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Duas namoradas

Lágrimas de Vidro e o Peso do Perdão

O silêncio na suíte em Santorini era tão pesado que parecia poder ser cortado com uma faca. O azul profundo do Mar Egeu, que brilhava do lado de fora da varanda, contrastava violentamente com a atmosfera cinzenta que se instalara no interior do quarto luxuoso. Emanuel estava de pé, de costas para a cama, observando o pôr do sol que banhava as casas brancas da encosta, mas seus olhos não registravam a beleza do cenário. Suas mãos estavam enterradas nos bolsos da calça de linho, os nós dos dedos brancos de tanta tensão.

Atrás dele, o som era apenas o de um soluço abafado, rítmico e persistente. Eduarda estava encolhida na poltrona de veludo, as pernas puxadas contra o peito, parecendo menor do que já era. Ela não gritava, não arremessava objetos como Sara faria. Ela apenas desmoronava em silêncio, e aquilo, para Emanuel, era mil vezes mais desgastante.

— Eu não aguento mais, Emanuel — sussurrou ela, a voz falhando, carregada de uma mágoa que parecia vir de anos, não de horas. — Eu vim para cá achando que seria diferente. Achei que, longe daquele apartamento, você finalmente olharia para mim sem precisar que a Sara desse permissão.

Emanuel virou-se lentamente, o rosto rígido. A exaustão emocional de dias mediando as alfinetadas entre as duas mulheres havia chegado ao limite.

— Do que você está falando, Eduarda? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa. — Eu passei a tarde inteira com você nas ruínas de Akrotiri. Eu ouvi cada explicação sua sobre os afrescos, eu segurei sua mão, eu ignorei as dez ligações da Sara reclamando que o beach club estava cheio demais. O que mais você quer de mim?

Eduarda levantou o rosto, as bochechas pálidas manchadas de vermelho, os olhos grandes e úmidos refletindo uma dor profunda.

— Você segurou minha mão, mas seus olhos estavam no relógio — ela rebateu, a voz ganhando um tom de urgência. — Você estava lá fisicamente, mas sua mente estava calculando quanto tempo faltava para voltarmos para o hotel e você poder "acalmar" a Sara. Você me trata como um compromisso cultural, Emanuel. Como uma obrigação que você precisa cumprir antes de ir para a diversão de verdade.

— Isso é injusto e você sabe disso — Emanuel deu um passo à frente, a racionalidade tentando mascarar a irritação. — Eu tento equilibrar tudo. Se eu não desse atenção à Sara agora à noite, ela transformaria o nosso jantar em um inferno. Eu estou tentando evitar um conflito!

— Evitar um conflito com ela significa criar um abismo comigo! — Eduarda levantou-se, o corpo trêmulo. — Você sempre cede ao barulho dela porque tem medo do escândalo. E você me negligencia porque sabe que eu vou ficar quieta. Você usa a minha paciência contra mim, Emanuel. Você me pune por ser compreensiva!

— Eu não estou punindo ninguém! — ele explodiu, a voz ecoando pelas paredes de mármore. — Eu estou exausto, Eduarda! Exausto de ser puxado por dois braços que querem me rasgar ao meio! Eu gasto uma fortuna, planejo cada detalhe para agradar gregos e troianos, literalmente, e o que eu recebo em troca? Cobrança! De um lado uma mulher vulgar que só pensa em aparência, e do outro você, que se faz de vítima a cada cinco minutos!

O silêncio que se seguiu à palavra "vítima" foi ensurdecedor. Eduarda recuou como se tivesse levado um tapa físico. Seus lábios tremeram e, por um momento, Emanuel viu o brilho de uma mágoa tão pura que sentiu um aperto imediato no peito. Mas a raiva ainda falava mais alto.

— É isso que você pensa de mim? — ela perguntou, a voz quase inaudível. — Que eu "me faço" de vítima? Que a minha dor é uma encenação?

— Eduarda, eu não quis dizer...

— Quis sim — ela o interrompeu, as lágrimas voltando com força total, mas desta vez sem o silêncio de antes. — Você acha que a minha sensibilidade é uma arma. Você acha que, porque eu não grito como ela, eu não sinto. Pois saiba que dói muito mais ver o homem que eu amo me olhando com esse desprezo, como se eu fosse um fardo emocional que ele é obrigado a carregar.

