Droga fiore

O restaurante estava quase vazio. Duas mesas ocupadas no fundo, uma televisão ligada sem som passando qualquer programa antigo, luz quente refletindo no chão encerado. Seokjin saía da cozinha com dois pratos apoiados no braço, expressão concentrada. — Quem pediu o ramyeon extra picante? Choi levantou a mão. — Eu. Se vier fraco eu devolvo. — Você devolve e eu te expulso, e você ainda vai pagar. — Seokjin respondeu seco, mas deixou o prato na frente dele. Namjoon estava no caixa, mexendo no sistema. — Já vou avisando que não vou pagar nada hoje. Funcionário não paga. — Funcionário trabalha — Hoseok retrucou. — Eu estou trabalhando. — Ficar bonito no caixa não conta. Namjoon ignorou. Jungkook estava jogado na cadeira, pernas abertas, copo na mão, girando o gelo devagar. Parecia relaxado, mas o olhar estava perdido no nada. Bangchan mexia no cardápio. — A gente precisa comprar roupa nova. — Pra quê? — Choi perguntou com a boca cheia. — Próximo rolê. Não dá pra repetir três festas seguidas. Hoseok apontou pra Jungkook. — Ele precisa mais. Só usa preto. — Preto é conceito — Jungkook murmurou sem nem levantar a cabeça. Seokjin voltou com mais pratos. — Conceito é pagar a conta. O sino da porta tocou. Foi automático. Jungkook virou os olhos na direção da entrada. Primeiro entrou um garoto de cabelos loiros, animado demais pro horário. Usava um cropped marrom que deixava a barriga à mostra, pele clara, cintura marcada. O calção ia até os joelhos, tênis largo, passos confiantes. Ele falava alto, rindo de algo que ainda estava terminando de contar. — Fala sério, nem vale a pena gastar minha saliva com isso. Ele foi direto pro caixa. Namjoon levantou o olhar. — Boa noite. O loiro apoiou os cotovelos no balcão. — Oii Namjoon, pode trazer 1 Matha, croissant de chocolate pra mim é uma água com gás por gentileza. Antes que a frase terminasse, a porta tocou de novo. Cabelo rosado. Não chamativo, mas impecável. Fios macios, caindo leve na testa. Blusa branca sem mangas, tecido leve, recortada nas laterais. Calça cargo branca, bolsos marcando as coxas. Botas pretas baixas, firmes no chão. Ele entrou mais quieto. Olhos sérios. Boca cheia, brilhante. Postura reta. E quando ele passou pra frente. Jungkook engasgou levemente com a bebida. Aquela bunda concerteza tinha um CPF próprio. — Porra... Jeon murmurou sem perceber. Hoseok nem olhou primeiro. — Qual? — O rosa. Hoseok virou o pescoço devagar. — O loirinho é mó gatinho. Ele lambeu os lábios de leve. — Mas o rosa… Jungkook não respondeu. Só observava. O loiro falava animado com Namjoon no caixa, inclinando o corpo pra frente, rindo fácil. Tocava o braço dele enquanto falava, como se já conhecesse. O rosado ficou um pouco atrás. Sorria de leve, mas não falava tanto. Observava o ambiente com calma. Mãos nos bolsos. Bangchan cutucou Jungkook com o pé por baixo da mesa. — Você tá encarando demais. — Não tô. — Tá sim. — Me mama cara. Jeon ignorou e continuou olhando para o rosado no caixa. Tentando ouvir discretamente a conversa. — O de sempre também? O loiro assentiu animado. — E duas porções extras. Ele finge que não tá com fome, mas tá. O rosado revirou os olhos discretamente. A luz do restaurante batia diferente nele. A roupa branca destacava cada movimento quando ele caminhou um pouco mais pro lado. Jungkook acompanhou sem perceber. — Caralho… — ele murmurou baixo. Hoseok soltou um riso. — Você não superou nem a festa e já tá escolhendo próximo problema. O rosado finalmente levantou os olhos. E cruzou o olhar com Jungkook. Não desviou na hora. Nem sorriu. Só sustentou. Por dois segundos que pareceram longos demais. Depois virou de volta pro loiro, como se nada tivesse acontecido. Jungkook endireitou a postura na cadeira. — Eu vou pedir sobremesa. — pede um pudim pra mim. — Bangchan falou. — Eu vou lá no caixa. Hoseok abriu um sorriso lento. — Claro que vai. Andei até o caixa sem pressa. Ombros soltos. Passo firme. Copo ainda na mão. Eu não tava correndo atrás. Eu tava chegando. Cada passo deixava a cena mais nítida. E quanto mais perto eu ficava, mais aquela bunda parecia ter sido desenhada com intenção criminosa. CADE O CPF DESSA PORRA. Respira. No caixa, os dois estavam esperando o pedido. O loiro falava animado, sorrindo largo. — Você tem que parar de falar isso, Min. Min? Então o rosado era Min. Ele virou o rosto de leve, expressão séria, mas o canto da boca quase entregando um sorriso. — Eu só tô dizendo a verdade. A voz dele era baixa. Controlada. Nada apressada. Eu cheguei do lado de Namjoon, apoiei o cotovelo