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O Jogo de Espelhos e Sombras
A semana na Pearson Hardman havia começado com o habitual frenesi de moções de última hora e egos inflados, mas para Clara, o ar parecia um pouco mais rarefeito. O episódio com Mark e a assinatura "forçada" de Harvey havia se tornado uma lenda urbana entre os associados do 65º andar, embora ninguém ousasse perguntar os detalhes. Para o mundo exterior, Clara era a funcionária eficiente que sabia manejar o temperamento do sócio sênior. Para Harvey, ela era o seu porto seguro — e, simultaneamente, o seu maior desafio.
No entanto, o acordo deles sempre foi claro: sem amarras, sem cobranças, sem exclusividade formal. Era um "ficante premium", como Donna certa vez brincou em um momento de rara indiscrição. Eles tinham o sexo, tinham a cumplicidade intelectual e tinham as noites de uísque e confidências, mas Harvey Specter não era homem de se deixar prender. Ou, pelo menos, era isso que ele repetia para si mesmo diante do espelho todas as manhãs.
Na noite de quinta-feira, as colunas sociais de Manhattan fizeram questão de lembrar a Clara exatamente onde ela se situava na hierarquia da vida de Harvey. Uma foto granulada, mas inegável, mostrava Harvey saindo do *Baldanza* acompanhado de uma modelo russa cujas pernas pareciam não ter fim. O título da nota era clichê: "O tubarão da Pearson Hardman ataca novamente".
Clara viu a foto enquanto tomava seu café matinal na sexta-feira. Ela sentiu uma pontada familiar no peito, uma mistura de irritação e uma resignação que ela tentava transformar em indiferença. Ela sabia das regras. Ela mesma as tinha ajudado a escrever.
Quando ela chegou ao escritório, o clima estava estranhamente silencioso. Mark passou por ela e desviou o olhar, o que foi o primeiro sinal de que algo estava errado. Donna, por outro lado, estava com a expressão de quem estava pronta para cometer um crime ou consolar uma amiga, e Clara não queria nenhuma das duas coisas.
— Ele está de um humor detestável — anunciou Donna, assim que Clara se aproximou da mesa circular.
— E quando ele não está? — Clara respondeu, mantendo a voz estável, ajeitando a saia lápis que abraçava suas curvas com uma precisão que ela sabia que Harvey notaria.
— Clara, eu vi o jornal — Donna disse, baixando o tom. — E ele sabe que você viu. Ele está agindo como um idiota porque está esperando você reagir.
— Eu não vou reagir, Donna. Não temos esse tipo de relacionamento. Se ele quer desfilar com uma mulher que provavelmente não sabe soletrar 'jurisprudência', o problema é dele.
Clara caminhou em direção à sua mesa, mas foi interceptada por Louis Litt, que parecia mais agitado do que o normal.
— Clara! Graças a Deus. Eu preciso de uma pesquisa sobre a fusão da TechCorp. O Harvey disse que você é a melhor, mas ele disse isso rosnando, então presumi que você está disponível para trabalhar para alguém que realmente aprecia seu intelecto.
— Claro, Louis. Deixe os arquivos na minha mesa.
Enquanto Louis tagarelava sobre a importância da precisão, a porta do escritório de Harvey se abriu. Ele saiu com o paletó perfeitamente alinhado, mas seus olhos foram direto para Clara. Ele não olhou para Donna. Ele não olhou para Louis. Ele fixou o olhar nela com uma intensidade que beirava a agressividade.
— Clara, na minha sala. Agora — ordenou ele.
— Ela está ocupada me ajudando com a TechCorp, Harvey! — protestou Louis.
— Louis, saia daqui antes que eu decida que você precisa de uma auditoria nas suas despesas de spa — Harvey rebateu, sem desviar os olhos de Clara.
Clara suspirou, deu um sorriso encorajador para um Louis agora pálido e caminhou em direção ao escritório de vidro. Ela entrou e ouviu o clique da porta fechando atrás de si. Harvey não foi para trás da mesa. Ele ficou parado no meio da sala, os braços cruzados.
— Você está atrasada — disse ele.
