Diablo
O Peso de uma Coroa e a Coleira de um Primordial
A tensão no salão não havia diminuído; ela apenas mudara de forma, transformando-se de um terror agudo em uma ansiedade latente que corroía os nervos de quase todos os presentes. Rimuru Tempest, sentado em sua cadeira ornamentada, sentia o peso de cada olhar sobre si. Ele olhou para o lado, vendo Diablo parado com uma postura impecável, mas cujos olhos ainda brilhavam com uma promessa de violência contida dirigida a Guy Crimson.
Rimuru levou a mão à testa, massageando as têmporas. "Eu deveria ter trazido o Benimaru", pensou ele, a voz de sua mente ecoando com um arrependimento genuíno. "Ou talvez o Veldora. Pelo menos o Veldora eu posso distrair com mangás e salgadinhos. O Diablo... o Diablo é como uma ogiva nuclear que se ofende se alguém respira perto de mim."
— Sabe, Rimuru — Guy começou novamente, sua voz carregada de um divertimento cruel enquanto ele girava uma taça de vinho entre os dedos longos. — Eu realmente me pergunto o que passou pela sua cabeça. Trazer o Noir para um evento diplomático é como levar um dragão faminto para um galinheiro e esperar que ele não coma ninguém. Você não tem subordinados mais... digamos... civilizados?
Diablo estremeceu. Não foi um movimento de medo, mas sim uma reação física à insinuação de que ele era uma escolha inadequada para seu mestre.
— Talvez — continuou Guy, ignorando o rosnado baixo que emanava de Diablo — aquele jovem Kijin de cabelos vermelhos fosse mais adequado. Ou até o Dragão da Tempestade. Pelo menos eles entendem o conceito de 'etiqueta básica', algo que Noir sempre considerou opcional.
Rimuru, exausto e agindo por puro instinto de cansaço, soltou um suspiro pesado e murmurou, quase para si mesmo:
— É... talvez eu devesse ter trazido o Benimaru mesmo. Ou o Veldora. Pelo menos a papelada depois seria menor.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. O ar pareceu fugir dos pulmões de Diablo. O demônio primordial, que enfrentara exércitos sem piscar e que via a morte como um mero detalhe, pareceu murchar. Seus ombros caíram milímetros, e a aura de escuridão que o cercava vacilou como uma chama sob a chuva.
— Rimuru-sama... — a voz de Diablo saiu em um sussurro quebrado, carregado de uma agonia existencial. — O senhor... o senhor se arrepende da minha presença? Eu falhei de forma tão abjeta que o senhor deseja a companhia daquele lagarto barulhento ou do general de infantaria em meu lugar?
Diablo virou-se lentamente para Guy, e a tristeza em seus olhos transformou-se instantaneamente em um ódio vulcânico.
— Isso é culpa sua! — rugiu Diablo, apontando uma garra trêmula de fúria para Guy Crimson. — Você, com suas provocações baratas e sua existência medíocre, poluiu os pensamentos de Rimuru-sama! Você semeou a dúvida no coração da perfeição!
— Minha culpa? — Guy soltou uma gargalhada genuína, levantando-se. — Eu apenas apontei o óbvio, Noir! Você é um desastre esperando para acontecer. Veja só, você está tendo um colapso nervoso porque seu mestre suspirou. Você é patético!
— Patético é você, que precisa de um trono de gelo para esconder sua própria solidão! — rebateu Diablo, dando um passo à frente, sua elegância de mordomo sendo substituída por uma sede de sangue primitiva. — Eu vou arrancar essa sua língua atrevida e oferecê-la a Rimuru-sama como um pedido de desculpas por ter ouvido tamanha heresia!
— Tente, se for capaz! — Guy respondeu, seus olhos vermelhos brilhando com o poder do Lorde Demônio original. — Faz eras que não luto com alguém que vale a pena. Vou adorar colocar você de volta no seu lugar, no fundo do abismo!
Os dois seres mais perigosos da sala começaram a trocar insultos que beiravam o infantil, apesar do poder destrutivo que emanavam. Era uma cena bizarra: dois titãs cósmicos batendo boca como crianças em um parquinho, enquanto o espaço ao redor deles rachava e tremia.
— Você é um exibido! — gritou Diablo.
— E você é um obcecado esquisito! — retrucou Guy.
— Parem com isso! — Rimuru gritou, levantando-se da cadeira. A pressão de sua aura, amplificada pela habilidade de Raphael, expandiu-se como uma cúpula azulada, forçando os dois demônios a pararem o confronto físico iminente.
Rimuru olhou para Diablo com um olhar severo, o tipo de olhar que ele usava quando Shion tentava cozinhar algo novo.
— Diablo! Chega! Se você não se acalmar agora e parar de brigar com o Guy, eu juro que vou te deixar de castigo. E não vai ser um castigo curto. Você vai ficar proibido de me servir chá ou de entrar no meu escritório por um mês inteiro!
O impacto daquelas palavras foi mais forte do que qualquer ataque mágico. Diablo caiu de joelhos, as mãos no chão, parecendo que tinha acabado de ser atingido por uma Desintegração direta.
— Um mês... sem servir o chá de Rimuru-sama... — Diablo murmurou, o horror estampado em seu rosto. — Não... isso seria o fim da minha existência... a morte seria uma misericórdia comparada a tal tortura...
Guy Crimson cruzou os braços, um sorriso de vitória nos lábios.
