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Do vôlei a vida (o caos perfeito)

Tons de Pele e Orgulho Ferido

O vapor quente da água dos chuveiros ainda transformava o vestiário do Scandicci em uma névoa densa e aromática. O barulho das portas de metal batendo e as risadas das jogadoras se misturavam ao eco característico do pós-treino, mas para Julia Bergmann, o mundo parecia ter entrado em câmera lenta.

Enrolada em sua toalha branca, os cabelos ruivos ainda úmidos colando nas costas, Julia tentava, sem qualquer sucesso, manter os olhos fixos em sua bolsa esportiva. No entanto, sua natureza expressiva e indiscreta sempre falava mais alto. A poucos passos dali, Ekaterina Antropova terminava de se secar. A luz fria do vestiário desenhava cada músculo definido das costas e dos ombros largos da russa-italiana. Havia uma imponência crua na forma como Kate se movia, uma postura quase imperial que fazia o estômago de Julia dar nós sucessivos.

Como se sentisse o peso daquele escrutínio possessivo, Kate virou o rosto devagar. Os olhos azuis, intensos e afiados, cravaram-se diretamente nos olhos verdes de Julia. Kate não desviou. Sustentou o olhar, erguendo discretamente o queixo em um desafio mudo que deixou as bochechas da brasileira queimando instantaneamente.

Julia engoliu em seco, forçando-se a desviar a atenção para seus próprios sapatos, enquanto o coração insistia em martelar descompassado contra a caixa torácica.

Pouco depois, cada atleta recolheu seus pertences rumo ao prédio residencial reservado pelo clube. Julia havia sido acomodada em um apartamento dividido com Maja Ognjenović, a veterana e levantadora da equipe, além de uma das amigas mais próximas de Kate. Julia mantinha uma cautela quase sagrada: evitava fazer perguntas sobre a vida pessoal de Kate, morrendo de medo de que sua curiosidade traísse o misto de ciúme e fascínio que tentava esconder a sete chaves.

Já no quarto, enquanto desfazia a mochila, Julia ouviu Maja se aproximar da porta com uma toalha nos ombros e um sorriso sereno.

— Algumas meninas do time estão combinando de ir a um restaurante aqui perto, a alguns minutos do ginásio — disse Maja, apoiando-se no batente. — Uma espécie de boas-vindas oficial para você e para integrar o grupo. Você vem com a gente, não vem?

Julia ajeitou uma mecha de cabelo com seu habitual toque dramático e suspirou, fingindo exaustão.

— Acho melhor não, Maja... O treino de hoje me quebrou inteira. Minhas pernas estão pesadas, a mudança de país ainda tá me deixando aérea... Acho que só preciso da minha cama.

Maja soltou uma risada baixa e entrou no quarto, cruzando os braços.

— Nem pensar, Bergmann. Primeiro dia oficial e você já quer se isolar? Nem invente desculpas. A comida italiana cura qualquer cansaço de viagem e, além do mais, Kate e as outras estão esperando por você. Vá escolher uma roupa, nada de drama.

Ao ouvir o nome de Kate, uma faísca de eletricidade correu pela espinha de Julia. Ela tentou manter o rosto neutro, mas a menção da loira minou qualquer resistência real.

— Tá bem, você venceu — cedeu Julia, revirando os olhos com um bico infantil. — Mas só porque você insistiu muito.

Meia hora depois, as duas desceram para a recepção do edifício residencial.

Quando as portas do elevador se abriram, Julia imediatamente congelou. A maior parte das jogadoras já estava reunida, conversando em pequenos grupos, mas o campo de visão da ruiva foi sumariamente dominado por Ekaterina.

Kate vestia uma blusa de alça branca, básica e impecável, sobreposta por uma jaqueta moderna em tom de pele. Um short jeans na mesma paleta nude completava a silhueta longa de suas pernas atléticas, equilibrada com tênis brancos impecáveis. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto, destacando o desenho forte do maxilar e a intensidade gélida de seus olhos azuis.

No instante em que Julia deu o primeiro passo no saguão, o olhar de Kate travou nela com o mesmo impacto.

