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Dois nome um destino

Um Giro de Garrafa e o Gosto do Desafio

O sol do final de tarde em Campo Grande começava a baixar, deixando o céu de Alagoas pintado com tons alaranjados e arroxeados. Nós tínhamos acabado de sair da sorveteria, e eu ainda conseguia sentir na boca o gostinho doce do açaí com leite em pó que o Marcos tinha feito questão de pagar para mim. Toda vez que eu lembrava do jeito que ele me olhou na mesa, com aquele sorriso de lado que sempre me desmontava inteira, meu estômago dava cambalhotas ridículas. Eu tentava fingir costume, mas por dentro parecia que havia uma escola de samba inteira desfilando no meu peito.

Nosso grupo andava pela calçada ocupando quase todo o espaço: eu, Marcos, Lívia, José Henrique, William, Maysa, Érica, Maria Eduarda, Aline e o Luís Fernando. Os amigos do Marcos, Lucas e Vinicius, já tinham se despedido um pouco antes, mas o restante de nós ainda tinha energia de sobra para gastar. Decidimos esticar a tarde e ir direto para a praça principal, nosso ponto de encontro de sempre quando ninguém queria voltar para casa cedo.

— Se eu tomar mais uma colher de sorvete, eu explodo — comentou Eduarda, passando a mão na barriga e rindo enquanto caminhávamos lado a lado.

— Explode nada, você sempre diz isso e dez minutos depois já tá comendo pipoca — rebateu Maysa, já engatando no veneno. — Agora quem quase explodiu de vergonha ali dentro foi a Luísa quando o Marcos puxou a cadeira pra ela. Faltou pouco pra menina virar um pimentão!

— Mentira sua, Maysa! — respondi de imediato, sentindo minhas bochechas arderem na mesma hora, o que obviamente provava o ponto dela. — Eu só tava distraída com o cardápio, deixa de ser palhaça.

— Sei bem a sua distração — William entrou na onda, apontando para mim com um dedo acusador e rindo alto. — O cardápio dela tem nome, sobrenome e tava sentado bem na frente dela pagando a conta. Luísa não assume que é caidinha pelo Marcos nem sob tortura, gente. É impressionante a capacidade dessa garota de negar o óbvio!

Marcos, que vinha logo atrás conversando com o Luís Fernando, deu uma risadinha baixa ao ouvir a provocação. Ele deu dois passos mais largos, alcançou meu ombro e jogou o braço por cima dele de um jeito tão natural que fez todos os pelinhos da minha nuca se arrepiarem.

— Deixa a menina em paz, William — Marcos falou, com a voz mansa e aquele tom zombeteiro que me deixava em pane total. — Ela só é tímida. Mas a gente sabe que ela gosta da minha companhia, não gosta, Luísa?

Engoli em seco, olhando de relance para o rosto dele tão perto do meu. Ele tinha aquele cheiro característico de colônia fresca e o sorriso convencido de quem sabia perfeitamente o poder que tinha sobre mim.

— Você se acha demais, garoto — murmurei, tentando empurrar o braço dele de brincadeira, mas sem força nenhuma para realmente tirá-lo de lá.

— Ah, pronto, começou o casalzinho do ano! — gritou William, fingindo ânsia de vômito. — Mas falando em melação, a gente nem comentou o que rolou mais cedo na sorveteria, né? Aquele beijo cinematográfico de novela mexicana que o José Henrique lascou na Lívia assim que pisou lá dentro. Quase tivemos que jogar um balde de água fria nos dois!

Lívia, que vinha de mãos dadas com o José Henrique um pouco mais à frente, olhou para trás com a cara mais lavada do mundo.

— Inveja mata, viu, William? Você fala demais porque não tem ninguém pra te dar um beijo daqueles.

— Pior que é verdade — soltou José Henrique, rindo e puxando a Lívia ainda mais para perto pela cintura. — Deixa a gente ser feliz, William. Você devia era arrumar alguém pra parar de tomar conta da vida alheia.

— Eu sou um espírito livre, meu bem, não me prendo a ninguém — William fez uma pose dramática, arrancando gargalhadas de todo mundo. — Quem tá mal na fita mesmo é o nosso amigo Luís Fernando. Esse sim tá numa seca desértica, coitado. Nem beijo, nem nada.

Luís Fernando, que vinha quieto até então, bufou e jogou uma pedrinha que chutou no caminho.

— Eu tô ótimo, me deixem fora das piadas de vocês.

— Tá ótimo nada, tá é sofrendo em silêncio! — Maysa não perdoava ninguém. — Todo mundo sabe que o Luís tá arrastando um caminhão pesado por uma certa pessoa que nem dá bola pra ele. Um amor platônico, não correspondido, triste demais de se ver. É quase uma tragédia grega em plena Campo Grande!