Ela caminhou em direção à porta da varanda, mas parou no meio do caminho, desabando novamente em choros convulsivos. Eduarda tinha essa capacidade: sua fragilidade não era apenas uma característica, era uma atmosfera que envolvia o ambiente. Ela sentou-se na beira da cama, escondendo o rosto nas mãos, os ombros subindo e descendo violentamente.

Emanuel ficou parado, observando-a. Sua mente lógica dizia para ele sair do quarto, ir até o bar do hotel, encontrar Sara e esquecer aquele drama. Mas seus pés não se moviam. Havia algo na forma como Eduarda chorava — aquele jeito manhoso, desamparado, de quem se apoiava inteiramente nele — que ativava todos os seus instintos de proteção. Era irracional, ele sabia. Era exatamente o que ela fazia para prendê-lo. Mas funcionava.

Ele suspirou, a rigidez de seus ombros começando a ceder. Ele caminhou lentamente até a cama e sentou-se ao lado dela, mas sem tocá-la.

— Duda... — chamou ele, a voz agora mais suave.

Ela não respondeu. Apenas continuou a chorar, um som pequeno e sofrido que parecia arranhar o silêncio do quarto.

— Duda, olha para mim.

Ela negou com a cabeça, soluçando mais forte.

— Vai embora, Emanuel — disse ela entre os soluços. — Vai lá com ela. Ela é vibrante, ela é divertida, ela não chora. Vai ser feliz com quem não te dá trabalho. Eu vou ficar aqui... eu me viro. Eu sempre me viro sozinha mesmo, enquanto você está ocupado sendo o herói da Sara.

Emanuel sentiu a pontada de culpa. Ele sabia que, no fundo, Eduarda tinha um ponto. Ele frequentemente usava a estabilidade emocional dela como um amortecedor para as crises de Sara. Ele a tratava como a "porto seguro" e, nesse processo, esquecia que até os portos precisam de manutenção.

— Você não está sozinha — ele disse, aproximando-se e colocando a mão cautelosamente em suas costas. — Eu estou aqui.

Eduarda esquivou-se do toque, movendo-se para a outra extremidade da cama. O gesto foi carregado de uma manha infantil, mas dolorosamente eficaz.

— Não encosta em mim. Você me chamou de manipuladora. Você disse que eu me faço de vítima. Se é isso que você pensa, por que ainda está aqui? Vai lá dar o bracelete novo para ela, vai tirar as fotos que ela quer. Eu sou só a "bibliotecária" que estraga o clima, lembra?

— Eu nunca disse que você estraga o clima — Emanuel rebateu, a paciência lutando para não evaporar novamente. — Eu só disse que... às vezes... é difícil lidar com tanta sensibilidade.

— Porque você é frio, Emanuel! — ela virou-se para ele, o rosto banhado em lágrimas, os olhos vermelhos. — Você lida com a vida como se fosse um relatório de empresa. Mas eu não sou um relatório! Eu sou uma mulher que precisa se sentir amada, e não apenas "gerenciada"!

Ela voltou a esconder o rosto no travesseiro, soluçando de forma tão profunda que começou a tossir. Emanuel sentiu o pânico subir. Ele odiava vê-la assim. Odiava a sensação de que ele era o responsável por quebrar algo tão delicado.

— Duda, calma... você vai passar mal — ele aproximou-se novamente, desta vez sendo mais firme. Ele a puxou pelos ombros, forçando-a a sentar-se e a olhar para ele. — Para com isso. Por favor.

— Me solta! — ela protestou, tentando se desvencilhar, mas seus movimentos eram fracos, sem convicção. Ela queria ser segurada. Ela precisava ser segurada. — Você não se importa... você só quer que eu pare de chorar para você não se sentir culpado.

— Eu me importo, droga! — Emanuel exclamou, envolvendo-a em um abraço apertado.

Eduarda lutou contra o abraço por alguns segundos, batendo os punhos cerrados contra o peito dele, mas logo a resistência desapareceu. Ela se entregou ao contato, enterrando o rosto no pescoço de Emanuel e chorando com um abandono total. Seus dedos agarraram a camisa dele com força, como se ela tivesse medo de que ele desaparecesse se ela soltasse.

