Droga fiore
Jeon Jungkook e a estranha habilidade de transformar qualquer lugar em algo temporário. Na vi, em Myeongdong, o nome dele circulava fácil. Entre risadas, fofocas e olhares demorados. Jungkook sempre foi assim — intenso, bonito, imprevisível. Na adolescência, vivia como se o amanhã fosse um detalhe irrelevante. Festas, brigas, beijos esquecidos no dia seguinte. Nada que durasse o suficiente para criar raiz. E ele gostava disso. O apartamento onde morava era pequeno, mas confortável. Presente do namorado do irmão mais velho. Jungkook nunca reclamou. Primeiro porque sabia que tinha sido caro. Segundo porque Seokjin realmente o mataria se ouvisse qualquer comentário ingrato. Era perfeito para alguém que não pretendia ficar muito tempo em lugar nenhum. Ou com ninguém. Até Ji-a. No começo, foi fácil. Ela era bonita, chamativa, loira, sabia conversar, sabia rir das piadas dele. Jungkook gostava da atenção, do jeito que ela o olhava como se ele fosse suficiente. Pela primeira vez, ele tentou algo sério. Tentou. — Onde você tá? — a voz dela vinha pelo telefone, já irritada. — Na academia. — Manda foto. — Ji-a… — Se não tem nada, qual o problema? E assim começou. Primeiro pedidos. Depois exigências. — Por que essa garota curtiu sua foto? — Porque ela usa Instagram, talvez? — Não brinca comigo, Jeon. Discussões que começavam pequenas e terminavam com portas batendo. — Você não precisa de amigas! — ela gritou uma noite. — Eu sou sua amiga! Eu e sua mãe! Só! Jungkook riu, incrédulo. — Isso não é normal, Ji-a. — Normal é você agir como MEU namorado! Ele passava a mão pelo cabelo, já cansado. Mas ele continuou ali. Porque terminar dava trabalho. Porque, quando estavam bem, o resto parecia suportável. Porque Jungkook sempre escolhia o caminho mais fácil no presente, mesmo que complicasse o futuro. ~~~ Quatro meses depois, ele estava sentado no chão da sala de Yoongi, uma cerveja na mão e a sensação de que algo estava errado fazia semanas. O churrasco estava barulhento. Hoseok ria alto na cozinha, Namjoon discutia música com Bangchan, e o cheiro de carne queimando já denunciava que alguém tinha esquecido a grelha. — Jeikei — Bangchan chamou, jogado no sofá. — Tá mesmo sério com a Ji-a? Jungkook deu um gole na cerveja. — Tô. Yoongi levantou uma sobrancelha. — Essa foi a resposta mais puta que eu já ouvi pra um “tô”. Hoseok apareceu na porta, já sorrindo. — E porque o cachorro Jeon Jungkook foi castrado. — Vai se foder, Hoseok. Mostrou o dedo do meio. — Antes você sumia três dias, agora responde mensagem em cinco minutos. — Porque se eu não responder, ela surta. Seokjin soltou uma risada curta. — Isso não é namoro, nem eu faço isso com seu irmão. Namjoon assentiu. — Ela pede sua localização? — Vinte e quatro horas. — Caralho — Bangchan murmurou. — Nem minha mãe faz isso. Yoongi pegou uma lata de cerveja nova e entregou pra Jungkook. — Pergunta séria. Por que você ainda tá com ela? Jungkook demorou um segundo. — Sei lá. — Ela transa bem? — Yoongi completou, direto. Hoseok começou a rir alto. — Deve. Jungkook deu de ombros. — Não vou mentir… — Sabia — Seokjin disse, sem nem levantar os olhos do celular. — O Jeon é um caso perdido. — Não é isso — Jungkook resmungou. — Só… no começo era bom. San, sentado no braço do sofá, falou tranquilo: — E agora? Silêncio. Jungkook girou a garrafa entre os dedos. — Agora parece que eu tô sempre devendo alguma coisa. Namjoon inclinou a cabeça. — Você gosta dela? Jungkook abriu a boca, mas demorou para responder. Ele gostava, ela era muito carinhosa, mas com o tempo, enjoo era muito grude, drama, começava a ficar de saco cheio. — Eu… gostava. Eu acho. Hoseok cruzou os braços. — Então termina mano. — Não é tão simples. — É sim — Yoongi respondeu. — Você só não quer lidar com a cena que ela vai fazer você passar. Bangchan riu. — Ele tem medo dela quebrar o celular dele. — Ela já quase fez isso — Jungkook admitiu. — Sério? — Seokjin falou. — Próximo passo é quebrar você. Hoseok se jogou ao lado dele. — Escuta aqui, Jungkook. Você não foi feito pra ficar preso. Todo mundo sabe disso. Até você sabe. Jungkook olhou ao redor. Aquela bagunça, as risadas, a liberdade simples de estar ali sem ninguém cobrando nada. Sentia falta disso. — Eu tô pensando — ele disse baixo. San deu de ombros. — Enquanto você pensa, você continua infeliz. Yoongi respondeu. — Vai tomar no cu — Jungkook respondeu, mas acabou rindo. Jungkook encostou a cabeça no sofá, observando o teto. Talvez o problema não fosse Ji-a. Talvez o problema fosse que ele nunca tinha ficado tempo suficiente em lugar nenhum para aprender a ficar. E, mesmo assim, algo dentro dele já sabia. Aquilo estava perto do fim. Bangchan se levantou devagar, estalando o pescoço como se tivesse acabado de ter uma ideia genial — o que, pela expressão dele, normalmente significava problema. — Ou… — ele começou, sorrindo de lado — você pode dar o que ela quer. Hoseok, que já estava rindo antes mesmo de entender, virou o rosto pra ele. — O quê? Seokjin soltou sem nem pensar, ainda mexendo distraidamente no cabelo de Namjoon: — Pau? A sala explodiu em risada. Bangchan revirou os olhos com força. — Não, seus animais. Ela já tem isso e aparentemente não dá valor. Yoongi soltou um riso baixo, enquanto Jungkook só balançava a cabeça, já prevendo besteira. — Então o quê, gênio? — Hoseok insistiu. Bangchan cruzou os braços, inclinando o corpo pra frente. — Fazendo do jeito que nós… é o JJ fazia. Hoseok franziu a testa. — Como? Yoongi e Jungkook responderam ao mesmo tempo, sem nem olhar um pro outro: — Gostoso o suficiente pra infernizar a vida do outro. Silêncio. Seokjin arregalou os olhos, a expressão lentamente virando incredulidade. — E o QUÊ? Bangchan deu de ombros. — Ela quer controle? Dá motivo pra ela ficar ocupada demais tentando te acompanhar cara. Namjoon soltou um suspiro cansado de olhos fechados. — Vocês so tem ideias boas. — Sempre funcionou antes — Yoongi murmurou, pegando outra cerveja. San levantou uma sobrancelha. — Vocês estão sugerindo trair ela né? A pergunta ficou no ar, meio séria demais pro clima da sala. Jungkook levou a mão ao queixo, pensativo, o olhar perdido no chão por alguns segundos. Não parecia exatamente convencido… mas também não parecia totalmente contra. Seokjin abaixou a cabeça imediatamente para Namjoon. Deixando um tapa fraco sobre sua testa. — Espero que VOCÊ, Kim Namjoon, nunca tenha dito isso! Namjoon soltou um grunhido fraco e levou a mão na testa. — Ai, eu não falei nada. San deu de ombros. — Ué, ele que ensinou. Ele e o Yoongi. Yoongi apontou pra si mesmo. — Me tira dessa, sanguessuga. Hoseok começou a rir alto. — Por isso SANgui-suga, né? Gui de Yoongi e suga do seu insta! Choi San dando risada, levando a mão no cabelo pra arrumar. — Meu pai né Hoseok. A discussão virou bagunça por alguns segundos, mas Jungkook continuava quieto, girando a lata entre os dedos. Pensando. Não parecia animado. Nem exatamente malicioso. Só… cansado. Como alguém procurando qualquer saída que fosse fácil o suficiente pra não exigir conversa séria. Então ele soltou, meio no automático: — Vou fazer. O barulho na sala diminuiu. Yoongi olhou pra ele de lado. — Você vai arrumar para cabeça mano. Namjoon falou mais firme: Jungkook deu de ombros, mas o sorriso que apareceu não chegou nos olhos. — Não é como se já estivesse bom. Seokjin soltou um suspiro longo. — Você tá tentando fugir da conversa difícil, não é só terminar de uma vez? E ele estava. Jungkook sabia disso. Era mais fácil virar o cara errado (de novo) do que sentar e admitir que algo tinha acabado. Mais fácil criar distância do que dizer “não dá mais”. Ele encostou a cabeça no sofá, olhando pro teto outra vez. A ideia parecia simples ali, no meio das risadas e da cerveja. Mas, no fundo, uma parte dele já