— Cinco minutos, Harvey. E eu estava falando com o Louis sobre trabalho. Algo que você deveria estar fazendo em vez de monitorar meu horário de chegada.
— Eu não gosto do Louis rondando você.
— E eu não gosto de ver fotos suas em tablóides de quinta categoria, mas aqui estamos nós, vivendo nossas vidas de adultos independentes, não é? — Ela rebateu, com uma calma que o irritou visivelmente.
Harvey deu um passo à frente. O cheiro do perfume dele, uma mistura de sândalo e sucesso, envolveu-a.
— Aquilo não foi nada. Foi um jantar de negócios que se estendeu.
— Você não me deve explicações, Harvey. Lembra? "Sem cobranças". Foi você quem insistiu nisso — Clara disse, aproximando-se da mesa dele para pegar um grampeador, apenas para ter uma desculpa para se mover.
— Então por que você está sendo tão... fria? — ele perguntou, a voz agora mais baixa, perdendo a autoridade e ganhando um tom de frustração.
— Eu não estou sendo fria. Estou sendo profissional. Se você quer que eu seja a mulher que te espera com um sorriso depois de você sair com uma modelo, você está no escritório errado. Ou no planeta errado.
Harvey soltou uma risada seca, mas não havia humor nela. Ele a segurou pelo braço, não com força, mas com uma urgência que a fez parar.
— Você sabe que ela não significa nada.
— O problema, Harvey, é que você acha que pode ter tudo. Você quer a liberdade de um solteiro e a lealdade de alguém que se importa com você. E você fica bravo quando percebe que eu não vou sentar e esperar você decidir o que quer.
— Eu sei o que eu quero — ele sussurrou, puxando-a para mais perto, até que a respiração dele roçasse a bochecha dela. — Eu quero você aqui. Mandando em mim. Me dizendo o que fazer.
— Então mande aquela russa para o inferno e pare de agir como se estivesse me fazendo um favor por estar comigo — Clara disse, os olhos brilhando de desafio.
Nesse momento, Mark, o associado que ainda se sentia em dívida com Clara, bateu na porta de vidro. Ele não conseguia ver através das persianas semiabertas, mas precisava desesperadamente de uma resposta sobre o caso Proskauer.
— Sr. Specter? Clara? Eu... eu só queria saber se a pesquisa está pronta.
Harvey fechou os olhos por um segundo, encostando a testa na de Clara. A tensão sexual e a irritação formavam um coquetel perigoso entre eles.
— Vá embora, Mark! — Harvey gritou, sem se afastar dela.
— Mas... a audiência é às duas!
Clara se afastou de Harvey, ajeitando o cabelo. Ela sentia o coração martelando contra as costelas, mas sua expressão era uma máscara de eficiência.
— Eu já vou sair, Mark — ela disse, alto o suficiente para ser ouvida através do vidro.
Ela se virou para Harvey, que parecia um leão enjaulado.
— Você está com ciúmes, Harvey. Admita. Você viu o Mike Ross conversando comigo na copa hoje cedo e agora está descontando em todo mundo.
— O Mike é um idiota que não sabe quando calar a boca — Harvey resmungou.
— O Mike é meu amigo. E, ao contrário de certas pessoas, ele não precisa de uma modelo no braço para se sentir importante — Clara caminhou até a porta, mas parou antes de abrir. — Se você quiser me ver hoje à noite, vai ter que fazer melhor do que um convite de última hora por mensagem de texto. Eu tenho planos.
Harvey arqueou a sobrancelha, o instinto competitivo despertando.
— Planos? Com quem?
— Comigo mesma. Vou tomar um banho demorado, ler um bom livro e talvez atender a ligação daquele advogado da Proskauer que me pediu o número ontem.
— Clara... — o tom dele era de aviso.
— Calado, Harvey — ela disse, com um sorriso doce que não chegava aos olhos. — Você assinou o contrato de "não seriedade". Agora aprenda a ler as letras miúdas.
Ela saiu da sala com a cabeça erguida, deixando Harvey Specter, o homem que nunca perdia, parado no meio do escritório com a incômoda sensação de que acabara de ser derrotado no seu próprio jogo.
