Diablo
O Crepúsculo dos Deuses e a Tirania do Açúcar
A reunião do Octagrama, que deveria ser um marco de diplomacia e seriedade, havia se tornado um campo de batalha psicológico onde a lógica comum não tinha morada. Rimuru, que já sentia os primeiros sinais de uma enxaqueca metafísica, tentava desesperadamente focar no mapa de distribuição de recursos da Floresta de Jura. No entanto, o ar ao seu redor estava carregado com uma eletricidade estática tão densa que pequenas faíscas negras começaram a saltar das pontas dos dedos de Diablo.
Guy Crimson, recostado em seu trono com uma elegância que beirava o insulto, não conseguia conter o brilho malicioso em seus olhos. Ele havia encontrado um novo tipo de entretenimento, algo que não sentia há milênios. Ver o temido Noir, o demônio que outrora era o símbolo do caos absoluto e da indiferença, agindo como um mordomo submisso era uma piada que ele não pretendia parar de contar.
— Diga-me uma coisa, Rimuru — Guy começou, sua voz deslizando pelo salão como veludo sobre navalhas. — Esse seu... acessório de terno preto... ele também limpa o chão com a língua se você pedir? Ou ele guarda essa habilidade apenas para lustrar suas botas antes de você entrar aqui?
O som de algo estraçalhando ecoou. Diablo havia apertado sua bandeja de prata com tanta força que o metal se retorceu como se fosse papel.
— Lorde Guy — a voz de Diablo era um sussurro vindo das profundezas do abismo —, sua persistência em insultar a dignidade deste cargo é comparável apenas à sua ignorância. Servir a Rimuru-sama é uma função que exige uma pureza de propósito que um ser vulgar como você, que se cerca de mulheres e luxo mundano para preencher o vazio da própria alma, jamais compreenderia.
— Vazio da alma? Que poético! — Guy riu, inclinando-se para frente, a pressão de sua aura carmesim colidindo com a escuridão de Diablo. — Eu só acho fascinante como o grande Noir se tornou um animal de estimação tão bem adestrado. Rimuru, ele já aprendeu a dar a patinha? Ou talvez ele balance o rabo quando você traz aqueles doces que a Milim tanto gosta?
Diablo deu um passo à frente. O chão sob seus pés não apenas rachou; ele se transformou em pó fino. As pupilas do demônio primordial tornaram-se fendas de ouro líquido, e a realidade ao redor de sua mão direita começou a se distorcer, sinalizando a ativação iminente de uma magia de colapso.
— Eu vou apagar cada traço da sua existência — rosnou Diablo, a polidez finalmente dando lugar à natureza predatória do Primordial Preto. — Eu vou garantir que nem mesmo a memória de sua insolência permaneça neste mundo.
— Tente, Noir! — Guy levantou-se, as chamas de sua aura incendiando o oxigênio ao redor. — Vamos ver se esse seu avental de mordomo aguenta o calor do fim dos tempos!
— JÁ CHEGA! — O grito de Rimuru não foi apenas alto; foi carregado com a "Voz do Mundo" através de Raphael. A onda de choque silenciou as chamas e estabilizou o espaço distorcido instantaneamente.
Rimuru levantou-se, e desta vez, não havia cansaço em seu rosto. Havia uma fúria fria, o tipo de irritação que só alguém que lidou com crianças birrentas o dia todo poderia manifestar. Ele olhou para Diablo, que congelou no lugar, e depois voltou seus olhos prateados para Guy Crimson.
— Eu estou farto disso — disse Rimuru, e sua voz ecoou com uma autoridade que fez até Leon Cromwell se empertigar na cadeira. — Diablo, eu já te avisei. Você está oficialmente proibido de falar por dez minutos. Se abrir a boca, o castigo do chá sobe para três meses.
Diablo empalideceu e cobriu a própria boca com as mãos enluvadas, balançando a cabeça freneticamente em sinal de obediência.
— E você, Guy — Rimuru apontou um dedo acusador para o Lorde Demônio mais antigo. — Você acha que é engraçado? Você acha que pode vir aqui, no meio de uma reunião importante, e ficar cutucando meus subordinados só porque está entediado?
Guy cruzou os braços, mantendo o sorriso arrogante.
— Ora, Rimuru, não seja tão sensível. É apenas uma brincadeira entre velhos conhecidos.
— Pois a brincadeira acabou — Rimuru declarou, e um brilho azulado emanou de seu corpo. — Guy Crimson, a partir deste momento, você está oficialmente banido de Tempest.
O sorriso de Guy vacilou por um milésimo de segundo.
