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E quando ninguém esperava

O Eco da Pele e o Despertar dos Sentidos

A luz da manhã de terça-feira filtrava-se pelas frestas da persiana de madeira, desenhando listras douradas sobre o lençol bagunçado. Sofia despertou não com o som estridente do despertador, mas com a sensação rítmica da respiração de Bernardo contra seu ombro. Naquele pequeno universo isolado, o tempo parecia ter dobrado sobre si mesmo, transformando três dias em uma eternidade de descobertas.

Ela se espreguiçou, sentindo cada músculo do corpo levemente dolorido, uma lembrança doce da intensidade da noite anterior. Bernardo, ainda mergulhado no sono, tinha um braço jogado por cima dela, como se mesmo inconsciente quisesse garantir que ela não desapareceria. Sofia sorriu, observando as sardas quase invisíveis no nariz dele e o jeito como o cabelo curto estava espetado para todos os lados.

— Eu sei que você está me encarando — murmurou Bernardo, a voz rouca pelo sono, sem abrir os olhos.

Sofia soltou uma risada baixa, sentindo o rosto esquentar.

— Convencido. Eu estava apenas pensando em como você consegue ser tão barulhento dormindo.

Bernardo finalmente abriu um dos olhos, um brilho travesso surgindo instantaneamente.

— Barulhento? Eu sou um anjo. E para sua informação, Ribeiro, o silêncio desta casa é um convite para o caos.

Em um movimento rápido e inesperado, ele rolou sobre ela, prendendo-a contra o colchão. Sofia arqueou as costas, a surpresa dando lugar a um desejo que parecia sempre latente entre os dois. Os olhos de Bernardo percorreram o rosto dela com uma adoração que a fazia se sentir a única pessoa no mundo.

— O que vamos fazer hoje? — perguntou ele, descendo os beijos para a curva do pescoço dela. — Podemos ir até a cachoeira que seu pai mencionou, ou podemos simplesmente... não sair desta cama até o sol se pôr.

— Bernardo... — ela suspirou, as mãos subindo para os ombros dele, sentindo a pele quente. — A gente precisa comer. E eu prometi que faria aquelas panquecas que você gosta.

— Panquecas podem esperar — disse ele, a voz tornando-se mais grave enquanto suas mãos começavam uma exploração lenta pelos quadris de Sofia. — Eu tenho uma fome diferente agora.

O clima na casa, que antes era de uma timidez exploratória, havia se transformado em algo magnético. Cada toque de Bernardo era carregado de uma ousadia que Sofia não conhecia na escola. Ali, sem o uniforme, sem as notas e sem o julgamento dos colegas, ele era um homem focado inteiramente nela. E Sofia, por sua vez, sentia que sua timidez florescia em uma sensualidade vibrante, alimentada pela segurança que ele lhe passava.

Depois de uma manhã prolongada entre lençóis e confissões sussurradas, eles finalmente se aventuraram até a cozinha. A cozinha da casa de campo era rústica, com cheiro de madeira e ervas secas. Sofia vestia apenas uma das camisas de botão de Bernardo, que ficava enorme nela, batendo no meio das coxas, enquanto ele estava apenas de calça de moletom, descalço.

— Você fica muito bem com as minhas roupas — comentou ele, encostado no balcão enquanto observava Sofia quebrar os ovos em uma tigela. — Acho que vou confiscar todas as suas roupas normais e te deixar só com as minhas.

— É uma tática interessante, Ferreira — respondeu ela, jogando um pouco de farinha nele. — Mas acho que você só quer me ver tropeçando nas barras compridas das suas calças.

— Eu quero te ver de qualquer jeito — disse ele, aproximando-se e abraçando-a por trás, as mãos espalmadas em seu ventre. — Mas confesso que essa camisa aberta no primeiro botão é uma tortura para a minha concentração.

Sofia virou-se no abraço dele, ainda segurando a colher de pau.

— Você é impossível. Sabia que eu nunca imaginei que você fosse assim? Na escola, você é sempre o cara que faz todo mundo rir, o brincalhão que nunca leva nada a sério.

Bernardo ficou em silêncio por um momento, o olhar perdendo um pouco da malícia e ganhando uma profundidade honesta.

— Às vezes, fazer piada é o jeito mais fácil de esconder que eu estou apavorado, Sofia. Apavorado de não ser bom o suficiente, de não ser o que você esperava. Mas aqui... com você... eu sinto que não preciso de máscara.

Sofia sentiu o coração apertar de ternura. Ela largou a tigela e acariciou o rosto dele.

— Você é muito mais do que a sua graça, Bernardo. Você é intenso, é inteligente e... é o único que me faz perder o chão e me sentir segura ao mesmo tempo.

O beijo que se seguiu foi calmo, um selo de confiança que transcendia o desejo físico. No entanto, a química entre eles era como pólvora. Bastou um toque mais firme de Bernardo em sua cintura para que a ternura se transformasse em urgência. Ele a ergueu, sentando-a no balcão de granito frio, o que arrancou um suspiro surpreso de Sofia.