— Cala a boca, Maysa, não viaja — Luís Fernando resmungou, com o rosto ficando vermelho na altura do pescoço. — Vocês inventam cada coisa que dá até dó.

Chegamos à praça entre risos, empurrões e discussões bobas. Escolhemos um quiosque de cimento cercado por árvores grandes, onde as sombras das folhas balançavam no chão. Nós nos espalhamos pelos bancos de madeira e pela mureta. Marcos sentou-se ao meu lado, as pernas roçando nas minhas, e eu juro que cada toque dele parecia enviar choques elétricos direto para o meu coração. A presença dele me deixava nervosa, sim, mas de um jeito viciante, daqueles que você não quer que acabe nunca.

Foi então que Érica, que estava quieta mexendo na bolsa, tirou uma garrafa de refrigerante vazia que tinha guardado e colocou no centro da roda, no chão de cimento liso.

— Chega de conversa fiada e fofoca pela metade — anunciou ela, com um brilho perigoso nos olhos. — Já que todo mundo tá cheio de segredos e gracinhas hoje, vamos jogar verdade ou desafio. E nada de amarelar!

— Vish, agora o bicho pega — soltou Aline, sentando no chão e cruzando as pernas. — Conhecendo o povo desse grupo, vai dar confusão em cinco minutos.

— Confusão é meu segundo nome — disse William, já esfregando as mãos como um vilão de desenho animado. — Gira essa garrafa logo, Érica!

Érica deu o primeiro giro. O plástico raspou no chão áspero com um barulho seco, girando veloz enquanto todos nós prendíamos a respiração. A ponta foi perdendo força lentamente, apontando primeiro para Eduarda, depois para mim, até que finalmente parou na direção do Luís Fernando. O fundo da garrafa caiu apontado justamente para o William.

— Ah, não... — Luís Fernando gemeu, cobrindo o rosto com as mãos.

— O destino é maravilhoso! — William comemorou, levantando-se um pouco para encarar a vítima. — Nem vou dar opção. Verdade ou desafio, meu nobre?

— Verdade, né. Com você não dá pra arriscar desafio nem amarrado — respondeu Luís, desconfiado.

— Perfeito. Então abre o bico pra todo mundo aqui ouvir: de qual menina você gosta? E não adianta mentir que a gente sabe quando você enrola!

O silêncio caiu pesado na roda por alguns segundos, interrompido apenas pelo barulho distante dos carros na avenida. Todos nós nos inclinamos para a frente. O suspense sobre a paixonite do Luís Fernando era um mistério de semanas na escola.

— Não vou falar — Luís cruzou os braços, firme, a cara fechada.

— Tem que falar, faz parte da regra! — pressionou Maysa. — Fala logo, Luís! É da sala? É de outra turma?

— Não vou falar o nome de jeito nenhum — insistiu ele, inflexível, embora estivesse tão vermelho que parecia que a cabeça ia explodir. — Prefiro pagar o castigo que for, mas não falo. Nem adianta insistir.

— Arregou! Pipoqueiro de primeira linha! — vaiou William, balançando a cabeça. — Mas tudo bem, a gente descobre por outros meios. Uma hora a verdade aparece, meu amigo.

Rimos da covardia do Luís, que respirou aliviado ao ver que o foco ia sair dele. Aline pegou a garrafa para a próxima rodada.

— Deixa que eu giro agora — disse ela, dando um impulso forte no plástico.

A garrafa começou a girar, rápida, depois foi diminuindo o ritmo. Meu coração subitamente acelerou. O gargalo passou pelo Marcos, passou pela Lívia... e parou, com uma precisão quase cruel, apontado reto para mim. O fundo apontava para o William de novo.

— Ah, meu Deus, socorro — sussurrei para mim mesma.

— Olha só quem caiu na minha teia — William abriu o maior sorriso do mundo, inclinando o tronco para a frente. — Ana Luísa... a garota dos mistérios não revelados. E aí, Luísa? Verdade ou desafio?

Pensei rápido, sentindo o sangue martelar nas minhas têmporas. Se eu escolhesse verdade, aquele desalmado ia me perguntar na lata se eu amava o Marcos, na frente de todo mundo e do próprio Marcos. Minha dignidade iria para o ralo ali mesmo, e eu nunca mais conseguiria olhar na cara dele. Por mais perigoso que fosse, o desafio parecia a única rota de fuga para salvar meu orgulho.

— Desafio — respondi, tentando manter a voz firme, embora minhas mãos estivessem geladas.

William soltou uma gargalhada triunfante, daquelas que ecoam pelo quarteirão inteiro. Maysa e Eduarda já se entreolharam, prevendo o estrago.