— Banido? Você sabe que fronteiras não significam nada para mim, certo?
— Eu não terminei — Rimuru continuou, sua voz ganhando um tom de sentença final. — Você está proibido de entrar na zona termal de Tempest. Se você tentar atravessar a barreira, eu pessoalmente vou garantir que a água se transforme em gelo seco no momento em que sua pele tocar nela. Além disso, eu estou cancelando todos os envios de suprimentos de luxo para o seu castelo.
Guy piscou, a confusão começando a nublar sua confiança.
— Suprimentos de luxo?
— Sim — Rimuru sorriu, mas era um sorriso predatório. — Nada de bolinhos de arroz temperados. Nada de doces de elite da confeitaria da Shuna. E, principalmente, nada daquela reserva especial de saquê que eu prometi te trazer na próxima visita. Você está em castigo, Guy. Sem termas, sem comida boa e sem visitas.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer aura mágica. Guy Crimson olhou para Rimuru como se o slime tivesse acabado de confessar que pretendia apagar o sol. Para um ser que viveu eras e já experimentou quase tudo, as novidades gastronômicas e o conforto das termas de Tempest haviam se tornado os únicos prazeres genuínos em sua eternidade monótona.
— Você... você não faria isso — Guy sussurrou, a voz subitamente desprovida de sua arrogância habitual. — Rimuru, os bolinhos de Shuna... eles são o equilíbrio do meu humor semanal. E as termas... Velzard finalmente parou de reclamar do frio por causa daquelas fontes! Se você me proibir de entrar, ela vai transformar meu castelo em um iceberg permanente!
— Problema seu — Rimuru deu de ombros, sentando-se novamente com uma calma gélida. — Você agiu como uma criança, agora será tratado como uma.
Guy olhou ao redor, o pânico começando a surgir em suas feições perfeitas. Ele viu Diablo, que apesar de estar proibido de falar, exibia um olhar de triunfo absoluto, quase como se estivesse dançando internamente.
— Milim! — Guy virou-se para a sua amiga de longa data. — Milim, faça alguma coisa! Você é a melhor amiga dele! Diga a ele que isso é uma violação dos direitos básicos de um Lorde Demônio!
Milim, que estava ocupada tentando limpar um pouco de mel do canto da boca, olhou para Guy com uma expressão de profunda tristeza e piedade.
— Sinto muito, Guy — disse ela, balançando a cabeça. — Eu já passei por isso. Quando o Rimuru decide o castigo, não há força no universo que o faça mudar de ideia. Se eu tentar te ajudar, ele pode aumentar o meu tempo sem mel, e eu não sou tão corajosa quanto você.
— Ramiris! — Guy apelou para a pequena fada, que estava tentando se esconder atrás de uma garrafa de vinho.
— Nem olhe para mim! — Ramiris gritou. — Eu ainda estou tentando recuperar meu acesso à biblioteca de mangás! Se eu me meter, o Rimuru me tranca em uma lanterna mágica por uma semana!
Guy Crimson, o Lorde Demônio que enfrentou o Criador do Mundo, o ser que governava o continente de gelo com mão de ferro, estava agora à beira de um colapso nervoso. Ele olhou para Luminous Valentine, esperando encontrar algum apoio na lógica fria da vampira.
— Luminous, por favor. Você entende a importância da etiqueta e do intercâmbio cultural. Proibir um Lorde Demônio de acessar as termas é um ato de guerra!
Luminous tomou um gole de seu vinho, olhando para Guy com um desdém supremo.
— Pelo contrário, Guy. É um ato de higiene diplomática. Se você não consegue se comportar à mesa, não merece os privilégios do banho. Além disso, se o Rimuru cancelar o saquê, sobrará mais para mim. Eu apoio totalmente a decisão.
Guy sentiu seu mundo desmoronar. Ele caiu de volta em seu trono, as mãos puxando levemente os cabelos vermelhos.
— Rimuru... por favor — ele implorou, e a cena era tão absurda que Leon Cromwell cobriu os olhos com a mão, incapaz de continuar assistindo. — Eu retiro o que disse sobre o Noir. Ele é um mordomo excelente! O melhor do mundo! Ele... ele até combina com esse terno! Apenas não me tire os bolinhos!
— Não — Rimuru disse, implacável.
— Eu te dou metade do meu território! — Guy exclamou, desesperado. — Eu te dou artefatos de nível mítico! Eu te dou o que você quiser, mas eu preciso daquela água termal e do pudim de matcha!