sabia. Aquilo não ia trazer paz nenhuma. Só mais caos. San riu, apoiando o cotovelo no joelho. — Traduzindo: para de agir como namorado domesticado. Yoongi deu um gole na cerveja. Bangchan deu de ombros. — Nem precisa disso. Só… para de viver em função dela. Faz o que sempre fez. Hoseok concordou na hora murmurando um "boa". — Ela que aprenda a lidar. Você já tentou do jeito dela e não funcionou. Seokjin voltou a olhar o celular, completamente tranquilo. — Desde que não sobre pra gente depois, façam o que quiserem. Namjoon soltou um pequeno riso. — Vocês sempre arrumam drama. Eu só quero paz. Claramente, os dois não estavam nem um pouco interessados em entrar na discussão. Casados, estáveis, vivendo outra fase. Aquilo era problema dos solteiros, e ex adolescentes. San apontou pra Jungkook. — Você tá infeliz porque tá tentando ser alguém que não é. Yoongi assentiu. — Exatamente. Você ficou quatro meses tentando jogar pelas regras dela. Agora joga pelas suas. Hoseok bateu palmas uma vez. — Isso! Volta a ser foda. É o seu charme. Bangchan sorriu de lado. — E, sinceramente? Ela só tá assim porque acha que já te tem garantido. O silêncio caiu por um segundo. Jungkook continuava pensativo, olhando pro chão. A ideia era errada? Talvez. Mas também parecia… fácil. Sem conversa longa. Sem drama imediato. Sem ter que encarar o fim de frente. Ele soltou um suspiro curto. — Bora voltar pro jogo então, cansei. Hoseok abriu um sorriso largo. — Aí sim, porra. Yoongi levantou a lata de cerveja. — Bem-vindo de volta. San riu. — A Ji-a não vai sobreviver duas semanas. Bangchan deu um tapinha no ombro dele. — Só lembra de uma coisa: não faz porque quer machucar ela. Faz porque você parou de se prender. Jungkook assentiu devagar. No fundo, ainda existia um peso ali. Mas, cercado pelas risadas e pela aprovação dos amigos, ele empurrou a sensação pra longe. Era mais fácil assim. Mais leve. Ou pelo menos parecia. [...] 2:07 da manhã. A casa de Yoongi já estava silenciosa quando Jungkook decidiu ir embora. A conversa tinha morrido aos poucos. Yoongi tinha ido dormir sem avisar ninguém, Hoseok ainda estava largado no sofá vendo vídeos aleatórios, rindo sozinho de vez em quando. Bangchan e San tinham saído juntos, discutindo qual música era melhor no caminho até o carro. Seokjin e Namjoon tinham ido embora mais cedo, porque Seokjin trabalhava de manhã e, diferente do resto, ainda tinha algum senso de responsabilidade. Jungkook pegou o capacete, passando a mão pelo cabelo. — Vai assim? — Hoseok perguntou, olhando de canto. — To suave, relaxa. — To ligado —ironizou— não aranja mais para sua cabeça. Jungkook soltou um riso curto. — Sem promessas. Desceu as escadas, ligou a Yamaha FZ25 e saiu pelas ruas vazias. A cidade de madrugada tinha outro ritmo. Sem buzinas, sem gente olhando, só o som do motor e o vento frio batendo no rosto. O clima que Jungkook achava perfeito sozinho. A cabeça dele ainda ecoava as vozes dos amigos. “Para de facilitar.” “Volta a ser você.” Ele não sabia se aquilo era conselho ou só desculpa bem embalada. Estava realmente meio confuso, porque? Ele nem sempre foi assim. Quando chegou ao prédio, estacionou, tirou o capacete e subiu as escadas devagar. Último andar. Sempre o último. Abriu a porta. E congelou. Ji-a estava na sala, de pijama vermelho, braços cruzados, expressão dura. Os olhos carregados de uma raiva que claramente já estava ali fazia tempo. Droga. Ele tinha esquecido que ela tinha dormido ali. Jungkook entrou mesmo assim, Ji-a falava sem parar coisas que Jeon não estava nem um pouco interessado, ignorando por um momento. Colocou as chaves no suporte, fechou a porta atrás de si e deixou o capacete no chão. — Vai continuar me ignorando, JEON?! A voz dela veio alta. Ele soltou o ar devagar. — Oi, Ji-a. Ela riu, incrédula. — “Oi”? É sério isso? São duas da manhã! — Eu saí com os moleques. — Eu sei que você