Julia havia escolhido um vestido tubinho justo em tom de pele, de tecido leve que abraçava suas curvas com precisão, com alças finas que pareciam prestes a escorregar pelos ombros desnudos a qualquer movimento mais brusco. Nos pés, usava sandálias de salto pequeno com detalhes brilhantes que reluziam suavemente sob a iluminação quente da recepção.

Sarah Fahr foi a primeira a quebrar o silêncio com uma gargalhada escandalosa, apontando para as duas.

— Santo Deus, quem é que você veio matar aqui em Florença essa noite, Bergmann?

— Não é só isso! — outra colega de equipe emendou, cutucando Kate com o cotovelo. — Vocês duas por acaso combinaram a paleta de cores? Vieram gêmeas em tom de pele ou isso é pura telepatia?

— Destino, com certeza — brincou outra reserva, arrancando risadas gerais.

O rosto de Julia esquentou em uma velocidade vertiginosa. Ela tentou ajeitar a alça do vestido com desdém disfarçado.

— Foi pura coincidência, garotas. Cores neutras são práticas.

Kate manteve a pose altiva, mas seus olhos azuis desceram e subiram vagarosamente pelo corpo de Julia antes que ela pigarreasse, desviando o olhar para a porta com uma indiferença que não convenceu ninguém.

— Vamos logo antes que a reserva caia — disse a oposta loira, sua voz soando mais rouca do que o habitual.

A divisão dos carros foi rápida. Maja assumiu o volante de um dos veículos, e o destino — ou a falta de opções nos assentos — colocou Julia e Kate juntas no banco de trás.

O carro partiu, cortando as ruas charmosas e iluminadas de Scandicci. O silêncio no banco traseiro parecia carregado de uma voltagem palpável. Julia olhava para a janela, sentindo o calor do corpo de Kate a meros centímetros do seu a cada curva que o automóvel fazia.

De repente, Kate inclinou-se sutilmente. A aproximação fez o coração de Julia disparar. A respiração morna da loira roçou a curva da orelha da brasileira, arrepiando os pelos de sua nuca.

— Você está linda, ruiva — sussurrou Kate em um tom baixo, confidencial, audível apenas para as duas.

Julia engoliu o ar de uma vez, sentindo as bochechas pegarem fogo na penumbra do carro. Mordeu o lábio inferior antes de se virar para encará-la, respondendo em um sussurro hesitante:

— Obrigada... Você também não está nada mal. Tá muito bonita e estilosa.

Kate soltou um riso nasalado, entretida com o constrangimento evidente de Julia.

No banco da frente, porém, nada passava despercebido. Maja olhou pelo espelho retrovisor com um sorriso ladino e a sobrancelha arqueada.

— Vocês duas combinam demais — soltou a levantadora com naturalidade desarmante. — E não estou falando apenas de amizade ou de roupa.

A declaração ecoou no espaço fechado como uma pequena explosão. Julia sentiu o rosto queimar com tanta força que teve medo de estar brilhando no escuro. Kate, por sua vez, virou o rosto bruscamente em direção à janela, mas Julia viu com perfeita clareza o canto dos lábios da loira se curvarem em um sorriso involuntário e bobo, que ela tentava inutilmente sufocar.

Pelo resto do trajeto, nenhum outro comentário foi feito. O silêncio que se instalou não era desconfortável, mas denso, doce e elétrico, daqueles que fazem o tempo passar devagar demais e deixam a respiração presa na garganta.

Ao chegarem ao restaurante, as mesas longas já estavam reservadas em uma área aconchegante, repleta de madeira rústica e luzes âmbar. Naturalmente, as jogadoras foram se acomodando, e Julia acabou sentando-se exatamente ao lado de Kate. Os pedidos de massas e antepastos foram feitos, e o jantar correu animado, embalado pelo sotaque misturado de várias nacionalidades falando alto.

No entanto, nos fundos do salão, havia um bar sofisticado onde a música era um pouco mais alta e os drinques coloridos atraíam os clientes. Conforme a refeição terminava, metade do time migrou para a bancada do bar.