— Você cometeu o pior erro da sua vida escolhendo desafio comigo, minha querida — ele disse, com uma expressão maligna no rosto. — Eu desafio você a dar um beijão de língua no Marcos. Agora. Aqui na nossa frente. Sem frescura e de tirar o fôlego!

O ar pareceu sumir dos meus pulmões instantaneamente. Meus olhos se arregalaram e eu paralisei no lugar.

— O quê?! Você tá maluco, William?! — protestei, gaguejando, sentindo uma onda de calor absurda subir do peito até a raiz do meu cabelo. — Isso não vale, escolhe outra coisa!

— Vale sim, desafio é desafio! — Maysa gritou, batendo palmas, já em êxtase. — Cumpre ou paga mico pior!

Olhei para o Marcos, em pânico total, esperando que ele risse e dissesse para pegarem leve. Mas quando encontrei os olhos castanhos dele, não vi um pingo sequer de vergonha ou hesitação. Pelo contrário: ele me olhava com uma intensidade ardente, os lábios entreabertos num meio sorriso desafiador e incrivelmente charmoso. Ele parecia ter esperado exatamente por aquele momento a tarde inteira.

— Por mim, tá super aprovado o desafio — Marcos disse, com a voz baixa e rouca, sem desviar os olhos dos meus.

Antes que meu cérebro conseguisse processar qualquer reação de fuga, ele se inclinou. A mão grande e quente de Marcos foi parar na minha nuca, os dedos se embrenhando suavemente no meu cabelo, enquanto a outra mão envolveu minha cintura, me puxando para ele com uma firmeza que me deixou sem ar. O mundo inteiro ao redor — os amigos gritando, os carros na rua, as árvores da praça — simplesmente desapareceu, virando apenas um borrão.

Quando os lábios dele tocaram os meus, eu esqueci como se respirava. O beijo não começou com dúvida; começou com certeza. Foi doce no primeiro segundo, para logo em seguida se aprofundar com uma urgência deliciosa. A boca de Marcos se abriu sobre a minha e, quando senti a língua quente dele pedindo passagem, meu corpo inteiro estremeceu dos pés à cabeça. Cedi sem nenhuma resistência, entregando-me àquele contato com uma sede que eu nem sabia que estava guardando há tanto tempo.

Era um beijo intenso, molhado, de tirar o fôlego de verdade. O gosto dele misturado com a doçura do dia fez minha cabeça girar numa vertigem gostosa. Minhas mãos, que antes estavam inertes de choque, subiram sozinhas para o peito dele, agarrando a camiseta enquanto eu sentia as batidas aceleradas do coração de Marcos contra a palma da minha mão. Ele me puxou ainda mais para perto, aprofundando o beijo com tanta paixão e carinho que parecia que éramos apenas nós dois no universo. Foi longo, íntimo e incrivelmente perfeito, daqueles beijos que fazem as pernas amolecerem.

Quando ele finalmente se afastou, foi devagar, mordiscando de leve meu lábio inferior antes de me soltar. Nossas respirações estavam completamente descompassadas. Fiquei olhando para ele, atordoada, com os lábios dormentes e o peito subindo e descendo rápido. Marcos abriu um sorriso brilhante, os olhos faiscando de satisfação, passando o polegar com carinho pela minha bochecha quente.

A praça simplesmente explodiu.

— EEEEEEEEITA! — berrou William, pulando do banco e correndo em volta do quiosque como se tivesse visto um gol em final de campeonato. — Puta que pariu! Tira as crianças da sala que o bagulho ficou sério!

— MEU DEUS DO CÉU! — Maysa estava de pé, berrando junto com Eduarda, as duas se sacudindo e dando gritinhos histéricos. — Que isso, novela das nove?! Eu vi língua, eu vi pegada! Ana Luísa, mulher, você tá viva?!

— Caramba, Marcos é pra frente demais, moleque! — soltou Luís Fernando, rindo alto e dando um tapa nas costas do Marcos. — Sem vergonha nenhuma na cara! O moleque não perde tempo!

— Perder tempo pra quê? — Marcos respondeu, rindo, sem desgrudar o braço dos meus ombros, me trazendo para encostar a cabeça em seu peito. Eu estava tão aérea e feliz que nem me importei em brigar com ele; só escondi o rosto na curva do pescoço dele para disfarçar o sorrisão bobo que eu não conseguia tirar dos lábios.

— Eu tô passada, chocada — Eduarda abanava o rosto com as mãos. — Se isso foi um desafio, imagina quando resolverem namorar de verdade!

— Já podem marcar a data do casamento no civil que eu sou a madrinha — completou Aline, ainda rindo do meu estado deplorável de comoção.