— As panquecas vão queimar — ofegou ela, enquanto ele desabotoava os botões da camisa que ela usava.

— O fogo nem está aceso ainda — murmurou ele contra a pele do colo dela. — E eu prefiro outro tipo de doce.

A tarde passou entre mergulhos no lago gelado e caminhadas por trilhas onde o único som era o das folhas secas sob seus pés. Sofia, com seu jeito sonhador, parava a cada cinco minutos para admirar uma flor ou a forma como a luz passava entre as árvores. Bernardo a observava, encantado com a pureza dela. Para ele, Sofia era como uma melodia que ele estava aprendendo a tocar, nota por nota.

Quando a noite caiu, o frio da serra começou a se infiltrar pelas frestas. Eles acenderam a lareira da sala principal. O estalar da madeira e o brilho alaranjado das chamas criavam um cenário quase cinematográfico. Eles se acomodaram em um tapete felpudo diante do fogo, com uma garrafa de vinho que haviam encontrado na adega e dois cálices.

— Sete dias parecem muito quando a gente planeja — disse Sofia, recostando a cabeça no peito de Bernardo —, mas agora sinto que o tempo está correndo rápido demais.

— Eu estava pensando nisso — concordou ele, brincando com os dedos dela. — O que acontece na segunda-feira, Sofia? Quando o sinal tocar e a gente se encontrar no corredor perto dos armários?

Sofia suspirou, fechando os olhos e aproveitando o calor da lareira.

— Eu não quero que a gente finja que nada aconteceu. Eu não conseguiria.

— Nem eu — afirmou Bernardo, a voz firme. — Eu quero que todos saibam. Quero poder segurar sua mão na frente do diretor, se for preciso. Mas tenho medo de que a "Sofia da escola" sinta falta de ser a garota misteriosa e quieta.

— A "Sofia da escola" era apenas uma versão de mim que não tinha encontrado o motivo certo para ser extrovertida de verdade — ela se virou para encará-lo, o brilho das chamas refletido em seus olhos castanhos. — E esse motivo é você.

Bernardo deixou o cálice de lado e puxou-a para mais perto, o clima mudando instantaneamente de nostálgico para carregado de eletricidade.

— Você me deixa louco quando diz coisas assim — sussurrou ele. — Você tem ideia do que faz comigo?

— Tenho uma pequena ideia — provocou ela, passando a ponta dos dedos pelo abdômen definido dele, sentindo-o estremecer. — Mas adoraria que você me mostrasse os detalhes.

Bernardo não esperou. Ele a deitou sobre o tapete, o calor do fogo aquecendo suas peles enquanto as roupas eram descartadas com uma pressa renovada. Ali, diante da lareira, a conexão entre eles atingiu um novo patamar. Não era apenas sobre o prazer, embora este fosse avassalador; era sobre a entrega total.

Sofia sentia cada carícia de Bernardo como se fosse uma tatuagem em sua alma. Ele era detalhista, explorando cada centímetro do corpo dela com a língua e os dedos, provocando arrepios que a faziam arquear o corpo e clamar pelo nome dele. Quando finalmente se uniram, o ritmo era sincronizado com o pulsar do fogo ao lado. Os gemidos de Sofia eram abafados pelos beijos dele, e a intensidade do momento fez com que o mundo exterior — a escola, os pais, as obrigações — deixasse de existir completamente.

— Eu te amo, Sofia — sussurrou ele no ápice da paixão, as palavras saindo quase como um desabafo.

Sofia congelou por um milésimo de segundo, o coração batendo tão forte que parecia querer romper as costelas. Ela o puxou para um beijo profundo, as lágrimas de felicidade ameaçando transbordar.

— Eu também te amo, Bernardo. Mais do que qualquer sonho que eu já tive.

Eles ficaram ali, entrelaçados no tapete, enquanto as brasas da lareira diminuíam lentamente. O silêncio da casa de campo agora não era mais vazio; estava preenchido por promessas implícitas e pela certeza de que aquela semana era apenas o prólogo de uma história muito maior.

— Sabe de uma coisa? — perguntou Bernardo, horas depois, enquanto a carregava para o quarto no andar de cima.

— O quê? — Sofia perguntou, bocejando e aninhando-se no pescoço dele.

— Eu ainda vou ganhar aquela corrida nas escadas amanhã.

Sofia riu, o som ecoando pelo corredor silencioso.

— Pode tentar, Ferreira. Mas lembre-se: eu sou mais alta e tenho pernas mais longas.

— E eu tenho motivação extra — disse ele, depositando-a na cama com delicadeza e deitando-se ao seu lado. — Porque o prêmio de chegar primeiro é ter você nos meus braços por mais um dia inteiro.

Eles adormeceram assim, emaranhados um no outro, cientes de que, embora estivessem sozinhos naquela casa, nunca estiveram tão acompanhados por um sentimento que, sabiam agora, era impossível de ignorar. A supervisão não existia, as regras haviam sido quebradas e o futuro era uma página em branco que eles estavam ansiosos para escrever, juntos.