no balcão como se estivesse ali por puro acaso. Tentei prestar mais atenção. Namjoon olhou pra mim de canto. — O inútil, vai pedir alguma coisa? Eu nem olhei pra ele. Me inclinei um pouco, voz baixa. — O número do de rosa tem? Soltei um sorriso discreto, como se fosse piada. Namjoon revirou os olhos com força. — Direto você, né? Não. Não tenho. — Amizade fraca essa. — Cliente — ele respondeu seco. O loiro percebeu o movimento. Olhou pra mim, curioso. — Vocês se conhecem? Namjoon respondeu antes. — Infelizmente. Eu finalmente olhei direto pro rosado. De perto era pior. Cabelo macio mesmo. Pele limpa. Olhos atentos, avaliando sem pressa. Ele não desviou. — Boa noite — eu falei simples. Ele inclinou a cabeça de leve. — Boa. Sem sorriso largo. Sem simpatia exagerada. O loiro entrou na conversa. — A gente sempre vem aqui. A comida é boa. — Eu sei — respondi. — Frequento bastante. O rosado cruzou os braços. O movimento puxou a blusa branca um pouco mais pra cima. Eu tive que focar nos olhos. — Você trabalha aqui? — ele perguntou. — Não. Só atrapalho. Namjoon confirmou: — Muito. O loiro riu. — Ele é sempre assim? — Pior — Hoseok respondeu atrás de mim, chegando sem cerimônia. Eu nem tinha visto ele se aproximar. — Boa noite — Hoseok disse sorrindo pro loiro. O loiro sorriu de volta na hora. — Oi. O tal Min observava em silêncio. Eu voltei a falar com ele. — Vocês são amigos? — Infelizmente — Namjoon respondeu. Hoseok começou a puxar assunto com o loiro, parece que a energia era igual. Já o rosado nem mudou a expressão. Só lançou um olhar rápido pra mim. Frio. Avaliando. Sem interesse. Jeon sustentou. — Sempre vem aqui? — perguntou sorrindo de canto para o rosa. O loiro respondeu antes. — Quase toda semana! A comida é boa demais. O rosado pegou a bebida no balcão sem olhar pra mim. Silêncio dele era afiado. Eu arrisquei? — E você? Ele me encarou por dois segundos. — Claramente. Seco. Rápido. Jeon ficou meio sem reação,  mas o sorriso em sua face ainda estava presente. Hoseok mordeu o lábio pra não rir. O loiro cutucou o rosado. — Para. Ele deu de ombros. Namjoon colocou a sacola no balcão. — Pedido pronto. O loiro pegou animado. — Valeu! O rosado já estava virando o corpo pra sair. Passei a mão no balcão, inclinei um pouco. — Vai embora sem se despedir? Jeon insistiu novamente ce apoiando de lado contra o balcão . Ele parou só o suficiente pra responder, sem virar totalmente. — Não te conheço. E continuou andando. Hoseok soltou baixo: — Caralho… O loiro abriu a porta, ainda sorrindo. — Tchau, gente! O rosado saiu logo atrás, expressão intacta. O sino tocou. Eu fiquei parado olhando a porta fechando. Hoseok encostou no meu ombro. — Esse aí e dos difíceis. A porta se fecha e o som do sino continua vibrando na cabeça dele por alguns segundos. Jungkook ainda está olhando para o vidro, mesmo depois de não haver mais ninguém ali. O restaurante continua igual. Luz quente. Conversa baixa. Talheres batendo ao fundo. Mas dentro dele alguma coisa mudou de lugar. Ele foi ignorado. Não foi desprezo escancarado. Não foi raiva. Foi simples. Direto. Seco. “Não te conheço.” E por algum motivo… aquilo foi estranhamente bom. Ele sente o peito diferente. Não pesado como antes na festa. Não confuso. É uma sensação mais elétrica. Curiosidade crua. Um interesse que não veio de aprovação, mas de resistência. Jeon vira rápido para Namjoon no caixa. — Quem é Namjoon? Namjoon levanta a cabeça devagar. — Amigo do Jin. Seokjin logo sai da cozinha, limpando as mãos. Hoseok cruza os braços. — Os dois? — Sim. Jungkook fica alguns segundos em silêncio. — Eles vêm sempre? — Às vezes — Namjoon responde. — Ele é sempre assim? Namjoon ergue uma sobrancelha. — Assim como? Jungkook pensa antes de falar. — Seco, na dele. Namjoon solta um pequeno sorriso. — Ele só não é fácil. Aquilo fica martelando na cabeça dele. Não é fácil. Jungkook apoia os cotovelos na mesa, olhando para o nada agora. Repassando cada detalhe. O jeito que ele não virou o corpo todo. A forma como sustentou o olhar sem se apressar. A resposta curta. Sem necessidade de agradar. Ele não tentou impressionar. Ele não reagiu. Ele simplesmente não se importou. E isso prende. Hoseok se inclina mais perto. — Você gostou. Jungkook não responde de imediato. Mas o canto da boca sobe. — Ele nem sabe quem eu sou. Jungkook respira fundo. A sensação agora é clara. Encantado. Não pelo sorriso. Não pela simpatia. Mas pela ausência dela. Ele se recosta na cadeira, agora atento, desperto. — Ele vai saber.

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