Dois nomes, Um destino
Entre o Desejo e a Confusão
O sinal do intervalo tocou, mas meu corpo ainda parecia estar em outra sintonia. Sentei-me por alguns segundos extras na cadeira da sala de aula, fingindo que estava guardando o material com calma, mas a verdade era que eu precisava de um tempo para me recompor. A aula da professora Meury tinha sido um teste de resistência para os meus nervos — e para o meu autocontrole.
Ela resolveu passar aquele filme de época, e tudo bem, eu até gosto de história, mas aquela cena... caramba. Quando os protagonistas se entregaram no meio da biblioteca, com toda aquela tensão acumulada, o silêncio na sala de aula se tornou ensurdecedor. Eu conseguia ouvir apenas a minha própria respiração acelerada. O pior de tudo foi sentir o calor subindo, uma reação involuntária que me deixou em uma situação bem complicada. Eu tive que cruzar as pernas e colocar a mochila no colo imediatamente, rezando para que ninguém percebesse o estado em que eu me encontrava. A excitação foi física, real e extremamente incômoda para um ambiente escolar.
Saí da sala caminhando meio travado, tentando pensar em qualquer outra coisa — equações de segundo grau, a escalação do meu time, o preço da coxinha — para ver se o sangue voltava a circular normalmente. Encontrei Luiz Fernando perto do bebedouro, o lugar de sempre. Ele me olhou de cima a baixo com aquele sorriso de quem sabe demais.
— E aí, garanhão? Que cara é essa? Parece que viu um fantasma... ou que o fantasma te pegou de jeito — ele brincou, me dando um soco leve no ombro.
— Nem brinca, cara — respondi, soltando um suspiro pesado e me encostando na parede fria do corredor. — A aula da Meury hoje foi pesada. Aquele filme... que porra foi aquela?
Luiz Fernando soltou uma gargalhada alta, atraindo alguns olhares.
— Ah, eu vi! A cena da biblioteca, né? Vi que você ficou meio "inquieto" na cadeira. A Sophia estava do seu lado, não estava?
— Estava. E isso só piorou tudo — confessei, baixando a voz. — Eu não sabia para onde olhar. Se olhasse para a tela, ficava mais excitado. Se olhasse para a Sophia, eu lembrava do beijo de agora pouco na quadra e... bem, você imagina o desastre. Eu fiquei numa situação tensa, Luiz. Realmente excitado, no meio da aula, com a professora andando pra lá e pra cá.
— É, o hormônio está gritando, meu parceiro — Luiz disse, cruzando os braços. — Mas e aí, como está essa confusão na sua cabeça? Porque, de um lado, a Sophia chegou chegando, marcou território com aquele beijo que a escola inteira comentou no corredor agora. Do outro, tem a Ana Luísa. E aí? O que você sente pela Ana Luísa, afinal?
Respirei fundo, sentindo o conflito interno voltar com força total.
— Cara, é complicado. A Ana Luísa... ela tem aquele jeito dela, sabe? Eu gosto dela, e vou te falar, eu gosto "gostoso" dela. Tem uma química ali que é difícil de explicar. Quando a gente está perto, parece que tudo ao redor some. Ela me atrai de um jeito muito forte, é uma coisa carnal, entende?
Luiz Fernando assentiu, ouvindo atentamente.
— Mas e a Sophia? — ele pressionou.
— A Sophia é... incrível. Ela é decidida, ela me faz rir, e aquele beijo na quadra foi uma das coisas mais intensas que eu já senti. Ela me faz sentir importante, sabe? Como se eu fosse o único cara no mundo. A Ana Luísa é o furacão, mas a Sophia é o porto seguro que, de repente, virou um incêndio também. Eu estou dividido, Luiz. Ver aquela cena no filme hoje me fez pensar nas duas ao mesmo tempo. Eu imaginava a Sophia ali, mas depois a imagem mudava para a Ana Luísa.
— Você está em um beco sem saída, Marcos — comentou Luiz, balançando a cabeça. — A Sophia não vai aceitar ser "segunda opção" ou dividir espaço. E a Ana Luísa, pelo que eu vi da cara dela na quadra, está pronta para uma guerra.
— Eu sei — respondi, passando a mão pelo rosto. — Na aula, enquanto o filme passava, eu só conseguia pensar em como seria estar com uma delas de verdade, sem ser escondido, sem ser no meio de um pátio lotado. A cena quente do filme me gatilhou um desejo que eu estou tentando controlar desde que o sinal tocou. Meu corpo ainda está em alerta. É uma agonia, cara. Você fica ali, sentado, tentando parecer normal, enquanto sua mente está criando mil cenários proibidos.
Luiz Fernando deu um sorrisinho de lado.
— O problema é que você gosta das duas de jeitos diferentes. A Ana Luísa mexe com o seu lado mais... impulsivo. Já a Sophia parece que mexe com tudo. Mas se você continuar nesse em cima do muro, vai acabar perdendo as duas.
— Eu sei disso — murmurei, olhando para o pátio onde os alunos se misturavam. — Mas como eu escolho? Como eu digo "não" para uma quando o meu corpo e a minha cabeça dizem "sim" para as duas? Aquela cena na sala de aula hoje só provou que eu estou no meu limite. Eu preciso resolver isso antes que eu faça alguma besteira maior.
— Bom, pelo menos tenta disfarçar essa "empolgação" aí — Luiz brincou, apontando para a minha postura tensa. — Se a Sophia te vê assim agora, ela vai achar que o beijo dela teve um efeito prolongado de duas horas.
— E teve, Luiz. E teve — admiti, finalmente conseguindo rir um pouco da própria desgraça. — Mas a Ana Luísa também não sai da minha cabeça. Que situação, cara. Que situação.
Ficamos ali em silêncio por um momento, observando o movimento. Eu sentia que o resto do dia seria um desafio. A imagem de Sophia me puxando pela camisa ainda estava fresca, assim como o olhar de fúria e desejo de Ana Luísa. E no fundo, a lembrança da cena do filme continuava ali, queimando no fundo da minha mente, me lembrando de que eu era apenas um garoto tentando lidar com desejos grandes demais para um uniforme escolar.