Antes que eu pudesse tentar articular uma frase coerente para me defender da enxurrada de piadas, passos se aproximaram pelo caminho de pedras que levava à fonte da praça. Uma menina de cabelos compridos e blusa azul vinha caminhando distraída, mexendo no celular.

Era a Júlia. A Júlia da sala B.

Maysa bateu o olho nela e, no mesmo milissegundo, virou a cabeça para o Luís Fernando com um sorriso de orelha a orelha. Ela nem hesitou, soltando a voz alta para todo mundo ouvir:

— Eita, gente, olha só... acho que chegou o almoço do Luís Fernando!

Luís Fernando quase engasgou com a própria saliva. Ele se levantou no susto, com os olhos arregalados de puro desespero, olhando para Maysa como se quisesse assassiná-la ali mesmo.

— Cala a boca, garota! — sibilou ele, entre dentes, enquanto a Júlia, ao ouvir a movimentação, levantava a cabeça e olhava na nossa direção, reconhecendo o grupo.

— Ei, pessoal! — disse Júlia, com um sorriso simpático, parando a poucos metros de nós. — Vocês tão aqui faz tempo?

— Faz um tempinho já, Júlia! — respondeu Eduarda, com uma cara sonsa maravilhosa. — Mas o Luís tava justamente falando que a praça tava meio vazia, né, Luís?

— É... quer dizer, não, oi, Júlia — Luís Fernando se embolou nas palavras, coçando a cabeça sem saber onde enfiar as mãos, parecendo um boneco de posto desengonçado.

Os meninos — William, Marcos e José Henrique — começaram a tossir em uníssono, aquela tosse falsa e ridícula que todo mundo faz quando quer zoar alguém.

— Ô tosse braba, acho que é a fumaça da paixão — zombou William baixinho, fazendo a gente segurar a risada para não estragar de vez com a pouca dignidade que restava ao pobre garoto.

Enquanto Luís Fernando, gaguejando horrores, tentava puxar um assunto normal com a Júlia e os dois acabavam se afastando uns passos para conversar perto do canteiro de flores, a garrafa no chão ainda estava lá, pronta para mais destruição.

— Bora continuar enquanto o Romeu desenrola com a Julieta ali — Lívia pegou a garrafa e a girou rapidamente.

Dessa vez, a garrafa parou apontada de José Henrique para Lívia.

— Olha o casalzinho se enfrentando — disse William, ainda animado. — Vai, Zé, não alivia pra ela não!

José Henrique olhou para a Lívia com uma cara cheia de segundas intenções, abrindo um sorriso travesso que fez a Lívia arquear uma sobrancelha, curiosa.

— Desafio, óbvio — adiantou-se ela, cheia de si.

— Beleza — disse José Henrique, puxando-a suavemente pela gola da blusa. — Eu te desafio a me dar um beijão de língua agora, ou então deixar uma marca daquelas bem no meu pescoço, daqueles chupões que duram até segunda-feira na escola.

— Eitaaa! — Érica soltou um grito abafado, cobrindo a boca.

Lívia nem pestanejou. Ela soltou uma risada debochada, puxou José Henrique pela nuca sem a menor cerimônia e encostou a boca no pescoço dele, dando primeiro um beijo estalado e depois chupando a pele com vontade. José Henrique soltou um suspiro, fechando os olhos e ficando vermelho até a orelha com a audácia dela, enquanto o resto da roda caía na gargalhada e batia palmas.

— Meu Deus, esse grupo não tem limites hoje! — gritou Aline, rindo tanto que limpava uma lágrima no canto do olho.

Quando Lívia finalmente se afastou, José Henrique passou a mão no pescoço, onde já dava para ver uma manchinha avermelhada começando a se formar. Ele tinha um sorriso bobo estampado no rosto, completamente dominado.

Ao longe, dava para ver Luís Fernando gesticulando timidamente, rindo de algo que a Júlia falava. Os meninos não perdiam a oportunidade e ficavam fazendo gestos com as mãos por trás das costas dele, sussurrando piadas e imitando corações com os dedos, o que me fazia rir a cada cinco segundos.

Encostei a cabeça de novo no ombro do Marcos. Ele passou os dedos de leve pelo meu braço, entrelaçando a mão dele na minha, e me deu um beijo suave no topo da cabeça. Olhei para os meus amigos rindo, brincando, aquela bagunça caótica e acolhedora de sempre em plena tarde alagoana, e percebi que, por mais que eu tentasse fugir ou negar com todas as forças, o desafio do William só tinha colocado para fora o que já estava transbordando há muito tempo. E, sinceramente, eu não mudaria absolutamente nada naquele dia.

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