Rimuru suspirou, olhando para todos os presentes. Ele viu Milim com cara de choro, Ramiris tremendo, Diablo em silêncio absoluto com um sorriso maníaco, e Guy Crimson implorando como um condenado.
— Olhem para vocês — Rimuru disse, sua voz carregada de uma decepção paternal que doía mais do que qualquer feitiço. — Vocês são os Lordes Demônios do Octagrama. Os seres que deveriam governar este mundo com sabedoria e força. E aqui estamos nós, discutindo como se fôssemos alunos de uma escola primária brigando pelo lanche.
— Mas Rimuru-sama... — Diablo começou, esquecendo-se da proibição de falar.
— Diablo! Mais cinco minutos de silêncio! — Rimuru cortou-o imediatamente.
Diablo voltou a cobrir a boca, os olhos lacrimejando de emoção por ter sido repreendido novamente.
— Guy — Rimuru voltou-se para o ruivo —, eu vou reconsiderar o seu banimento se, e somente se, você se desculpar adequadamente com o Diablo e prometer que não vai transformar cada reunião em um show de insultos. E você vai ter que assinar este tratado de comércio sem reclamar de uma única cláusula.
Guy nem sequer olhou para o papel. Ele pegou uma pena, assinou seu nome com uma velocidade que rompeu a barreira do som e depois virou-se para Diablo.
— Noir... Diablo... — Guy forçou as palavras a saírem. — Eu... peço desculpas por ter sugerido que você era um acessório de moda. Você é um subordinado... muito eficiente.
Diablo olhou para Rimuru, pedindo permissão com os olhos para responder. Rimuru assentiu levemente.
— Kufufufu — a risada de Diablo ecoou, desta vez cheia de uma condescendência vitoriosa. — Eu aceito suas desculpas, Lorde Guy. Afinal, é dever de um servo superior perdoar as falhas daqueles que não possuem o privilégio de servir à luz de Rimuru-sama.
Guy trincou os dentes, mas não retrucou. O medo de perder o acesso aos doces de Tempest era maior do que seu orgulho primordial.
— Ótimo — disse Rimuru, massageando as têmporas e sentando-se. — Agora, podemos, por favor, terminar esta reunião como adultos? Eu tenho uma cidade para governar e, sinceramente, lidar com vocês é muito mais cansativo do que enfrentar um exército de anjos.
A reunião prosseguiu em um silêncio sepulcral e produtivo. Guy não ousou dizer mais uma palavra fora de contexto, Milim permaneceu comportada na esperança de ganhar um bônus de mel, e Diablo serviu o chá com uma graça que beirava o divino, sentindo-se o vencedor daquela guerra silenciosa.
Ao final do encontro, enquanto os Lordes Demônios se retiravam, Guy aproximou-se de Rimuru com um olhar cauteloso.
— Então... os bolinhos de amanhã ainda estão confirmados? — perguntou ele, quase em um sussurro.
Rimuru olhou para o ser mais poderoso do mundo e viu apenas um viciado em açúcar em busca de sua próxima dose.
— Estão, Guy. Estão confirmados. Mas se eu ouvir uma única gracinha sobre o Diablo ou sobre o meu tamanho, eu juro que a próxima coisa que você vai comer será a comida da Shion.
Guy Crimson estremeceu visivelmente. Ele conhecia a reputação da culinária de Shion.
— Entendido. Sem gracinhas.
Enquanto Rimuru e Diablo caminhavam em direção ao portal de volta para Tempest, o slime não pôde deixar de pensar que, embora Diablo fosse uma força da natureza aterrorizante, o verdadeiro poder não estava em magias de destruição em massa. O verdadeiro poder estava em saber exatamente qual sobremesa usar como moeda de troca para manter o apocalipse sob controle.
— Rimuru-sama — disse Diablo, caminhando meio passo atrás dele. — O senhor foi verdadeiramente aterrorizante hoje. A forma como o senhor colocou o Lorde Guy em seu devido lugar... foi uma obra de arte da manipulação política.
— Eu só queria que ele calasse a boca, Diablo — Rimuru suspirou. — Só isso.
— Kufufufu. E ele calou. O senhor governa não apenas os monstros, mas os próprios desejos dos deuses. É uma honra sem igual ser seu mordomo.
Rimuru olhou para o céu estrelado do mundo dos demônios e sorriu por trás de sua máscara. O mundo podia ser um lugar perigoso e cheio de lordes demônios instáveis, mas enquanto ele tivesse o controle do estoque de açúcar e das águas termais, a paz estaria garantida. Ou, pelo menos, garantida até a próxima reunião.