saiu! — ela respondeu na hora. — Eu mandei mensagem, liguei, você sumiu! E depois aparece essa hora como se fosse normal? Jungkook tirou a jaqueta, pendurando na cadeira. — Eu tava ocupado. — Ocupado com quem? Ele não respondeu imediatamente, indo até a cozinha pegar água. — Jungkook, eu tô falando com você! — Eu ouvi. Ela o seguiu. — Você tava com outras mulheres, né? Ele parou, virando devagar. — Não. — Mentira. O tom dela era cheio de certeza. — Eu sei como você é. Eu sei como você era antes de mim. Você acha que eu sou idiota? Jungkook tomou um gole d’água, tentando manter a calma. — Era um churrasco. Tinha gente. — Gente ou mulher? — Ji-a… — Responde! Ele apoiou o copo na pia. — Tinha...mulheres lá. Como em qualquer lugar normal. Mentira. Ela soltou uma risada nervosa. — Claro. E você só ficou sentado quietinho, né? O Jeon Jungkook famoso por ficar quieto. Ele fechou os olhos por um segundo, a irritação começando a subir. — Eu não fiz nada. — Você sempre diz isso! — ela explodiu. — Sempre! “Não fiz nada.” “Você tá exagerando.” Eu não tô louca! — Tá parecendo. O silêncio caiu pesado. Os olhos dela encheram de raiva. — Você tava com outra, né? Fala a verdade! Eu sei que tava! Jungkook cruzou os braços, lembrando das palavras mais cedo. Não explicar demais. Não correr atrás. — Eu tava com meus amigos. — E as garotas que sempre aparecem quando você tá? Aquela que comentou na sua foto hoje? Eu vi! Ele soltou um riso sem humor. — Eu não controlo quem comenta. — Mas controla como responde! — Eu nem respondi. — Porque eu vi antes! Ele passou a mão no cabelo, já irritado. — Ji-a, você passa o dia inteiro vigiando minhas redes? — Eu passo o dia tentando proteger o que é meu! Aquilo fez ele travar por um segundo. O cansaço bateu de vez. — Eu não sou seu. Ela piscou, surpresa. — Então é de quem? Silêncio permaneceu no ar, Jungkook respirou fundo, o olhar finalmente duro. — De mim. O silêncio ficou pesado entre os dois. Ji-a deu um passo pra frente, a voz mais baixa, mas tremendo de raiva. — Você mudou. Antes você fazia questão de me avisar onde tava. — Antes eu não precisava justificar cada respiração. As respostas dos dois estavam rápidas, certeiras. Os dois estavam irritados, Jeon parecia mais cansado do que irritado porem sua face dizia muita coisa. — Porque antes você não agia como alguém que tá escondendo coisa! Ele riu, cansado. — Eu cheguei em casa, Ji-a. Só isso. — Às duas da manhã! — Eu tenho vinte e dois anos! Caralho. A discussão subiu de tom, as vozes ecoando pelo apartamento pequeno. Ela cruzou os braços outra vez. — Se eu descobrir que você tava com outra… Jungkook passou a mão pelo rosto. — Você vai fazer o quê? Me ameaçar de novo? O silêncio que veio depois foi pesado, desconfortável. E pela primeira vez, ele não tentou acalmar. Não pediu desculpa. Não explicou. Só ficou ali, deixando a tensão existir, enquanto algo dentro dele começava a aceitar que aquilo já tinha passado do ponto de conserto. Jungkook bebeu mais um copo de água, devagar, como se estivesse tentando engolir junto a irritação que subia pelo peito. Ele colocou o copo na pia. — Vou deitar. Virou para ir ao quarto. — Por que você faz isso, JK? — a voz dela saiu mais baixa agora. Tremida. — Você não me ama? Ele fechou os olhos por um segundo. — Ji-a… Ela fungou, mas a raiva ainda estava ali. — Eu não sou o suficiente? Eu sou feia? É isso? Você tá me usando? O que eu fiz? Ele apertou a ponte do nariz. Ele odiava aquilo. O drama circular. A insegurança jogada como rede em volta dele. Mas, ao mesmo tempo, uma culpa suja subia quando ela chorava. Ele se sentia um covarde. E odiava ainda mais o fato de ela saber disso. — Não, Ji-a. Não é isso — NÃO O QUÊ, JEON JUNGKOOK?! — ela aumentou a voz. — Eu sei que sou insuficiente! Eu sei! Eu tento ser melhor pra você! Ela caminhava atrás dele enquanto ele seguia para o quarto. Cada palavra batia nele como se fosse