luis era... demais. Ele era luz demais, toque demais, presença demais.
— Eu sei, eu sei — disse Max, passando a mão pelo cabelo bagunçado. — Acreditem, eu não aguento mais. O idiota é grudento. Ontem ele tentou me fazer um piquenique surpresa. Um piquenique! Eu tive que fingir que estava emocionado enquanto pensava em como as formigas eram mais interessantes que a conversa dele sobre "sentimentos" e "lealdade".
Félix deu uma risadinha seca, virando a carta da Morte na mesa.
— Ele é um brutamontes insuportável, Max. O otimismo dele me dá náuseas. Quando é que você vai dar o chute final? A Red já está no chão. Agora é só pisar.
Max olhou para a sua última invenção sobre a mesa: um estabilizador de partículas temporais que ele esperava que pudesse, um dia, devolver o que ele perdeu. Mas faltavam peças. Peças raras, forjadas com a resistência que só a família Madrigal conseguia obter através de suas conexões comerciais.
— Mais uma semana — declarou Max, sua voz soando fria e desprovida de qualquer afeto. — Só mais uma semana. O idiota é útil, afinal. Ele tem acesso aos depósitos de metais nobres que eu preciso para terminar o núcleo do motor. Ele é tão desesperado para me agradar que atravessa o reino se eu disser que estou com vontade de ver um parafuso diferente. Assim que ele entregar as últimas peças, eu me livro dele. Vai ser o fim da comédia.
— Você é cruel, Hatter — Hazel sorriu, guardando a adaga. — Eu gosto disso.
— Não é crueldade — corrigiu Max, voltando a mexer nas engrenagens. — É justiça. Red tirou meu passado. Eu tirei o futuro dela com o Madrigal. E agora, vou tirar de Luis a ilusão de que alguém como eu poderia realmente amar alguém tão... básico e irritante quanto ele.
O que nenhum dos três notou, protegidos pelo labirinto de estantes altas, foi o som de algo pesado sendo apertado contra um peito largo.
A poucos metros dali, escondido pela sombra de uma estante de História da Magia, Luis Madrigal sentia como se o chão estivesse desaparecendo. Ao seu lado, Robie, o filho de Robin Hood, tinha a mão no arco, os nós dos dedos brancos de raiva, os olhos fixos na silhueta de Max.
Luis não conseguia respirar. Cada palavra de Max havia sido como um prego sendo martelado em sua alma. *Gente cega, egoísta, grudento, idiota, útil.*
Ele olhou para as peças em suas mãos. Ele tinha passado o fim de semana inteiro viajando, usando cada favor que sua família possuía para conseguir aqueles componentes específicos que Max tanto queria. Ele tinha feito isso porque amava Max. Porque achava que, por trás daquela fachada cínica e das obsessões com o tempo, havia alguém que finalmente o via não apenas como "o Madrigal forte", mas como Luis.
Que erro tolo.
— Luis... — sussurrou Robie, a voz carregada de pena e fúria. — Vamos sair daqui. Você não precisa ouvir isso. Deixa que eu cuido dele.
Luis balançou a cabeça lentamente. Seu rosto, geralmente cheio de vivacidade e sorrisos, estava agora como uma máscara de mármore. A dor era tão intensa que havia ultrapassado o estágio das lágrimas e chegado a um vazio absoluto.
Ele se afastou da proteção da estante. Seus passos eram pesados, mas firmes.
Na mesa, o trio de vilões (ou filhos de) continuava a rir. Max estava descrevendo como planejava terminar o namoro da forma mais dramática possível para garantir que Red visse tudo.
— E então eu vou dizer que cada beijo foi como limpar o chão com a língua e...
O silêncio caiu sobre a mesa como uma guilhotina.
Luis parou diante de Max. Robie estava logo atrás, os braços cruzados, lançando um olhar de puro desprezo para Hazel e Félix, que instantaneamente perderam o sorriso.
Max congelou. Seus olhos se arregalaram, a cor fugindo de seu rosto enquanto ele olhava para Luis. Ele tentou formular uma frase, um "oi, querido" ou qualquer outra mentira que costumava sair com tanta facilidade, mas a garganta secou.
Luis não disse nada por um longo momento. Ele apenas olhou para Max, não com ódio, mas com uma desilusão tão profunda que fez o Hatter se sentir menor do que um inseto.