— Hah! Viu só? É isso que você ganha por ser tão... — Guy começou a zombar, mas foi interrompido por uma voz estridente.
— Você devia calar a boca, Guy! — Milim Nava, que até então estava apenas observando com interesse, apontou para ele com uma expressão séria. — Você não sabe do que está falando! O Rimuru é muito, muito malvado quando dá castigos!
Guy piscou, surpreso pela intervenção de sua velha amiga.
— Do que você está falando, Milim? É apenas um castigo.
— "Apenas um castigo"?! — Ramiris, flutuando perto da cabeça de Rimuru, estremeceu visivelmente. — Guy, você não entende! Quando o Rimuru fica bravo e coloca a gente de castigo, ele corta os nossos privilégios! Ele me proibiu de ir ao laboratório por uma semana uma vez! Eu quase morri de tédio! Tédio mortal!
— Ele tirou meu mel por três dias! — Milim acrescentou, cruzando os braços e fazendo um bico indignado. — Três dias, Guy! Eu tive que comer comida normal! Sem açúcar! Foi a pior experiência da minha vida de lorde demônio!
Os outros membros do Octagrama — Leon, Luminous e os demais — observavam a cena com uma mistura de choque e incredulidade. Leon Cromwell, em particular, parecia estar tentando processar a informação de que a destrutiva Milim Nava e o lendário Noir eram controlados por ameaças de "ficar sem doce" ou "não poder servir chá".
— Esperem um pouco — disse Luminous Valentine, ajustando sua postura com uma elegância fria, embora seus olhos mostrassem confusão. — Vocês estão me dizendo que o Dragão da Tempestade, Veldora, a Tirana Milim e agora esse Primordial... todos eles obedecem a ordens de castigo como se fossem crianças em uma creche?
— Veldora é o mais fácil — Rimuru comentou, dando de ombros e sentindo-se um pouco envergonhado pela exposição. — É só ameaçar confiscar os mangás dele ou contar para a irmã dele, a Velzard, que ele anda fazendo bagunça. Ele vira um gatinho na hora.
Guy olhou de Rimuru para Diablo, que ainda estava em posição de súplica no chão, e depois para Milim, que parecia genuinamente traumatizada pela lembrança da falta de mel.
— Rimuru... — Guy disse, sua voz perdendo o tom de deboche e assumindo um tom de genuíno questionamento. — O que exatamente você é? Você não é apenas um lorde demônio. Você é um... domador de monstros de classe mundial?
— Eu sou apenas um slime que quer uma vida pacífica — Rimuru suspirou, sentando-se novamente. — Diablo, levante-se. Se você se comportar pelo resto da reunião, eu retiro a ameaça do castigo.
Como se tivesse recebido uma descarga de energia vital, Diablo saltou de pé, limpando a poeira invisível de seu terno com uma eficiência sobre-humana. Seu sorriso de mordomo voltou, brilhando mais do que nunca, embora seus olhos ainda lançassem um último olhar de "eu venci" para Guy.
— Certamente, Rimuru-sama! — Diablo exclamou com devoção renovada. — Minha conduta será impecável. Ninguém ousará dizer que o servo de Rimuru-sama carece de compostura.
— Inacreditável — murmurou Leon Cromwell, massageando as têmporas. — Nós estamos em uma reunião para decidir o destino do mundo e estamos discutindo castigos infantis para seres que poderiam apagar nações do mapa.
— Bem — disse Rimuru, tentando retomar o controle da situação —, agora que todos estão... "calmos", podemos voltar à pauta sobre as rotas comerciais e o tratado de não-agressão?
Guy Crimson sentou-se lentamente em seu trono, observando Rimuru com um interesse renovado. Ele percebeu que o poder de Rimuru não residia apenas em sua força bruta ou em sua inteligência tática, mas em algo muito mais assustador e incompreensível para os outros lordes demônios: a capacidade de domar os egos mais selvagens do universo e transformá-los em uma família — ainda que uma família disfuncional e perigosa.
— Tudo bem, Rimuru — Guy sorriu, desta vez sem malícia, mas com um respeito genuíno. — Vamos prosseguir. Mas Noir... se você tentar me atacar de novo, eu vou garantir que o Rimuru saiba que foi você quem quebrou o conjunto de chá favorito dele.
Diablo rosnou, as garras aparecendo por um milésimo de segundo.
— Eu nunca quebraria algo pertencente ao meu mestre, seu demônio de baixo calão!
— Diablo... — Rimuru alertou, com a voz baixa.
— Silêncio absoluto, Rimuru-sama! — Diablo respondeu instantaneamente, fechando a boca e assumindo uma pose de estátua.
Os outros Lordes Demônios trocaram olhares. Eles sabiam que, a partir daquele dia, o Octagrama nunca mais seria o mesmo. O equilíbrio de poder havia mudado, não por causa de exércitos ou magia negra, mas por causa de um slime azul que conseguia governar o caos com a promessa de um pote de mel e a ameaça de um castigo de silêncio.
Enquanto a reunião avançava, Rimuru sentia que, apesar de toda a loucura, ele tinha o controle da situação. Ou, pelo menos, o controle necessário para evitar que o mundo explodisse antes do jantar. E Diablo, parado atrás dele, permanecia como uma sombra vigilante, pronto para destruir qualquer um que ousasse interromper a paz de seu mestre — desde que, é claro, isso não o deixasse de castigo.