verdade. E ele estava cansado de carregar isso. Cansado de ser vilão no roteiro dela. A raiva finalmente explodiu. Ele virou abruptamente. — PORRA, JI-A, PARA COM ESSA MERDA! O grito ecoou pelo apartamento pequeno. Ela congelou. — Eu não aguento mais você se diminuindo pra me culpar! — ele continuou, a voz alta, mas firme. — Eu não falei que você é feia! Eu não falei que você é insuficiente! Isso tá na sua cabeça! — Então por que você age como se eu fosse descartável?! — Porque eu tô sufocado! O silêncio caiu pesado. Ela piscou, os olhos marejados. — Sufocado… comigo? Ele passou a mão no cabelo, andando de um lado pro outro no quarto. — Sim! Eu não posso sair com meus amigos sem você achar que eu tô com outra! Eu não posso demorar pra responder que já vira traição! Eu não posso respirar que você transforma em prova de crime! Ela balançou a cabeça. — Eu só tenho medo de te perder. — E você acha que fazendo isso ajuda?! — Pelo menos eu tô tentando segurar! — Segurar o quê? — ele retrucou. — Eu não sou um objeto que você prende com corrente! Ela deu um passo pra trás, magoada. — Você tá sendo cruel. — Eu tô sendo sincero! — Você não era assim! — Porque antes eu tentava consertar tudo! — ele respondeu, a voz falhando um pouco. — Eu pedia desculpa por coisa que eu nem fazia! Ela respirava rápido agora. — Então você não me ama. Ele ficou em silêncio por dois segundos. Longos. — Eu não sei mais. Aquilo foi pior que o grito. Ji-a levou a mão à boca, como se aquilo tivesse doído fisicamente. — Você tá dizendo que me usou? — Eu tô dizendo que eu tentei! Porra, tentei ignorar tudo isso que você faz. — ele rebateu. — Mas você não confia em mim! Nunca confiou! — Porque você nunca foi confiável! – ela respondeu em voz alta com sua voz trêmula. — Então por que tá comigo?! Silêncio. Os dois se encararam. Cansados. Ela limpou o rosto com raiva. — Porque eu amo você, idiota! Ele soltou um riso amargo. — Amor não é isso, Ji-a. Amor não é vigiar, ameaçar, desconfiar de tudo. E ridículo. — E amor não é sair duas da manhã e fingir que tá tudo normal! — Eu tenho vinte e dois anos! Eu não vou virar um velho preso dentro de casa, ou uma criancinha que obedece a mãe, Caralho! — Então vai! — ela gritou. — Vai viver sua vida! Vai comer quem você quiser! É isso que você quer, né?! Ele ficou parado. Respirando pesado. Parte dele queria gritar mais. Parte queria só dormir. — É, deve ser mesmo — ele disse mais baixo agora. Ela riu entre lágrimas. — Chega. Não tô afim de discutir mais, Ji-a. A voz dele saiu cansada, sem força pra continuar girando na mesma briga. Jungkook puxou a camiseta pela cabeça e jogou em cima da cadeira, andando até a cama como se o corpo inteiro pesasse mais do que deveria. Ele só queria silêncio. Só algumas horas sem precisar se explicar. Ji-a ficou parada atrás dele, respirando rápido, tentando segurar o choro e a raiva ao mesmo tempo. — Sempre assim… — ela disse, a voz amarga. — Amanhã você tá comendo outra, né? Não cansa de ser assim? Jungkook fechou os olhos por um segundo antes de responder, já deitado, braço sobre o rosto. — Você não cansa né cara. — Eu tô errada? — ela insistiu. — Você some, volta frio, nem olha pra mim. O que eu tenho que pensar? Ele soltou um suspiro longo. — Que eu tô cansado, Ji-a. Só isso. — Cansado de mim! Ele tirou o braço do rosto e virou a cabeça na direção dela. — Cansado disso. Dessa briga. Dessa desconfiança toda hora. Ela riu sem humor, cruzando os braços outra vez. — Claro. A culpa é minha. — Eu não falei isso. — Não precisa falar. Dá pra ver. O silêncio voltou a crescer no quarto. Pesado, cheio de coisas que nenhum dos dois sabia mais como consertar. Ji-a passou a mão pelo rosto, tentando secar as lágrimas. — Você era diferente comigo. Jungkook ficou olhando pro teto. — Talvez eu só estivesse tentando mais. — Então tenta agora! Ele virou o rosto, finalmente encarando ela. — Eu tô