Com um movimento lento, Luis estendeu as mãos e soltou as peças metálicas sobre a mesa. O som do metal batendo na madeira soou como um tiro no silêncio da biblioteca. As peças rolaram, parando exatamente ao lado da invenção de Max.
Max engoliu em seco, tentando recuperar a compostura.
— Luis... há quanto tempo você...
— Pronto — interrompeu Luis. Sua voz estava completamente desprovida de emoção. Não havia o calor habitual, nem a vibração, nem a doçura. Era apenas um som oco.
Max piscou, confuso pela brevidade.
— O quê?
— Namoro terminado — disse Luis, fixando seus olhos nos de Max uma última vez.
Não houve gritos. Não houve cobranças sobre a vingança contra Red, sobre ter sido usado como uma ferramenta, ou sobre os meses de mentiras. Luis Madrigal não deu a Max a satisfação de uma cena. Ele apenas retirou sua existência da vida do Hatter.
Sem esperar por uma resposta, Luis deu meia-volta e caminhou em direção à saída.
— Luis, espera! — Max exclamou, levantando-se por puro instinto, embora não soubesse o que diria.
Robie deu um passo à frente, bloqueando o caminho de Max com o braço. O filho de Robin Hood tinha um sorriso amargo no rosto.
— Você conseguiu o que queria, não conseguiu, Hatter? As peças estão aí. O plano funcionou. Red está triste, e você está livre do "idiota".
— Sai da frente, Robie — rosnou Max, tentando empurrá-lo, mas o arqueiro era como uma parede.
— Não — disse Robie friamente. — Você não vai atrás dele. Você já tirou o suficiente. Fica com seus metais e seu relógio quebrado. Pelo menos eles são tão frios quanto você.
Robie se virou e seguiu o amigo, deixando Max parado no meio da biblioteca, cercado pelo silêncio desconfortável de Hazel e Félix.
Max olhou para a mesa. As peças estavam lá. Eram perfeitas. Exatamente o que ele precisava para completar sua máquina e, talvez, desfazer o que Red e Chloe haviam feito. Ele deveria estar comemorando. Ele deveria estar rindo com seus amigos sobre como o destino tinha facilitado o trabalho sujo.
Mas, pela primeira vez em meses, o silêncio da biblioteca parecia opressor. O cheiro de óleo e metal parecia enjoativo.
— Bem... — Hazel começou, tentando quebrar a tensão. — Isso foi... eficiente. Menos trabalho para você, Max.
— É — concordou Félix, embora parecesse incerto. — O Madrigal finalmente serviu para algo útil antes de sumir. Vamos, vamos comemorar no refeitório.
Max não se mexeu. Ele olhou para o lugar onde Luis estivera parado. A imagem da expressão vazia do rapaz estava gravada em sua retina. Ele tinha planejado a dor de Red, tinha planejado a utilidade de Luis, tinha planejado cada segundo daquela farsa.
Mas ele não tinha planejado o peso súbito em seu próprio peito.
— Max? — Hazel o chamou. — Você vem?
Max olhou para as peças na mesa. Elas brilhavam sob a luz da biblioteca, frias e inertes.
— Vão na frente — disse Max, sua voz soando estranha até para si mesmo. — Eu... eu preciso terminar isso aqui.
Seus amigos deram de ombros e saíram, deixando-o sozinho. Max sentou-se lentamente. Ele pegou uma das peças que Luis tinha trazido. Estava quente. Provavelmente pelo contato com as mãos de Luis durante todo o caminho até ali.
Ele tentou encaixar a peça em sua invenção, mas suas mãos tremiam. O grande Max Hatter, o mestre das engrenagens e dos planos, não conseguia encaixar um simples parafuso.
Ele tinha conseguido sua vingança. Tinha recuperado suas peças. Tinha destruído o vínculo de Red.
Então por que, pela primeira vez desde que o tempo mudou, ele sentia que era ele quem tinha perdido tudo?
Max olhou para a porta da biblioteca, esperando, por um segundo idiota e irracional, que o "brutamontes carinhoso" voltasse correndo com um sorriso bobo e uma desculpa qualquer. Mas a porta permaneceu fechada.
O relógio na parede da biblioteca continuava a tiquetaquear, indiferente. O tempo seguia em frente, mas para Max Hatter, pela primeira vez, o tempo parecia ter parado em um momento de absoluta e completa solidão.
Ele tinha as peças. Mas o motor de seu próprio coração parecia ter finalmente quebrado.