Julia, Maja e Kate caminharam até lá para pedir suas bebidas. Contudo, em questão de minutos, ficou evidente que a loira havia exagerado na dose. Já no segundo coquetel forte, Kate gesticulava com mais soltura, a postura severa amolecendo sob o efeito do álcool.

— Kate, chega — alertou Maja, tocando no braço da amiga com autoridade de capitã. — Você já bebeu mais do que devia para um pós-treino. Para por aí.

— Eu estou ótima, Maja — rebateu Kate, a voz arrastada, soltando uma risada teimosa e afastando a mão da levantadora.

Julia observava tudo a poucos passos de distância, mas sua atenção logo foi desviada por outro fator. O bar não era frequentado apenas por atletas do clube. Havia grupos de jovens italianas ao redor do balcão, e não demorou para que duas mulheres começassem a lançar olhares indisfarçáveis na direção da imponente oposta loira.

Aproximando-se com risinhos fáceis e copos na mão, uma das mulheres puxou assunto com Kate em italiano rápido, tocando de forma descontraída no ombro da atleta para pedir uma recomendação de bebida. Kate, com os reflexos amortecidos pelo álcool, apenas sorriu e respondeu, sem erguer suas habituais defesas.

Do outro lado do balcão, Julia sentiu algo visceral e amargo subir pela garganta. Um ciúme doentio, possessivo e incontrolável ferveu em suas veias. O maxilar travou, e seus olhos verdes faiscaram em direção à cena. A ideia daquelas estranhas tocando em Kate, aproveitando-se de sua guarda baixa, fez o sangue da brasileira ferver.

Maja, sempre atenta, aproximou-se de Julia com um olhar inquisitivo.

— O que foi, Julia? Por que você tá com essa cara fechada de repente? Parece que vai socar a parede.

— Não é nada — disparou Julia, a voz ríspida, sem tirar os olhos das mulheres que continuavam rindo perto de Kate. — Absolutamente nada.

No momento em que a loira finalmente se despediu das desconhecidas e deu dois passos em direção ao balcão para pedir mais água, Julia agiu por puro impulso. Com um passo firme, agarrou o braço de Kate com força desmedida e a puxou para um canto mais afastado, entre uma pilastra de tijolos e o corredor dos banheiros, longe do barulho principal.

Kate cambaleou levemente pela surpresa da força da brasileira e franziu o cenho, o temperamento explosivo despertando instantaneamente.

— O que foi isso, Julia? Ficou maluca? — rosnou Kate, puxando o braço com irritação.

Julia deu um passo à frente, diminuindo a distância até seus rostos ficarem perigosamente próximos, os olhos verdes transbordando drama e fúria contida.

— Você é cega por acaso, Ekaterina? — sibilou Julia, a respiração entrecortada. — Você não tava vendo aquelas mulheres se aproveitando de você bêbada? Dando em cima de você na cara dura enquanto você ficava aí, sorrindo feito uma idiota?

Kate parou. O choque inicial de ser encurralada deu lugar a um olhar penetrante e frio. Seus olhos azuis percorreram o rosto tenso da ruiva, decifrando a respiração pesada e as mãos trêmulas de Julia.

Um sorriso amargo e desafiador brotou nos lábios da loira.

— E por que exatamente você está falando isso? — Kate cruzou os braços, inclinando a cabeça com desdém. — Tá com ciúmes, Julia? É isso?

A pergunta ecoou no ar como um golpe direto.

Julia congelou. O orgulho a impediu de responder; a possessividade a sufocou. Seus lábios se entreabriram, mas palavra alguma saiu. Seus olhos verdes sustentaram o olhar de Kate em um silêncio eloquente, pesado e culpado — um silêncio que gritava a verdade com mais clareza do que qualquer confissão.

A expressão de Kate endureceu. A mágoa e a frieza tomaram conta de suas feições.

— Você esconde as coisas demais, sabia, Bergmann? — disparou a loira, a voz carregada de decepção e raiva. — Você sente, você surta, mas nunca tem coragem de assumir nada. E isso machuca. Você sabe perfeitamente que machuca.