tentando não brigar. Ela ficou quieta por alguns segundos, como se aquela resposta tivesse tirado o chão dela. — Você nem vem atrás de mim mais — ela disse mais baixo. — Antes você vinha. Jungkook engoliu seco. Porque era verdade. Antes ele corria atrás. Pedia desculpa. Abraçava. Resolvia. Agora ele só estava… cansado demais. — Eu não sei mais o que fazer quando nada é suficiente — ele respondeu, sincero. Ji-a desviou o olhar. — Eu só tenho medo de você me trocar. Ele passou a mão pelo rosto outra vez. — E eu tenho medo de continuar assim. Ela não respondeu. Ficou ali parada por alguns segundos, até a raiva ir virando só silêncio. O quarto ficou quieto, mas não era um silêncio confortável. Era aquele tipo que avisa que algo já quebrou faz tempo, só ninguém teve coragem de admitir ainda. Ji-a ficou esperando alguma coisa. Um pedido pra ficar. Um suspiro diferente. Qualquer sinal de que ele ainda ia levantar, puxar ela pelo braço e dizer que era só mais uma briga boba. Nada veio. Jungkook continuou deitado, olhando pro teto, o peito subindo e descendo devagar, exausto demais pra continuar. O silêncio foi pior que qualquer grito. Ela limpou o rosto com as costas da mão, tentando conter o choro que já escapava. — Tá bom… — a voz saiu baixa, quebrada. — Eu já entendi. Ele não respondeu. Não porque queria machucar. Mas porque sabia que qualquer palavra agora só ia começar tudo de novo. Ji-a pegou a bolsa no sofá, os movimentos apressados, quase desajeitados. O som do zíper, das chaves, da porta sendo aberta, tudo pareceu alto demais dentro do apartamento. Antes de sair, ela ainda olhou pra ele uma última vez. — Eu vou deixar você sozinho. Ji-a bufou mas logo em seguida abriu um sorriso forçado, com lágrimas manchando sua maquiagem. — Você vai se arrepender disso, Jungkook. A porta fechou. O som ecoou pelo apartamento vazio. Só então ele soltou o ar que nem percebeu que estava segurando. O silêncio voltou, mas agora era pesado de outro jeito. Sem gritos. Sem passos. Sem alguém esperando resposta. Ele finalmente se deitou de verdade, afundando no colchão, os olhos fixos no teto escuro. E os pensamentos vieram. Será que ele era o errado? A pergunta apareceu sem pedir licença. Ele não queria que tivesse virado aquilo. No começo era leve. Ela ria fácil, ele gostava da companhia, gostava de ter alguém esperando por ele. Ele realmente tinha achado que amava ela. Ou pelo menos algo muito perto disso. Mas, aos poucos, aquilo deixou de ser escolha e virou obrigação. Cada mensagem não respondida virava problema. Cada saída, uma discussão. Cada silêncio, uma acusação. Era como viver sendo observado o tempo todo, como se qualquer movimento pudesse virar prova contra ele. E o pior era a culpa. Porque ele via ela chorando. Via o medo real nos olhos dela. E isso fazia ele se sentir cruel por querer distância. Como se o simples fato de estar cansado já fosse uma traição. A frustração vinha daí. De tentar explicar e nunca ser suficiente. De repetir que não estava fazendo nada errado e ainda assim ser tratado como culpado. De perceber que, quanto mais ele tentava acalmar, mais ela precisava de garantias novas. Era um ciclo que nunca fechava. E a irritação… não era só com ela. Era com ele mesmo. Por ter ficado quando já sabia que estava ruim. Por ter confundido desejo com amor no começo. Por não ter coragem de terminar antes de tudo virar desgaste. Ele odiava a sensação de ser o cara que fazia alguém chorar, mas odiava ainda mais a sensação de estar preso só para evitar isso. Ele passou a mão pelo rosto, fechando os olhos. Não era alívio exatamente. Era cansaço. Aquele tipo de cansaço que vem quando algo acaba antes mesmo de terminar oficialmente. Quando o sentimento não some de uma vez, só vai ficando pesado até não caber mais. No fundo, ele sabia. Não era que ele nunca tivesse amado. Era que amar daquele jeito tinha se tornado insuportável.