— Você me machuca tanto... — ela sussurrou entre os soluços, a voz abafada contra a pele dele. — Você me deixa tão de lado...

Emanuel fechou os olhos, sentindo o calor das lágrimas dela em seu pescoço. O cheiro de baunilha e flores brancas dela o envolveu, e aquela fragilidade, que momentos antes o irritava, agora parecia a coisa mais preciosa do mundo. Ele começou a acariciar os cabelos dela, sentindo a maciez dos fios.

— Eu sei, meu anjo. Eu sei — ele murmurou, a voz carregada de uma ternura que ele raramente demonstrava. — Eu erro. Eu me perco tentando manter tudo em ordem e acabo esquecendo do que realmente importa. Me perdoa.

Eduarda soltou um suspiro longo, o choro começando a diminuir de intensidade, transformando-se em pequenos soluços residuais. Ela se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dele, a expressão ainda carregada de uma tristeza manhosa.

— Você promete? — perguntou ela, a voz infantilizada pela emoção. — Promete que hoje à noite vai ser só nosso? Que você não vai atender o celular se ela ligar? Que você vai me olhar como se eu fosse a única mulher nesta ilha?

Emanuel olhou para o celular sobre a mesa de cabeceira. Ele sabia que Sara deveria estar esperando por ele no bar, pronta para começar uma nova rodada de exigências. Ele sabia que, ao escolher Eduarda agora, ele estaria comprando uma briga monumental para o dia seguinte. Mas, ao olhar para o rosto desolado de Eduarda, para a doçura que ela oferecia em troca de sua atenção exclusiva, ele não conseguiu dizer não.

— Eu prometo — disse ele, pegando o celular e desligando-o completamente. — Só nós dois. O jantar vai ser servido aqui na varanda. Ninguém vai nos incomodar.

O sorriso que surgiu nos lábios de Eduarda foi lento e tímido, mas iluminou seu rosto de uma forma que o Partenon nunca conseguiria. Ela se inclinou e deu um beijo leve no queixo dele, esfregando o nariz em sua bochecha.

— Você é tão bom para mim quando quer, Manu... — ela sussurrou, a manha voltando com força total. — Eu só queria que você fosse assim o tempo todo.

— Eu vou tentar, Duda. Eu juro.

Ele a puxou para mais perto, deitando-a na cama e cobrindo-a com o lençol fino. Eduarda aninhou-se nele, o corpo esguio e leve encaixando-se perfeitamente no dele. Ela ainda fungava de vez em quando, um lembrete constante da crise que acabara de passar, mas havia uma satisfação silenciosa em seus olhos. Ela havia ganhado. Ela havia conseguido desviar a órbita de Emanuel para si, pelo menos por uma noite.

— Manu? — chamou ela, a voz sonolenta.

— Oi?

— Você acha que eu sou falsa? Como a Sara diz?

Emanuel beijou o topo da cabeça dela.

— Eu acho que você é a pessoa mais sensível que eu já conheci, Duda. E às vezes essa sensibilidade é a sua força mais perigosa.

Ela não respondeu, apenas sorriu contra o peito dele.

Enquanto a noite caía sobre Santorini, Emanuel permaneceu ali, preso no abraço de Eduarda. Ele sabia que estava cedendo a uma manipulação emocional, que o choro e a manha eram ferramentas que ela usava com maestria para mantê-lo sob controle. Mas, naquele momento, envolto pela leveza e pelo afeto dela, a racionalidade parecia um preço pequeno a pagar pela paz — mesmo que fosse uma paz comprada com lágrimas de vidro.

Lá embaixo, no bar do hotel, Sara provavelmente estava bebendo seu terceiro coquetel, furiosa com o silêncio de Emanuel. Mas ali, no alto da encosta, Emanuel só conseguia ouvir a respiração tranquila de Eduarda. Ele havia cedido, como sempre cedia no final, atraído pela fragilidade que o fazia se sentir indispensável. E enquanto o luar iluminava o quarto, ele percebeu que, naquele jogo de poder, a vítima era, na verdade, a rainha.