Sem esperar por uma resposta, Kate deu as costas e caminhou a passos largos de volta para o salão, deixando Julia imóvel contra a parede fria, o peito doendo como se tivesse levado um bloqueio no meio do peito.

Segundos depois, Maja apareceu na curva do corredor.

— O que foi aquilo ali? — perguntou a levantadora, com a voz mansa, mas firme.

Julia piscou, tentando engolir o nó que se formava em sua garganta, e deu de ombros com um gesto dramático.

— Nada. Uma bobagem minha. Não foi nada demais.

Maja suspirou, balançando a cabeça em reprovação.

— Não foi ciúmes, por acaso?

— Não! — Julia rebateu imediatamente, quase na defensiva. — Jamais seria isso! Eu só... me preocupei com a imagem do time, com ela estar bebendo demais.

— Sei... — ironizou Maja, dando um passo mais perto e apoiando a mão no ombro da ruiva. — Olha para mim, Julia. A Kate tem a cabeça quente, você sabe disso. Mas ela é extremamente inteligente, e ela sabe que aquilo foi ciúme. Só que você está tentando esconder o sol com a peneira. Se tem uma coisa que a Ekaterina odeia nesta vida, é mentira e que escondam as coisas dela.

Julia baixou a cabeça, encarando as pontas dos próprios sapatos.

— Eu não...

— Você só não quer admitir — interrompeu Maja com doçura. — E eu até entendo. Deve ser medo de estragar o ambiente do time, ou medo de se machucar, ou medo de acabar machucando ela. Mas desse jeito você vai afastá-la antes mesmo de tentar. Você precisa pensar bem no que quer, Bergmann.

O restante da noite perdeu completamente o brilho. O clima desandou tanto que o retorno ao prédio foi adiantado. Como esperado, Kate recusou-se a entrar no mesmo carro que Julia e Maja, preferindo espremer-se no banco de trás de outro veículo.

Ao desembarcarem no condomínio, Kate nem sequer olhou para trás. Subiu os degraus em direção ao seu apartamento com passos duros e rápidos, a jaqueta balançando enquanto desaparecia no corredor.

Julia caminhou em silêncio até o apartamento que dividia com Maja. Ao entrar no quarto, despiu-se com movimentos lentos e entrou no chuveiro. A água quente escorreu pelo corpo, mas não foi capaz de lavar o peso daquela discussão. As palavras de Kate ecoavam em sua mente como um martelo impiedoso: *“Você esconde as coisas demais... e isso machuca.”*

Quando saiu do banho, já vestida com um pijama largo, encontrou Maja deitada em sua respectiva cama de solteiro, lendo algo no celular.

Julia deslizou para debaixo das próprias cobertas, virando o corpo de lado.

— Não fica assim — disse Maja baixinho, quebrando o silêncio do quarto escuro. — A Kate é explosiva e tem essa marra toda, mas passa. Ela não guarda rancor por muito tempo quando se importa com a pessoa. Boa noite, ruiva.

Julia esboçou um sorriso fraco e sem vida no escuro.

— Boa noite, Maja. Obrigada.

Em poucos minutos, a respiração compassada de Maja indicou que ela havia adormecido. Julia, porém, permaneceu de olhos bem abertos, encarando o teto sombrio do quarto.

Seus pensamentos eram uma tempestade desordenada. Repassou cada segundo daquela noite: a forma como seus vestidos combinavam por um capricho do destino, a respiração de Kate em seu ouvido no carro, a ardência insuportável de vê-la com aquelas mulheres e a covardia de não ter admitido o que estava escancarado em seus próprios olhos.

Ela sentia ciúmes, sim. Sentia uma possessividade tola, impulsiva e intensa demais para quem mal havia chegado à Itália. E o pior de tudo: Kate tinha toda a razão.

Julia virou-se de lado mais uma vez, puxando a coberta até o queixo e fechando os olhos com força, tentando silenciar as batidas aceleradas do peito. Levou horas revolvendo aquelas incertezas até que, vencida pelo cansaço físico e pelo esgotamento emocional de um dia ruidoso e caótico, o sono finalmente a envolveu no silêncio da noite florentina.

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