Do lado de fora, Mark a esperava com um olhar aterrorizado.
— Ele vai me matar, não vai? Eu interrompi algo importante?
Clara pegou a pasta da mão de Mark e lhe deu um tapinha no ombro.
— Não se preocupe, Mark. Ele só está tendo um ataque de ego. Vá trabalhar no seu resumo. Eu cuido do monstro.
Donna, que observava tudo de sua mesa, deu um sorrisinho de lado quando Clara passou.
— O jantar de sexta ainda está de pé? — perguntou a secretária ruiva.
— Só se ele aprender a pedir desculpas sem usar a palavra 'negócios' no meio — Clara respondeu, sem parar de caminhar.
As horas seguintes foram um teste de resistência. Harvey saía de sua sala a cada vinte minutos com desculpas esfarrapadas. Primeiro, era um arquivo que ele "perdera". Depois, era uma pergunta sobre um caso que ele já tinha resolvido há dois anos. Clara respondia a tudo com uma polidez gélida que o estava levando à loucura.
Por volta das cinco da tarde, o escritório começou a esvaziar. A luz alaranjada do pôr do sol de Nova York entrava pelas grandes janelas, banhando o 65º andar em um tom de cobre. Clara estava guardando suas coisas quando sentiu uma presença atrás de si.
— O advogado da Proskauer é um idiota — disse Harvey, a voz rente ao ouvido dela. — Ele usa gravatas borboleta e coleciona selos. Você ficaria entediada em dez minutos.
Clara virou-se lentamente, encontrando-o sem o paletó, com as mangas da camisa branca dobradas, revelando os antebraços fortes. Ele parecia exausto e, pela primeira vez, vulnerável.
— E o que o grande Harvey Specter tem a oferecer que seja mais interessante do que uma coleção de selos?
— Eu mandei flores para a casa da... como era o nome dela mesmo? — Ele fingiu esquecer. — E disse que o nosso "jantar de negócios" foi um erro estratégico.
Clara tentou segurar o sorriso, mas falhou.
— Você é impossível.
— Eu sou o melhor que você vai encontrar, e você sabe disso — ele disse, recuperando um pouco da sua arrogância habitual, mas seus olhos pediam trégua. — Janta comigo? Sem modelos, sem tablóides, sem trabalho.
— E sem o Mark batendo na porta? — ela provocou.
— Eu vou trancar o Mark no arquivo se for preciso.
Clara suspirou, cedendo ao magnetismo que sempre a puxava de volta para ele. Ela colocou a bolsa sobre a mesa e deu um passo para dentro do espaço dele.
— Você está com ciúmes, Harvey. Diga.
Ele hesitou. O ego lutando contra a verdade. Por fim, ele soltou o ar, derrotado.
— Eu odeio quando outros homens olham para você. Especialmente quando eu sei que agi como um idiota e dei a eles uma chance.
— Bom começo — ela sussurrou, passando as mãos pelo peito dele. — Agora, a parte onde você diz que eu sou a única que pode te mandar calar a boca.
Harvey sorriu, um sorriso real, e a puxou para um beijo que não era sobre poder ou conquista, mas sobre a necessidade silenciosa que eles tinham um do outro.
— Você é a única, Clara. Sempre foi.
Eles saíram do escritório juntos, passando pela mesa vazia de Donna, que certamente teria um comentário sarcástico na manhã seguinte. Enquanto caminhavam para o elevador, Harvey segurou a mão dela, um gesto público que ele raramente fazia.
— Harvey? — ela chamou, enquanto as portas de metal se fechavam.
— Sim?
— Se eu vir outra foto sua com uma modelo, eu vou aceitar o convite do homem da gravata borboleta. E eu vou aprender tudo sobre selos.
Harvey riu, apertando a mão dela com força.
— Não vai ser necessário. Eu já queimei todos os jornais da cidade.
Clara riu, encostando a cabeça no ombro dele. Eles podiam dizer que não era sério, podiam fingir que eram apenas "ficantes premium", mas ali, no silêncio do elevador que descia, ambos sabiam que o contrato deles tinha cláusulas que nenhum dos dois estava pronto para rescindir.